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#2218 - UM ARCO-ÍRIS COMPLETAMENTE VULGAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.03.17

 LES MURRAY

 

UM ARCO-ÍRIS COMPLETAMENTE VULGAR

 

Ouve-se dizer em Repins,

o boato segue por Lorenzinis,

em Tattersalls, homens levantam os olhos de folhas de números,

os escrevinhadores da Bolsa esquecem o giz que têm na mão

e homens com pão nos bolsos saem do Clube Grego:

Há  um tipo que chora em Martin Place. Não o conseguem deter.

 

O tráfico em George Street está engarrafado meio quilómetro,

sem se mover. As multidões conversam nervosamente

e mais multidões chegam a correr. Muitos atropelam-se em ruas laterais

que minutos antes eram atarefadas ruas principais, apontando:

Há um tipo que chora lá em baixo. Ninguém o consegue deter.

 

O homem que rodeamos, o homem de que ninguém se aproxima

chora simplesmente e nem sequer o esconde, não chora

como uma criança, nem como o vento, chora como um homem

e não o proclama, nem bate no peito, nem sequer

soluça muito alto - mas a dignidade do seu choro

 

mantém-nos afastados do seu espaço, do vazio que constrói à sua volta

na luz do meio-dia, no seu pentagrama de dor

e os funcionários na multidão que o tentam agarrar

olham para ele, abismados, com o espírito

desejando lágrimas como crianças um arco-íris.

 

Alguns dirão, anos depois, que havia uma auréola

ou um campo de força à sua volta. Não há nada disso.

Alguns dirão que se sentiram chocados e o teriam detido,

mas esses não estiveram lá. A virilidade mais bravia,

a reserva mais áspera, a inteligência mais astuta ali presente

 

treme em silêncio, e arde com juízos

inesperados de paz. No ajuntamento alguns gritam,

que se julgavam felizes. Só as crianças mais pequenas

e os que parecem ter saído do Paraíso se acercam dele

e sentam-se aos seus pés, junto de cães e pombos sujos de pó.

 

Ridículo, diz um homem perto de mim, e tapa

a boca com as mãos como se tivesse pronunciado um vómito - 

e vejo uma mulher, brilhando, estender a mão

e tremer quando recebe a dádiva do choro;

todos quantos a seguem também a recebem

 

e muitos choram só por terem aceite e muitos mais

recusam-se a chorar com medo de toda a aceitação,

mas o homem que chora, como a terra, nada exige,

o homem que chora ignora-nos, e o que na

sua face contorcida e no seu corpo vulgar ele exclama

 

não são palavras, mas dor, não são mensagens, mas pena,

duras como a terra, simples, existentes como o mar.

E quando pára, caminha placidamente por entre nós

limpando a cara com a dignidade de um

homem que chorou e agora acabou de chorar.

 

Evitando crentes, ele apressa-se pela Pitt Street.

 

Poema do poeta australiano LES MURRAY

 

 

 

 

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publicado às 18:18


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