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#1967 - To Helena

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.16

 Ruy Belo

 

TO HELENA

 

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente

A maneira mais triste de se estar contente

a de estar mais sozinho em meio de mais gente

de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente

Emotiva atitude de quem age friamente

inalterável forma de ser sempre diferente

maneira mais complexa de viver mais

              simplesmente

de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente

de estar num sítio tanto mais se mais ausente

e mais ausente estar se mais presente

de mais perto se estar se mais distante

de sentir mais o frio em tempo quente

O modo mais saudável de se estar doente

de ser verdadeiro e revelar-se que se mente

de mentir muito verdadeiramente

de dizer a verdade falsamente

de se mostrar profundo superficialmente

de ser-se o mais real sendo aparente

de menos agredir mais agressivamente

de ser-se singular se mais corrente

e mais contraditório quanto mais coerente

A vida enviesada para ir-se em frente

a treda actuação de quem actua lealmente

e é tão impassível como comovente

O modo mais precário de se ser mais permanente

de tentar tanto mais quanto menos se tente

de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente

de estar mais no passado se mais no presente

de não se ter ninguém e ter em cada homem um

              parente

de ser tão insensível como quem mais sente

de melhor se curvar se altivamente

de perder a cabeça mas serenamente

de tudo perdor e todos justiçar dente por dente

de tanto desisitir e de ser tão constante

de articular melhor sendo menos fluente

e fazer maior mal quando se está mais inocente

É sob aspecto frágil revelar-se resistente

é para interessar-se ser indiferente

Quando helena recusa é que consente

se  tão pouco perdoa é por ser indulgente

baixa os olhos se quer ser insolente

Ninguém é tão inconscientemente consciente

tão inconsequentemente consequente

Se em tantos dons abunda é por ser indigente

e só convence assim por não ser muito convincente

e melhor fundamenta o mais insubsistente

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente

O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente

 

Poema de Ruy Belo in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor", edição 1402 da Assírio & Alvim, Julho de 2010

 

 

 

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publicado às 20:52


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