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#3055 - PRÉMIO JABUTI

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.11.19

A organização do Prémio Jabuti 2019, um dos principais galardões literários do Brasil, divulgou, hoje, os cinco finalistas de cada uma das dezanove categorias que por sua vez estão divididas em quatro áreas: Literatura, Ensaios, Livro e Inovação.

 

PRÊMIO JABUTI - CONHEÇA OS 05 FINALISTAS DE 2019

Auditado por Ecovis Pemom Auditoria & Consultoria:

 

Literatura

Conto

Título: Alguns humanos | Autor(a): Gustavo Pacheco | Editora(s): Tinta da China Brasil

Título: O sol na cabeça | Autor(a): Geovani Martins | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Reserva natural | Autor(a): Rodrigo Lacerda | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Sebastopol | Autor(a): Emilio Fraia | Editora(s): Alfaguara / Companhia das Letras

Título: Um beijo por mês | Autor(a): Vilma Arêas | Editora(s): Luna Parque


Crônica

Título: A arte de querer bem | Autor(a): Ruy Castro | Editora(s): Estação Brasil

Título: Perambule | Autor(a): Fabrício Corsaletti | Editora(s): Editora 34

Título: Pós-F: para além do masculino e do feminino | Autor(a): Fernanda Young | Editora(s): LeYa

Título: Refúgio no sábado | Autor(a): Míriam Leitão | Editora(s): Intrínseca

Título: Velhos são os outros | Autor(a): Andréa Pachá | Editora(s): Intrínseca


Histórias em Quadrinhos

Título: Ânsia eterna | Autor(a): Verônica Berta | Editora(s): SESI-SP Editora

Título: Bendita cura - Volume 1 | Autor(a): Mário César | Editora(s): EntreQuadros

Título: Graphic MSP - Jeremias: Pele | Autor(a): Rafael Calça, Jefferson Costa | Editora(s): Panini, Mauricio de Sousa

Título: O idiota: o clássico de Fiódor Dostoiévski em quadrinhos | Autor(a): André Diniz | Editora(s): Quadrinhos na Cia / Companhia das Letras

Título: Raul | Autor(a): Alexandre De Maio | Editora(s): Editora Elefante


Infantil

Título: A Avó Amarela | Autor(a): Júlia Medeiros, Elisa Carareto | Editora(s): ÔZé Editora

Título: Casa de passarinho | Autor(a): Ana Rosa Costa, Odilon Moraes | Editora(s): Editora Positivo

Título: Donana e Titonho | Autor(a): Ninfa Parreiras | Editora(s): Paulinas

Título: Enreduana | Autor(a): Roger Mello | Editora(s): Companhia das Letrinhas / Companhia das Letras

Título: Olavo | Autor(a): Odilon Moraes | Editora(s): Jujuba Editora


Juvenil

Título: 80 degraus | Autor(a): Luís Dill | Editora(s): Palavras Projetos Editoriais

Título: A grande assembleia dos bichos pestilentos e peçonhentos | Autor(a): Ivan Jaf | Editora(s): Trioleca Casa Editorial

Título: Clarice | Autor(a): Roger Mello | Editora(s): Global Editora

Título: Histórias guardadas pelo rio | Autor(a): Lúcia Hiratsuka | Editora(s): Edições SM

Título: O Cão e o Curumin | Autor(a): Cristino Wapichana | Editora(s): Editora Melhoramentos


Poesia

Título: Carvão : : capim | Autor(a): Guilherme Gontijo Flores | Editora(s): Editora 34

Título: Fundo Falso | Autor(a): Mônica de Aquino | Editora(s): Relicário Edições

Título: Lua na jaula | Autor(a): Ledusha Spinardi | Editora(s): Todavia

Título: Nenhum mistério | Autor(a): Paulo Henriques Britto | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Nuvens | Autor(a): Hilda Machado | Editora(s): Editora 34


