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#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

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publicado às 19:56


#2281 - Os Cegos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

 Alexandre O'Neill

 

OS CEGOS

 

                                                                                                      Ah, Madame! que la morale des aveugles

                                                                                                                  est différente de la nôtre!

 

                                                                                                                              DIDEROT - Lettre sur les aveugles  

 

 

Durante os meses de inverno, podemos ver os cegos, sobre os telhados, acariciando os dedos - à procura duma mãe que não seja virgem.

 

O prazer torna-os redondos como ovos e o vapor de água vem flutuar sobre os seus bigodes sempre em sangue.

 

Às vezes soluçam e deixam escapar da boca pequenas coisas - o  que não basta para interromper o jogo.

 

Quando chega a primavera, os cegos caem dos telhados e começam a andar  pelas ruas à procura da moeda de perfil de luz.

 

Prosa escrita por Alexandre O'Neill in POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS - ASSÍRIO & ALVIM 2017

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publicado às 16:24


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