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#2772 - O Ambiente em S. Vicente

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.18

ruy cinatti029.jpg

O AMBIENTE EM S. VICENTE

 

I

Dia.

Calma demais na baía azul

contra a muralha adiante da outra ilha.

Luz sem sombra

e um vazio que perfila

mortos os corpos deitados

na ideia 

e no cansaço

do movimento no cais e nas casas.

Ainda há vida

no velho tamarindeiro

hirto sob a poeira do vento

que sibila mas não sente

a nossa melancolia

dissolvida no ar quente:

o morno desassossego

que se respira em S. Vicente.

 

II

Noite.

Os montes sobem à lua

e descem vertiginosos na sombra.

O silêncio é mineral,

mesmo o das ondas na praia.

Passos acesos por um Petromax

deambulam, estacam.

Ouve-se uma voz: «entra já!»

O silêncio animou-se, falou fundo

como se anima e cala em S. Vicente.

 

III

Quando as nuvens pesam

e o céu e o sol

escurecem

toda a gente pensa:

acaso, o milagre?!

 

Mas não é milagre.

A chuva cai mesmo

quando acaso cai.

 

As ribeiras enchem.

A fome enverdece.

E a casa so pobre

escorrega na lama.

 

IV
E a pracinha ao fim da tarde

animada, sempre em festa

festinha lânguida prece

nos olhos da mulatinha

e de outras mais meninas

que passam, repassam, passam

os mesmos diminutivos

aos rapazes bailarinos

ou aos que  ouvem a banda

encostados à parede.

Até que chega a velhinha

com o seu cão, o seu bastão

e começa, a levitar,

a rodar,

a dizer: eu sou rainha

nos bailes de S. Vicente.

E a festa acaba em vidinha

em que os termos mais soezes

se confundem com os sublimes.

E só me resta gritar:

tu és minha, tu és minha

porque rimas com rainha,

com pracinha, com vidinha

e muita coisinha fina

e mais um raio de gente!

 

Poema de Ruy Cinatti in "Obra Poética, Volume I", páginas 411, 412, 413, 414 - Edição Assírio & Alvim, Outubro de 2016.

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publicado às 16:57


#2312 - TAU - Um poema de Ruy Cinatti

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.04.17

 RUY CINATTI (1915-1986)

 

TAU

 

O  tempo passa tão devagarinho

quando Tu passas, meu Deus,

e quando a velocidade é repentina

eu fico alucinado, perdido de todo,

ruído de barracas de feira, de comícios de partido,

de qualqer coisa, enfim, o hino nacional,

um cântico religioso, um blue,

Harry Belafonte, Ella Fitzgerald, outros e outras,

bêbedos, drogados, sim ou não, inoculados, imunizados quando te honram nos seus spirituals,

tanto se me importa...

Eu quero é ouvir invocar o Teu nome, ó Senhor meu, em nome colectivo e também só meu

e adormeço sossegado, humilde e consciente

de que Te amo muito mais do que a mim

aos Outros que desconheço e de quem gosto muito, ó indivíduo Emmanuel.

O Poder e a Glória, esses Teus atributos,

e eu, Ruy Cinatti, agradecido cão,

que olha líquido prò olhar do Dono, ò Coisa inefável!...

um trilo pastoril de flauta na Serra da Estrela, Marão ou no Soajo - transumância, eu quero mudar de vida!-

ou em Timor-Ocússi... Atóni, Atóni... chamam por ti, homem, tantos homens te procuram

ó desgraçado Mau Bére... ó Timor meu Amigo.

Ó Pastor, procura-a, não deixes que se perca a Tua ranhosa ovelhinha...

A palavra cala-se, a boca fede, o silêncio é de oiro

O silêncio é de oiro, a palavra cala-se, a boca sorri

 

e depois, ó maravilha de delicadeza, Tu salvas a nossa Vida!

 

Poema de Ruy Cinatti in "Obra Poética" - Volume I, edição Assírio & Alvim de Outubro de 2016

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publicado às 20:23


#2139 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.17

ruy cinatti029.jpg

 

 

 

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publicado às 16:35


#1632 - À memória de António Nobre e de Cesário Verde

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.02.12

 

À MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE E DE CESÁRIO VERDE

 

Eu comi uma inglesa.

Foi em Sintra. Era feriado.

Com esparregado e essa tinta

mint-sauce. Em português,

molho de hortelã-pimenta

com vinagre. Uma beleza!

Alguma batata frita.

Mas eu quis fetos arbóreos,

musgo das fontes, avenca

e pétalas de camélia,

branca-rósea,

para enfeitar a travessa

e trincar, de quando em quando,

uma pétala na fímbria

das orelhas da inglesa,

dizendo: «O tempo está

tão lindo! Não achas, Daisy?»

 

«I like Shelley« - dizia ela,

cheirando a colégio d'Oxford.

                       «Swift Summer into the Autumn flowed...

 

tem tradição. Vem dde Chaucer.»

 

«Eu também gosto» - eu disse,

paraninfo de Euricides -

«porém prefiro John Keats.

I stood tip-toe

Upon a little hill

tem mais naturalidade.

É como se estivesse aqui.

Quanto ao Byron, tu bem sabes

como ele soube viver Sintra:

A glorious Eden inhabited

by savage Lusitanians.

À sova não me refiro.

Tudo isso é história antiga».

«It's true! É verdade!»

