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#3098 - RAIO X ||| POEMA DE DANNIE ABSE

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.04.20

DANNIE ABSE - (1923-2014)

 

RAIO X

 

Alguns revistam o fundo do mar, alguns lançam-se a uma estrela

e, mãe, alguns obsessivos voltam ao contrário cada pedra

ou abrem sepulturas para que entre aquela luz da estrela.

Há homens capazes de abrir seja o que for.

 

Harvey, a circulação do sangue,

e Freud, a circulação dos nossos sonhos,

espreitaram honradamente e honrados são

como todos os exploradores. Homens capazes de abrir homens.

 

E aqueles outros, mãe,  com doenças

como ruas grandiosas que tomaram o seu nome: Addison,

Parkinson, Hodgkin - médicos capazes de chegar

depressa e primeiro a qualquer cena amarga com um leito de morte.

 

Deles sou o colega lento, meio amedrontado,

incurioso. Em rapaz era assim: sabes como

a minha pequena mão nunca arreliou até destroçar

um despertador ou retalhou um rato morto.

 

E esta mão maior é igual. Estende-se agora

de uma manga branca para erguer, mãe,

o teu raio x até ao ecrã brilhante. Os meus olhos vêem

mas não querem ver; eu ainda não quero saber.

 

POEMA DE DANNIE ABSE, TRADUZIDO POR CECÍLIA REGO PINHEIRO

 

 

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publicado às 19:56


#3097 - AS MÃES ||| POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.04.20

 EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005)

 

AS MÃES

 

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes enconstam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas  pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma  ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das , tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela,regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando algumas azeitonas para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela, só ele vê.

 

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressureição.

 

Poema de Eugénio de Andrade

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publicado às 13:04


#3096 - ALUCINAÇÃO ||| POEMA DE JOSÉ HIERRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.20

JOSÉ HIERRO  (1922-2002)

 

ALUCINAÇÃO

 

      Amanhece. Saí descalço a pisar os caminhos,

a sentir a geada em minha carne nua.

Tanta luz, tanta vida, tão verde canto da erva!

Tão feliz criação erguida ao mais alto cume!

Sinto o tempo passar e perder-se e só fora de mim se detém.

E o universo parece que está  encantado, tocado pela graça.

Tantas coisas eternas que ao tempo estragam sua trágica espada!

Tanta luz, caminhos tão abertos!

Tanta vida que evita os séculos e no dia   sua magia ordena!

 

      Se a flor, se a pedra, se a árvore, se o pássaro;

se seu olor, sua dureza, seu verde arquejo, seu voo entre o céu e o ramo.

Se todos me devem sua vida, se à minha custa, da minha morte sua vida é possível,

à minha custa, da minha morte diária...

 

      Tanta luz, tão remoto pulsar da erva...!

(Saí descalço a sentir a geada em minha carne nua.)

Tanta luz, tão escura pergunta!

Tão escura e difícil palavra!

Tão confuso e difícil buscar, pretender compreender e aceitar,

e para o que não pára nunca...

 

Poema do poeta espanhol José Hierro traduzido por José Bento

 

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BIOGRAFIA

 

José Hierro del Real. (Madrid, 3 de abril de 1922-21 de diciembre de 2002). Poeta español, crítico de arte y académico de la Real Academia de la Lengua.

Su familia se traslada a Santander siendo niño y allí estudia la carrera de perito industrial, que tuvo que interrumpir en 1936. Su primer poema, Una bala le ha matado, aparece publicado en 1937.

Al finalizar la Guerra Civil es detenido y procesado. Permanece en la cárcel hasta 1944 y allí empieza a interesarse de forma sistemática por la literatura, apareciendo ya en sus primeros escritos diversos hechos vividos durante la contienda.

Cuando sale de prisión se traslada a Valencia, donde se dedica a escribir, colabora en un diccionario mitológico y, junto a José Luis Hidalgo, participa en la fundación de la revista Corcel. En 1944 realiza la primera crítica pictórica sobre la obra de Benito Ciruelos.

Durante los años 40 vuelve a Santander y, además de trabajar en diferentes oficios, colabora en la revista de la Cámara de Comercio, donde escribe sobre economía y sobre los hombres ilustres de la industria cántabra.

En 1946 se relaciona con el renovador grupo "Proel", editor de la revista poética del mismo nombre en la que publica su primer libro de poemas, Tierra sin nosotros, en 1947.

En 1950 escribe Con las piedras, con el viento y en 1953 aparece Antología poética, una amplia selección de su obra lírica.

Durante esa época fija su residencia en Madrid, donde comienza a trabajar en Radio Nacional de España, además de realizar crítica de arte y colaborar en revistas y periódicos.

En 1954 edita Estatuas yacentes y en 1962 el volumen Poesías completas.

Durante las décadas siguientes continúa creando poesía, participa en actividades literarias, realiza crítica de arte analizando la obra de artistas del campo de la pintura y de la escultura, y forma parte de numerosos jurados literarios. Pronuncia gran número de conferencias sobre poesía y arte en la mayoría de las capitales europeas y sus poemas figuran en las más destacadas antologías de poesía contemporánea.

Está  considerado como una de las voces más representativas de la poesía social de posguerra.

 

FONTE DA BIOGRAFIA: INSTITUTO CERVANTES

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publicado às 12:30


#3094 - POEMA DIDÁCTICO ||| POEMA DE PAULO MENDES CAMPOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.20

PAULO MENDES CAMPOS (1922-1991) |||  BRASIL

 

POEMA DIDÁCTICO

 

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo

Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.

Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos

Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.

 

No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,

Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,

Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,

Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,

Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,

Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria

Que se deita sobre a cidade, olhabdo a ferrovia, a fábrica,

E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.

Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,

Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio

E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?

 

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante

Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio

Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.

Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.

Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.

E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -

E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -

E não olhei mais a estrela - mas o rosto que reflectiu o seu fulgor.

Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?

O mundo, companheiro, decerto não é um desenho

De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)

Mas um desencontro de frustrações em combate.

Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem

- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem-estar...

 

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.

Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética

Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa

Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.

O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,

Não filtraria no escuro um homem inconsequente,

Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem

É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -

Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.

 

Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo

Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -

É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,

Quando ainda sofria sobre armações metálicas do mundo,

Acuado como um cão metafísico, eu gania para  a eternidade,

Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,

A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.

Por isso, agora, organizei  meu sofrimento ao sofrimento

De todos: se multipliquei a minha dor,

Também multipliquei a minha esperança.

 

POEMA DO POETA BRASILEIRO PAULO MENDES CAMPOS

 

 

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publicado às 09:53


#3091 - DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO ||| POEMA DE JULIO CORTÁZAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

JULIO CORTÁZAR (1914 -1984)

 

DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO

 

Cada vez são mais os que crêem menos

Nas coisas que preencheram as nossas vidas,

Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,

O verbo, a pomba sobre a arca da História,

A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

 

Nem por isso caem do céu do neófito

Na ciência que expõe máquinas na lua;

Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard

Faça transplantes do coração

Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um

Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida

Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

 

 Cada vez são mais os que crêem menos

Na utilização do humanismo

Para o nirvana estereofónico

De mandarins e estetas.

 

Sem que isto queira significar

Que quando houver um instante de inspiração

Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,

Ou se vislumbre os trémulos anjos

De Angélico.

 

POEMA DE JULIO CORTÁZAR TRADUZIDO POR  JORGE HENRIQUE  BASTOS

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BIOGRAFIA

Escritor argentino, Julio Cortazár nasceu a 26 de agosto de 1914, em Bruxelas, na Bélgica, durante uma viagem de negócios empreendida pelos seus pais. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires, onde Cortázar veio a estudar, obtendo, em 1935, habilitações como professor do ensino secundário pela Escuela Normal de Professores Mariano Acosta. Ingressou depois na Universidade de Buenos Aires e deu aulas nas escolas secundárias de Bolívar, de Chivilcoy e de Mendonza.
Em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Universidade de Cuyo, em Mendonza, onde se envolveu numa manifestação contra a política populista e sindicalista de Juan Domingo Peron, pelo que foi encarcerado. Posto em liberdade pouco tempo depois, viu, no entanto, vedada a sua carreira académica. Assumiu então, e em 1946, a direção de uma editora em Buenos Aires, funções que desempenhou até 1948, altura em que completou a sua licenciatura em Direito e Línguas. Cortázar passou então a trabalhar como tradutor.
Em 1949 publicou a sua primeira obra digna de interesse, Los Reyes, um longo poema narrativo em que utilizava arquétipos como o Minotauro e o Labirinto de Creta. Em 1951, época em que o regime de Peron se estabelecia como ditadura, publicou numa revista mantida por Jorge Luis Borges, a Los Anales de Buenos Aires, a sua primeira coletânea de contos, com o título Bestiário (1951).
Nesse mesmo ano, e em resultado das perseguições que lhe foram movidas, o autor optou pelo exílio, mudando para Paris, cidade que não mais abandonaria. A partir de 1952 passou a trabalhar para a UNESCO como tradutor independente.
Continuou a publicar coletâneas de contos, como Final de Juego (1956), Las Armas Secretas (1959), obra que viria a ser adaptada para cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni, com o título Blow Up, em 1966. Em 1960 consagrou-se também como romancista, com o aparecimento de Los Premios, obra em que contava o rumo de um grupo de pessoas que ganham como prémio de lotaria um cruzeiro-surpresa. O seu romance mais conhecido, Rayuela, seria publicado em 1963. A obra, original e imaginativa, influenciou significativamente a literatura da América Latina.
Em 1973 empreendeu uma longa viagem pela América do Sul, visitando países como o Peru, o Equador, o Chile e a Argentina, como investigador das violações dos direitos humanos no continente, apoiando, com os ganhos resultantes da venda das suas obras, os Sandinistas e as famílias de prisioneiros políticos.
Em 1975 lecionou, como professor convidado, nas Universidades de Oklahoma e do Barnard College de Nova Iorque. Em 1981 tomou a nacionalidade francesa e, dois anos depois, foi-lhe autorizado visitar de novo a Argentina.
Faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris. Embora seja geralmente aceite como causa da sua morte uma leucemia, existe também a opinião de que o autor tenha sido vítima de SIDA, nesse tempo ainda não diagnosticável.
 
Fonte da Biografia: BERTRAND

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publicado às 19:13


#3090 - AS VOZES TRISTES ||| POEMA DE RICARDO JAIMES FREYRE

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

RICARDO JAIMES FREYRE (1868-1933)

 

AS VOZES TRISTES

 

      Pelas brancas estepes

vai o trenó ligeiro;

distantes, os uivos dos lobos

unem-se aos cães em seu resfolêgo denso.

 

      Neva.

Dir-se-ia que o espaço se envolvera num véu,

recamado  de lírios

pelas asas do nordeste.

 

      O infinito branco...

Sobre o vasto deserto

voga uma vaga sensação de angústia,

de supremo abandono, fundo e sombrio desalento.

 

      Um pinheiro sozinho

ao longe é um desenho,

num fundo de brumas e de neve,

como esguio esqueleto.

 

      Entre os dois sudários

da terra e do céu,

avança no Nascente

o gelado crepúsculo de Inverno...

 

Poema do poeta Boliviano Ricardo Jaimes Freyre.

Jossé Bento traduziu

 

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publicado às 18:31


#3089 - O TEMPO CONCRETO ||| POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.03.20

O TEMPO CONCRETO

 

O tempo duro

com estas unhas de pedra

este hálito pobre

de órgãos esfomeados

estas quatro paredes de cinza e álcool

este rio negro correndo nas noites como um esgoto

 

O tempo magro

em que minhas mãos divididas

nitidamente separadas e caídas

ao longo dum corpo de cansaço

pedem o precipício a hecatombe clara

o acontecimento decisivo

 

O tempo fecundo

dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres

repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias

das ruas agrestes e pequenas da mágoa

familiar e precisa como uma esmola certa

 

O tempo escuro

da peste consentida do vício proclamado

da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos

da fome concreta dum sonho proibido

e do sabor amargo dum remorso invisível

 

O tempo ausente

dos olhos dum desejo de claras cidades

em que acenamos perdidos às soluções erguidas

com vozes bem distintas de cadáveres opressores

com gritos sufocados de problemas supostos

 

O tempo presente

das circunstâncias ferozes que erguem muros reais

dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos

das anedotas contadas num outro mundo de cafés

e das vidas dos outros sempre fracassadas

 

O tempo dos sonhos

sem coragem para poder vivê-los

com muralhas de mortos que não querem morrer

com razões de mais para poder viver

com uma força tão grande que temos de abafar

no fragor dos versos disfarçados

 

O tempo implacável

em que juramos de pé viver até ao fim

maiores dos que nós ser todo o grito nu

pureza conquistada no seio da vida impura

um raio de sol de sangue na face devastada

 

O tempo das palavras

numa circulação sombria como um poço

de ecos incontrolados

de timbres inesperados

como moedas de sangue cunhadas numa noite

demasiado curta e com luar de mais

 

O tempo impessoal

em que fingimos ter um destino qualquer

para que nos conheçam os amigos forçados

para que nós próprios nos sintamos humanos

e este fardo de trevas esta dor sem limites

a possamos levar numa mala portátil

 

O tempo do silêncio

em que o riso postiço dos fregueses da vida

finge ignorá-lo enquanto soluçamos

de raiva de razão reprimida revolta

e os senhores de bom senso passeiam divertidos

 

O tempo da razão

(e não da fantasia)

em que os versos são soldados comprimidos

que guardam as armas dentro do coração

que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue

a tinta de escrever duma nova canção

 

poema de antónio ramos rosa

 

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publicado às 12:40


#3087 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.20

Assimilando a árvore a borboleta e os gatos

no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho

com a saliva do  calor e os escuros fragmentos

regresso à lentidão de um baile a um violoncelo

tocado por um gnomo sobre um telhado de metal

Trago uma lâmpada de orvalho para  atravessar o abismo

e um pássaro adormecido sobre uma folha verde

Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua

mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis

entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor

Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes

enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram

Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada

e na fragrância do arco quando a consistência

é a bondade que flui entre os cornos da dança

Atravesso os murmúrios disfarçados ou os símbolos

que alçam as lânguidas cabeças submersas

até que os signos os alcancem e os respirem

Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras

Escondo-me num olho e voo dentro da sombra

Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes

Sedento movo as paredes na ternura da água

Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas

enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água

Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza

Os conceitos suspiram entre a língua das flores

Guitarra e musgo e tempo acariciado

perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas

Mulheres com sombrinhas descalças sobre a praia

o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias

Coloco a mão na âncora deste ritmo

O sangue penetra a garganta o sangue das flautas

e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso

que é um orgão do sol e um violino da lua

De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela

uma água enigmática desliza entre carícias

Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria

e o corpo saboreia o horizontal relâmpago

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA 

 

 

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publicado às 20:52


#3085 - UM PONTO ||| POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.03.20

 

UM PONTO

 

Um ponto - talvez um centro

em permanência de tranquilidade

para a noite inteira. Um ponto

extremo, interno. Um pequeníssimo ponto

invulnerável

de estabilidade total

- nascido como? - fruto do espaço limpo,

de aberta aderência nua ao ar,

de contância livre, desocupada,

do descanso de ser até ao fundo simples,

de completa entrega?

