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#2661 - CAIR DO PANO

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.17

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 RUI KNOPFLI (INHAMBANE, 1932 | LISBOA, 1998)

 

CAIR DO PANO

 

As acácias já se incendiaram de vermelho

e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante

a manhã de Dezembro. A terra exala,

em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.

Ao longe, no extremo distante da caixa

 

de areia, o monhé das cobras enrola

a esteira e leva o cesto à cabeça,

cumprido o papel exacto que lhe coube

e executou com paciente sageza hindu.

Dura um instante no trémulo contraluz

 

do lume a que se acolhe, antes da sombra

derradeira. Assim, os comparsas convocados

para esta comédia a abandonam, verso

a verso, consignando-a ao olvido

e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

 

irremediavelmente. O encenador faz

a vénia da praxe e, porque aplausos

lhe não são devidos, esgueira-se pelo

anonimato da esquerda alta. É Dezembro

a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

 

Poema de Rui Knopfli incluído no livro O Monhé das Cobras, publicado em 1997, pela 

Editorial Caminho.

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publicado às 20:58


# 1931 - Amor das palavras

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.04.15

AMOR DAS PALAVRAS

 

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis

que só vêm no dicionário.

O dicionário ensinou-me mais um atributo

para o sabor de teus lábios.

São doces como sericaia.

Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será

comparável à das huris prometidas.

No dicionário aprendi que o meu verso é

por vezes fabordão e sesquipedal.

Nele existe o meu retrato moral (que

não confesso) e o de meus inimigos,

rasteiros como seramelas sepícolas

e intragáveis como hidragogos destinados à comua.

O dicionário, as palavras, irritam muita gente.

Eu gosto das palavras com ternura

e sinto carinho pelo dicionário,

maciço e baixo e pelo seu casaco, azul

desbotado, de modesto erudito.

 

Poema de Rui Knopfli in "O país dos outros" - 1959

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publicado às 19:30


Rui Knopfli

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09



Bilhete para

DANILA MICHAELLES

(DANA)


Pelo trajecto sangrento das acácias,

da Mafalala às areias de Polana,

ou à maré morta de Catembe;

do Ho Ling à Casa Elefante,

da Casa Viegas ao Prédio Pott;

da opulenta sombra do cajueiro

à nobre majestade do eucalipto,


ainda resiste, na memória, uma cidade.

Por tardes de longa canícula,

sentada em seu regaço, a menina

dos cabelos cor de cobre, regista-lhe,

com paciente labor, na brancura

do A-3, a minúcia do perfil

que esbatido, aos poucos, lentamente,


no deserto da memória vai morrendo.

Dele, em tempo, só restará o sal

teimoso que, a algum verso,

há-de emprestar o travo amargo

e o que, no rigor afectuoso do teu traço,

da insanável ferida oculta,

é, obstinadamente, a visível cicatriz.

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publicado às 18:41


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