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#3222 - POEMA DE HERBERTO HELDER

DO LIVRO "SERVIDÕES"

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.03.22

já não tenho tempo para ganhar o amor, a glória ou a Abissínia,

talvez me reste um tiro na cabeça,

e é tão cinematográfico e tão sem número o número dos efeitos especiais,

mas não quero complicar coisas tão simples da terra,

bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho,

e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude,

e eu de dentro o não pudesse desfazer :

um saco sem qualquer explicação,

que ficasse para ali num sítio ele mesmo sítio bem amarrado

- não um destino à Rimbaud,

apenas longe, sem barras de ouro, sem amputação de pernas,

esquecido de mim mesmo num saco atado cegamente,

num recanto pela idade fora,

e lá dentro os dias eram à noite bem no fundo,

um saco sem qualquer salvação nos armazéns obscuros

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "SERVIDÕES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, MAIO DE 2013

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publicado às 19:20


#1892 - Servidões

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.11.13

 

 

nunca mais quero escrever numa língua voraz,

porque já sei que não há entendimento,

quero encontrar uma voz paupérrima,

para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa

abaixo do motor da cabeça,

tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,

uma e outra só acham

a poeira do mundo:

antes fosse a montanha ou o abismo -

estou farto de tanto vazio à volta de nada,

porque não é língua onde se morra,

esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,

esta morte não me pertence,

este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia

como se urdem os subúrbios do inferno

num poema rápido tão rápido que não doa

e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,

e não é justo, merda!

quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,

e falar nela de tudo o que não faz sentido

nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,

e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem

como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,

ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio

 

 

Poema de Herberto Helder, in "SERVIDÕES", editado pela Assírio & Alvim, Maio de 2013

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publicado às 15:01


#1859 - "SERVIDÕES" novo livro de Herberto Helder

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.05.13

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publicado às 14:34


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