Romance

Título: A tirania do amor | Autor(a): Cristovão Tezza | Editora(s): Todavia

Título: Cloro | Autor(a): Alexandre Vidal Porto | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Enterre seus mortos | Autor(a): Ana Paula Maia | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Nunca houve um castelo | Autor(a): Martha Batalha | Editora(s): Companhia das Letras

Título: O pai da menina morta | Autor(a): Tiago Ferro | Editora(s): Todavia


Ensaios

Artes

Título: A fotografia como escrita pessoal: Alair Gomes e a melancolia do corpo - outro | Autor(a): Alexandre Santos | Editora(s): Editora da UFRGS

Título: Arte popular brasileira: olhares contemporâneos | Autor(a): Vilma Eid (org.), Germana Monte-Mór (org.) | Editora(s): Editora WMF Martins Fontes, Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro

Título: Histórias afro-atlânticas: [vol. 1] catálogo | Autor(a): Adriano Pedrosa, Lilia Moritz Schwarcz, Tomás Toledo, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes | Editora(s): MASP, Instituto Tomie Ohtake

Título: Nova história do cinema brasileiro, volumes 1 e 2 | Autor(a): Fernão Pessoa Ramos, Sheila Schvarzman | Editora(s): Edições Sesc São Paulo

Título: Patrimônio colonial latino-americano: urbanismo, arquitetura, arte sacra | Autor(a): Percival Tirapeli | Editora(s): Edições Sesc São Paulo


Biografia, Documentário e Reportagem

Título: A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil | Autor(a): Bruno Paes Manso, Camila Nunes Dias | Editora(s): Todavia

Título: Carolina: uma biografia | Autor(a): Tom Farias | Editora(s): Malê

Título: Jorge Amado: uma biografia | Autor(a): Joselia Aguiar | Editora(s): Todavia

Título: O livro de Jô: uma autobiografia desautorizada - volume 2 | Autor(a): Jô Soares, Matinas Suzuki Jr. | Editora(s): Companhia das Letras

Título: O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier | Autor(a): Lucas Figueiredo | Editora(s): Companhia das Letras


Ciências

Título: A caminho de Marte: a incrível jornada de um cientista brasileiro até a NASA | Autor(a): Ivair Gontijo | Editora(s): Editora Sextante

Título: Ciência e pseudociência: por que acreditamos apenas naquilo em que queremos acreditar | Autor(a): Ronaldo Pilati | Editora(s): Editora Contexto

Título: Ciência para educação: uma ponte entre dois mundos | Autor(a): Augusto Buchweitz, Mailce Borges Mota, Roberto Lent | Editora(s): Editora Atheneu

Título: Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles | Autor(a): Brenda Fucuta | Editora(s): Objetiva / Companhia das Letras

Título: Inteligência artificial aplicada: uma abordagem introdutória | Autor(a): Luciano Frontino de Medeiros | Editora(s): InterSaberes


Economia Criativa

Título: 101 dias com ações mais sustentáveis para mudar o mundo | Autor(a): Marcus Nakagawa | Editora(s): Editora Labrador

Título: Mude ou morra: tudo que você precisa saber para fazer crescer seu negócio e sua carreira na nova economia | Autor(a): Renato Mendes, Roni Cunha Bueno | Editora(s): Editora Planeta

Título: Porque criei a Gastronomia Periférica | Autor(a): Edson Leite | Editora(s): Editora Inova

Título: Uma vida sem lixo: guia para reduzir o desperdício na sua casa e simplificar a vida | Autor(a): Cristal Muniz | Editora(s): Alaúde

Título: Viva o fim: almanaque de um novo mundo | Autor(a): André Carvalhal | Editora(s): Paralela / Companhia das Letras


Humanidades

Título: Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos | Autor(a): Lilia Moritz Schwarcz (org.), Flávio Gomes (org.) | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Presidencialismo de coalizão: raízes e evolução do modelo político brasileiro | Autor(a): Sérgio Abranches | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Ser republicano no Brasil colônia: a história de uma tradição esquecida | Autor(a): Heloisa M. Starling | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Uma história da desigualdade: a concentração de renda entre os ricos no Brasil 1926 - 2013 | Autor(a): Pedro H. G. Ferreira de Souza | Editora(s): Hucitec Editora

