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#1538 - MANIFESTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.12.11

 

Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra –
Os poetas desceram do Olimpo.

Para os nossos antepassados
A poesia era um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferente de nossos antepassados
- E o digo com todo respeito... –
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói seu muro
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.

Ademais, uma coisa:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torcida.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
- E o digo com muito respeito...-
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por esbanjarem o espaço e o tempo
Redigindo sonetos à lua
Por agruparem palavras ao azar
Conforme a última moda em Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu abanado.
Propiciamos a mudança
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A cabeça de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser assim:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Porém, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Refrataram e se dispersaram
Ao passarem pelo prisma do cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas
Não sei se foram realmente.
Suponhamos que foram comunistas,
O que eu sei é o seguinte:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverendos poetas burgueses.

Devemos dizer as coisas como são:
Somente um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam de palavra e de peito

Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um fracasso
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão,
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia calcada
Na revolução da palavra
Em circunstâncias de poder fundar-se
Na revolução das idéias.
Poesia do círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão!”

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreviam essas coisas
Para assustar ao pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias?!

A situação é a seguinte:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem.
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia chega para todos.

Nada mais, companheiros
Nós condenamos
- E o digo com respeito...-
A poesia do pequeno deus
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração ardente
Somos pés-no-chão decididos...

Contra poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia de protesto social.

Os poetas desceram do Olimpo.

 

Tradução de Antonio Miranda

 

 poema de Nicanor Parra

 

Extraído de Outros Poemas (1950-1968).

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publicado às 23:07


#1537 - Prêmio Cervantes vai para o poeta chileno Nicanor Parra

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.12.11

 

O chileno Nicanor Parra, conhecido como o pai da “anti-poesia”, ganhou o Prêmio Cervantes 2011. A homenagem foi anunciada nesta quinta-feira, 1° de dezembro, pela ministra espanhola da Cultura, Angeles Gonzalez-Sinde. O escritor, célebre por livros como Poemas y Antipoemas e Obra Gruesa, receberá 125 mil euros.

Conhecido como o Nobel da literatura em língua espanhola, o prêmio Cervantes deste ano foi concedido ao poeta chileno Nicanor Parra. Segundo a presidente do júri, Margarita Salas, Parra foi escolhido por sua carreira variada e “toda uma vida dedicada à poesia”.

O escritor de 97 anos de idade, que já ganhou o prêmio nacional de literatura do Chile, é célebre por obras como Poemas y Antipoemas. O livro, lançado em 1954, e repleto de versos irônicos usando uma linguagem coloquial rara, deu ao escritor o título de “pai da antipoesia” e o transformou em uma referência na literatura chilena.

O ganhador do Cervantes leva para casa um prêmio 125 mil euros, que serão entregues oficialmente em 23 de abril, data de aniversário da morte, em 1616, de Miguel de Cervantes, autor de Don Quichote e uma das maiores figuras da literatura espanhola.

No ano passado, a escolhida foi a espanhola Ana Maria Matute. Nomes como o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa e os mexicanos Carlos Fuentes e Octavio Paz fazem parte da lista dos ganhadores das edições anteriores do Cervantes.

 

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publicado às 22:37


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