Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#3099 - ESCUTA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.04.20

 

As paredes apertam o peito

As flores estão murchas há muito tempo afogadas na água ramelosa de uma velha jarra macilenta

As notícias já são velhas como a alma dos jornais amarrotados

Estás com medo eu sei

Mas escuta... Já acabou...

Abre a janela

Deixa entrar um pouco de luz

Um pouco de esperança

Um pouco de ar fresco para limpar as nódoas nos teus olhos

Um pouco de cada vez para não ficares bêbedo

Banha-te

Deixa escorrer a água quente sobre o corpo

Demora o tempo que quiseres

Observa o  corpo nú no espelho e verás que nenhuma doença tens

Apenas solidão... somente solidão e medo

Debruça os olhos sobre o mundo do teu bairro da tua rua

E verás que as árvores não morreram

Continuam agarradas à terra

Agarradas à vida

E são casa sombra abrigo comida amparo.

 

Escuta.

Escuta o mundo a tua rua

Escuta o teu corpo 

Escuta os suspiros e a respiração suave da árvore

 

Escuta

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:28


#3098 - RAIO X ||| POEMA DE DANNIE ABSE

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.04.20

DANNIE ABSE - (1923-2014)

 

RAIO X

 

Alguns revistam o fundo do mar, alguns lançam-se a uma estrela

e, mãe, alguns obsessivos voltam ao contrário cada pedra

ou abrem sepulturas para que entre aquela luz da estrela.

Há homens capazes de abrir seja o que for.

 

Harvey, a circulação do sangue,

e Freud, a circulação dos nossos sonhos,

espreitaram honradamente e honrados são

como todos os exploradores. Homens capazes de abrir homens.

 

E aqueles outros, mãe,  com doenças

como ruas grandiosas que tomaram o seu nome: Addison,

Parkinson, Hodgkin - médicos capazes de chegar

depressa e primeiro a qualquer cena amarga com um leito de morte.

 

Deles sou o colega lento, meio amedrontado,

incurioso. Em rapaz era assim: sabes como

a minha pequena mão nunca arreliou até destroçar

um despertador ou retalhou um rato morto.

 

E esta mão maior é igual. Estende-se agora

de uma manga branca para erguer, mãe,

o teu raio x até ao ecrã brilhante. Os meus olhos vêem

mas não querem ver; eu ainda não quero saber.

 

POEMA DE DANNIE ABSE, TRADUZIDO POR CECÍLIA REGO PINHEIRO

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:56


#3097 - AS MÃES ||| POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.04.20

 EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005)

 

AS MÃES

 

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes enconstam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas  pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma  ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das , tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela,regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando algumas azeitonas para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela, só ele vê.

 

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressureição.

 

Poema de Eugénio de Andrade

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:04


#3096 - ALUCINAÇÃO ||| POEMA DE JOSÉ HIERRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.20

JOSÉ HIERRO  (1922-2002)

 

ALUCINAÇÃO

 

      Amanhece. Saí descalço a pisar os caminhos,

a sentir a geada em minha carne nua.

Tanta luz, tanta vida, tão verde canto da erva!

Tão feliz criação erguida ao mais alto cume!

Sinto o tempo passar e perder-se e só fora de mim se detém.

E o universo parece que está  encantado, tocado pela graça.

Tantas coisas eternas que ao tempo estragam sua trágica espada!

Tanta luz, caminhos tão abertos!

Tanta vida que evita os séculos e no dia   sua magia ordena!

 

      Se a flor, se a pedra, se a árvore, se o pássaro;

se seu olor, sua dureza, seu verde arquejo, seu voo entre o céu e o ramo.

Se todos me devem sua vida, se à minha custa, da minha morte sua vida é possível,

à minha custa, da minha morte diária...

 

      Tanta luz, tão remoto pulsar da erva...!

(Saí descalço a sentir a geada em minha carne nua.)

Tanta luz, tão escura pergunta!

Tão escura e difícil palavra!

Tão confuso e difícil buscar, pretender compreender e aceitar,

e para o que não pára nunca...

 

Poema do poeta espanhol José Hierro traduzido por José Bento

 

___________________________________________________________________________________________________

BIOGRAFIA

 

José Hierro del Real. (Madrid, 3 de abril de 1922-21 de diciembre de 2002). Poeta español, crítico de arte y académico de la Real Academia de la Lengua.

Su familia se traslada a Santander siendo niño y allí estudia la carrera de perito industrial, que tuvo que interrumpir en 1936. Su primer poema, Una bala le ha matado, aparece publicado en 1937.

Al finalizar la Guerra Civil es detenido y procesado. Permanece en la cárcel hasta 1944 y allí empieza a interesarse de forma sistemática por la literatura, apareciendo ya en sus primeros escritos diversos hechos vividos durante la contienda.

Cuando sale de prisión se traslada a Valencia, donde se dedica a escribir, colabora en un diccionario mitológico y, junto a José Luis Hidalgo, participa en la fundación de la revista Corcel. En 1944 realiza la primera crítica pictórica sobre la obra de Benito Ciruelos.

Durante los años 40 vuelve a Santander y, además de trabajar en diferentes oficios, colabora en la revista de la Cámara de Comercio, donde escribe sobre economía y sobre los hombres ilustres de la industria cántabra.

En 1946 se relaciona con el renovador grupo "Proel", editor de la revista poética del mismo nombre en la que publica su primer libro de poemas, Tierra sin nosotros, en 1947.

En 1950 escribe Con las piedras, con el viento y en 1953 aparece Antología poética, una amplia selección de su obra lírica.

Durante esa época fija su residencia en Madrid, donde comienza a trabajar en Radio Nacional de España, además de realizar crítica de arte y colaborar en revistas y periódicos.

En 1954 edita Estatuas yacentes y en 1962 el volumen Poesías completas.

Durante las décadas siguientes continúa creando poesía, participa en actividades literarias, realiza crítica de arte analizando la obra de artistas del campo de la pintura y de la escultura, y forma parte de numerosos jurados literarios. Pronuncia gran número de conferencias sobre poesía y arte en la mayoría de las capitales europeas y sus poemas figuran en las más destacadas antologías de poesía contemporánea.

Está  considerado como una de las voces más representativas de la poesía social de posguerra.

 

FONTE DA BIOGRAFIA: INSTITUTO CERVANTES

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:30


#3095 - PARA QUE SERVE UM SEMÁFORO NA GRANDE CIDADE VAZIA...

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.20

O corpo tem um barco à deriva

perdido

completamente cego

com pétalas vermelhas agarradas  aos olhos como

escamas arrepiadas na pele do peixe aprisionado

na armadilha da rede.

 

Para que serve, então,  um semáforo na grande cidade vazia?

 

O barco enjoa e vomita o medo e as pétalas choram os mortos

engolidos por algas negras de olhos medonhos.

 

A cidade está vazia.

Para que serve o semáforo?

 

A brisa está parada

A respiração suspensa

à espera... à espera

e o silêncio tem um cheiro de morte.

 

Para que serve o semáforo na grande cidade vazia?

 

Talvez a esperança de o barco encontrar o seu porto de abrigo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:59


#3094 - POEMA DIDÁCTICO ||| POEMA DE PAULO MENDES CAMPOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.20

PAULO MENDES CAMPOS (1922-1991) |||  BRASIL

 

POEMA DIDÁCTICO

 

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo

