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#3018 - SOTAQUE DA TERRA ||| Poema de Mia Couto

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

 

SOTAQUE DA TERRA

 

Estas pedras

sonham ser casa

 

sei 

porque falo

a língua do chão

 

nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

 

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

 

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

 

Junho de 1986

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publicado às 18:27


Rui Knopfli

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09



Bilhete para

DANILA MICHAELLES

(DANA)


Pelo trajecto sangrento das acácias,

da Mafalala às areias de Polana,

ou à maré morta de Catembe;

do Ho Ling à Casa Elefante,

da Casa Viegas ao Prédio Pott;

da opulenta sombra do cajueiro

à nobre majestade do eucalipto,


ainda resiste, na memória, uma cidade.

Por tardes de longa canícula,

sentada em seu regaço, a menina

dos cabelos cor de cobre, regista-lhe,

com paciente labor, na brancura

do A-3, a minúcia do perfil

que esbatido, aos poucos, lentamente,


no deserto da memória vai morrendo.

Dele, em tempo, só restará o sal

teimoso que, a algum verso,

há-de emprestar o travo amargo

e o que, no rigor afectuoso do teu traço,

da insanável ferida oculta,

é, obstinadamente, a visível cicatriz.

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publicado às 18:41


Seis Poemas de José Craveirinha

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09


 

BLASFÉMIA


No relicário que te acolhe

é-me angustioiso supor

o labor das areias

na madeira.


E meu pesadelo dos pesadelos

a iconoclasta muchém

no afã da sua lavra

orgiando-se voraz.


Blasfémia suprema

o festim.


O COVAL


Excêntrica

é a minha indignada

mesquinha forma de sofrer.


Lúcido

eu a desencher o mundo

tapando-me no mesmo coval.


MONOGRAMA


A sotavento da face

colar aquoso

se desfia


E

em sua fímbria macia

meu lenço azul-escuro

discreto humedece

o monograma

Jota

Cê.


Colar

que se desfia

no próprio lapso.


GUMES DE NÉVOA


Lágrimas?


Ou apenas dois intoleráveis

ardentes gumes de névoa

acutilando-me cara abaixo?


O SACRÁRIO


A ausência do corpo.

Amor absoluto.


Hossanas de sol.

De chuva.

De brisa.

E de andorinhas

resvalando as asas

no ombro de uma nuvem.


Com uma hérbia mantilha

por cima velando

o teu sacrário.


SILEPSES


Ajustadas ao comprido as ripas

esfarelando-se devagarinho

por entre minuciosos

dedilhos de terra.


E

em melancólicas silepses

conspícuas gralhas versejam

extemporâneas férias

da Maria.


Poemas publicados na "Colóquio Letras" n.º 110-111, Julho-Outubro de 1989


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publicado às 18:17


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