 

Um ponto nu inabitado branco

de intocável serenidade,

fixo como um nervo e imponderável,

de fim inicial,

ponto de respiração,

clareira de estar,

abertura central viva

praia de ser e nada

- mas apenas um ponto, um puro ponto

contra a noite inteira,

contra o frio,

contra a destruição.

 

Ponto de união

de paz coextensa à noite,

opaco e diáfono nó

do desenlace perfeito.

Nó de água

da água mais nua.

Ninho interno do espaço.

Pequena lua essencial

num horizonte de segua paz.

 

Ponto, em ti descanso,

certeza do mundo e de mim

em ti, dentro da noite,

atinjo o equilíbrio actual e puro.

Ponto, antes do início,

de ti a ti, em mim,

pulsação lisa e leve,

suave motor da terra,

a pacífica respiração do oásis.

 

Ponto

de universo fixado

onde atingi a consistência dócil

de permanecer entrgue,

plenitude abrigada

na navegação nocturna.

 

Um ponto vazio,

plenamente vazio.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN "ANTOLOGIA POÉTICA", EDIÇÃO PUBLICAÇÕES D. QUIXOTE, 2001, COM PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

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Biografia

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 
A crescente importância que a actividade literária foi tomando na sua vida levou-o a certa altura a abandonar o emprego no escritório em que trabalhava, para a ela se dedicar exclusivamente, com todas as consequências que tal decisão acarretava.
 
 

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publicado às 16:42


#3081 - FRANZ KAFKA ||| POEMA DE WILLIAM OSPINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.20

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FRANZ KAFKA

 

Pai, digo-lhe, dá-me três grãos de cevada para despertar o adormecido.

Mas meu pai não responde:

é um enorme cavalo de bronze, alto sobre colinas e sinagogas.

Mãe, digo-lhe, afasta tanta névoa,

mostra-me um rosto doce, de onde brotem palavras ingénuas.

Mas ela perdeu-se pelos becos de pedra

e só encontro no espelho os seus olhos imensos.

Avô, digo então, já não lutes mais com o anjo,

vem contar-me histórias, junto ao ninho, enquanto gela o Elba.

Mas o velho olha-me com olhos ausentes, e  compreendo

que não é este o meu avô mas um velho cigano que me quer vender uma recordação.

Irmã, bela irmã, digo-lhe,

toma a minha mão pois faz escuro nesta casa imensa.

Mas ao meu lado passa uma condessa polaca monumental e arrogante

e ouve-se um violino, e fecha-se uma porta.

Irmão, digo, que belo cavalgar sobre o cavalinho de pau e de laca,

para onde nos levam estas tardes incertas?

Mas ele é só uma imagem, uma fotografia cinzenta nas minhas mãos,

e ao longe, atrozes, os canhões ressoam.

Goethe, digo-lhe, canta-me uma canção romana,

faz com que eu sinta no meu coração esta antiga tristeza.

Mas a lousa cala-se e sobre ela voam pombas cinzentas

e não posso abrir este livro porque as páginas são de cinza.

Milena, digo logo, talvez possas tu finalmente salvar-me,

diz-me que sou de carne e de sangue, que isto que me aflige é um desejo.

Mas ela faz-se fantasma entre milhares de seres esquálidos

e apenas apercebo duas chamas que se apagam muito longe.

 

Então é delírio tudo isto? A quem posso chamar que me salve?

O seu reino é deste mundo. Todos estão aceites e absolvidos.

São demasiado humanos, são demasiado justos,

e não consigo falar-lhes com o meu estrondo de élitros..

E não aprendi a atravessar as portas,

e não sei defender-me.

Se vires dois olhos cinzentos de gato na gótica noite de Praga

compreenderás que tento saber onde me encontro.

Se ouvires um coração na gótica noite de Praga

compreenderás quem sustenta todo este sonho.

 

Poema de William Ospina, do livro "Um país que sonha - cem anos de poesia colombiana", edição 1512, Março de 2012

 

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publicado às 18:00

NATÉRCIA FREIRE   |||   1919-2004

PARA O INSTANTE DE NOS PERDERMOS

 

Para o instante de nos perdermos,

estão soando já todos os sinos do Mundo!

E as sereias, no mar, se impacientamm

de nevoeiros sem fim.

Como será?...

Morrerei longe de ti?

Dir-me-ás adeus numa gare escura e fria 

ou partirás, de neve, entre a luz da manhã,

enlutada e viúva do clarão dos teus olhos?

 

Como será...?

Todas as aves que soltamos no sonho

estão suspensas no bronze, dessa música triste.

Todas as veredas que sulcamos, sem corpo,

vestem cinza e poeira de incêndios e de sóis...

Como será?

Pergunto aos ventos todos,

às aves e às alturas

e nada me responde!

 

Porque o instante de nos perdermos

será mais negro que o apagar do sol;

mais triste que o desabar dos mundos;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as crianças

nos berços feitos de astros;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as flores

em todos os jardins e campos da Terra.

 

Todos os amorosos mortos

estão chorando nos túmulos o instante de nos perdermos

e tecem, à nossa volta,

esta sede, esta dor, esta infinita procura

de todas as vidas que em nós brotam e se ocultam

em cada minuto de paixão.

 

São as suas vozes que vibram nos nossos ouvidos

e nos roçam, na pele, um vento de perdição.

É a recordação das suas  penas

que nos ensina a fundir melhor

as nossas almas de Deus.

É o tormento dos seus amores sem braços

que alucina o instante de todas as ausências.

É a dor, é a dor de saber que somos mortais,

com o infinito no peito

e séculos de pedra sobre a poeira que somos!

 

São as suas vozes de séculos que nos ensinam a luz.

São as suas lágrimas de séculos que nos humedecem os olhos  enternecidos.

 

São as  suas bocas desenhadas no espaço,

inatigíveis, fugazes, que nos sugerem o desejo

do beijo mais profundo, mais profundo.

São as suas mãos desfeitas e voláteis

que estão fazendo soar já, na tarde silenciosa,

para o instante de nos perdermos,

todos, todos os sinos do Mundo!

 

_______________________________________________________________________________________

_______________________________________________________________________________________

Natércia Freire

Escritora portuguesa nascida em 1920, em Benavente, e falecida a 19 de dezembro de 2004. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Dirigiu o suplemento literário "Artes e Letras" do Diário de Notícias e colaborou em publicações diversas e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Iniciou-se como decente na escola primária em 1944. Foi convidada para a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que se tornou membro, de 1971 a 1974.
Revelou-se na poesia em 1939 com a coletânea Meu Caminho de Luz. Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por Rio Infindável em 1947 e Anel de Sete Pedras em 1952), Ricardo Malheiros (1955) e Nacional de Poesia (1972), este último pela obra Os Intrusos. Da sua vasta obra destacam-se ainda Horizonte Fechado (1942) e os contos de A Alma da Velha Casa (1945).
 
FONTE INFOPÉDIA

 

POEMA DE NATÉRCIA FREIRE IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO QUASI EDIÇOES, JUNHO DE 2006, COM EDIÇÃO E NOTAS DE PEDRO SENA-LINO E PREFÁCIO DE MARIA GABRIELA LLANSOL                                                

 

 

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publicado às 18:24


#3079 - um desenhador de peixes ||| poema de Charles Bukowski

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.03.20

um desenhador de peixes

 

ele não parava de desenhar peixes

em papéis

e eu disse:

Jack, o que é que se passa?

mas ele não respondia

e a mulher dele disse

não há meio de ele procurar emprego

é isso que se passa

e eu tenho de tomar conta

dos putos; não sei

como é que vamos

fazer esta merda.

 

ele não parava de desenhar peixes

em papéis

e nem bêbedo estava.

 

fui à rua e trouxe 2

garrafas de vinho

e a patroa dele

encheu os copos.

 

e o Jack bebeu o dele

depois praguejou: esta

esferográfica fica sempre

sem tinta

quando estou mesmo no ponto crucial,

no cerne, quando estou

finalmente a arder

na cera imbecil do fogo...

 

atirou a caneta

para uma saco de papel cheio de garrafas vazias,

latas de sardinha e

de feijão vazias, vestiu o casaco

e saiu.

 

para onde é que ele vai?

perguntei.

 

estou-me nas tintas

para onde ele vai,

disse a patroa dele.

depois levantou o vestido

e mostrou-me as pernas;

eram bastante boas, eu

sempre fui um gajo de pernas

mas dirigi-me ao armário

e vesti o casaco.

 

onde é que vais? perguntou ela.

 

vou procurar emprego,

disse-lhe,

há um anúncio no Times,

precisam de porteiros

no novo edifício Fleischman.

 

desci os degraus

e andei meio quarteirão para norte

até ao bar mais próximo.

 

O jack estava lá sentado.

 

Não sei, disse ele,

acho que me vou

matar.

 

não faz mal, disse eu,

isso vai acontecer

de qualquer modo.

 

ficámos ali sentados o resto da tarde

a beber

e por volta das 7 da tarde saímos,

ele com uma tipa de cabelo flamejante

e eu com uma manca

leitora de Henry James

que se ria de boca

à banda.

 

estavam 17 graus

e pouco restava

do mundo.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI RETIRADO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO  ALFAGUARA DE NOVEMBRO DE 2018. ROSALINA MARSHALL TRADUZIU E VALÉRIO ROMÃO FEZ A SELECÇÃO, A ORGANIZAÇÃO E O PREFÁCIO

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publicado às 18:22


#3074 - ROMANCE DE UM FUTURO NATAL (POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.01.20

David Mourão-Ferreira  |||  24 fevereiro 1927 - 16 junho 1996

ROMANCE DE UM FUTURO NATAL

 

Vai a caminho de Marte

um foguetão de turistas

Turismo pobre   É um charter

de tarifa reduzida 

Ou serão refugiados

Parece que vão fugidos

Quem sabe de que se escapam

Quem sabe a que vão fugindo

 

Consta da lista uma grávida

com ar de Madona antiga

das que inda se desenhavam

nos fins do século vinte

Chegou à pista de embarque

mesmo à hora da partida

E traz escrito na face

o lance que decidira

 

Não quer que o seu filho nasça

na Terra que vai perdida

Dão-lhe razão    Todos sabem

que funda razão lhe assiste

Todos conhecem o estado

que a pobre Terra atingiu

sobretudo após a grave

crise do século trinta

 

Vão a caminho de Marte

como quem foge à desdita.

Sentem-se dentro da nave

bastante mais protegidos

É como voltar ao espaço

de antes de haverem nascido

Todos a grávida tratam

com cuidados infinitos

 

E sonham    Talvez em Marte

nem tudo esteja perdido

Mas não sabem que na cápsula

um grupo de terroristas

vai sabotando a viagem

mudando o rumo previsto

Fica tudo executado

em pouco mais de três dias

 

E torna de novo a nave

quase ao ponto de partida

Quem mais se aflige é a grávida

com ar de Madona antiga

ao ver que à Terra terá de

ir entregar o seu filho

Já lhe rebentam as águas

quando se apeia na pista

 

Já pra dentro de uma cave

os outros a encaminham

Já por entre as dor's do parto

um facho de luz luzia

Quem sabe se necessário

não fora enfim tudo isso

para que à Terra baixasse

mais um resgate possível

 

Pálida pálida pálida

lívida lívida lívida

de costas a mulher grávida

já vagamente sorria

 

Poema de David Mourão-Ferreira, in Obra Poética (1948-1995), edição Assírio & Alvim, Novembro de 2019

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publicado às 17:38


#3071 - POEMA DE MANUEL AFONSO COSTA

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.12.19

 

as merendas do espírito,

as mãos, eram labor artificial,

separadas pelos sítios de culto,

pelo silêncio dos pastos;

até a luz acampando

na lâmina dos utensílios

ou sobre os ombros

era coisa do acaso;

havendo uma ordem

e havia

nada tinha a ver com as regras

de oficiantes programados,

era um mistério

a sabedoria litúrgica da ignorância;

se era douta ou divina,

é assunto que me ultrapassa

 

POEMA DE MANUEL AFONSO COSTA, «SERIA SEMPRE TARDE», ASSÍRIO & ALVIM, 2019

 

BIOGRAFIA

Fez o doutoramento no Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e o Mestrado em História Cultural e Política na mesma Universidade. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa. Professor Associado, desde 2012, na Faculdade de Direito da Universidade de Macau. Desde 2003, Professor Assistente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Professor também na Universidade de Aix-Marseille. Escreveu diversos artigos sobre História, História das Ideias, Filosofia e Literatura em jornais e revistas de especialidade e é autor dos livros Introdução ao pensamento social francês do século XVIII, U.T.A.D, Vila Real (1987), A ideia de felicidade em Portugal no século XVIII, entre as luzes e o romantismo. Eticidade, moralidade e transcendência (2008). Tradutor de poesia e poeta, publicou Caligrafia imperial e dias duvidosos, Assírio & Alvim, Lisboa (2007); Os últimos lugares, Assírio & Alvim (2004), Os limites da obscuridade, Caminho (1990), O roubo da fala, Ágora (1981). Colabora com a Biblioteca Pública de Macau desde 2014.

