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#2690 - FERNANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.17

 

 

FERNANDO PESSOA, LISBOA ODER UMGEKEHRT

FERNANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

 

Boa tarde, Álvaro de Campo.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no engraxador da Rua de Santa Marta.

Os teus jogos de mão são um soneto

perfeito e acabado, evocando brilhos

em que Lisboa se revê -

lusitana, lascivamente cortejada

com olhos de alçapão.

O Tejo a teus pés engole as lágrimas

negras aqui choradas

pelas vítimas de conquistadores armados de gravata.

 

Boa tarde, Alberto Caeiro.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no cauteleiro de camisa azul,

aquele com os discos de suor nos sovacos.

Como um profeta, prometes na Baixa a toda a gente

o céu na terra.

A tua voz ardente de fadista atravessa-se

entre as casas,

para nos fazer tropeçar nos sons guturais

e cair nos braços da tristeza ferida,

atordoados do bacalhau.

 

Boa tarde, Ricardo Reis.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no guarda-freio da linha 12.

Brilha em ti a criança através das lunetas

quando travas e aceleras o cometa de lata,

sedento de carris, e os passageiros pensam

que chegou o Juízo Final.

Arrastas-te por Alfama, vais-lhe deixando cair

no coração as tuas odes nocturnas,

ancorando os seus dias no devaneio,

apesar da miséria.

 

Agosto de 1997

Poema escrito por Martin Steiner e traduzido por João Barrento

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publicado às 22:53


Philippe Jaccottet

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.09



TRÊS MADRIGAIS


Todas as searas ardem

e a breve cotovia

é um fragmento ascendente desse fogo.

Transpõe todos os patamares do ar

só porque o chão é  demasiado quente.


Há uma belaza que os olhos e as mãos tocam

e que obriga o coração a um primeiro grau no canto,

Mas uma outra foge-lhes e é preciso ir mais alto

até não vermos mais nada,

o belo alvo e o caçador pertinaz

confundidos na jubilação da luz.




Considerarei o céu solar

na hora da incandescência extrema:

é onde temos de atravessar.


Cruzam-se barcas nesse lago de luz.


Agucem melhor o vosso olhar:

vê-las-eis transporem sem ruído essa bruma deslumbrada

e, para lá dela, ancorarem nas águas da noite

para aí deitarem eternamente as suas redes nas profundezas.


 


Abelhas, vinde bordar de brasas estes vestidos

ou estas pálpebras, ou estes lábios, ou este pescoço,


depois, menos incandescentes mas não menos douradas,

espalhai-vos por toda a sede da noite.


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publicado às 22:56


Jurg Beeler

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.03.09



Um dia

igual ao outro

e outro igual,

um dia,


as casas

com a água pelo joelho,


e tu,

a norte de ti,

puseste palavras

nas cavernas glaciares

a rolar,

a rolar


Poema de Jurg Beeler traduzido por João Barrento

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publicado às 13:19


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