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#2705 - No Palácio do Marquês de Fronteira em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

EVA CHRISTINA ZELLER

 

NO PALÁCIO DO MARQUÊS DE FRONTEIRA EM LISBOA

 

Um gato preto guia-nos:

queiram ter a bondade os aposentos particulares do Marquês

aqui tomam-se as refeições

aqui acende-se a lareira à noite

atrás destas portas vivem os gatos

não, crianças não

azulejos centenários

batalhas caçadas um pastor pintado

voilá e aqui fora queiram ter a bondade sob o azul

o azul cacos mosaicos azulejos reunidos e desbotados

Poesia Diana Neptuno

a Justiça é cega minhas senhoras

mas ali estão so cisnes pretos devido ao ruído da cidade passam pelas grutas

e os seus pescoços

não, vejam com os vossos próprios olhos

e no parque cuidado por favor

em restauro as fachadas

já muitos caíram estenderam-se

como a deusa da Vitória dentro da hera

compreendem, todo esse tempo e o ruído

o  betão nos ossos corrói

um pequeno rosto olha-me, vindo do arbusto de buxo

como se fosse o meu

 

POEMA DE EVA CHRISTINA ZELLER

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publicado às 20:03


#2648 - Poema em que dos meus cuidados se trata

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.17

 UWE KOLB (17 DE OUTUBRO DE 1957)

 

POEMA EM QUE DOS MEUS CUIDADOS SE TRATA

 

I

O papel do vento no fim do mundo

ainda é desconhecido, mas qundo o crânio descoberto

se ergue nesta atmosfera e o herói abandonado avança

por ruas mais quentes

dominado pelo desejo de chegada,

o caminho torna-se corrida, espera

a alma (qual relógio de quartzo ou de pedra milenária

à discrição e poupado desde aquele primeiro

som próprio),

chamada, exigida e inabalável

afastando o casaco, o cachecol, os sapatos húmidos, palavra

a palavra, tabu a tabu,

descansando, descodificando de onde, de dentro de onde,

para poder inventar -

... as matérias da infância. De facto não se assemelham.

Adulto, ousa aqui, sendo o mesmo,

descoberta e ermitério.

 

2

No meio da corja de eunucos modestos

de desistentes no meio deste povo azul,

pregar a pátria: a consciência

com o nome de dúvida fraterna,

a folha negra, brilhante, que se levanta

como olhar, fala, riso dos

sempre e ainda obrigados a encher frigoríficos.

 

3

Tão minúsculo começa o poema, enfaticamente

asfixia, nada explica além de si próprio,

remetido, como sempre, à sua resistência

às duas supralínguas alemãs,

continua agora arritmicamente (infelizmente, amor)

aterra por fim despedaçado e desviado:

tempo e lugar já não se podem escolher,

são ilha como balão preso

e tudo o que se experimentou em Patmos.

 

Poema de Uwe Kolbe, poeta alemão

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publicado às 19:58


#2089 - AOS QUE VIRÃO A NASCER

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.07.16

 

AOS QUE VIRÃO A NASCER

 

I

 

É verdade, vivo em tempo de trevas!

É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa

Revela insensibilidade. Os que riem

Riem porque ainda não receberam

A terrível notícia.

 

Que tempos são estes, em que

Uma conversa sobre árvores é quase um crime

Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?

Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,

Não estará já disponível para os amigos

Em apuros?

 

É verdade ainda ganho o meu sustento.

Mas acreditem: é puro acaso. Nada

Do que eu faço me dá o direito de comer bem.

Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)

 

Dizem-me: Come e bebe!  Agradece por teres o que tens!

Mas como posso eu comer e beber quando

Roubo ao faminto o que como e

O meu copo de água falta a quem morre de sede?

E apesar disso eu como e bebo.

 

Também eu gostava de ter sabedoria.

Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:

Retirar-se das querelas do mundo e passar

Este breve tempo sem medo.

E também viver sem violência

Pagar o mal com o bem

Não realizar os desejos, mas esquecê-los.

Ser sábio é isto.

E eu nada disso sei fazer!

É verdade, vivo em tempo de trevas!

 

II

 

Cheguei às cidades nos tempos da desordem

Quando aí grassava a fome

Vim viver com os homens nos tempos da revolta 

E com eles me revoltei.

E assim passou o  tempo

Que na terra me foi dado.

 

Comi o meu pão entre as batalhas

Deitei-me a dormir entre os assassinos

Dei-me ao amor sem cuidados

E olhei a natureza sem paciência.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.

A língua traiu-me ao carniceiro.

Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo

Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

As forças eram poucas. A meta

Estava muito longe

Claramente visível, mas nem por isso

Ao meu alcance.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

III

 

Vós, que surgireis do  dilúvio

Em que nós nos afundámos

Quando falardes das nossas fraquezas

Lembrai-vos

Também do tempo de trevas

A que escapastes.

 

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos

As guerras de classes, desesperados

Ao ver só injustiça e não revolta.

 

E afinal sabemos:

Também o ódio contra a baixeza

Desfigura as feições.

Também a cólera contra a injustiça

Torna a voz rouca. Ah, nós

Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade

Não soubemos afinal ser amáveis.

 

Mas vós, quando chegar a hora

De o homem ajudar o homem

Lembrai-vos de nós

Com indulgência.

 

Poema de Bertolt Brecht

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publicado às 18:12


#1397 - Fausto

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.06.11

 

Filosofia, Leis e Medicina,

Teologia até, com pena o digo,

Tudo, tudo estudei com vivo empenho!

E eis-me aqui agora, pobre tolo,

Tão sábio como dantes! É verdade

Que sou mestre, doutor, e há já dez anos

Que discípulos levo, a meu talante,

À esquerda, à direita, a sul ou norte, -

Mas conheço que nada nós sabemos!

Rói-me isto o coração! Sinto-me acima

De mestres e de padres e de escribas;

Não me perseguem dúvidas nem 'scrúpulos,

Nem do demónio ou do inferno hei medo -

Mas também nunca tenho um'hora alegre!

Nem chego a imaginar que haja ciência

Cousa alguma ensinar que aos homens sirva,

E convertê-los possa ou melhorá-los.

 

Um excerto de "Fausto" de J.W. Goethe, traduzido por Agostinho d'Ornellas, numa edição de Paulo Quintela e apresentação de Ludwig Scheidl - Asa Editores, Abril de 2006

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publicado às 14:45


#1015 - Rolf Dieter Brinkmann (1940-1975)

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.11.09



POEMA


Paisagem destruída,com

latas de conserva, as entradas das casas

vazias, o que há lá dentro? Aqui cheguei


à tarde, de comboio,

duas panelas atadas

ao saco de viagem. Agora deixei


para trás os sonhos que sopram

numa encruzilhada. E pó,

pavana fragmentada, néon


morto, jornais e carris,

este dia, que me resta agora,

um dia mais velho, mais afundado e morto?


Quem é que disse que a isto

se chama vida? Eu retiro-me

para outros tons de azul.


Poema de Rolf Dieter Brinkmann

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publicado às 23:05


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