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publicado às 17:40


#3069 - TAO YUANMING

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.19

 

O céu e a terra jamais irão desaparecer

as montanhas e os rios esses não mudarão nunca

ervas e árvores seguem regras imutáveis,

se a geada as engelha,

logo o orvalho as tornará viçosas de novo

o homem gaba-se de ser dotado de razão,

quase divino

porém ele é o único a quem as coisas

não acontecem assim

mal começa a sua viagem neste mundo,

logo parte sem data de regresso

 

alguém se apercebeu de que falta alguém?

pais e conhecidos pensarão nele ainda?

subsistem só os objectos que lhe pertenceram,

quando o olhar os cruza, aflito,

derrama-se em lágrimas

 

eu por mim não tenho o dom da imortalidade,

à mudança estou sujeito

irei morrer, sobre isso não há a mínima dúvida

segue portanto o meu conselho,

se tens por aí um bom vinho,

não o recuses assim sem mais nem menos.

 

POEMA DE TAO YUANMING (365-427), POETA DAS DINASTIAS DE JING E LIU SONG, INCLUÍDO NO LIVRO «POESIA E PROSA», EDIÇÃO ASSÍRIO &  ALVIM, 2019. A VERSÃO PORTUGUESA É DE MANUEL AFONSO E COSTA

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publicado às 22:38


#3062 - PRÉMIO MIGUEL DE CERVANTES 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.19

JOAN MARGARIT, 81 anos de idade, poeta catalão e arquitecto, foi galardoado com o Prémio Miguel de Cervantes, o mais importante prémio espanhol para as letras. Os candidatos são propostos pela Academia Real da Língua Espanhola.

Na qualidade de arquitecto, foi o autor dos cálculos de estrutura da catedral Sagrada Família e foi professor catedrático da Escola Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona.

No mês de Maio passado, recebeu o  Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.

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publicado às 19:43


#3055 - PRÉMIO JABUTI

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.11.19

A organização do Prémio Jabuti 2019, um dos principais galardões literários do Brasil, divulgou, hoje, os cinco finalistas de cada uma das dezanove categorias que por sua vez estão divididas em quatro áreas: Literatura, Ensaios, Livro e Inovação.

 

PRÊMIO JABUTI - CONHEÇA OS 05 FINALISTAS DE 2019

Auditado por Ecovis Pemom Auditoria & Consultoria:

 

Literatura

Conto

Título: Alguns humanos | Autor(a): Gustavo Pacheco | Editora(s): Tinta da China Brasil

Título: O sol na cabeça | Autor(a): Geovani Martins | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Reserva natural | Autor(a): Rodrigo Lacerda | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Sebastopol | Autor(a): Emilio Fraia | Editora(s): Alfaguara / Companhia das Letras

Título: Um beijo por mês | Autor(a): Vilma Arêas | Editora(s): Luna Parque


Crônica

Título: A arte de querer bem | Autor(a): Ruy Castro | Editora(s): Estação Brasil

Título: Perambule | Autor(a): Fabrício Corsaletti | Editora(s): Editora 34

Título: Pós-F: para além do masculino e do feminino | Autor(a): Fernanda Young | Editora(s): LeYa

Título: Refúgio no sábado | Autor(a): Míriam Leitão | Editora(s): Intrínseca

Título: Velhos são os outros | Autor(a): Andréa Pachá | Editora(s): Intrínseca


Histórias em Quadrinhos

Título: Ânsia eterna | Autor(a): Verônica Berta | Editora(s): SESI-SP Editora

Título: Bendita cura - Volume 1 | Autor(a): Mário César | Editora(s): EntreQuadros

Título: Graphic MSP - Jeremias: Pele | Autor(a): Rafael Calça, Jefferson Costa | Editora(s): Panini, Mauricio de Sousa

Título: O idiota: o clássico de Fiódor Dostoiévski em quadrinhos | Autor(a): André Diniz | Editora(s): Quadrinhos na Cia / Companhia das Letras

Título: Raul | Autor(a): Alexandre De Maio | Editora(s): Editora Elefante


Infantil

Título: A Avó Amarela | Autor(a): Júlia Medeiros, Elisa Carareto | Editora(s): ÔZé Editora

Título: Casa de passarinho | Autor(a): Ana Rosa Costa, Odilon Moraes | Editora(s): Editora Positivo

Título: Donana e Titonho | Autor(a): Ninfa Parreiras | Editora(s): Paulinas

Título: Enreduana | Autor(a): Roger Mello | Editora(s): Companhia das Letrinhas / Companhia das Letras

Título: Olavo | Autor(a): Odilon Moraes | Editora(s): Jujuba Editora


Juvenil

Título: 80 degraus | Autor(a): Luís Dill | Editora(s): Palavras Projetos Editoriais

Título: A grande assembleia dos bichos pestilentos e peçonhentos | Autor(a): Ivan Jaf | Editora(s): Trioleca Casa Editorial

Título: Clarice | Autor(a): Roger Mello | Editora(s): Global Editora

Título: Histórias guardadas pelo rio | Autor(a): Lúcia Hiratsuka | Editora(s): Edições SM

Título: O Cão e o Curumin | Autor(a): Cristino Wapichana | Editora(s): Editora Melhoramentos


Poesia

Título: Carvão : : capim | Autor(a): Guilherme Gontijo Flores | Editora(s): Editora 34

Título: Fundo Falso | Autor(a): Mônica de Aquino | Editora(s): Relicário Edições

Título: Lua na jaula | Autor(a): Ledusha Spinardi | Editora(s): Todavia

Título: Nenhum mistério | Autor(a): Paulo Henriques Britto | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Nuvens | Autor(a): Hilda Machado | Editora(s): Editora 34


Romance

Título: A tirania do amor | Autor(a): Cristovão Tezza | Editora(s): Todavia

Título: Cloro | Autor(a): Alexandre Vidal Porto | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Enterre seus mortos | Autor(a): Ana Paula Maia | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Nunca houve um castelo | Autor(a): Martha Batalha | Editora(s): Companhia das Letras

Título: O pai da menina morta | Autor(a): Tiago Ferro | Editora(s): Todavia


Ensaios

Artes

Título: A fotografia como escrita pessoal: Alair Gomes e a melancolia do corpo - outro | Autor(a): Alexandre Santos | Editora(s): Editora da UFRGS

Título: Arte popular brasileira: olhares contemporâneos | Autor(a): Vilma Eid (org.), Germana Monte-Mór (org.) | Editora(s): Editora WMF Martins Fontes, Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro

Título: Histórias afro-atlânticas: [vol. 1] catálogo | Autor(a): Adriano Pedrosa, Lilia Moritz Schwarcz, Tomás Toledo, Ayrson Heráclito, Hélio Menezes | Editora(s): MASP, Instituto Tomie Ohtake

Título: Nova história do cinema brasileiro, volumes 1 e 2 | Autor(a): Fernão Pessoa Ramos, Sheila Schvarzman | Editora(s): Edições Sesc São Paulo

Título: Patrimônio colonial latino-americano: urbanismo, arquitetura, arte sacra | Autor(a): Percival Tirapeli | Editora(s): Edições Sesc São Paulo


Biografia, Documentário e Reportagem

Título: A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil | Autor(a): Bruno Paes Manso, Camila Nunes Dias | Editora(s): Todavia

Título: Carolina: uma biografia | Autor(a): Tom Farias | Editora(s): Malê

Título: Jorge Amado: uma biografia | Autor(a): Joselia Aguiar | Editora(s): Todavia

Título: O livro de Jô: uma autobiografia desautorizada - volume 2 | Autor(a): Jô Soares, Matinas Suzuki Jr. | Editora(s): Companhia das Letras

Título: O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier | Autor(a): Lucas Figueiredo | Editora(s): Companhia das Letras


Ciências

Título: A caminho de Marte: a incrível jornada de um cientista brasileiro até a NASA | Autor(a): Ivair Gontijo | Editora(s): Editora Sextante

Título: Ciência e pseudociência: por que acreditamos apenas naquilo em que queremos acreditar | Autor(a): Ronaldo Pilati | Editora(s): Editora Contexto

Título: Ciência para educação: uma ponte entre dois mundos | Autor(a): Augusto Buchweitz, Mailce Borges Mota, Roberto Lent | Editora(s): Editora Atheneu

Título: Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles | Autor(a): Brenda Fucuta | Editora(s): Objetiva / Companhia das Letras

Título: Inteligência artificial aplicada: uma abordagem introdutória | Autor(a): Luciano Frontino de Medeiros | Editora(s): InterSaberes


Economia Criativa

Título: 101 dias com ações mais sustentáveis para mudar o mundo | Autor(a): Marcus Nakagawa | Editora(s): Editora Labrador

Título: Mude ou morra: tudo que você precisa saber para fazer crescer seu negócio e sua carreira na nova economia | Autor(a): Renato Mendes, Roni Cunha Bueno | Editora(s): Editora Planeta

Título: Porque criei a Gastronomia Periférica | Autor(a): Edson Leite | Editora(s): Editora Inova

Título: Uma vida sem lixo: guia para reduzir o desperdício na sua casa e simplificar a vida | Autor(a): Cristal Muniz | Editora(s): Alaúde

Título: Viva o fim: almanaque de um novo mundo | Autor(a): André Carvalhal | Editora(s): Paralela / Companhia das Letras


Humanidades

Título: Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos | Autor(a): Lilia Moritz Schwarcz (org.), Flávio Gomes (org.) | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Presidencialismo de coalizão: raízes e evolução do modelo político brasileiro | Autor(a): Sérgio Abranches | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Ser republicano no Brasil colônia: a história de uma tradição esquecida | Autor(a): Heloisa M. Starling | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Uma história da desigualdade: a concentração de renda entre os ricos no Brasil 1926 - 2013 | Autor(a): Pedro H. G. Ferreira de Souza | Editora(s): Hucitec Editora

Título: Valsa Brasileira: do boom ao caos econômico | Autor(a): Laura Carvalho | Editora(s): Todavia


Livro

Capa

Título: James Joyce - um retrato do artista quando jovem e Epifanias | Capista: Diogo Droschi | Editora(s): Autêntica

Título: Letizia Battaglia: Palermo | Capista: Luciana Facchini | Editora(s): IMS

Título: O galo de ouro | Capista: Leonardo Iaccarino | Editora(s): José Olympio

Título: Revela-te, Chico: uma fotobiografia | Capista: Augusto Lins Soares | Editora(s): Bem-te-vi Produções Literárias

Título: Sapientia: uma arqueologia de saberes esquecidos | Capista: Tereza Bettinardi | Editora(s): Edições Sesc São Paulo


Ilustração

Título: Chão de peixes | Ilustrador(a): Lúcia Hiratsuka | Editora(s): Pequena Zahar

Título: Enreduana | Ilustrador(a): Mariana Massarani | Editora(s): Companhia das Letrinhas / Companhia das Letras

Título: Nem filho educa pai | Ilustrador(a): Odilon Moraes | Editora(s): SESI-SP Editora

Título: Se eu abrir esta porta agora... | Ilustrador(a): Alexandre Rampazo | Editora(s): SESI-SP EDITORA

Título: Se os tubarões fossem homens | Ilustrador(a): Nelson Cruz | Editora(s): Edições Olho de Vidro


Impressão

Título: Bill Viola | Responsável: Adelcio Alberto Canolla | Editora(s): Edições Sesc São Paulo

Título: Clementina Duarte 50 anos de arte e design | Responsável: Julio Gonçalves | Editora(s): Cepe Editora

Título: Fernanda Montenegro: itinerário fotobiográfico | Responsável: Ipsis Gráfica e Editora | Editora(s): Edições Sesc São Paulo

Título: Francisco João de Azevedo e a invenção da máquina de escrever | Responsável: Rodrigo Moura Visoni | Editora(s): Tamanduá

Título: Roberto Landell de Moura, o precursor do rádio | Responsável: Rodrigo Moura Visoni | Editora(s): Tamanduá


Projeto Gráfico

Título: Clarice | Responsável: Felipe Cavalcante | Editora(s): Global Editora

Título: Claudia Andujar: a luta Yanomami | Responsável: Elisa von Randow, Julia Massagão | Editora(s): IMS

Título: Cordão | Responsável: Luciana Calheiros | Editora(s): Zoludesign

Título: Histórias afro-atlânticas: [vol. 1] catálogo | Responsável: Raul Loureiro | Editora(s): MASP, Instituto Tomie Ohtake

Título: Teatro da Vertigem | Responsável: Luciana Facchini | Editora(s): Editora Cobogó


Tradução

Título: Almas mortas | Tradutor(a): Rubens Figueiredo | Editora(s): Editora 34

Título: Lições de ética | Tradutor(a): Bruno Leonardo Cunha, Charles Feldhaus | Editora(s): Editora da Unesp

Título: Morrer sozinho em Berlim | Tradutor(a): Claudia Abeling | Editora(s): Editora Estação Liberdade

Título: O conto dos Contos: Pentameron ou o Entretenimento dos Pequeninos | Tradutor(a): Francisco Degani | Editora(s): Nova Alexandria

Título: Sobre isto | Tradutor(a): Leticia Mei | Editora(s): Editora 34


Inovação

Fomento à Leitura

Título: Caixa de cultura | Responsável: Rosana Firmino de Araújo Gutierrez | Editora(s): Serviço Social da Indústria - SESI-SP

Título: Leia para uma criança | Responsável: Dianne Cristine Rodrigues Melo | Editora(s): Itaú Social

Título: Pegaí leitura grátis | Responsável: Idomar Augusto Cerutti | Editora(s): Instituto Pegai Leitura Grátis

Título: Projeto BiblioSesc | Responsável: Sesc São Paulo | Editora(s): Edições Sesc SP

Título: Rede LiteraSampa | Responsável: Mara Esteves Costa | Editora(s): Mara Esteves Costa


Livro Brasileiro Publicado no Exterior

Título: A resistência | Autor(a): Julián Fuks | Editora(s): Companhia das Letras, Charco Press

Título: Brasil: Uma biografia | Autor(a): Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling | Editora(s): Companhia das Letras, Penguin Random House UK/Allen Lane

Título: Meia-noite e vinte | Autor(a): Daniel Galera | Editora(s): Companhia das Letras, Suhrkamp Verlag

Título: Meu Pé de Laranja Lima | Autor(a): José Mauro de Vasconcelos | Editora(s): Editora Melhoramentos , Pushkin Press

Título: Simpatia pelo demônio | Autor(a): Bernardo Carvalho | Editora(s): Companhia das Letras, ÉDITIONS MÉTAILIÉ

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publicado às 19:18


#3051 - JOSÉ BENTO, POETA E TRADUTOR, MORREU AOS 86 ANOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.10.19

José Bento (1932-2019)

José Bento, poeta e tradutor, e um dos principais divulgadores de autores célebres como Jorge Luis Borges, Garcia Lorca, Miguel Unamuno, Miguel de Cervantes, Santa Teresa de Àvila e San Juan de la Cruz, morreu aos 86 anos de idade.

