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#1456 - “Sentei-me na Cadeira do Rei"

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.11

 

Dentre os muitos endereços que o poeta português Fernando Pessoa teve em Lisboa, o da rua Coelho da Rocha é hoje o mais significativo. Lá instalou-se em 1993 a Casa Fernando Pessoa, centro cultural que homenageia o poeta e mantém parte de seu espólio. Desde maio deste ano, a Casa convida escritores para pernoitar no quarto de Pessoa, e em 2012 publicará um volume com cada experiência. Pouco antes de vir à Festa Literária de Paraty, onde se tornou conhecido dos brasileiros, o português Valter Hugo Mãe instalou-se na cama do poeta. Ele narra suas impressões a seguir.

 

Brinquei muito de museus e de historiador. O meu pai fazia das nossas férias um périplo pelos lugares da memória e habituou-me a ficar boquiaberto com a idade das coisas, a grandeza das aventuras, a honra complexa das pessoas. Eu juntava, num canto, pequenas relíquias minhas, normalmente apenas cacos que apanhava quebrados em escavações que fazia no nosso enorme quintal, e imaginava uma galeria de luzes acesas e vitrines importantes com papeis dizendo nomes sonantes que significassem muito à cultura dos homens. Gostava de nomes antigos e já com ar de alguma fantasia, entre serem de heróis ou de bandidos afamados.

 

Em visita aos palácios e aos castelos, sempre o que mais me impressionava era como no tempo se conservaram os objetos e os lugares onde outra gente estivera, outra gente que deixara notícia grande para nunca ser esquecida, por bem ou por mal. E, nessas visitas, eu sempre imaginava como seria passar as cordas largas usadas para impedir o público de pisar sobre os tapetes persas, sentar na cadeira do rei, colocar a sua coroa, folhear os seus documentos, perceber, por um segundo, o mundo a partir dos seus exatos passos. Não era a bondade da figura histórica que me fascinava, era a oportunidade de eu, um plebeu humilde, muito magrinho, e cheio de impossíveis sonhos, percepcionar o mais diretamente possível a vida de quem passou, como se, entre o que foi e o que é, o tempo se estreitasse ao partilharmos o mesmo espaço.

Quando me convidaram para a coisa estranha de dormir no quarto de Fernando Pessoa pensei que finalmente haviam tirado aquelas cordas largas do meu caminho e eu podia pisar o tapete, sentar na cadeira do rei. Eu, que venho de um mundo de museus inventados e deslumbre respeitoso pela memória de todas as pessoas, aceitei o convite porque, com a espiritualidade de que sou capaz, achei que me era dada a magia de encurtar o tempo o mais possível entre quem sou e quem foi Pessoa e, por ocupar fugazmente o mesmo espaço, ter modo de assim o homenagear.

PESADELOS ASSUSTADORES

Para mim foi isso de místico. Como não acredito em transcendências, não me preparei para manifestações dos seus inúmeros fantasmas, e não achei que o espelho era passagem, e nem tive medo e nem demasiada ansiedade. Apenas respeito. Dormir no quarto de Pessoa foi, para mim, um gesto simbólico de alguém que não poderia fazer maior homenagem. Nada do que se diga ou escreva vai ser maior declaração de amor do que aceitar este convite para expor a vulnerabilidade do sono à contenção já solene de um exíguo e tão característico quarto.

 

É curioso como cada amigo com quem discuti o assunto de imediato viu angústias, tormentas terríveis correspondentes à solidão acossada de Pessoa, como se a única coisa que pudesse acontecer por chegar tão perto fosse uma noite de insônia delirante ou de pesadelos assustadores. Tanto mo perguntaram e comentaram que, quando finalmente a porta se fechou, encarei a cômoda onde se diz que terá escrito de pé O Guardador de Rebanhos e esperei uns segundos. Sentei-me sobre a cama, como se ficássemos sós, ou como se ganhasse a consciência de que ficáramos sós, e permaneci uns segundos apenas observando. Foi uma tolice, porque sem transcendência não há expectativa, mas os objetos, e deve ser isso que aprendi no meu tempo de imaginar museus, hão-de ter a sua própria espiritualidade. A espiritualidade dos objetos será como uma dignidade que conquistam, algo que os coloca como testemunhas que, à sua maneira, falam de uma história qualquer.

 

Creio que fiz isso. Observando os objetos estabeleci esse diálogo. Essa escuta de uma fala à maneira das coisas. E achei divertido que a minha primeira reação fosse essa, a de perscrutar a quietude, a ver o que na quietude podia ser um discurso, uma confissão que eu soubesse receber. Achei divertido, no fundo, que me sentasse ali e, por primeiro instinto, esperasse a aparição de um fantasma. Enfim, não acredito nessas coisas, mas se tivessem de existir eu ia adorar ver. E ver um dos vários do Pessoa ia ser uma experiência magnífica. Mas nada. Não vi nada de estranho.

