Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#2580 - Terreiro do Paço

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 Glória de Sant' Anna (1925-2009)

 

TERREIRO DO PAÇO

 

cavalga o rei de ferro em seu cavalo

verdoengos os dois no pedestal

recortados lá em cima

 

e alonga-se a crina

em falso movimento sugerido

pela água azul inquieta deste rio

 

cujas ninfas suportam a epopeia

de um povo que se esparsa pelo tempo

 

onde semeia trigo e saramago

no mesmo vento

 

Poema de Glória de Sant' Anna retirado da revista "Colóquio | Letras" n.º 110-111 - Julho / Outubro de 1989

 

coloquio letras 110-111013.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:49


#2425 - A edição n.º 195 da revista COLÓQUIO | Letras

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

N.º 195, Maio-Ago. 2017 - Carlos de Oliveira

Por Revista Colóquio/Letras, publicado em 5.5.2017 na secção Notícias

 

Capa do número 194 
 
 
 
 
 
 
No ano em que os trabalhos sobre o espólio   de Carlos de Oliveira, depositado no Museu   do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, se   materializam na exposição “Carlos de      Oliveira: a parte submersa do iceberg”, a    revista Colóquio/Letras dedica, no seu  número 195, um dossiê temático ao autor, composto por cinco ensaios e vários inéditos.

Os ensaios — da autoria de Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Mateus, José Geraldo, Ricardo Namora e Clara Rowland —, exploram o espólio, apresentando novas perspetivas de abordagem e novos leitores de Carlos de Oliveira, aspeto fundamental para a duração longa de uma obra.

Quanto aos inéditos, são uma primeira amostra dessa “parte submersa do iceberg” que é o espólio do escritor, e permitem perceber o potencial de releitura crítica aí contido. O dossiê conclui-se com alguns depoimentos de portugueses e estrangeiros, todos eles partes de um diálogo intenso que a própria correspondência do autor regista.

Para além das habituais secções da revista, destacam-se ainda neste número a entrevista ao poeta sírio Adonis, a evocação de João Lobo Antunes e o belíssimo contributo de Ilda David com um conjunto de imagens inéditas.


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:01


#1157 - BOA NOITE, SENHOR

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10

 

Ele me esperava à saída do baile. Parado na esquina, retocou as pontas da gravata borboleta. Ainda de longe, magrinho, idade incerta, sorria para mim.


- Boa noite.


-Boa noite, senhor.


Andando a meu lado, disse que me viu a dançar com a loira. Ele a achava linda, com sua boca pintada. Respondi que a odiava. Ele disse que sofreu muito com as mulheres - um puxão raivoso na gravatinha azul. Da própria mulher, casado e com filho, não queria saber.


Falava tanto e tão depressa, a voz pastosa de saliva. Acendi um cigarro - não é que os dedos tremiam? Perguntou se ele me provocara, mas não respondi. Compreendia muito bem, a mulher sem piedade enlouquece um pobre moço. Capaz de matar a loira de olho pérfido.


- Ainda bem não tenho olho verde!


Piscou um olho de cada vez. Eu não sabia nada do mundo, ele disse, a cada palavra a voz mais rouca. Intrigava gentilmente os plátanos, a loira, a maldita lua no céu. Uma baba de lesma no dente de ouro... Não falava da loira - e como se eu sobesse de quem. Perto da igreja o guincho aflito dos morcegos.


Ele perguntou a hora. Eu não tinha relógio. Parados na esquina, injuriou ainda mais a loira, que tinha boca pintada, promessa de delícias loucas, mas seu olhar era frio, seu loiro coração era amargo. Sabia de outras bocas, a sua, por exemplo, rainha do maior gozo. Molhou o lábio com a ponta da língua vermelha - no canto a espuma do agonizante. Se eu nunca o vira, havia muito que esperava. Tudo sabia de mim, quem eu era:


- A um menino bonito ofereço o trono do mundo.


Até dinheiro, ele disse, tesouros que eu não ganhava de nenhuma loira. Protestei que ela não merecoa ódio, moça de boa família.


Olhou o relógio no pulso: três horas da manhã.


- Boa noite, senhor.


Sem rsponder, subiu as mãos trémulas ao nó da minha gravata - dois ratos de focinhos quentes e húmidos.


- Tem cabelo no peito!


Na ponta dos dedos o cuidado reverente de quem consagra o cálice.


- Ora, quem não...


Seus olhos se abriam para a lua, eu podia jurar que verdes.


- Como é forte!


Meu Deus, aquele riso... Gritinhos de morcego velho e cego. Falando do vento que anunciava chuva, ensaiou um gesto - o gesto da loira!


A ponta da língua se mexia, um papel debaixo da porta.


- Não tem medo?