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José Bento nasceu a 17 de novembro de 1932. Foi um dos fundadores, nos anos 50, da revista de poesia Cassiopeia. Desde então, traduziu, por exemplo, Fernando de Rojas, Jorge Luis Borges, Miguel de Unamuno, Santa Teresa de Ávila, e organizou antologias de Garcilaso, Quevedo, Antonio Machado, Manuel Machado, Juan Jimenez, Francisco Brines, Vicente Alexandre, Federico García Lorca, Cernuda. É considerado um dos melhores tradutores portugueses e já recebeu diversos prémios, inclusivamente o Prémio Cervantes, atribuído pelo governo espanhol pela sua atividade enquanto tradutor. É também autor de vários livros de poesia, como «Alguns Motetos» ou «Sítios», publicados na Assírio & Alvim.

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publicado às 18:47


#3047 - NINHO DAS ÁGUIAS ||| POEMA DE RAMÓN COTE BARAIBAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.10.19

RÁMON COTE BARAIBAR

 

NINHO DAS ÁGUIAS

 

Já eras misteriosa desde então

e nos mapas antigos chamavam-te Lissabona.

À distância contava as tuas sete colinas

como a Roma dos Césares, e repetia-me

as histórias de navegadores e as tuas lendas de conquista.

Apesar de nos separar a imensidade

do mar Atlântico, desde a minha carteira de colégio

acariciava a curvatura do globo terráqueo,

jurando que um dia chegaria às tuas margens.

 

Tantas vezes cortejada e celeste

apareceste aos meus olhos num dia de verão

de 1984, quando te vi do quarto

do Ninho das Águias,

um hotel estreito e suicida

que se persigna no monte de S. Jorge

de cada vez que Lisboa amanhece.

 

Um mapa durante anos dobrado e desdobrado

ardeu de véspera e de espera

sobre milhares de degraus, ardeu sobre as praças,

sobre a constante inclinação

das suas ruas, sobre o seu soçobrar marinho,

e atiramo-lo de uma ponte

para que seja o acaso a única bússola a orientar-nos.

 

Tento olhar os dias desde então

como se estivesse a uma janela do quarto

do hotel do Ninho das Águias,

vendo pela primeira vez como amanhece

a fragrante, a profunda, a ondulada

cidade de Lisboa.

 

POEMA DE RÁMON COTE BARAIBAR

 

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Ramón Cote Baraibar es un poeta, narrador y ensayista de Colombia, nacido en CúcutaNorte de Santander en 1963. Es hijo del poeta Eduardo Cote Lamus y de la galerista Alicia Baraibar. Se graduó en Historia del Arte por la Universidad Complutense en Madrid. Su poesía está marcada profundamente por su sentido de temporalidad, que busca a través de breves e intensos textos dar cuenta de experiencias pasadas, particularmente de la niñez y la adolescencia, así como mantener un presente con nitidez y fuerza en el lector. La libertad al caminar por las tapias de su barrio, la forma de los óvalos de unas sillas de acero, la luz del atardecer a las 5:30 de la tarde, el color y olor de las magnolias, los oficios de las profesiones idas aparecen y desaparecen a lo largo de treinta años de trabajo con la palabra. La ciudad de Bogotá es un referente constante a lo largo de su obra.

Tal como dice el escritor y compañero de colegio Mario Mendoza en el prólogo a Botella papel, en Cote Baraibar "Su potencia interior se formó en esos años de adolescencia como quien arma una muralla y construye un foso para evitar la invasión de bárbaros indeseables. De ahí ese ritmo sagrado de su escritura, de homilía, de cantos chamánicos enunciados en la mitad de la selva como conjuros que nos salvarán cuando llegue el desastre. El corazón del artista adolescente es el corazón de las tinieblas.1​"

Cote Baraibar creció en Bogotá y a los 19 años viajó a Madrid a seguir una carrera en Historia del Arte. En España publicó su primer libro, Poemas para una fosa común (1984), con prólogo de Claudio Rodríguez y que ha sido publicado en tres oportunidades. Regresó a Colombia en 1990 y al año siguiente publicó El confuso trazado de las fundaciones, volumen de poemas en el que atisba su madurez. Allí están presentes temas urbanos de Bogotá y de Madrid y se destaca la atmósfera autoritaria del colegio en la que discurrió su infancia y adolescencia. También en 1991 publicó Informe sobre el estado de los trenes en la antigua estación de Las Delicias en el legendario Fondo Editorial Pequeña Venecia de Caracas, Venezuela. En esta plaquette da cuenta del antiguo y entonces abandonado cementerio de trenes de Madrid.

Durante la presidencia de César Gaviria Trujillo (1990-1994) trabajó en el área cultural del gobierno. Posteriormente ocupó un cargo diplomático en la representación de Colombia ante la Organización de Estados Americanos en Washington.

A su regreso a Colombia Cote Baraibar publicó Botella papel en 1999, libro que ha sido objeto de tres ediciones desde entonces. La última se realizó en diciembre de 2015, que incluye nuevos textos. Al decir de Juan Gustavo Cobo Borda, "a partir de la voz de quien compra bultos de periódico y botellas vacías, [Cote] intenta una antropología del recuerdo, al rescatar esas figuras ya casi desaparecidas que cruzaban Bogotá con el pregón de sus oficios: un afilador, un calderero, un vendedor de corbatas o un fotógrafo de parque.2​"

En el año 2003 Cote Baraibar publica Colección privada, libro con el que gana el III Premio Casa de América de Poesía Americana. Este poemario hace un homenaje a cuadros de la historia de la pintura de gran afinidad para el autor, una "colección privada" compuesta por ocho salas de pinturas del arte medieval al contemporáneo colombiano. Estos textos "han sido escritos como una ceremonia de restitución, agradecimiento y apropiación, porque solo la poesía nos permite preservar en palabras esas contadas revelaciones que nos visitan a lo largo de nuetras vidas3​". Este libro ha sido objeto de una tesis de maestría en Estados Unidos.4

Su siguiente poemario, titulado Los fuegos obligados, ganó el Premio Unicaja de poesía, que fue otorgado en Cádiz por José Manuel Caballero Bonald, entre otros miembros del jurado. En esta publicación Ramón Cote regresa al pasado, particularmente a su infancia: "Son los asuntos de tu vida, esas cosas con las que no puedes dejar de vivir, lo necesario que te hace lo que eres. Los recuerdos, la casa de tu infancia, mis padres que murieron hace poco", afirmó el escritor en una entrevista.5

Su trabajo más reciente es Como quien dice adiós a lo perdido, publicado a sus cincuenta años en 2013. Sobre él dice el poeta Jotamario Arbeláez: "Este libro da el adiós a esa imagen que pasaba como la verdadera cara de la poesía, llena de afeites, constelada de plumas de cacatúa. Retorna a señalar con el dedo de la palabra esos objetos que hacen parte de nuestra vida y de nuestro cuerpo, como el árbol del jardín y el libro de viejo. Este es el rostro poético. En la limpia descripción de los momentos y de las cosas, casi que en su sola enumeración acentuada con un exquisito adjetivo, nos sintoniza con un acontecer prodigioso, así sea común a todos, por la coloratura del verbo.6​"

Cote Baraibar también ha escrito narrativa, destacándose por dos libros de cuentos, Páginas de enmedio (2002) y Tres pisos más arriba (2008) y una novela que mantiene inédita.7​ Ha incursionado también en la literatura infantil con dos títulos: Feliza y el elefante y Magola contra la ley de la gravedad.

El escritor cucuteño ha preparado dos antologías de poesía para la Colección Visor de Poesía: Diez de ultramar. Joven poesía latinoamericana (1992), que tiene dos ediciones y La poesía del siglo XX en Colombia (2006).

Se encuentran dos antologías de poemas suyos: No todo es tuyo, olvido, publicado por la Universidad Nacional de Colombia en 2006 y Hábito del tiempo, editado por la Pontificia Universidad Javeriana de Bogotá en 2015 con un ensayo de Jorge Cadavid.

En octubre de 2016 participó en la presentación de la segunda edición de La vida cotidiana, de Eduardo Cote Lamus con un análisis sobre la influencia de este libro en la poesía colombiana.8

En diciembre de 2017 publicó en la Editorial Planeta la Antología de la poesía colombiana contemporánea.

En abril de 2019 la editorial El Ángel Editor, de Quito, Ecuador, publicó "Milagros comunes (Antología 1984-2014)", con un prólogo de Santiago Espinosa y un epílogo de Santiago Grijalva.

Cote Baraibar está preparando su octavo poemario.

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publicado às 18:43


#3041 - MONUMENTO AOS DESAPARECIDOS ||| POEMA DE JUAN MANUEL ROCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.09.19

JUAN MANUEL ROCA

 

MONUMENTO AOS DESAPARECIDOS

 

Penso nos talismãs

Que ficaram esquecidos num saco,

Nas camisas penduradas que revelam as suas formas

Como se fossem os vestidos

Do vestido dos seus ossos.

Faço um inventário de vazios,

De barcas que encalharam na névoa.

Se é arte de mágicos esfumar-se

Ao virar uma esquina, eles são mágicos?

Se a música é da mesma matéria do silêncio

São música inaudível, um ar escondido no ar?

São corpos desobedientes,

Renitentes a encher de novo um espaço,

A continuar a redigir minutas,

Cumprimentando o vizinho e preparando ao espelho

A cara de ir para o trabalho e voltar a casa?

Se as suas fossem artes encantatórias

Poderíamos deixar abertas as janelas

À espera que voltem

Com os seus barretes de cozinheito e lebres nas mãos,

No fim de um encontro de despedida.

Os parentes atropelam-se nas morgues,

Farejam nos hospitais

Que respiram num ritmo entrecortado,

Vêem os seus rostos passar como as horas

Nas nervosas rotativas dos diários,

Tal como alguns que procuram homens com lanternas

E outros buuscam o seu amor

No gabinete de objectos esquecidos.

Sem nos darmos conta levaram

Com eles uma parte perdida da cidade:

O beco a que ninguém quer regressar,

Um pedaço de ar que espera que o habitem.

Não são fantasmas. Não são endriagos

Enrolando fios na sala de costura,

Filhos da névoa ao despontar do dia.

Uma velha canção que soa a compasso

Faz-nos crer que os encontraremos,

Infiéis ao apelo da casa,

Com os seus sapatos de baile muito reluzentes

No regresso de outra cidade que fizeram sua.

Mas a canção termina,

Ou muda para som de fundo.

Não importa que sejam

o pão sem levedura das estatísticas,

Vagas histórias registadas no livro de perdas.

Ainda têm o rádio ligado no mesmo sítio,

Um amor nalgum lado,

Uma palavra quase a ser pronunciada.

Se voltassem depois de décadas de os esperar

Seriam reconhecidos

Nos retratos pendurados nas paredes,

Nos cartazes amarelecidos da polícia,

Nos panos que levam nos desfiles,

Nos recortes dos jornais antigos

Que guardam entre fotografias os seus parentes?

No copo da noite estão as suas marcas.

Alguns fugiram de si próprios

Tocados pela sombra,

Outros foram metidos em carros fantasmas

Ou levados aos empurrões para o vazio.

Tudo isto me acode quando o presidente da câmara

Com a sua cara de Pierrot,

Com o seu rosto transido à saída do Museu de Arte,

Pergunta a um escultor com que matéria se ergue

Um monumento aos desaparecidos,

Que sem serem sólidos, como os dias e como Deus,

Também se esfumam no ar.