Título: Valsa Brasileira: do boom ao caos econômico | Autor(a): Laura Carvalho | Editora(s): Todavia


Livro

Capa

Título: James Joyce - um retrato do artista quando jovem e Epifanias | Capista: Diogo Droschi | Editora(s): Autêntica

Título: Letizia Battaglia: Palermo | Capista: Luciana Facchini | Editora(s): IMS

Título: O galo de ouro | Capista: Leonardo Iaccarino | Editora(s): José Olympio

Título: Revela-te, Chico: uma fotobiografia | Capista: Augusto Lins Soares | Editora(s): Bem-te-vi Produções Literárias

Título: Sapientia: uma arqueologia de saberes esquecidos | Capista: Tereza Bettinardi | Editora(s): Edições Sesc São Paulo


Ilustração

Título: Chão de peixes | Ilustrador(a): Lúcia Hiratsuka | Editora(s): Pequena Zahar

Título: Enreduana | Ilustrador(a): Mariana Massarani | Editora(s): Companhia das Letrinhas / Companhia das Letras

Título: Nem filho educa pai | Ilustrador(a): Odilon Moraes | Editora(s): SESI-SP Editora

Título: Se eu abrir esta porta agora... | Ilustrador(a): Alexandre Rampazo | Editora(s): SESI-SP EDITORA

Título: Se os tubarões fossem homens | Ilustrador(a): Nelson Cruz | Editora(s): Edições Olho de Vidro


Impressão

Título: Bill Viola | Responsável: Adelcio Alberto Canolla | Editora(s): Edições Sesc São Paulo

Título: Clementina Duarte 50 anos de arte e design | Responsável: Julio Gonçalves | Editora(s): Cepe Editora

Título: Fernanda Montenegro: itinerário fotobiográfico | Responsável: Ipsis Gráfica e Editora | Editora(s): Edições Sesc São Paulo

Título: Francisco João de Azevedo e a invenção da máquina de escrever | Responsável: Rodrigo Moura Visoni | Editora(s): Tamanduá

Título: Roberto Landell de Moura, o precursor do rádio | Responsável: Rodrigo Moura Visoni | Editora(s): Tamanduá


Projeto Gráfico

Título: Clarice | Responsável: Felipe Cavalcante | Editora(s): Global Editora

Título: Claudia Andujar: a luta Yanomami | Responsável: Elisa von Randow, Julia Massagão | Editora(s): IMS

Título: Cordão | Responsável: Luciana Calheiros | Editora(s): Zoludesign

Título: Histórias afro-atlânticas: [vol. 1] catálogo | Responsável: Raul Loureiro | Editora(s): MASP, Instituto Tomie Ohtake

Título: Teatro da Vertigem | Responsável: Luciana Facchini | Editora(s): Editora Cobogó


Tradução

Título: Almas mortas | Tradutor(a): Rubens Figueiredo | Editora(s): Editora 34

Título: Lições de ética | Tradutor(a): Bruno Leonardo Cunha, Charles Feldhaus | Editora(s): Editora da Unesp

Título: Morrer sozinho em Berlim | Tradutor(a): Claudia Abeling | Editora(s): Editora Estação Liberdade

Título: O conto dos Contos: Pentameron ou o Entretenimento dos Pequeninos | Tradutor(a): Francisco Degani | Editora(s): Nova Alexandria

Título: Sobre isto | Tradutor(a): Leticia Mei | Editora(s): Editora 34


Inovação

Fomento à Leitura

Título: Caixa de cultura | Responsável: Rosana Firmino de Araújo Gutierrez | Editora(s): Serviço Social da Indústria - SESI-SP

Título: Leia para uma criança | Responsável: Dianne Cristine Rodrigues Melo | Editora(s): Itaú Social

Título: Pegaí leitura grátis | Responsável: Idomar Augusto Cerutti | Editora(s): Instituto Pegai Leitura Grátis