(disseste-o, desmemoriada,

mas reticente...

e dobraste-me a parada)

«Mas não esqueça o que ele sofreu

quando dizer lhe vieram:

Shelley morreu.

- Atravessou o Helesponto

a nado!...

I weep for Adonais...»

 

 

«Não, não é.» - contestei eu.

«Isso é do Shelley, dedicado

a Keats.

I weep for Adonais

because he is dead.

 

Eu choro Adonais

porque morreu.

 

Não está mal... a tradução,

mas tem razão!

Eu sou português e não

falo com a boca cheia.

Esta mania lusíada

de cuspir no chão é feia.

Nós não vivemos na selva.»

 

E ela, tola-lograda:

- «Dont be silly. Há o fado!

I like fado. Não gostas!

Tu tens a melena cheia

de brilhantina. You look

almost like a fadista!»

 

Passei  a mão pela testa

e desgrenhei a madeixa,

dizendo: - «Queres morangos,

figos, amoras ou beijos?...»

 

................................................

 

«Obrigado, obrigado, Daisy.

Não sei se estás a troçar

ou a brincar...

pulling my leg para ti.

Mas, enfim, vamos passear

até ali.»

 

(No fundo, o que eu desejava

era mordê-la na boca,

meter-lhe a mão entre os seios,

voar a cavalo nela.)

 

Foi uma tarde acabada

na relva, sob pinheiros,

chamaecyparis, ulmeiros,

sequóias, abetos, faias

e a cor azul das hortênsias.

 

Foi sobre a relva orvalhada

pelo frescor de um riacho,

quando o sol obliquava

e em volta era tudo selva,

que eu comi uma pantera

escura, feroz, inglesa,

com o cheiro de violetas

debaixo do meu nariz.

 

(Fulva, para quem quiser

modas pré-rafaelitas,

a pantera! Tanto faz!

Ou morena. Convenção

como convém a uma inglesa

convencional, de ocasião.)

 

E quando nos despedimos

- era noite, havia estrelas -

disseste com essa fleuma

que tão mal me fica a mim:

- «I'll see you latter. Do come.

Vem amanhã tomar chá.

Eu gostar muito de ti.»

 

Loira, era loira a inglesa

que eu comi...

Verde, devia dizer.

Branca-rósea, uma camélia,

que eu comi, ou que colhi.

Já nem sei...

A savage Lusitanian,

dei-lhe só o que ela quis.

Ou queria...

Com peitinhos de perdiz

e alguma poesia:

 

The air was cooling

And so very still.

 

Poema de Ruy Cinatti (1915-1986) Memória Descritiva, 1971

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publicado às 18:39


#1385 - Mon coeur mis a nu

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.11

Ruy Cinatti

 

A grande ilusão de ter-te

nas mãos húmidas,

de beijar-te

e querer-te,

homem enlaçado em ti perdido.

És mais forte do que eu

quando apenas,

mãos húmidas ou não,

tacteio o teu corpo

e, sexo oposto

ao teu,

pedes que te coma

e te empreste os dentes.

 

E assim prossigo

entre o aroma do cio

e o caixote do lixo

por onde passeio vazio.

 

Palavras!...

 

Árvore de jardim e pés ligeiros,

calçados. De bico

ródro.

Rosto fino ao longe assim trigueiro.

Olhos de amêndoa.

 

Cabelos de onda preta e um berloque.

Olhos de amêndoa.

Esponja.

 

Ó fox-trot

de ostras e hotéis

provinciais.

Popocatepétl!

Zagreus!

 

Mas é isto vida,

manter pregação no nada?

Montar selim

com debaixo nada

e cavalgar a noite?!

 

Meretrizes suadas

queb eu não conheci.

Popocatepétl!

Zagreus!

 

Senhor, deita-te na cama.

Possui-me como um toiro,

minotauro sagrado.

Dá-me o horror do pecado

enganchado nos teus braços!

 

Tenho sede!

Fome, fome do teu corpo!

O que como

pela boca

vai e volta

defecado.

 

O que como

sai pela boca

defecado.

Palavras defecadas.

E eu, e eu, e eu...

 

Beijar-te-ei os cornos siderais!

Meus irmãos!

Aqui me tendes unido.

 

Aerograma de amor, rosto fendido

pela graça!

 

Ilhas de prudência, escala por fazer.

Momentos do sim, do não.

 

Meretrizes, secundum

scripturas,

entram primeiro no Céu.

 

O resto

"é a vida e o seu ofício".

 

Nesta vida

                  morrer não é difícil.

O difícil

          é a vida e o seo ofício."

 

Vamos, Maiakowsky-Jesus Cristo,

com pés ligeiros,

aprender a vida,

                         seguir a vida,

                                               viver a vida

 

com Jesus Cristo.

 

O suicídio

é nada

 

 

Poema escrito por Ruy Cinatti em 1984

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publicado às 19:25


Ruy Cinatti

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09

BREVE ENCONTRO

 

Um amor de mulata atrai o corpo
habituado a lides extrínsecas.
Modela, circunspecto, as pernas, o rosto,
os seios-olhos, as partes oblíquas.
Quer falar
palavras sem medida, infecciosas.
Sorri.
Mede distâncias.
Retrai-se ao ínfimo
que separa ainda duas almas
coetâneas, mas só por momentos,
no bar frente à baía de Sto. António, ilha do Príncipe.

 

In Lembranças para S. Tomé e Príncipe

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publicado às 20:18


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