 

POEMA DE JUAN MANUEL ROCA

 

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Juan Manuel Roca nasceu em Medellín, Colômbia. Poeta, narrador, ensaísta, crítico de arte e jornalista. Ganhou o II Prémio Nacional de Poesia Eduardo Cote Lamus (1975); o Prémio Nacional de Poesia Universidade de Antioquia (1979); o Prémio Melhor Comentarista de livros Cámara Colombiana del Libro (1992); o Prémio Nacional de Jornalismo Simón Bolívar (1993); o Prémio Nacional de Conto Universidade de Antioquia (2000); o Prémio Nacional de Poesia Ministério da Cultura (2004); o Prémio José Lezama Lima (2007), concedido pela Casa de las Américas, em Havana, Cuba; o Prémio Poetas do Mundo Latino Víctor Sandoval (2007, México); o Prémio Casa de América de Poesia Americana (2009, Madrid); o Prémio Cidade de Zacatecas (2009, México); e o Prémio Estado Crítico (2009) pelo melhor livro de poemas publicado em Espanha, atribuído ao livro Biblia de Pobres. Publicou, entre outros livros de poesia, Luna de Ciegos (1975), Los Ladrones Nocturnos (1977), Señal de Cuervos (1979), Ciudadano de la Noche (1989), La Farmacia del Ángel (1995), Las Hipótesis de Nadie (2005), Estatuas (2010) e Pasaporte del Apátrida (2011). Da sua extensa obra poética, foram publicadas várias antologias, entre as quais: Luna de Ciegos (Joaquín Mortiz, México, 1994), Legar de Apariciones (Ediciones Aurora, Bogotá, 2000), Cantar de Lejanía (Fondo de Cultura Económica, 2005), Cantar de Lejanía (Casa de las Américas, 2008), Botellas de Náufrago (Monte Ávila Editores, Caracas, 2008), Tres Orillas en busca de un Río (La Pluma de Mompox, 2011), De parte de la Noche (Unam, México, 2012), Colofón del Escribiente (Frailejón, Medellín, 2013) e Tres Caras de la Luna (Sílaba Editores, Medellín, 2013). É ainda um autor vastamente traduzido. Em 2003, foi publicada na Suécia a antologia intitulada Korpens Tecken (Señal del Cuervo), de 2003, com traduções de María Kallin e Víctor Rojas; em 2007, a antologia Luna de Ciegos (Blindenmond) foi traduzida para alemão por Tobías e Jana Burghardt; em 2008, o livro Las Hipótesis de Nadie foi traduzido por Stefan Van der Brendt para holandês; em 2009, a editora francesa Myriam Solal publicou a antologia bilingue Voleur de Nuit (francês-espanhol), traduzida por François Michel Durazzo; em 2010, a mesma editora publicou Biblia de Pobres (Bible de Pauvres), traduzida também por François Michel Durazzo, em edição bilingue (francês espanhol).

 

FONTE: WOOK

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publicado às 19:16


#3039 - NÃO ESPERES NADA ||| POEMA DE NICOLÁS SUESCÚN

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.09.19

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NICOLÁS SUESCÚN

 

NÃO ESPERES NADA

 

Não esperes nada

do amanhã,

não te sepultes

na esperança,

pensa:

Não verei a luz do novo dia,

esta é a miha última noite.

E bebe

até esqueceres tudo

para o voltares a esquecer,

que essa seja a tua vida,

um vaivém

entre o ser e o não ser.

Não esperes nada

do amanhã,

afunda-te no esquecimento

para que o novo dia

seja verdadeiramente um novo dia,

como se estivesse a começar

a dar voltas o mundo,

como se ir para além

não fosse vir para aqui,

como se a terra não girasse,

enlouquecida.

 

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Nicolás Suescún nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Poeta, contista, tradutor, editor, jornalista e professor universitário. Fez estudos de literatura, história e humanidades nos  Estados Unidos e França. Ao longo de vários anos dirigiu a revista literária Eco. Traduziu Rimbaud, Flaubert, Ambrose Bierce, W.B. Yeats e Stephen  Crane, entre outros autores. Recebeu o prémio "Vida y Obra 2010": Este galardão bienal é entregue pela Secretaria de Cultura de Bogotá a um artista que tenha dado um contributo fundamental à cultura da capitral.

 

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publicado às 10:07

 

EPÍSTOLA PARA UM CISNE

 

Cisne, que não conheces na água o teu reflexo verde

quando sob o teu corpo é dia e o sol afaga quedo

ou quando do teu porte há a sombra negra igual

e tudo o que está negro, e é noite,  e abandono e medo.

Nem concebes o amor, nem Leda, nem sequer eu mesma

que te amo no poema e temo o canto imaginado

que não cantaste agora ou não ouvi, de madrugada

quando  a minha mãe  morta era somente insone.

Nunca viste a beleza, nem a vida e os lábios

que sopram as primeiras e últimas palavras, ou

o hálito que sai sem voz da dor mais desolada.

Nem a doença, a morte e os olhos sem imagens

do ar  e das cores várias viste em que tu vogas branco.

É falso que celebres sozinho a tua morte e o fim,

se não sabes  que só o teu outro cisne se perde.

Mas quando vi insone e logo morta a minha mãe

estou certa de que a cega, a muda, falsa ave cantou.

 

POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO IN "OBRA BREVE - POESIA REUNIDA", EDIÇÃO 0976, MAIO 2006, ASSÍRIO & ALVIM

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publicado às 18:30


#3027 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.08.19

 

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publicado às 06:25

 

A HIPÓTESE DO CINZENTO

 

Num país a preto e branco

recomendaram-me o cinzento. Um recurso

extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia

ensaiar

soluções inusitadas -

experimentar o morno (que não é frio nem

quente)

explorar o lusco-fusco (que

não é noite nem dia) praticar a omissão

(que não é mentira

nem verdade). Preto e branco misturados permitiam

finalmente

viver em conformidade

desocupar os extremos (tão alheios à virtude)

liquefazer-me na turba

no centro na

média

dourada. Com a paleta de cinzentos poderia

aprimorara arte da sobrevivência que

(como os mansos bem sabem) é

não estar vivo

nem morto.

 

POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, DO LIVRO "O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS", PÁG.136, EDIÇÃO QUETZAL, 2019

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publicado às 20:44


#3018 - SOTAQUE DA TERRA ||| Poema de Mia Couto

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

 

SOTAQUE DA TERRA

 

Estas pedras

sonham ser casa

 

sei 

porque falo

a língua do chão

 

nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

 

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

 

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

 

Junho de 1986

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publicado às 18:27


#3013 - COM A DATA DE HOJE ||| POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

 

COM A DATA DE HOJE

 

Nas esquinas destas horas trnsitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA", COLEÇÃO PLURAL, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, JUNHO 2016

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publicado às 10:45


#3010 - PARAÍSO ||| Poema de David Mourão-Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

PARAÍSO

 
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

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publicado às 17:53


#3009 - NÓMADAS ||| POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

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NÓMADAS

 

Só o amor pára o tempo (só

ele detém a voragem)

rasgámos cidades a meio

(cruzámos rios e lagos)

disponíveis para lugares com nomes

impronunciáveis. É preciso percorrer os mapas

mais ao acaso

(jamais evitar fronteiras

nunca ficar para trás)

tudo nos deve assombrar como

neve

em Abril. Só o amor pára o tempo só

nele perdura o enigma

(lançar pedras sem forma e o lago

devolver círculos).

 

Poema de João Luís Barreto Guimarães, do livro NÓMADA 2018, incluído na antologia O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS - Edição QUETZAL 2019

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João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Poeta e tradutor, divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. O Tempo Avança por Sílabas reúne cem poemas selecionados pelo autor, dos dez livros que publicou até ao momento. É o seu quinto livro na Quetzal, após a publicação dos primeiros sete títulos na Poesia Reunida, em 2011, Você está Aqui, em 2013, Mediterrâneo, em 2016, ao qual foi atribuído o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, e Nómada, em 2018. A sua obra está representada em antologias poéticas e revistas literárias de numerosos países, tendo Mediterrâneo sido publicado em espanhol.

 

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publicado às 16:21


#3008 - GAIVOTA ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

GAIVOTA

 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
 
poema de alexandre o'neill

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publicado às 09:18


#3001 - POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

MÁRIO DIONÍSIO  |||  1916-1993

 

Nos despojos da cidade

atrás dos altos prédios ao avesso

veem-se telhados chaminés

negras de fumo vê-se o ferro

em movimento das gruas

 

Há gente que mora aqui

pessoas cães mortos vivos

em tugúrios fedorentos

 

Há lama e há excrementos

junto a montões gordurosos

sobre o lixo os solavancos

de amantes abjectos copulando

Rindo e saltando sobre dejetos

aqui e ali crianças brincando

que amanhã serão ladrões

 

Contra um muro em ruína

a fescura de uma flor

crescendo ingénua

 

Quem vem ela aqui fazer

entre destroços 

tão bela

 

A meus pés a vou pisar

por raiva ou por piedade

Esmago-a furiosamente

gesto viril e demente

 

para não chorar

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO POESIA COMPLETA, PÁGINA 296, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASADA MOEDA, JUNHO DE 2016, COLEÇÃO PLURAL

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publicado às 22:31


#3000 - RETRATO ||| Poema de Francisco Luís Amaro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.19

Francisco Luís  Amaro (1923-2018)

 

RETRATO

 

Um silêncio, um olhar, uma palavra:

Nasceste assim na minha vida,

Inesperada flor de aroma denso,

Tão casual e breve...

 

Já te visionara no meu sonho,

Imagem de segredo, esparsa ao vento

Da noite rubra, delicada, intacta.

E pressentira teu hálito na sombra

Que minhas mãos desenham, inquietas.

 

Existias em mim. O teu olhar

Onde cintila, pura, a madrugada,

Guardara-o no meu peito, ó invisível,

Flutuante apelo das raízes

Que teimam em prender-te, minha vida!

 

Poema de Francisco Luís Amaro

 

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Poeta português, natural de Alvito. Foi co-fundador e co-director da revista Árvore, publicada entre 1951 e 1952, e da qual fizeram também parte Raul de Carvalho, António Ramos Rosa e António Luís Moita. Colaborou ainda nas revistas Seara Nova, Távola Redonda, Portucale, entre várias outras. Foi secretário de redacção e, posteriormente, director-adjunto e consultor editorial da revista Colóquio/Letras. A sua poesia está inserida numa tendência que tenta conciliar a tradição herdada dos poetas presencistas com alguma da poesia neo-realista, nomeadamente a de Carlos de Oliveira. Da sua obra destacam-se os livros de poemas Dádiva (1949) e Diário Íntimo. Dádiva e outros poemas (1975).

 

 

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publicado às 18:15


#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

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publicado às 19:56


#2989 - DE ANTEMÃO ||| POEMA DE HERBERTO HELDER

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.04.19

DE ANTEMÃO

 

Tocaram-me na cabeça om um dedo terrificamente

doce, Sopraram-me,

Eu era límpido pela boca dentro: límpido

engolfamento,

O sorvo do coração a cara

devorada,

O sangue nos lençóis tremia aida:

Metia medo,

Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:

ou uma braçada de perfume

tão agudo

que entrasse pela carne: se fizesse unânime

na carne

como um clarão,

Um anel vivo num dedo que vai morrer:

tocando ainda

a cabeça o rítmico pavor

do nome,

O leite circulava dentro delas,

É assim que as mães se alumiam

e trazem para si o espaço todo

como

se dançassem,

São em si mesmas uma lenta

matéria ordenada, Ou uma

crispação: uma ressaca,

E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:

eu já tinha uma ferida

um nome,

E o meu nome mantinha as coisas do mundo

todas

levantadas

Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas

o sangue, Como as estrelas duplas

duplamente

se dão força,

E fique assim - astro grande estanque

cosido em sangue: e a luz

obturada,

E então no seu pneuma luminoso:

um astro cheio, Coração: astéria: carne

de olaria pulsando, O espasmo

da mão às vezes

se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,

Ou se retira ao braço o movimento

pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira

o rasgão do ar

na dança,

Assim a estrela com dois membros

cravados recebendo

o tremor do mundo, E toda essa

massa peristáltica esmaga

a argila táctil: um pequeno músculo

convulso no fundo de água:

um troço de sangue nas costas, Que lhe passes

pelas roupas e nudez

as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro

um incêndio:

e te ilumines dele, E a tua cara se faça

miraculada

à combustão, E entres rutilante por uma porta

para outra porta, Essa porta que dê

para uma porta de ti própria,

A mão ateando a escrita que se desloca

brilha direita,

Toca-te toda: tocas no chão

através dela, A terra

treme

quando lhe tocas, Tudo

se transmite e trannsforma,

A gangrena é uma força,  Tu és a raiz dele,

Estás dentro

da luz de fora,  Como o choque

sísmico

da estrela

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "POESIA TODA" EDIÇÃO 406, MARÇO DE 1996, ASSÍRIO & ALVIM

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publicado às 22:39


#2982 - UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA ||| POEMA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA

 

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida

à volta da cabeça pronta a rebentar

mesmo que fossem quatro apenas as paredes

quatro paredes são de mais para uma vida

e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade

pura pura negação da vida três palavras onde

se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar

e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal

há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo

que substituo por razões de métrica mas são palavras como

por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância

coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa

e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida

que não leva talvez gravata mas que tem vida privada

gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho

e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ò meu deus

ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida

Talvez haja a janela haja árvores e céu

talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor

que talvez una uns com os outros estes dias

talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída

Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?

