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#2716 - PHTONOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

ENIS BATUR

 

 

PHTONOS

 

"Diz-se que na Grécia antiga alguns deuses não tinham corpo.

O que os mantinha não era uma figura, mas um som, um sinal."

Puxou o seu cabelo de prata para trás das orelhas,

fazendo uma pausa entre as frases:

"o que sempre me faz recordar o Requiem de Mozart:

se uma mão ajudar, a morte e a vida podem sobreviver

no mesmo vaso de plantas. Se uma alimentar a outra,

qual é esta, pergunto-me? Algumas perguntas a que não podemos responder

infiltram-se pelos anos, fazem poça na nossa vida."

Distracção. Invocando uma manhã chuvosa de Salzburgo, talvez

a memória lhe esteja sobrecarregada por imagens do hospital

para onde fora levado, a seguir à noite em que começou

o último andamento do seu concerto para violino.

"Por detrás do coro esconde-se o próprio medo, solitário,

inultrapassável: escolher para que lado se virar num cruzamento

parece-me ser a mais glacial das decisões

- sorri com pesar por um momento - talvez seja por isso

que nunca consegui passar o portal que alcancei."

Semente dura, solo fértil - se regados separadamente,

também se alimentariam um ao outro: raízes misturam-se, num enredamento impossível,

tece-se um emaranhado pela sobrevivência lentamente partilhada.

Mas se é mesmo verdade que alguns deuses vivem sem corpo,

então o som phi faz assentar uma mancha escura na sala:

O vaso racha-se, o solo seca, tantas mortes

podem elevar o seu pendão na nossa vida enquanto vivemos.

 

Poema de Enis Batur, in O Divã Cinzento, 1990

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publicado às 14:09


#2382 - APELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.17

 

NAZIM HIKMET RAN (1902-1963)

 

 

APELO

 

Este país, cabeça duma égua

da Ásia ao Mediterrâneo trotando tanta légua

este país é o nosso.

Punhos em sangue banhados, dentes cerrados, planta nua

e chão feito alfombra, toda em seda crua,

este inferno, este céu é o nosso.

Fechem-se as portas de estranhos, não mais voltem a abrir!

O homem não imponha ao homem escravidão!

Este apelo é o nosso.

Viver! Qual árvore, sozinha e livre

e juntos irmanados, qual floresta.

Este anseio é o nosso.

 

Poema do poeta turco Nazim Hikmet Ran

____________________________________________

Nazım Hikmet Ran foi um poeta e dramaturgo turco, conhecido na Europa como o melhor poeta de vanguarda da Turquia, sendo os seus poemas traduzidos para diversas línguas.

 

 

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publicado às 10:36


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