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#2458 - A POESIA SOVIÉTICA DE BELLA AKHMADULINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.17

Izabella Akhatovna Akhmadulina, conhecida como Bella Akhmadulina, poeta, tradutora e ensaísta russa.

Nasceu em Moscou, a 10 de abril de 1937, filha de um tártaro e de uma russa, com raízes italianas. Segundo Mikhail Vizel, em artigo especial para a Gazeta Russa do dia 10/04/2017, Bella era “filha do vice-ministro e tradutora da ONU (o que significava, mais provavelmente, uma agente da KGB), além de sobrinha-neta de um amigo pessoal de Lênin que está enterrado junto ao muro do Kremlin”.

 

 

Começou a escrever poemas muito cedo, trabalhou em um jornal de Moscou, frequentava os círculos literários organizados por Evgeny Vinokurov (1925-1993), participou das lendárias “noites de poesia no Museu Politécnico” e dos concertos no estádio Lujniki.

Em 1953, após a morte de Stálin, iniciou o “degelo da União Soviética (URSS)” quando Nikita Kruschev assume o poder. Este período, entre a década de 1950 e meados de 1960, conhecido como “degelo de Kruschev” foi caracterizado pela desativação do Gulag (sigla russa para Glavnoe Upravlenie Legarei, que significa “Administração Central dos Campos”) que eram campos de trabalhos forçados soviéticos e retorno da liberdade de expressão e criativa, assim as restrições sobre a literatura foram flexibilizadas e muitos nomes surgiram. A poesia ganhou força e eram declamadas em estádios para as massas.

Casou-se em 1954, com o também escritor russo Evguêni Ievtuchenko (1933-2017). Seus primeiros poemas foram publicados em 1955, na revista “Oktyábr” (outubro). Terminou os estudos no Instituto de Literatura Maxim Gorki em 1960 neste momento já havia se divorciado de Ievtuchenko. Sua primeira coletânea foi publicada em 1962.

Muito atraente era considerada a musa de todos os poetas.

 

Seu segundo marido foi Yuri Nagibin. Em 1968, divorciou-se de Nagibin. Voltou a casar, em 1971, com Eldar Kuliev, de quem teve uma filha, Elizaveta Kuliev. O casamento durou pouco tempo. Em 1974, Akhmadulina casou-se com o artista Boris Messerer.

Bella Akhmadulina escrevia sobre relações humanas voltadas ao amor e amizade, evitava escrever sobre política, mas mesmo assim se popularizou pela transformação de alguns dos seus poemas em canções.

Ainda na minha pesquisa por mais detalhes sobre Bella, encontrei uma série chamada "Таинственная страсть"( Mysterious Passion):

Esta série é baseada no livro homônimo do escritor russo Vasily Aksyonov (1932-2009), publicado pouco antes de sua morte em 2009. O romance discorre sobre a década de 1960 e seus protagonistas são os ícones da literatura e da arte soviética deste período e entre os nomes representados está o de Bella, além disso o livro contém fotos raras dessa época.

Vasily Aksyonov era filho de Evgenia Ginzburg (1904-1977), jornalista comunista presa no Gulag, acusada de participar de um grupo trotskista contra-revolucionário, permaneceu por 18 anos presa no campo de concentração soviético. Escritor de inúmeras novelas, possui vasta quantidade de obras, mas nenhuma foi traduzida para o português.

POEMAS

 

 Texto de Adriana Caló para a Revista OBVIOUS

 

 

 

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publicado às 19:26


#1378 - Lílitchka! Em lugar de uma carta

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.11

Vladímir Maiakóvski

 

Fumo de tabaco rói o ar.

O quarto -

um capítulo do inferno de Krutchónikh.

Recorda -

atrás desta janela

pela primeira vez

apertei tuas mãos, atónito.

Hoje te sentas,

no coração - aço.

Um dia mais

e me expulsarás,

talvez, com zanga.

No teu hall escuro longamente o braço,

trémulo, se recusa a entrar na manga.

Sairei correndo

lançarei meu corpo à rua.

Transtornado,

tornado

louco pelo desespero.

Não o consintas,

meu amor,

meu bem,

digamos atélogo agora.

De qualquer forma

o meu amor

- duro fardo por certo -

pesará sobre ti

onde quer que te encontres.

Deixa que o fiel da mágoa ressentida

num último grito estronde.

 

Quando um boi está morto de trabalho

ele se vai

e se deita na água fria.

Afora o teu amor

para mim

não há mar,

e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.

Quando o elefante cansado quer repouso

ele jaz como um rei na areia ardente.

Afora o teu amor

para mim não há sol,

e eu não sei onde estás e com quem.

Se ele assim torturasse um poeta,

ele

trocaria sua amada pelo dinheiro e glória,

mas a mim

nenhum som me importa

afora o som do teu nome que eu adoro.

E não me lançarei no abismo,

e não beberei veneno,

e não poderei apertar na têmpora o gatilho.

Afora

o teu olhar

nemhuma lâmina me atrai com seu brilho.

Amanhã esquecerás

que eu te pus num pedestal,

que incendeei de amor uma alma livre,

e os dias vãos - rodopiam carnaval! -

dispersarão as folhas dos meus livros...

Acaso as folhas secas destes versos

far-te-ão parar,

respiração opressa?

 

Deixa-me ao menos

arrelvar numa última carícia

teu passo que se apressa

 

Poema de Vladímir Maiakóvski [1893-1930], traduzido por Augusto de Campos

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publicado às 20:38


#982 - Vladímir Nabókov

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.10.09

VLADÍMIR NABOKÓV


Lembro como vieste: um retinir crescente,

a emoção nova no mundo que desponta.

A lua, coada dos ramos, varre o alpendre.

Cai vagarosamente a lira de uma sombra.


Jovem, via o iambo como um vestido

demasiado áspero nos teus ombros ternos.

Mas era cantante o meu verso imperfeito,

sorrindo na rima de lábios vermelhos.


Era feliz. Na mesa extinguia-se o fogo

oscilante da vela, o sonho ia em frente:

sob o vidro da mesa uma folha imortal

e rutilante nos seus raios de emendas.


Agora é diferente. Não trocava o sono

matinal pela estrela da madrugada.

Já escasseia o ânimo para tanto esforço,

sobretudo para os trabalhos da vaidade.


Sou experiente agora, avaro, intolerante.

Tem um brilho de cobre o meu verso polido.

Agora eu e tu raramente falamos,

através da cerca, como velhos vizinhos.


Sim a maturidade é rigorosamente

pitoresca: uma parra, uma pêra, meia melancia

e - o cúmulo da mestria - ar transparente.

Estou gelado. É outono, ó Musa fria.


Poema de Vladímir Nabókov  (1899-1977) traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra

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publicado às 13:04


Maiakowski

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09



DIGAM!


Digam!

Lá porque estão acesas as estrelas,

será porque elas são necessárias a alguém?

Será porque alguém há a desejar que existam?

Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?

E, vencendo

a poeirenta borrasca do meio-dia,

alguém corre p'ra Deus,

temendo chegar tarde,

chora,

beija-lhe a mão nodosa,

implora -

que lhe falta uma estrela! -

jura

que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.

E depois,

lá vai com a sua angústia,

mostrando paz na cara.

Perguntando a qualquer:

"Agora, está melhor, não é assim?

Já não tens medo?

Não?"

Digam!

Lá porque estão acesas

as estrelas -

será  porque elas são necessárias a alguém?

será porque é - indispensável,

que cada noite

por cima dos telhados

uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?


Poema escrito em 1913


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publicado às 11:32


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