Sempre entre mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras

e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas

mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida

onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano

e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe

é mãe por profissão por pose pela posição de tão tonta cabeça

multiplicadas pelas capas das estúpidas inúmeras revistas

forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real

cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa

criança que se sabe quantos quilos pesa que cor tinha

a primeira e menos metafórica das merdas que cagou

e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional

como marido inteirramente a par das regras da mulher

meu deus que merda metafórica esta merda desta vida

E eu ter de passar a vida à procura da chave

e procurar abrir e não saber da chave

e não existir nunca porta ou chave

e chave ser palavra ambígua ter sentido

e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos

e a vida ser só uma e ser a vida

e haver mãos para as coisas gestos para as mãos

e não haver que porra uma saída

E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista

e tudo quanto faço interpretado e comentado

e haver nomes e eu ser isto e não aquilo

eeu sentir-me em nomes encerrado

Quero dormir não ter esta doença de pensar

estender-me sob o céu o mais possível ao comprido

e que bastante terra cubra o meu comprido corpo

e eu seja terra apenas e a terra nada seja

Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só

para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

 

POEMA DE RUY  BELO, RETIRADO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL» - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 17:37


#2970 - POEMA EM AUTO-EXÍLIO ||| Poema de Dilip Chitre

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.19

DILIP CHITRE  |||   1938 - 2009

 

POEMA EM AUTO-EXÍLIO

 

A primeira borboleta morta da estação

Tem asas recentemente rasgadas. Os significados são transferidos

Como a humidade das ervas

Para os sapatos. A América é incrivelmente erótica.

Demasiadas pernas tornam todas estas ruas sensuais.

Em Bombaim, temos uma única centopeia

Caminhando em direcção à cidade todas as manhãs.

Lá faz tanto calor, e mesmo assim, sem modéstia,

Os que têm meios usam todas as roupas que podem.

E também, ao contrário daqui, os que têm dinheiro

Comem sem contar calorias.

Tenho saudades de casa, o que é estúpido evidentemente.

Lá nunca fui um chauvinista famoso,

Nem é a América pouco bela. Mas estou tão aterrorizado

Com esta mocidade resplandecente, esta inocência requintada,

Estas visões exóticas do resto do mundo,

Que existe algures,

Que me sinto já obsoleto,

Não sendo americano.

Talvez devesse ter sido, afinal de contas, um guru,

Ou um iogue, um gigolô, um encantador de serpentes, ou um cozinheiro

De clandestinos molhos de caril em vez de ser um poeta.

América, aqui vou eu, demasiado

Tarde

 

POEMA DO POETA INDIANO DILIP CHITRE

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publicado às 23:17


#2968 - O VISITANTE NOCTURNO ||| Poema de Muhammad 'Afifi Matar

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

MUHAMMAD  'AFIFI MATAR  ||  1935-2010

 

O VISITANTE NOCTURNO

 

eram seus olhos verdes

um sonho que chorava no asfalto da rua

e os versículos da sua inocência

uma sede no homem enterrada

 

desatou o cavalo verde da chuva dos cravos do raio

e deslizou através das nuvens

para visitar o sonho adormecido nas camas das crianças

e alimentá-las, ou dar-lhes de beber, da fonte do verde mel.

 

seus pés bons

e seu corpo trémulo e nu

esfolavam-se nos mastros  da noite.

e nos seus dorsos fundiam-se colunas de granito.

foi enterrado sobre os beirados dos tectos e das torres

crucificado, sangrando, mordido nas trevas pelos gatos.

 

o peixe negro salta na corrente do sangue

e  escapa:

comboios de gente surda

trombetas que ressoam,

génios que gritam dentro de uma garrafa

vozes que clamam na garganta do asfalto

 

quem, no ventre tenebroso, morreu

e quando secará o sangue?

 

POEMA DE MUHAMMAD  'AFIFI MATAR

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publicado às 19:17


#2966 - A CONTRA-SENHA ||| POEMA DE LUIS CARTAÑÁ

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.19

A CONTRA-SENHA

 

Cheguei do fundo da pedra:

precocemente do centro da rosa:

toquei as mãos e a artéria.

Ando ainda com a pele dos mármores

sombrios do deserto inocente. Oponho-me,

oponho-me ao relâmpago da água

e do mandato: ordeno, troco,

louvo a penugem como espada de enxofre

ou perfeição. Ordeno

ainda os horizontes.

Minha voz não é débil

nem o nascimento se cheguei e pus uma pedra

o coração como destino

e como canto a palavra amor e sem resposta, espero.

E como uma chuva de martelos,

de homem demasiado homem, de pancadas demasiado pancadas,

ou de paixão sem limites lancei minha funda ao  vento:

quero mais terra, mais terra e repartir unhas e chicotes

e repartir palavra e boca: Como um último respirar do homem

que viveu sem história na pegada e criou.

Criou a magnitude do homem lá do fundo da matéria única,

uma nova matéria, forças a rasgar o último recanto do vento

e a ordenar o eco

da última terra ou gratidão

que reste em minhas sandálias.

 

Caminhei até aqui,

cheguei precocemente do fundo da pedra

com a boca doce ou a palavra dividida. Ordeno

ainda os horizontes.

 

POEMA DE LUIS CARTAÑÁ (1942-1988)

_______________________________________________________________________________________________________________

LUIS CARTAÑÁ OTERO nació en La Habana, Cuba en 1942.  Viaja de muy joven a los Estados Unidos donde estudia inglés en la Universidad de Georgetown en Washington, D.C.  Se traslada a España, allí realiza estudios en derecho y hace amistad con los escritores Pere Gimferer, José Caballero Bonald, Gloria Fuertes, José Batlló, Ignacio Gómez de Liaño y Francisco de Asís Fernández, entre otros.  Durante su estancia en España publica su primer poemario Estos humanos dioses (1967).  Precisamente, en 1967, viene a residir a Puerto Rico, donde se dedica a la cátedra de literatura en el Recinto Universitario de Mayagüez de la UPR.  Desde allí inicia una dinámica actividad cultural participando en numerosos encuentros culturales y congresos literarios en Puerto Rico, Perú, República Dominicana, México, Colombia y Estados Unidos.  Junto a otros escritores funda la Confederación de Escritores Latinoamericanos.  En Puerto Rico Cartañá se identifica con los poetas de la Generación de 1960; particularmente con el grupo del Oeste de la isla, representado por Carmelo Rodríguez Torres, Jorge María Ruscalleda BercedonizSotero Rivera Avilés, Juan Torres Alonso, Billy Cajigas, Wilfredo Ruiz Oliveras, Jaime Martínez Tolentino e Inés Crespo, entre otros.  Funda y dirige la colección “Jardín de espejos,” responsable por la edición de Antología minuto de Francisco Matos Paoli y Antología de la poesía sueca contemporánea, entre sus títulos más destacados.  Publicó los poemarios Joven resina (1971), Tocata, fuga y presencia(1972), Canciones olvidadas (Chanson Oubliés) (1977, 1985 y 1988, ésta última con prólogo de Pere Gimferer), Sobre la música (1981), La mandarina y el fuego (1983, con prólogo de Francisco Matos Paoli), Los cuadernos del señor Aliloil (1985) y Permanencia del fuego (1989), publicado a pocos meses de su fallecimiento.  Cartañá propulsó la candidatura de Francisco Matos Paoli al Premio Nobel de literatura, quien se convertiría en el primer escritor puertorriqueño en ser considerado para tan prestigioso galardón.  La poesía de Cartañá ha sido incluida en las antologías Poesía en éxodo (Miami, 1970), 9 poetas cubanos (Madrid, 1984), Antología de poesía puertorriqueña 1984-1985 (Río Piedras, Puerto Rico, 1985), Poesía cubana contemporánea (Madrid, 1986), Poetas cubanos en España (Madrid, 1988), Pulso de poesía (Mayagüez, Puerto Rico, 1992) y Al pie de la memoria. Antología de poetas cubanos muertos en el exilio (1959-2002) (Miami, 2002).  En 1988 se traslada a España para realizar estudios doctorales de Filología Hispánica en la Universidad Complutense de Madrid, enviado por el Recinto Universitario de Mayagüez.  Luego se traslada a la ciudad de Miami donde muere de un tumor en el cerebro el 11 de febrero de 1989.

 

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publicado às 18:24


2961 - RETRATO || POEMA DE CECÍLIA MEIRELES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.01.19

CECÍLIA MEIRELES (1901 - RIO DE JANEIRO / 1964 - RIO DE JANEIRO)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

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publicado às 19:48


#2958 - E POR VEZES ||| POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996)

 

E POR VEZES

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA IN «MATURA IDADE» - 1973

 

 

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publicado às 22:16


#2957 - UM ADEUS PORTUGUÊS ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz de ombros puros e a sombra 
de uma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta cama comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta dor portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Não tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

                               * 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti. 

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL in «NO REINO DA DINAMARCA» - 1958

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publicado às 16:41


#2955 - DIA DE DESCANSO [POEMA DE FERNANDO LEMOS]

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.01.19

FERNANDO LEMOS | 3 DE MAIO DE 1926

 

DIA DE DESCANSO

 

Hoje reservo o dia inteiro para chorar

É o domingo decadente    em que muitos

esperam pela morte de pé

É o dia do sarro que vem à boca da medocridade

circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos

dos amores que deram em estribilhos

das correrias pederásticas para o futebol em calções

mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10%

de desconto em todo o vestuário

 

E choro    choro    porque a coragem

não me falta para tudo isto e assisto

na nega de me ceder ao braço dado

 

Precisarei de um cansaço mas

lá estavam espertas

as mil e não sei quantas lojas abertas

para mo vender!

 

Mas hoje é domingo

Lá está o chão reluzente de martírio

e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter

já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

 

E choro de coragem    isto é

as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos

Falo cristalinamente sózinho

procurando entre as paredes e as varandas que vão cair

algum acaso    isto é

o eco, de qualquer drama vazio

 

Espero como quem espera

o momento de posse entre dois ponteiros

de torneira em torneira nas súplicas febris

em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas

para as não cortar em gritos 

Espero e entretanto o mundo não se cansa

de me dar drogas para dormir e criar

novelos de lã à volta do coração

Não me lastimo   grito

Quero que estas correntes da boca se tornem úteis

e não ficar pr'aqui moldado estátua

em verdete  de ser chorado

A tropeçar onde não há perigo

com calçado duro a pisar as nuvens

neste tão estreitado mundo

 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso

podem pensar os homens das ideias revolucionárias

e choro

choro de coragem e para os microfones da revolução

As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento

por amor ao chão da terra que me pisam

 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução

alheia às tais guerras de papel químico

 

Espero sem esperança mas certo

do que espero como de saber  que um homem

não chora    e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar

porque é domingo e o que espero não é a morte de pé

talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

 

Uma vez era ainda pequeno

chorei ao ver um prédio desabitado

Moro nele mesmo aos domingos e rio-me

das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas

Sei que nada adianta

Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno

Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar

ao choro da coragem de esperar

 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado

um grito afinal terá assim o seu eco

 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente

até que a noite me venha

cobrir o corpo de abafo quente

 

Então sairei à procura da prostituta cega

para lhe contar junto ao peito

como as pessoas se comportam aos domingos

 

POEMA DE FERNANDO LEMOS in «Teclado Universal» - 1963

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publicado às 19:24


#2949 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

 

O silêncio não existe porque é  o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve,  para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não  os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN «RELÂMPAGO DE NADA», 2004

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publicado às 21:27


#2948 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua própria substância de cinzas e sangue petrificado, a habitação em que a fénix poderá renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lançar-se  a um trabalho para o qual a disposição ainda não surgiu, mas que poderá despertar os impulsos da construção solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A construção está envolta numa espessa bruma e não há nela sinais de figuras ou formas, porque essa névoa é o próprio nada da confusão inicial e o fim de toda a construção como possibilidade de vida e de renovo. É do obscuro fundo da retina que surge um ténue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da construção e  a faz palpitar e estremecer. O construtor poderá então discernir algumas linhas de força, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarificação. Haverá um momento em que ele sentirá que o edifício dança porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, é já a fénix que resplandece no fulgor da edificação e na plenitude do ser e do olhar na sua mútua criação

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA in "O Aprendiz Secreto", 2001

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publicado às 20:12


#2947 - AH, PODER SER TU, SENDO EU! [POEMA DE RUY BELO]

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

AH, PODER SE TU, SENDO EU!

 

Ei-lo que avança

de costas resguardadas pela minha esperança

Não sei quem é. Leva consigo

além de sob o braço o jornal

a sedução de ser seja quem for

aquele que não sou

E vai não sei onde

visitar não sei quem

Sinto saudades de alguém

lido ou sonhado por mim

em sítios onde não estive

Há uma parte de mim que me abandona

e me edifica nesse vulto que

cheio de ser visto por mim

é o maior acontecimento

da tarde de domingo

Ei-lo que avança e desaparece

E estou de novo comigo

sobre o asfalto onde quero estar

 

POEMA DE RUY BELO RETIRADO DE "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES" -  EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 15:55


#2945 - ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.01.19

EUGÉNIO DE ANDRADE | 1923-2005

 

ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Com as aves aprende-se a morrer.

Também o frio de janeiro 

enredado nos ramos não ensina outra coisa

- dizias tu, olhando

as palmeiras correr para a luz.

Que chegava ao fim.

E com ela as palavras.

Procurei os teus olhos onde o azul

inocente se refugiara.

Na infância, o coração do linho

afastava os animais de sombra.

Amanhã já não serei eu a ver-te

subir aos choupos brancos.

O resplendor das mãos imperecível.

 

POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE IN "HOMENAGENS E OUTROS EPITÁFIOS".

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publicado às 18:15


#2944 - O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.01.19

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CHARLES BUKOWSKI

 

O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

 

não os encontrarás com regularidade

pois não se encontram

onde se encontra 

a multidão

 

estes seres ímpares,

não há muitos

mas deles

vêm

os poucos

bons quadros

as poucas

boas sinfonias

os poucos

bons livros

e outras

obras.

 

e dos

melhores

entre os estranhos

talvez

nada.

 

eles são

os seus próprios

quadros

os seus próprios

livros

a sua própria música

as suas próprias

obras.