Um gato saltou do muro. Espiei do gato para o homem e a rua deserta: ajoelhado na adoração da lua.


Passos de criança perdida, gotas de chuva estalavam nas folhas.


- Boa noite, boa noite, boa noite.


Chorava o dente de ouro, as lágrimas riscavam as velhas rugas.


Escondeu-as na mão - o relógio faiscando no pulso.


- O meu presente?


Ele olhou o relógio.


- De estimação. Lembrança da minha mãe.


As folhas húmidas brilhavam na calçada. Todas as árvores pingavam a duas portas de casa.


- Melhor que...


Não ficava bem dar senhorio.


- ... volte daqui.


Quis pegar na mão e guardei-a no bolso.


- Mais um pouco - ele pediu.


Todas as árvores gotejavam. Ali na porta de casa - o relógio na palma da mão.


Ele me perguntou a hora.


Conto de Dalton Trevisan  traduzido do texto holandês por José Augusto Pinto de Sousa e retirado de um artigo de August Willemsen "Sobre a evolução estilística na obra de Dalton Trevisan e as consequências que daí advêm para o tradutor" publicado na revista  "Colóquio | Letras, n.º 132/133, Abril-Setembro de 1994

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:04


Cartas

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


 

Correspondência trocada entre Jorge de Sena e José Blanc de Portugal


De José para Jorge


Benf. Maio 942


Caro e bom amigo


Eu é que fiquei feliz pela sua grande carta! Calcule que de há muito é o único contacto social que tenho com o mundo excepto os colegas de trabalho ou a gente das ruas e comboios de todos os dias!


Quanto às minhas coisas eu um dia farei tudo o que aconselha (embora muito sèriamente ache certíssimo o que V. diz "Uma coisa é preocupação pessoal, outra preocupação de lugar". Etc Etc... E quanto ao "escreva sempre" aqui estou de novo.


Não me espanta o que diz do Ruy. Depois da vez que nos viu juntos não o tornei a ver. Revi as provas (de artigos dos outros) da Revista e fui nessa mesma tarde levá-las a casa dele. Até hoje não mais novas nem mandados de qualquer ordem! É uma pessoa que parecendo cheia de delicadeza de sentimentos tem às vezes bem duras atitudes para os outros. Mas tudo se passará em bem...


Eu nada sei de Manuela Porto e do recital. Não tratarei disso é a única coisa que lhe posso dizer, mas também lhe digo que gostava imenso que se realizasse e gostaria imenso de lá ouvir qualquer coisa minha. Já vê que não sou falsamente modesto e que tenho ostensivamente anor-próprio mas não sou eu que tenho a intimidade ou à-vontade do Ruy ou do Kim para tratarem com ela.


Gostei tanto do seu trocadilho acerca do Atlântico e "costas de Portugal" (ou versalhada?!) que pensando em senas e azes do jogo da Vida (claro de V - "V for Victory"!) lhe improviso êste acróstico:

 

                         ACRÓSTICO


J   ogue a glória a quem quiser as sortes

O  limpo Apolo dê aos seus eleitos

R  enasçam fénix de infindas mortes

G  orjeiem cantos os coros celestes:

E  ste esmagará seus pares terrestres!


C  anções, poemas mil às musas dando

A  ele não podeis deusas ensinar!);

N  asce dele a poesia toda inteira

D  esse qual Júpiter nova Ateneia!

I   rrompe em fogos contra a asneira

D  omando-a fero em forte peia,

O  único que falar pode de cadeira!


D  esta terrena e breve vida passageira

E  téreo ele só, não seguindo de ninguém a esteira,


S  e não perde do mundo na voragem

E  neste globo, infrene tavolagem,

N  ativo herói das elíseas pazes

sena bate em cheio os azes!!!


(Do "Novo Parnaso Lusitano-Brasílico Dedicado aos Amadores das Musas dos Dois Países Irmãos por Uma Sociedade de Homens de Letras").


Não é talvez o meu melhor poema mas tenha paciência... Já que não lê o Sempre Fixe...


Lembra-me  o [José] Osório [de Oliveira], o Osório que eu persisto em crer meu amigo.


Com todos os seus defeitos à vista não é perigoso para ninguém e quanto aos "tantos que o detestam" alguns há que se serviram dele para o que ele (lhes) podia servir...


Mas afinal a má língua sou eu e os defeitos pegaram-se-me. Não é isso?


Eu anseio pelos seus trabalhos. Temas que me interessam, pessoa que me interessa, mas para mais elogios vá... ao Acróstico!


Um abraço do afastado amigo que não lhe dá novidades mas as pede


                                                                                                                                    José de Portugal



Última hora

De acordo com a participação recebida agora sei que em 6-4-1942 casaram e me oferecem a Sua Ilustre Casa a Senhora Dona Maria Adelina de Amaral Simões Neves Monteiro Grillo e o Senhor Joaqyuim Fernandes Thomaz Monteiro Grillo [Tomaz Kim].


