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#1995 - René Descartes e o método constelado da matéria

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.16

Carlos Nejar

 

Não quero que me encontrem

ou molestem. Isolo-me no quarto

de um país, onde  posso

entretecer o génio.

Não usei como tantos,

bota rude na perna

cortando o lodaçal,

nem apanhei batatas

no dorso do quintal.

Não quero que me encontrem.

Talvez por desperdício

no sonho, ou por vício

de esquecer-me nos livros.

E a filosofia me convence

de exatidão. Com a erva

úmida a física fermenta

e incha a metafísica

aos ombros, nos torrões.

Não quero que me encontrem.

Evito o endereço nos postais.

E por pensar com o vento,

vou conciso. E um método

é preciso dos objetos

simples aos complexos.

E com a mecânica converso,

e da mente e a celeste.

Se a fantasia engana,

o mundo é a mesma corda

segurada no balde,

ou a gota pelo escuro

da paineira ou das moitas.

Renovar é volver

ao ponto de partida.

Olhar por dentro quando

é num relance a vista.

E o que aprendi a nada

me serviu. E quanto

me custou para adiante

servir-me. As novas ciências

eram noivas que possuí

sem casar com nenhuma.

Matemática, ordem

do universo, espuma

com voo em remos certos.

Mas uma filha tive.

Não, não era a ciência,

se aplaquei o desejo.

E de pensá-la ou percebê-la

existo. Quando nascer

é ato de vertigem.

Pulsando o coração,

como se um grito.

Ou barulho de riacho.

E eu, René Descartes, nada faço

sem antes refutar o preconceito,

a partir dos outros e de mim,

quando a razão que esposo

não demarca seu fim.

Nas coisas: beatitude

sem vestes, canavial

das horas. Nada se urde

no terror. Tais os anais

que longas ondas seguem

e um batel singra. Normas,

regras, tatos na constelar

matéria. E a verdade, martelo

na tensa natureza. Com a água,

movimento do impossível.

E os sentidos sem reparo

nos traem e há que abstrair

até a infância. Como este véu

que a vasta noite arranca.

Não quero que me encontrem,

mais que civilizado, francês,

viajor inveterado, por mim

avança a ideia infinita. Deus.

E a ciência que não

me deixou viver.

 

Poema de Carlos Nejar in "Os Viventes", edição Texto Editores, Ltda,2010, Brasil

´

 

 

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publicado às 16:37


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