 

às vezes penso

que

os vejo - por exemplo

um determinado

velho

sentado num

determinado banco de jardim

de uma determinada 

forma

 

ou

uma cara fugaz

num carro

que passa

em direcção

contrária

 

ou

há um certo

gesto de mãos

do rapaz ou

da rapariga

a embalar compras

em sacos

de supermercado.

 

às vezes

até é alguém

com quem se vive

há algum

tempo - 

dás conta de

um fugidio

olhar luminoso

que nunca lhes viras

antes.

 

às vezes

apenas notas

a sua existência

subitamente

e de forma vívida

alguns meses

alguns anos

depois de

partirem.

 

lembro-me 

de um caso

assim -

ele tinha

cerca de 20 anos

bêbedo

às 10 da manhã

a fitar

um espelho partido

em Nova Orleães

 

cara sonhadora

contra

as paredes 

do mundo

 

para

onde

fui eu?

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI IN "OS CÃES LADRAM FACAS" - EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:21


#2941 - ODE DO HOMEM DE PÉ (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

ODE DO HOMEM DE PÉ

 

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo

pelos passos lentos como o rolar dos anos

pelos dias vulgares cheios de maçãs

pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco

pelas crianças mal vestidas para a vida

nos bicos dos pés te saúdo

pela paixão que transferiu campaspe

do amor de alexandre então dono do mundo

para o coração de apeles pintor pobre

que tinha como dom o simples dom de olhar

por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos

pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

 

Oh como o sofrimento purifica minha rua

Ele passa-nos as mãos por todo o corpo

desce por nós como um olhar de mãe

e a mais agasalhada vida vê-se nua

 

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos

chove a meu lado atrás de mim na minha frente

Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva

peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto

aquela que a seu lado é demolida

onde eu pecador me confesso e agradeço

este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira

passadas já segunda terça e quarta

e poder erguer as duas mãos acima da terra

rua onde passaram meus pais

onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos

onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã

e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi

rua onde tudo ganhei tudo logo perdi

onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores

e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações

que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças

onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de                                                                                                                                                     todos os dias

e muitas outras coisas que depois esqueci

rua que me levaste a tanto sonho vão

que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer

bem pouco basta minha rua para faze feliz o homem:

acender por exemplo repentinamente a luz

na sala onde pairava um certo mal-estar

o que dissipa como que para sempre a sua triste condição

Ou então na morte do escritor amigo recitar

o elogio fúnebre de há muito preparado

que se haverá de matar ainda mais o morto

e ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida

A inquiteção que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz

quando de pernas excessivamente livres

cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos

quando se me exigia o sacrifício dos olhares

e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida

Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua

ao fim de ti nem mesmo há já esse equeno almoço

aonde pelo menos qualquer coisa começava

Não disponho de alento para muitos anos

Sinto-me velho nasci em 33 estamos em 60

vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar

incapaz de lutar mandar obedecer

como que fiquei sempre à espera da maioridade

 

É tempo de assistir aos funerais dos amigos

começo a estar bom para jazer

«bom é acabar» - dizia o vice-rei

Já sou de deus deixei de ter idade rua

ele passou a ser a minha própria idade

não me levouu em conta o céu antecipado

e se algum dia porventura alguma criatura me moveu

o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua

Se título algum tive já me vai caindo

só deus é minha veste e minha história

Que ele me abra ó rua a porta da palavra

 

Agora que por fim alguém em sua voz me chama

pelos rostos presentes pelo grande ausente

que me livrou num tempo de injustiça por tudo

ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo

 

POEMA DE RUY BELO IN "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 16:36


#2929 - A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.12.18

RUY BELO (27 DE EVEREIRO DE 1933 | 8 DE AGOSTO DE 1978)

 

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

 

O senhor deus é espectador desse homem

Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe

nos olhos o tempo suave das árvores

Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma

cada uma das quatro estações

A primavera veio e ele árvore singular

á beira do tempo plantada

vestiu-se de palavras

E foi a folha verde que deus passou

pela terra desolada e ressequida

Quando as palavras o deixaram de cobrir

ficaram-lhe dois dos olhos por onde

o senhor olha finitamente a sua obra

Até que as chuvas lhe molharam os olhos

e deles saíram rios que foram desaguar

ao grande mar do princípio

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 23:21


#2928 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

charles bukovski os  caes ladram facas023 (2).jpg

CONSELHO

 

tal como o vento corta, outra vez, desde o mar

e a terra é assolada por tumultos e desordem

tem cuidado com o sabre da escolha,

lembra-te

o que talvez fosse nobre

há 5 séculos

ou até mesmo 20 anos

é agora

a maior parte das vezes

um acto desperdiçado

a tua vida passa uma única vez

já a história tem oportunidade atrás de oportunidade

para provar a imbecilidade dos homens.

 

Tem cuidado, portanto, diria eu,

com qualquer 

acto

ideal

ou acção

aparentemente nobre,

seja por este país ou por amor ou pela Arte,

não te deixes possuir pela proximidade do minuto

nem pela beleza ou pela política

que murcharão como flores cortadas;

amor, sim, mas não enquanto ardil do casamento,

e cuidado com comida má e trabalho excessivo;

terás de viver num país,

mas amar não é uma ordem

seja mulher seja nação;

leva o teu tempo; e bebe tanto quanto seja necessário

por forma a manter a continuidade,

porque a bebida é um modo de vida

através do qual o participante reclama

uma nova oportunidade na vida;

mais ainda, direi,

vive sozinho o máximo possível;

cria filhos se por acaso acontecer

mas tenta não ter de aguentar

criá-los; não te envolvas em questiúnculas

de mão ou voz

a não ser que o teu adversário atente contra a tua vida

ou contra a vida da tua alma; então,

mata, se necessário; e quando chegar a hora da morte

não sejas egoísta:

pensa como é económica a morte

e no lugar paraonde vais:

sem qualquer marca de vergonha ou de fracasso

ou necessidade de compaixão

como o vento corta desde o mar

e o tempo passa

erodindo os teus ossos numa paz suave.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI EXTRAÍDO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:28


#2922 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.18

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

 

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o  transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

O português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é a patriótica organização

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e o povo em vão requer

curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL», EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 21:42


#2920 - O LAMENTO DA MULHER

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.18

O LAMENTO DA MULHER

 

Canto a canção de uma mágoa incessante,

A história do meu infortúnio, do peso da minha dor,

Dor do presente e dor do passado,

Dor sem fim de exílio e desgosto,

Mas nunca, desde o tempo de menina, maior do que agora.

Primeiro a agonia, quando o meu senhor partiu,

Para longe dos seus, para além do mar;

Dolorosa a tristeza ao romper da aurora,

Ansiando pelo rumor que diria em que longínqua terra,

Passando horas tão difíceis, o meu amado tardava.

Até longe vagueei então, sem amigos e sem casa,

Procurando ajuda para a minha necessidade pesada.

Com intrigas secretas  os parentes dele intentaram

Separar-nos, criando entre nós vários mundos

E ódio amargo. O meu coração ficou doente.

Com azedume, o  meu senhor ofereceu-me abrigo aqui.

Em toda esta terra poucos eram os que me amavam,

Poucos os que eram leais, poucos os que eram amigos.

Assim o meu espírito está pesado de mágoa

Por saber que o meu amado, o meu homem e companheiro querido,

Vergado pela má fortuna e pela amargua do coração

Mascara o seu propósito e planeia o mal.

Com os corações felizes de outrora tantas vezes nos gabámos

De que nada nos separaria, a não ser a morte;

Tudo isso falhou e o nosso antigo amor

É agora como se nunca tivesse sido!

Longe ou perto, para onde quer que fuja, para lá me segue

O ódio daquele que outrora tão querido.

Nesta floresta, ele fixaram a minha morada

Por baixo de um carvalho numa gruta de terra,

Uma velha caverna habitada em tempos antigos,

Onde o meu coração é esmagado pelo peso da minha dor.

Tristes são as suas profundezas e os penhascos que a cobrem,

Severos os seus confins com os espinhos que lá crescedram -

Uma morada sem alegria onde dia a dia a saudade

De um amado ausente traz angústia ao coração.

Amantes há que podem viver o seu amor,

Conservando alegremente o leito da felicidade,

Enquanto eu percorro a minha gruta de terra debaixo do carvalho

De um lado para o outro na aurora solitária.

Aqui tenho de sentar-me durante o longo dia de Verão,

Aqui tenho de chorar em aflição e dor;

E nunca, na verdade, o meu coração conhecerá descanso

De toda a sua agonia e de todo o seu padecimento,

Por meio dos quais o fardo da vida me prostrou.

Qualquer idade do homem está sempre sujeita à mágoa,

E os pensamentos do seu coração à amargura, ainda que os carregue com alegria;

Perturbado é o seu espírito, perseguido pelo sofrimento - 

Quer possua toda a riqueza do mundo,

Quer seja acossado pelo Destino num país longínquo.

O meu amado está sentado de alma cansada e triste,

Fustigado pela tempestade e hirto com a geada,

Numa cela desventurada sob penhascos rochosos,

Circundada por águas que o apartam - 

A mais pungente das mágoas deve sofrer o meu amado

Recordando-se sempre de um lar mais feliz.

Triste o destino daquele que está condenado a esperar

Com um coração saudoso por um amor ausente.

 

POEMA ANÓNIMO, DO LIVRO DE EXETER, SÉCULO X, REINO UNIDO

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The Wife's Lament
Verse Indeterminate Saxon


Ic þis giedd wrece bi me ful geomorre,
minre sylfre sið. Ic þæt secgan mæg,
hwæt ic yrmþa gebad, siþþan ic up weox,
niwes oþþe ealdes, no ma þonne nu.
5
A ic wite wonn minra wræcsiþa.
ærest min hlaford gewat heonan of leodum
ofer yþa gelac; hæfde ic uhtceare
hwær min leodfruma londes wære.
ða ic me feran gewat folgað secan,
10
wineleas wræcca, for minre weaþearfe.
Ongunnon þæt þæs monnes magas hycgan
þurh dyrne geþoht, þæt hy todælden unc,
þæt wit gewidost in woruldrice
lifdon laðlicost, ond mec longade.
15
Het mec hlaford min herheard niman,
ahte ic leofra lyt on þissum londstede,
holdra freonda. Forþon is min hyge geomor,
ða ic me ful gemæcne monnan funde,
heardsæligne, hygegeomorne,
20
mod miþendne, morþor hycgendne.
Bliþe gebæro ful oft wit beotedan
þæt unc ne gedælde nemne deað ana
owiht elles; eft is þæt onhworfen,
is nu swa hit no wære
25
freondscipe uncer. Sceal ic feor ge neah
mines felaleofan fæhðu dreogan.
Heht mec mon wunian on wuda bearwe,
under actreo in þam eorðscræfe.
Eald is þes eorðsele, eal ic eom oflongad,
30
sindon dena dimme, duna uphea,
bitre burgtunas, brerum beweaxne,
wic wynna leas. Ful oft mec her wraþe begeat
fromsiþ frean. Frynd sind on eorþan,
leofe lifgende, leger weardiað,
35
210
þonne ic on uhtan ana gonge
under actreo geond þas eorðscrafu.
þær ic sittan mot sumorlangne dæg,
þær ic wepan mæg mine wræcsiþas,
earfoþa fela; forþon ic æfre ne mæg
40
þære modceare minre gerestan,
ne ealles þæs longaþes þe mec on þissum life begeat.
A scyle geong mon wesan geomormod,
heard heortan geþoht, swylce habban sceal
bliþe gebæro, eac þon breostceare,
45
sinsorgna gedreag, sy æt him sylfum gelong
eal his worulde wyn, sy ful wide fah
feorres folclondes, þæt min freond siteð
under stanhliþe storme behrimed,
wine werigmod, wætre beflowen
50
on dreorsele. Dreogeð se min wine
micle modceare; he gemon to oft
wynlicran wic. Wa bið þam þe sceal
of langoþe leofes abidan.

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publicado às 20:53


#2919 - EDIÇÃO COMPLETA DA OBRA DE VITORINO NEMÉSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.18

VITORINO NEMÉSIO (19 DEZEMBRO DE 1901 - 20 FEVEREIRO DE 1978)

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) vai editar a obra completa de Vitorino Nemésio, tendo já saído o primeiro volume desta nova edição "POESIA (1916 - 1940)".

Este primeiro volume integra uma colecção com cerca de 20 que serão publicados até 2021, distribuídos em 4 séries:

poesia, teatro e ficção, crónica e diário, ensaio e crítica. Esta nova edição da INCM da obra de Vitorino Nemésio é o resultado de uma proposta da Companhia das Ilhas, uma pequena editora da ilha do Pico.

 

 

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publicado às 22:46


#2915 - O DEUS QUE É TRANSPARÊNCIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.18

O DEUS QUE É TRANSPARÊNCIA

Ninguém me saúda nas esquinas do papel.

Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.

Mas nos dedos sinto o rumor de um segredo vegetal.

É como se procurasse alargar a mão dos deuses.

É como arder com a água na brancura ofuscante

da ressaca. E as palavras da casa se levantam

a janela a porta a cama e a cadeira.

São presenças espessas e nítidas no perfil.

Assim se forma um círculo com energia erguida

nas sílabas preenchidas pela coerência do mundo.

Maternas são as sombras em torno de um centro verde

que foi talvez um deus antigo que se esqueceu

e o esquecimento é o seu signo: a transparência.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA, in «Antologia Poética», selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes, edição Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2001

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publicado às 17:12


#2912 - IDA VITALE VENCE PRÉMIO CERVANTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.18

Ida Vitale, poetisa uruguaia, vence Prémio Cervantes 2018, o mais importante prémio da literatura em castelhano.