 

FANTASMAS NO SÓTÃO

 

Ter pisado o tapete e sentado na cadeira do rei, colocando a sua coroa à cabeça, foi tudo por dentro. Como explicar, pergunto. Não foi afinal o gesto que fez a diferença. Foi a percepção de que aquilo significava algo para mim, me deixava efetivamente emocionado. Percebo que me enterneci, talvez, como se pudesse dormir num quarto que outrora fora dos meus avós ou dos meus pais, há muito, muito tempo. É engraçado que um escritor possa ter esse efeito em nós. Pela força do seu texto gerar uma familiaridade que nos enterneça quando chegamos perto da sua memória. Como eu acho que é o que faz as pessoas rezarem. Essa vontade de dizerem algo a quem já não existe. A transcendência, ou a crença nela, é só a incapacidade de conter essa vontade. A incapacidade de conter a saudade, mesmo de quem verdadeiramente não se conheceu. Não conheci Pessoa, mas percebi como significa para mim, e percebi o orgulho que me oferece por ter elevado a minha língua à condição mais superior da inteligência e da beleza.

 

Como manifestação do lado simbólico da minha dormida, levei para pousar sobre a cômoda de Pessoa dois livros. Claro que por causa dessa ideia de os objetos terem o seu discurso e talvez se entenderem uns aos outros. Levei um exemplar de a máquina de fazer espanhóis, meu romance no qual invento que o Esteves do poema Tabacaria é um senhor de cem anos num lar de idosos. Esse romance terá sido, até agora, a minha maior manifestação de apreço pelo universo pessoano. E levei um exemplar da edição portuguesa do romance Bufo & Spallanzani, do Rubem Fonseca, autor que adoro. Quis pousar um livro do Rubem Fonseca na cômoda toda escritora de Fernando Pessoa como homenagem à língua portuguesa no seu todo. Quis aludir à sua enorme elasticidade conferida pelo uso original nos mais diversos países. Antes de dormir, li um capítulo do livro de Rubem Fonseca, o que sempre me deixa um sorriso nos lábios. Foi como adormeci.

 

Acordei cedo. As senhoras da limpeza entraram desimportadas comigo. Creio que não perceberam que estava a casa com visita. Arrastaram cadeiras na sala de eventos que fica no andar sobre o quarto. Aí, sim, parecia estar naqueles filmes em que os fantasmas ficam a deambular no sótão, puxando correntes de ferro pesadas. Não fosse a conversa das senhoras da limpeza ser animada, eu ia achar que os heterônimos estavam todos desesperados na profundeza do inferno.

 

Texto escrito por Valter Hugo Mãe e publicado na revista BRAVO

Edição 169 - Setembro 2011

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publicado às 19:18


# 1450 - O Filho de Mil Homens

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.09.11

valter hugo mãe

 

Foi lançado sexta-feira, 23de Setembro de 2011, o novo romance de Valter Hugo Mãe "O filho de mil homens"

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publicado às 19:49


#1153 - Novo Livro de Valter Hugo Mãe

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10



a máquina de fazer espanhóis
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-672-016-2
Ano de publicação: 2010

 

Em o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 2008), o anterior romance de valter hugo mãe, um ucraniano com nome de craque do Dínamo de Kiev (Andriy Shevshenko) explica a dada altura que «para abrir caminho na ferocidade de um país alheio» é preciso alcançar a «felicidade das máquinas». No novo livro do escritor de Vila do Conde, há uma extrapolação desta metáfora, se entendermos a ideia de máquina como uma entidade abstracta, composta por peças muitas vezes à mercê de uma lógica e de uma energia cinética que as ultrapassa.
A primeira máquina com que nos deparamos no livro é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).
É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista do romance: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Um fascismo que deixou a raiz podre dentro das cabeças, dentro dos «bons homens» que não mexeram um dedo contra Salazar, que aceitaram uma «cidadania de abstenção», por medo ou apego à família, e ainda hoje são habitados pelo fantasma do que não tiveram coragem de fazer; ou que cobardemente permitiram que se fizesse.
A segunda máquina, a que dá título ao livro, é então Portugal, esse eterno problema que temos connosco mesmos e que valter hugo mãe aborda com raro desassombro. Há ainda uma terceira máquina: a «máquina que tira a metafísica». Sem metafísica, os velhos deixam de ter algo a que se agarrar e resvalam de vez para a morte. Um tal engenho, entrevisto em delírios por alguns dos residentes, pode ser uma mera fantasia senil ou um inesperado objecto real, posto ao serviço de uma rentabilidade económica de contornos criminosos.
No seu projecto de huis clos, valter hugo mãe deparou-se com um problema. A tremenda intensidade dramática com que descreve o sofrimento das personagens (o colapso dos corpos, a solidão, a loucura, as arestas cruéis da memória) depressa se torna insustentável, demasiado violenta, irrespirável. Para escapar a isto, valter criou então pontos de fuga, mudanças de ritmo narrativo, jogos metaliterários (como o de incorporar à história Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, agentes da PJ saídos dos livros de Francisco José Viegas, em dois capítulos que quebram a regra de só escrever com minúsculas). Acontece que estas soluções criam por sua vez novos problemas de equilíbrio e consistência narrativa, nalguns casos resolvidos de forma pouco satisfatória. O forte deste autor, diga-se, não é a estrutura. É o estilo. Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8/10

 

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

 

Este texto foi escrito por José Mário Silva e  retirado do seu Blog "O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL".

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publicado às 12:49


 

Nas livrarias desde a passada sexta-feira, "A máquina de fazer espanhóis" é o quarto romance de Valter Hugo Mãe. Antigo regime, terceira idade, provocação - de tudo se encontra num livro que o autor admite ser terapêutico, mas não piegas.

 

O pai morreu há dez anos, sem ter direito a essa idade que se chama terceira. Surge então o livro, que lhe é dedicado. "É feito para imaginar um espaço sensível, ou tempo sensível, que o meu pai não pôde viver", diz Valter Hugo Mãe, escritor e filho. Em "A máquina de fazer espanhóis" - título que aparenta ter nada a ver com nada -, o autor usa a voz de António Silva para incitar à dignificação.

Reformado de barbeiro, António Silva é um velho dos seus 84 "que começa talvez a maior aventura da vida no momento em que a esposa morre", conta, insistindo: "É um homem que tem de lidar com a revolta do efémero, com a revolta da perda, e de encontrar motivos para, naquela idade e debilitando-se cada vez mais, sobreviver".

Apesar de pouco sair à rua, a personagem central do livro carrega às costas o fardo de despertar consciências. E como? Diz à sociedade que "os velhos ainda são perigosos, neste sentido de que a opinião deles ainda tem de contar", explica o escritor. Mas há mais personagens, às quais Valter recorre para alcançar outro objectivo do novo romance, que é revelar "um certo testemunho que existe nas pessoas mais velhas em Portugal e que se prende com o facto de terem uma experiência directa do que foi o fascismo e do que foi o antigo regime".

É nesse apelo à memória que o livro identifica o que sobrou, ou pode ter sobrado, da ditadura. Eis a constatação do autor: "Que o enfraquecimento do nosso país durante o século XX - e sobretudo um enfraquecimento ao nível das consciências - nos leva a pensar que somos piores do que os outros e que estaríamos melhores se fôssemos espanhóis". Eis-nos, então, chegados ao título.

"Obviamente discordo com a manutenção dessa menorização. Temos a tendência para uma certa menorização que nos foi deixada por décadas de ditadura", critica. E, apesar de considerar que o povo português tem "valores humanos assinaláveis", não deixa de lhe apontar uma "tendência para desmobilizar". "Já passaram 30 e tal anos e a verdade é que nós continuamos, de alguma forma, à deriva", acrescenta.

Voltando à idade que é a terceira, Valter Hugo Mãe diz ainda que o livro é "uma tentativa de perceber que drama é esse de, a dada altura, estarmos a viver contra o corpo". Mas sem exageros. "O livro acaba por ser um pouco terapêutico, mas, sobretudo, não é piegas", garante. "O que pretende é incitar os cidadãos da terceira idade a uma participação maior, a uma exigência de uma dignificação", refere ainda.

A capa do livro resultou de uma feliz coincidência. É que a personagem central costumava namorar com a mulher atrás de cortinas. Depois de António Silva ter feito essa revelação na história, o autor encontrou na Internet uma fotografia muito semelhante, acabando por usá-la agora.

Valter deverá lançar dois livros infantis proximamente e, até ao fim do ano, é provável que publique um outro romance, já concluído há uns tempos. Será uma edição especial, ilustrada, espécie de oferta para quem costuma ler os seus escritos.


Notícia publicada no JN

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publicado às 22:01


#1058 - Novo romance de Valter Hugo Mãe editado pela Objectiva

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.09

O autor de O Nosso Reino (Temas e Debates), O Remorso de Baltazar Serapião e O Apocalipse dos Trabalhadores (ambos na Quidnovi) regressa com um novo romance em Fevereiro com o selo da Objectiva. Em Julho, Valter Hugo Mãe adiantava nas páginas da LER (nº 82). «Estou a meio do livro. Trata-se do senhor Silva que tem 84 anos e acaba de perder a esposa com quem passou mais de 50 anos de vida em comum. A narrativa pretende fazer um exercício de justificação para a vida depois de uma perda desta dimensão. A morte da companhia é uma fractura terrível mas o ser humano segura-se à vida mesmo sem perguntar o que é que ainda falta. Trata-se de um texto muito forte com passagens muito duras mas também com páginas de uma certa casmurrice, senilidade e ternura. [...] No livro digo que a velhice é suportável porque vamos perdendo a consciência das coisas. O que parece uma asneira para os mais novos é um mecanismo de sobrevivência dos mais velhos para manter o corpo vivo, apreciando alguns raios de sol depois de uma tragédia tão grande. Tenho a certeza que não vou chegar a velho, por isso escrevo o pensamento de um homem mais velho do que eu. Vi chegar a minha calvície aos 19 anos, aí percebi a precocidade da discrepância entre idade real e idade aparente.»

 

Fotografia de Pedro Loureiro.

In Revista Ler

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publicado às 00:17


Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.08.08

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publicado às 18:45


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