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#3081 - FRANZ KAFKA ||| POEMA DE WILLIAM OSPINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.20

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FRANZ KAFKA

 

Pai, digo-lhe, dá-me três grãos de cevada para despertar o adormecido.

Mas meu pai não responde:

é um enorme cavalo de bronze, alto sobre colinas e sinagogas.

Mãe, digo-lhe, afasta tanta névoa,

mostra-me um rosto doce, de onde brotem palavras ingénuas.

Mas ela perdeu-se pelos becos de pedra

e só encontro no espelho os seus olhos imensos.

Avô, digo então, já não lutes mais com o anjo,

vem contar-me histórias, junto ao ninho, enquanto gela o Elba.

Mas o velho olha-me com olhos ausentes, e  compreendo

que não é este o meu avô mas um velho cigano que me quer vender uma recordação.

Irmã, bela irmã, digo-lhe,

toma a minha mão pois faz escuro nesta casa imensa.

Mas ao meu lado passa uma condessa polaca monumental e arrogante

e ouve-se um violino, e fecha-se uma porta.

Irmão, digo, que belo cavalgar sobre o cavalinho de pau e de laca,

para onde nos levam estas tardes incertas?

Mas ele é só uma imagem, uma fotografia cinzenta nas minhas mãos,

e ao longe, atrozes, os canhões ressoam.

Goethe, digo-lhe, canta-me uma canção romana,

faz com que eu sinta no meu coração esta antiga tristeza.

Mas a lousa cala-se e sobre ela voam pombas cinzentas

e não posso abrir este livro porque as páginas são de cinza.

Milena, digo logo, talvez possas tu finalmente salvar-me,

diz-me que sou de carne e de sangue, que isto que me aflige é um desejo.

Mas ela faz-se fantasma entre milhares de seres esquálidos

e apenas apercebo duas chamas que se apagam muito longe.

 

Então é delírio tudo isto? A quem posso chamar que me salve?

O seu reino é deste mundo. Todos estão aceites e absolvidos.

São demasiado humanos, são demasiado justos,

e não consigo falar-lhes com o meu estrondo de élitros..

E não aprendi a atravessar as portas,

e não sei defender-me.

Se vires dois olhos cinzentos de gato na gótica noite de Praga

compreenderás que tento saber onde me encontro.

Se ouvires um coração na gótica noite de Praga

compreenderás quem sustenta todo este sonho.

 

Poema de William Ospina, do livro "Um país que sonha - cem anos de poesia colombiana", edição 1512, Março de 2012

 

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publicado às 18:00


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