Com 95 anos de idade, Ida Vitale, além de poetisa, é jornalista, tradutora e crítica literária, e tem vasta obra publicada, destacando-se "La Luz desta Memoria", "Procura de Lo Imposible", "Léxico de Afinidades", Sueños de la Constancia" e "Cada uno em su noche".

 

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publicado às 08:57


#2910 - UM GESTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.18

UM GESTO

«Que cansativa que a polícia é!» suspirou, Matilde, fechando a janela. Depois, sorrindo do seu próprio comentário, deu dois passos no aposento e relanceou os olhos pelo espelho, que a penumbra como que apagara. Foi aí que se lembrou de uma mulher que vira três ou quatro dias antes, ao volante de um carro que parara junto ao seu, esperando que o sinal abrisse. Aproveitando aqueles breves momentos, a mulher mirara-se no retrovisor e, depois de levar um dedo aos lábios e o molhar com a língua, passara-o pelas sobrancelhas. Matilde puxou uma cadeira para o centro da sala e sentou-se, sem conseguir deixar de pensar naquele gesto, à luz do qual todos os móveis que a cercavam pareciam ganhar raízes no seu espírito. São gestos assim que emcorpam a vida, que lhe dão espessura, pensou ela. Tinha a certeza de que, enquanto se lembrasse daquele gesto e da mulher que o executara, o instante em que o captara continuaria a existir, tal como ela naquele preciso momento existia ali, naquela sala, deliberadamente alheada do aparato policial montado nas ruas adjacentes, devido a uma qualquer concentração perfeitamente inóqua e que só no caso de nas próximas horas nada haver no mundo digno de atenção mereceria umas escassas linhas nos jornais do dia imediato. Que peso teria aquela manifestação em comparação com o gesto da mulher que passara o dedo, molhado de cuspo, pelas sobrancelhas? Saberiam aqueles homens armados até aos dentes e distribuindo barreiras de arame farpado ao longo da avenida que o que eles supunham ser «este momento» amanhã já não teria existido? As feições da mulher haviam começado, é certo a diluir-se-lhe na memória, onde, de resto, o automóvel em que ela se encontrava e mesmo o seu cabelo já não tinham qualquer cor.  Talvez esses pormenores funcionassem como catalizadores e contribuíssem para que o instante em que Matilde a entrevira através dos vidros dos dois carros se perpetuasse para além da sua contingência. Mas não. Matilde estava certa de que isso pouco importaria. Fosse a mulher loira ou morena, gorda ou magra, o que na realidade havia de marcante é  que levara um dedo à boca e às sobrancelhas e que, sem disso  poder ter tido consciência, colocara assim, ali, um travão no tempo, dando consistência a qualquer coisa sobre a qual os nossos gestos normalmente não produzem mais efeito que os de quem se industriasse a desenhar cruzes na água.

TEXTO DE LUÍS MIGUEL NAVA in Poesia Completa (1979-1994), Edição Publicações D. Quixote, Março de 2002

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Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava
 
Nasceu a 1957
Morreu em 1995
Luís Miguel de Oliveira Perry Nava foi um escritor português. Era bisneto de José Bressane de Leite Perry, político da monarquia constitucional e visconde de Leite Perry.
 
Luís Miguel Nava nasceu em Viseu, Portugal, em 1957. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, partindo mais tarde para Oxford, onde lecionou Português. Estreou com o volume de poemas Películas (1979), pelo qual recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou ainda as coletâneas A Inércia da Deserção (1981), Como Alguém Disse (1982),Rebentação (1984),O Céu Sob as Entranhas (1989) e Vulcão (1994). Em 1986, mudou-se para a capital belga, trabalhando como tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. Foi assassinado em seu apartamento de Bruxelas, em 1995.

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publicado às 19:20


#2898 - ATRAVÉS DA CHUVA E DA NÉVOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.11.18

RUY BELO

 

ATRAVÉS DA CHUVA E DA NÉVOA

 

Chovia e vi-te entrar no mar

longe de aqui há muito tempo já

ó meu amor o teu olhar

o meu olhar o teu amor

Mais tarde olhei-te e nem te conhecia

Agora aqui relembro e pergunto:

Qual é a realidade de tudo isto?

Afinal onde é que as coisas continuam

e como continuam se é que continuam?

Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos

a casa povoada o nome no registo

uma menção no livro das primeiras letras?

Chovia e vi-te  entrar no mar

ó meu amor o teu olhar

o meu olhar o teu amor

Que importa que algures continues?

Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar

Que posso eu fazer por tudo isso agora?

Talvez dizer apenas

chovia e vi-te entrar no mar

E aceitar a irremediável morte para tudo e todos

 

POEMA DE RUY BELO IN «O TEMPO DAS SUAVES RAPARIGAS E OUTROS POEMAS DE AMOR», EDIÇÃO 1402, JULHO 2010, ASSÍRIO & ALVIM

 

 

 

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publicado às 20:02


#2895 - "Desimaginar o Mundo - Manuel António Pina 2018"

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.11.18

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)

 

Para celebrar o 75º aniversário do nascimento de Manuel António Pina, tem início, este sábado, na cidade do Porto, as Jornadas Internacionais "Desimaginar o Mundo-Manuel António Pina 2018", com a reposição da peça «O Beco dos Gambozinos".

A peça é um musical para crianças concebido há cerca de 30 anos por Manuel António Pina e a música desta peça é de Susana Ralha.

Este musical regressará ao palco do teatro Helena Sá e Costa, na cidade do Porto, dia 3, pelas 17 horas. 

Estas jornadas acontecerão, também, em São Paulo, Brasil, para prosseguirem, depois, no Porto, a partir do dia 16.

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publicado às 19:59


#2886 - CANTO DAS IMAGENS

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.10.18

CANTO DAS IMAGENS

 

Ao princípio era só uma em cada olhar

após a grande divisão das águas

e mesmo, segundo disse Baudelaire, a imagem

até ao seu século do real múltiplo

era una, única e própria. Dementes

chamou este cantor aos fotogramas

que roubavam à alma a unicidade

e deram aos olhos frívolos as figuras

plurais, idênticas, dispersivas.

Era somente uma a imagem mística,

dos entes naturais aos transcendentes.

Só uma esta vermelha afelandra

embora as suas irmãs se lhe assemelhem

e desassemelhem, cada uma, sempre.

O concreto pulsava neste ritmo

das coisas parcas, poucas, singulares.

E de repente, nos olhos do poeta

cada coisa reproduziu a imagem

inumeradamente, e a ideia

decaíra no banal prolixo.

Antes, podia hesitar-se entre o modelo

e as sombras de Platão, agora as flores

malignas podem reproduzir-se no mundo

nítidas, iguais, supérfluas.

Eu ainda vejo o olhar antigo de Baudelaire

e cada coisa vibra no seu mito,

e cada imagem cria o seu espírito,

e cada cópia fotográfica muda

na liminarmente máxima diferença.

Ao crítico e amante da Pintura

as dúbias imagens decerto deram

a cada rosto um só outro rosto,

a cada paisagem uma só tela.

Já os vidros, a água, a prata traziam

a incerteza aos traçoa, como se os olhos

que nos deu a Natureza nos fossem

infiéis. E o poeta pôde resistie

a esta perda das formas consagradas

e consubstanciais das coisas que ainda

ecoam a Criação como o  eco cósmico.

 

30 de Outubro de 1993

 

POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

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publicado às 13:09


#2883 - Poesia - Antologia Mínima

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.18

Uma nova antologia de Fernando Pessoa composta por 87 poemas escritos pelo ortónimo e por nove heterónimos, com o título "POESIA - ANTOLOGIA MÍNIMA" publicada pela Tinta-da-China, já está disponível nas livrarias.

 

A MAIS SINTÉTICA ANTOLOGIA DO MAIS VASTO DOS POETAS

Este livro é um convite a «desaprender Pessoa», segundo a expressão do mestre Alberto Caeiro, e a lê-lo como se tivéssemos acabado de o descobrir. Ao arrepio de uma tendência recente que colocou o poeta num novo cenário, menos literário e cultural, e mais urbano e utilitário, o que esta Antologia Mínima propõe é a descoberta ou redescoberta de Fernando Pessoa através de alguns dos mais espantosos versos do século XX: da «Ode marítima» à «Tabacaria», passando por «Chuva oblíqua», «O mostrengo», «O guardador de rebanhos», «Opiário», «Autopsicografia» e muitos poemas menos conhecidos, sempre reveladores de um génio que continua a inspirar espanto, enlevo e admiração.

O essencial da poesia de Fernando Pessoa e seus principais heterónimos, numa edição de Jerónimo Pizarro.

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publicado às 10:28


#2877 - CANTO DOS INSECTOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.10.18

 Fiama Hasse Pais Brandão

 

CANTO DOS INSECTOS

 

Podia cantar as aves, mas os insectos

são um misto de aves, de astros e de átomos

que giram em órbita como as imagens de atlas

do Universo ou esquissos de átomos.

As aves são as almas regressadas

ou que vêm da matéria para nós.

Este besouro zumbe junto ao tímpano

a voz com a qual o Amado me bafeja,

afasta-se e aproxima-se entre as tílias

que plantei em nome de Wolfgang Goethe

e hão-de dar a flor fonte do sono.

Por baixo delas o gato semovente

mostra a harmonia da garra que lambeu

para lavar o filho, e reconhece-o

como se fossem gatos num só ser.

Rente ao solo pisam a matéria viva

que é a erva, a terra e os mil milhares

dos ovos que movem a Terra astro.

São esses os insectos que são pó,

que nos roçam os pés e nos transportam

entre o nascimento e a primeira morte.

 

Quando o besouro passa ou poisa aqui,

o seu contexto move-se, e não pode

deixar mudar sozinho aquele insecto

sem o real concreto que o envolve.

A flosa canta a sua identidade

sem saber que é única neste espaço

em que as aves, os animais e o poeta

enquadram os insectos, em fase larvar.

Canto os que vão procriar na terra

fermentada e os já pairam aqui

desde que me  senti tão similar.

O tempo é demarcado pela medida

do olhar que segue o sulco do insecto.

Tudo aquilo que está a ser olhado

aruma-se no verso com a ordem

que coloca os seres em relação recíproca

provável mas de evidência falsa

Ao poente o silêncio é o leito e o fundo

onde vibram os sons dde várias graças,

entre as agora espúrias aves canoras

o zum-zum estelar das moscas da tarde

anuncia a noite em que zumbe o Mundo.

A luz do Amado aconchega a noite,

acolhe o solitário na barca iluminada

e eis que o Rio tão próximo dá a imagem

da barca redentora que nos chama.

 

Ao cair da noite as tílias ficam

com as suas folhas secas de Outubro

à espera da manhã que as vai reter 

presas um pouco mais na luz espalhada.

Sentada no jardim vejo o crepúsculo

juntar o insecto, o gato e a tília,

e o que a Natureza une ante os meus olhos

nada o pode desunir naminha vida.

Canto o bater das asas mínimo no ar

como um sopro de aragem num rebento

ou o escaravelho que dobra o fio da erva

e nele dança na oscilação.

Estou aqui a amar e a contemplar

o esforço e a força de cada ser.

O escaravelho cai na mão do Amado

e à sua direita tem o seu lugar

quando for esmagado pelo algoz

que não esteja possuído de fascínio.

Não desisto de cantar os animais

e as plantas que no berço me embalaram

e me ditaram a voz própria dos poemas.

O coração palpita-me como o abdómen

da borboleta que vem beber o néctar

da tília, que eu esperarei ainda.

Estou a vê-la, ela sacia-se e afasta-se

na fuga que eu atribuo ao seu voar.

Também o ventre do gafanhoto lateja

e o do grilo, suspensos pelos ângulos

das patas que lhes prendo. Tudo

está aqui disperso e ordenado

entre a manhã aberta que inicia

e a outra noite que hora depois de hora

emudece os sons até á morte.

E o pânico e a paz nocturnos

juntam-se como todos os contrários.

 

Dia e noite os insectos percorrem

em redor de nós a sua elipse.

O moscardo negro veio cintilar

na futura manhã que se repete.

Cada voo entre o poente e o futuro

está imóvel como nós no Tempo.

Subitamente a borboleta defronta

o pequeno gato ágil não onírico.

Move sádico devagar o dorso,

rasteja e salta, ora prendendo-o

ora soltando o breve corpo alado

que facilmente a imagem assemelha

a um ciclâmen que se solta e adeja.

Verei se o fôlego do insecto não sufoca

no duro jogo da cria de felino

a quem o instinto tão cedo movimenta.

Ficarão longo tempo nesta luta

fortuita e repentina em pleno cosmos

como entre si combatem os iões.

A borboleta oscila entontecida

indignamente prostrada sob garras,

ela que é o símbolo visível

da metamorfose galáctica.

Também o gato é belo, mas fatal

no destino circular da borboleta,

inato caçador de sons alados

néscio e voraz ele desconhece

o ciclo em que se gera a sua vítima.

E mesmo sem metamorfoses, o real

muda, repete e imagina sempre,

e cada estádio não é um só estádio.

 

O Amado volta cada noite inteiro

assinalando o espírito e a carne.

Na manhã que decorre, o seu sinal

é a perene borboleta que resiste

e só há-de morrer na morte absoluta

em que a matéria se perderá.

Está viva sobre a relva, embora as asas

pareçam pétalas pisadas. Não voa,

e estremece a recordar o voo.

E a Mão direita que nos abençoa

marca no seu corpo a sombra do Sol.

 

29 de Outubro de 1993

 

POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - In "Cantos do Canto", retirado do Livro "Obra Breve", edição 0976, de Maio de 2006, editado pela editora Assírio & Alvim

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BIOGRAFIA DA RESPONSABILIDADE DA EDITORA "ASSÍRIO & ALVIM"

 

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