Título: Projeto BiblioSesc | Responsável: Sesc São Paulo | Editora(s): Edições Sesc SP

Título: Rede LiteraSampa | Responsável: Mara Esteves Costa | Editora(s): Mara Esteves Costa


Livro Brasileiro Publicado no Exterior

Título: A resistência | Autor(a): Julián Fuks | Editora(s): Companhia das Letras, Charco Press

Título: Brasil: Uma biografia | Autor(a): Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling | Editora(s): Companhia das Letras, Penguin Random House UK/Allen Lane

Título: Meia-noite e vinte | Autor(a): Daniel Galera | Editora(s): Companhia das Letras, Suhrkamp Verlag

Título: Meu Pé de Laranja Lima | Autor(a): José Mauro de Vasconcelos | Editora(s): Editora Melhoramentos , Pushkin Press

Título: Simpatia pelo demônio | Autor(a): Bernardo Carvalho | Editora(s): Companhia das Letras, ÉDITIONS MÉTAILIÉ

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publicado às 19:18

A gare do caminho-de-ferro do Cairo a Alexandria; A eterna confusão das festas de Suez ; O que é um maquinista nos caminhos-de-ferro egípcios ; O embarque em Alexandria ; Port Said ; A baía em festa ; Iluminações ; Um café cantante em Port Said ; Os pavilhões e os príncipes ; Abd el-Kader ; Mr. Bauer ; Os dois obeliscos de pau da entrada do canal ;Primeiros sustos

 

Sr. Redator

Acedo com a mais perfeita vontade ao seu desejo de ter a história real das festas de Suez. Conto-lhe, porém, simplesmente e descarnadamente, o que me ficou em memória daqueles dias confusos e cheios de factos: tanto mais que as festas de Suez estão para mim entre duas recordações - o Cairo e Jerusalém: estão abafadas, escurecidas por estas duas luminosas e poderosas impressões: estão como pode estar um desenho linear a lápis, entre uma tela resplandecente de Decamps, o pintor do Alcorão, e uma tela mortuária de Delaroche, o pintor do Evangelho.

Talvez em breve eu diga o que é o Cairo e o que é Jerusalém na sua crua e positiva realidade, se Deus consentir que eu escreva o que vi na terra dos seus profetas. Hoje, faço-lhe apenas a narração trivial, o relatório chato das festas de Port Said, Ismailia e Suez.

Tínhamos voltado, eu e o meu companheiro, o conde de Resende, de uma excursão às pirâmides de Gizé, aos templos de Sacara e às ruínas de Mênfis, quando no Cairo soubemos que estavam na baía de Alexandria os navios do quediva que deviam levar-nos a Port Said e Suez.

Vínhamos do sossego do deserto e das ruínas, e logo na gare do Cairo, ao partir para Alexandria, começámos a envolver-nos, bem a custo, naquela confusão irritante que foi o maior elemento de todas as festas de Suez. A previdente penetração da polícia egípcia tinha esquecido que trezentos convidados, ainda que não tenham a corpulência tradicional dos paxás e dos vizires, não podem caber em vinte lugares de vagões, estreitos como bancos de réus. Por isso, em volta das carruagens havia uma multidão tão ávida como no saque de uma cidade.

Jonas Ali, o nosso drogman, um núbio, intrigou, conspirou, clamou e alcançou-nos numa carruagem de segunda classe, miseravelmente desmoronada, dois lugares empoeirados.