Felicidades aos noivos! Viva a poesia realizada!


 

********************************************

 

De Jorge para José

 

Porto, 24/10/42

 

Meu caro amigo

 

          A sua carta veio ter comigo ao Porto e eu já sabia (e até contava escrever-lhe),  pelo João António Lamas, que V. tinha qualqer coisa para me dizer, independentemente do muito que temos para dizer e fazer neste momento ridìculamente crítico... - rìdiculamente porque só tem o direito de ser crítico aquilo que o é pela força directa das circunstâncias e não o tem o que é pela força das circunstâncias que as foram tirar dessas outras. Isto tudo é confuso mas, até por issso, digno do momento.

          Ora, primeiro, vamos ao nosso assunto. Vou escrever para a Portugália (não tenho comigo senão exemplares, poucos, já dedicados e não entregues ainda) para que ponham à sua disposição um exemplar. E, por favor, não o compre. Eu quando voltar a Lisboa, quero escrever nele uma dedicatória - sou eu que lho ofereço e com tanto mais alegria quanto V. ofereceo o seu para que alguém o lesse. Quando estiver disposto (eu soube muito tarde do seu desgosto, não falemos nissso como entende e bem) diga-me qualquer coisa acerca do livro ou, se  o preferir, guardemos isso para a minha volta a Lisboa. Até agora, pode dizer-se que ninguém me falou dele, uma vez que só cumpriram a promessa os que se apressaram em não compreender. Claro que não falo das pessoas que, por próximas, tinham a sua opinião já tàcitamente formada; como nem a minha vida nem a sua permitem que V. esteja, para mim, na mesma proximidade, é essa a razão por que lhe peço o que pedi.

          V. já deu ao Cinatti poemas para a Aventura 3? Sabe, por ele, do editorial que eu vou escrever para êsse número? Trata-se de desmascarar as confissões voluntárias em que se debate a nossa pretyensa intelectualidade que, por saber demasiado o que deseja, acaba por não fazer dignamente o trabalho que lhe é imposto pela dignidade que devia ter. Queria que V. visse o editorial. Creio que nós, eu e V., devemos defender a Aventura pelo que ela representa e pelo que, por nós e o Cinatti, pode vir a representar: posição definida contra o que não fôr uno, nítido e futuro.

          É nesse sentido que tenciono orientar a conferência que, de combinação com a Manuela Porto, tenciono fazer, em Dezembro, sobre as "Possibilidades da poesia portuguesa". Evidentemente que a poesia portuguesa pode bem vir a ser exactamente o contrário da pureza e da intensidade abstracta que eu pretendo, mas nem por isso tudo o que se fizer deixará de actuar na composição e decomposição das forças, uma vez que só o inantingìvelmente puro está livre das nossas contingências de acção. Não será isto? E agora voltei ao princípio da carta e fechei o verdadeiro círculo. Poesia científica e poesia social (com base nas revivescências ancestrais) tudo isso é terrível, se não souber onde as coisas principiam e acabam. A poesia é profundamente psicológica e epistemológica (no domínio em que coincidem estes dois aspectos), quer queiram quer não, e por isso humana, nacional e individual. Nem notas psicológicas, nem apetências sociais, nem esforços registados do conhecimento - mas consciencialização do homem total num sentido que não tem sido dado a esta expressão, um sentido mais lato, não só individual, não colectivo no instante: num sentido individual e colectivo aplicado à extensão do tempo, extensão mensurável (como me lembro agora que Proust aponta maravilhosamente para cada criatura) nas variações e na invariância do homem. Creio que um sinal da verdade disto é pensarmos agora (e creio que V. pensa isto pelo pouco que posso recordar e assimilar a isto) alguns o mesmo e inteiro, quando, de tal modo, toda a gente pensa partes. A nossa época é de integração no espaço e no tempo de todos os valores positivos e negativos: trata-se de definir um domínio e não definir nem o homem, nem a terra, nem a humanidade (como várias modas fazem), que são, digamos,  conjuntos falsos feitos à custa de elementos que pertencem ao domínio verdadeiro que às modas não convém ver, porque são modas e passam deixando apenas dedadas, contingências, difíceis de lavar e de cuja responsabilidade lavam as mãos. Terá V. paciência de pensar, por escrito, alguma coisa, numa carta, a este respeito?

          Receba um grande abraço do amigo e camarada

 

 

Jorge de Sena

Rua de Cedofeita, 478

Retirado da Revista Colóquio | Letras n.º 132/133 Abril-Setembro de 1994.

Edição e propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian.

Director David Mourão-Ferreira

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:48


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas