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#2721 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) - Excerto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.12.17

uma viagem à india-gm tavares005.jpg

Gonçalo M. Tavares

 

(...)

1

Embora a humanidade demore tempo a chegar

a um sítio, devido a imprevistos espantosos

e a obras no caminho, a natureza, essa,

nunca se atrasa.

Sempre com a luz certa, a natureza prossegue.

Era já, então, fim de tarde, quando Maria E abriu a porta

e disse: Oh, caro Thom C, que bom ver-te,

trouxeste um amigo?

 

2

No jornal as notícias podem, em dias de chuva,

ser dobradas para caberem no bolso, permanecendo secas.

Qualquer notícia grandiosa, um terramoto mortífero

ou um palácio recém-inaugurado, quando bem dobrada,

cabe num espaço de 8 por 6 centímetros,

o que não deixa de surpreender. Esta imagem é ainda relevante

para quem não quer perceber a importância e o espaço

ocupados pelo universo ou pelos países adjacentes

na vida de um pequeno cidadão.

 

3

E mesmo um indivíduo de estatura mediana

poderá esquecer, durante meses,

o mapa da mundo no bolso de trás das calças.

Tal facto, parecendo paralelo à nossa história,

não deixa de se cruzar com ela, mostrando que nas ideias

o infinito é coisa para o início da manhã

do dia seguinte.

 

4

Maria E convidou, então, delicadamente, Thom C

e o seu amigo Bloom a entrarem, oferecendo-lhes de imediato

poltronas cómodas, whisky perfeito, aperitivos,

uma vista deslumbrante  sobre as chaminés de uma fábrica

de grande importância na região,

e, pormenor não irrelevante, mostrando ainda, nos movimentos que fazia,

aquilo que de longe eram os melhores indícios do apartamento: seios felizes,

pernas de fazer parar o pensamento e

nádegas espantosas, imprescindíveis, duplas e fortes.

Esta é a melhor região de Londres, disse Bloom,

enquanto da janela admirava o belo e espesso fumo negro

que da fábrica saía.

 

5

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas

que lhe pareciam ter um conforto excessivo.

Com prudência e curiosidade perguntou

se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento

que, apesar de pequeno, era prometedor,

sendo que todos sabem

que um homem pode demorar mais tempo

a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja

do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,

com mochila às costas.

(...)

 

Canto II (Excerto) - Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 73 e 74 - Edição Editorial Caminho, Agosto de 2011

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publicado às 13:34


#2307 - Uma Viagem à Índia (Excerto)

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.04.17

 

«55

 

E a cidade ganhou dependências: abastece-se

de homens e mulheres vindos de países trágicos

e passa por caridosa momentos antes de

os expulsar. A Europa começa a ficar inclinada,

é necessário vigiar. De noite, é um facto, os pobres correm

muito para debaixo dos tapetes. Na Idade Média

havia epidemias de ratos, mas  o caso foi resolvido

a tempo. Nascemos no século em que, de longe, a lista

de medicamentos é mais longa. Festejemos, pois,

com a bebida certa.

 

56

 

O dinheiro tornou-se moralmente inatacável. Para os pobres

as leis parecem ser pormenorizadas, para os ricos

abordam generalidades: abaixo de um massacre

não devemos incomodar os tribunais

- estaríamos a insultar o bom nome dos sujeitos.

E somos tão felizes! As mulheres mais aperfeiçoadas

dançam à moeda como as velhas máquinas de canções.

Ao amor, para ser deste século, só falta a ranhura

adequada ao câmbio actual.

 

57

 

Somos muito felizes. Nas análises, a urina

nada acusa, e o sangue não é tirado à força com uma espada

como acontecia nas batalhas de séculos anteriores;

o sangue agora sai através  de uma finíssima agulha

trazida por uma enfermeira obesa.

O estado preocupa-se com a tua saúde

e, progresso enorme, manda as boas-festas pela televisão.

 

58

 

E há depois as palavras. A relação entre os homens

está gramaticalmente outra. Tolerância,

respeito, leis serenas: a cidade vista de cima

parece um lago, tão calma que está.

É tão perfeita que não se percebe como é que os animais

da floresta não se mudam todos para cá.»

 

Excerto do livro de Gonçalo M. Tavares «Uma Viagem à Índia» páginas 227 e 228 - Canto V

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publicado às 17:30


#1590 - Gonçalo M. Tavares vence prémio Fundação Inês de Castro

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.01.12

 

O escritor Gonçalo M. Tavares venceu a quinta edição do prémio literário Fundação Inês de Castro, de Coimbra, com o romance "Uma Viagem à Índia".


O júri do prémio atribuiu ainda um Tributo de Consagração a Fernando Echevarría, 82 anos, pelo conjunto da obra literária.


O júri do prémio Fundação Inês de Castro integrou José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia.


O romance "Uma Viagem à Índia", editado em 2010, tem por referência "Os Lusíadas", mas é "uma narrativa de uma viagem contemporânea, no século XXI", como explicou o autor à agência Lusa quando o livro foi lançado.

 

O escritor receberá o prémio - que inclui uma escultura de João Cutileiro - 04 de fevereiro na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.


Nas edições anteriores, foram distinguidos Pedro Tamen, Teolinda Gersão, José Tolentino de Mendonça e Hélia Correia.

 

"Uma Viagem à Índia" já valeu a Gonçalo M. Tavares o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol, tendo sido ainda finalista do prémio Portugal Telecom de Literatura.


Gonçalo M. Tavares nasceu em Angola, em 1970, e já recebeu vários prémios, nomeadamente o Prémio José Saramago 2005 e o Prémio LER/Millennium BCP 2004, ambos para o romance "Jerusalém".


O escritor publicou no final do ano passado o livro "Short Movies".

 

Fernando Echevarría, nascido em Espanha em 1929 filho de pai português e mãe espanhola, recebeu o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores 2009 pelo livro "Lugar de Estudo".

 


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publicado às 20:55

 

O escritor Gonçalo M. Tavares venceu o Grande Prémio de Romance e Novela atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, em conjunto com o Ministério da Cultura, pela obra "Uma Viagem à Índia", editado pela Caminho.

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publicado às 18:58


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