Confesso que foi com o maior tédio que comecei a atravessar a magnífica natureza do Delta. Demais, os caminhos-de-ferro egípcios não têm uma velocidade fixa. Vão aos caprichos do maquinista, que, de vez em quando, para a máquina, desce, acende o cachimbo, ri com algum velho conhecimento de estrada, sorve minuciosamente o seu café, torna a subir bocejando, e faz partir distraidamente o trem. Nesse dia, porém, o ar estava nublado, chuvoso; o maquinista levou-nos rapidamente a Alexandria. Na baía esperavam o Marsh, o Fayoum, o Behera, navios do paxá. O embarque fez-se com a confusão habitual, complicada com os embaraços de um mar agitado: os barcos iam cheios de gente; uns de pé, outros sentados na borda, roçando pela água, outros gravemente equilibrados sobre a acumulação pitoresca das bagagens: ria-se, fulminava-se a organização e a polícia das festas, gritava-se um pouco quando os barcos pesados oscilavam mais inquietadoramente. Nós subimos para o Fayoum, que devia levantar ferro nessa tarde, apesar do tempo contrário e dos mares que nós víamos partir de longe na linha de rochedos que precede a baía de Alexandria. E ao outro dia, por uma bela luz da manhã, entrávamos em Port Said por entre os dois grandes molhes que se adiantam paralelamente pelo mar, feitos de poderosos blocos de pedra solta. Port Said é uma cidade improvisada no deserto. É uma cidade de indústria e de operários: isto dá-lhe uma especialidade de fisionomia: estaleiros, forjas, serralharias, armazéns de materiais, aparelhos destilatórios. Tal é Port Said. A sua construção foi determinada pela necessidade de haver um vasto porto, que fosse uma estação de navios, à entrada do canal, e primitivamente, para que engenheiros, maquinistas, diretores de obras, tivessem um centro. Isto dá-lhe um aspeto de cidade provisória. Como havia espaço, as ruas são largas como praças e compridas como avenidas: as casas são baixas, de materiais ligeiros: sente-se a construção rápida e a incerteza da duração. Ali em Port Said, apesar dos seus doze mil habitantes, não há ainda um viver definitivo e regular. Não há estabelecimentos feitos na esperança da duração, não há comércios fixamente estabelecidos: tem tudo o aspeto de uma feira, que hoje ganha e prospera e amanhã se levanta e se dispersa. E isto porque, apesar da confiança de toda a população na prosperidade do canal, nenhuma profissão, nenhum comércio se quer arriscar a estabelecer-se de um modo definitivo, correndo o perigo de ver aquele começo de cidade estiolar-se e morrer miseravelmente. Pois tal seria a sorte de Port Said, bem como de Ismailia, se o canal fosse uma inutilidade, abandonada do comércio e da navegação.

A sua construção ressente-se pois destas circunstâncias: nem edifícios, nem monumentos, nem construções sólidas e sérias: tudo é ligeiro, barato, provisório. A igreja católica é como uma grande barraca: vê-se o céu azul através do seu teto feito de grandes traves mal unidas. Tudo isto dá a Port Said um aspeto triste. No fim das festas, tempo depois, quando ali tornei a passar, em viagem para Jerusalém, pareceu-me pela apatia da vida, pelo silêncio, que o deserto começava de novo a aparecer por entre aquela fraca aparência de cidade.

Mas naquele dia 17, da inauguração, Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos hurras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto de vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os iates dos príncipes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a Aigle, com a imperatriz, o Mamondeh com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José até ao quediva árabe Abd el-Kader. As salvas faziam o ar sonoro. Em todos os navios, empavesados e cheios de pavilhões, a marinhagem, perfilada nas vergas, saudava com vastos hurras. De todos os tombadilhos vinha o vivo ruído das músicas militares. O azul da baía era riscado em todos os sentidos pelos escaleres, a remos, a vapor, à vela: almirantes com os seus pavilhões, oficialidades todas resplandecentes de uniformes, gordos funcionários turcos afadigados e apopléticos, viajantes com os chapéus cobertos de véus e couffiés, cruzavam-se ruidosamente por entre os grandes navios ancorados; as barcas decrépitas dos árabes, apinhadas de turbantes, abriam as suas largas velas riscadas de azul. Sobre tudo isto o céu do Egito, de uma cor, de uma profundidade infinita. À noite a cidade iluminava-se, enchia-se de músicas, de festas populares. As esquadras tinham as suas armações e cordagens cobertas de fios de luz. Durante toda a noite os fogos-de-artifício, numa grande linha de terra, faziam, sobre o céu escuro, grande bordado luminoso.

Na baía havia um viver completo, como numa cidade: bailes a bordo dos navios, jantares, visitas trocadas, receções, passeios a remo, serenatas nos escaleres. De tudo isto saía uma luz, um ruído, um fluido de vida poderosamente original. Havia em Port Said um café-cantante, memorável pela excentricidade da sua alegria: estava tão cheio de gente, que era necessário fumar, beber, ouvir, de pé, sufocado, hirto. Quando no palco aparecia a atriz para dizer a sua canção, as mil vozes daquela imensa multidão, acompanhadas do tinir cadenciado dos copos, do bater dos pés, dos assobios, dos uivos, dos gritos, começavam repetindo, com estrondo assombroso, a canção conhecida da atriz. Era bestial e extraordinário.

No dia seguinte ao da chegada, descemos todos a terra para a cerimónia da inauguração. Do lado oposto aos molhes, para além da cidade, tinham-se construído três pavilhões, estrados tapetados e blasonados, sobre a areia húmida da espuma do mar. Era nesse lugar a celebração religiosa: os ulemás e os padres cristãos deviam abençoar e consagrar nos seus ritos o canal de Suez. Um grande cortejo de convidados precedido dos príncipes, entre os quais sobressaía a pensativa e bela figura de Abd el-Kader, dirigiu-se para esse lugar, entre duas fileiras de soldados egípcios, de arcos, de bandeiras, e de árabes que abriam grandes olhos. No pavilhão principal, de cores triunfantes, colocavam-se os convidados reais e imperiais e os mais que podiam caber; no outro pavilhão estavam os ulemás maometanos; no terceiro os padres latinos, gregos, arménios e coptas.

Quando tudo estava colocado e o grande rumor da chegada e da confusão se acalmou, os ulemás prostraram-se, voltados para o lado de Meca, os padres cristãos começaram a missa, a artilharia salvou nas esquadras. Entretanto a multidão apinhava-se sobre a areia húmida em volta dos estrados; a grossa figura vermelha do quediva estava radiosa, a imperatriz tinha um ar de compunção discreta, Mr. De Lesseps tinha o seu belo e inteligente sorriso; em redor e até ao fundo horizonte, o mar sereno reluzia. Quando a artilharia findou, Mr. Bauer adiantou-se à beira do estrado e falou. Mr. Bauer é um homem baixo, pálido, de cara feminina e larga, cabelos pendentes em anéis sobre os ombros, asseado, bordado, perfumado, delicado, e com uma voz assombrosa. O que ele dizia eram palavras de fraternidade entre o Oriente e o Ocidente, esperanças de humanidade mais profunda, unida por aquela ligação marítima, palavras afáveis aos convidados reais, e recordações piedosas pelos corajosos trabalhadores, que durante aquela obra de luta morreram obscuramente. Quando ele disse o nome de Mr. De Lesseps, toda a imensa multidão bateu as palmas. Mr. Bauer findou, e o cortejo voltou à praia e dispersou-se pelos navios. Durante toda a noite os fogos-de-artifício, os clamores alegres da cidade, o ruído dos escaleres, as músicas, encheram a baía de vida.

Ao outro dia os navios começaram a mover-se lentamente, voltando a proa para um ponto da baía de Port Said, onde se erguiam, como os dois umbrais de uma porta, dois obeliscos de madeira vermelhos. Era a entrada do canal de Suez. Entretanto corriam por todos os navios estranhos boatos.

 

In "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"

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publicado às 10:21

 HERBERTO HELDER

 

A Porto Editora vai editar, em Março, "Em Minúsculas", obra de Herberto Helder que reúne as crónicas e reportagens feitas pelo poeta em Angola entre Abril de 1971 e Junho de 1972.

 

Este livro resulta da investigação, transcrição, revisão e selecção de textos feita por Daniel Oliveira, filho de Herberto Helder, Diana Pimentel e Raquel Gonçalves.

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publicado às 19:26


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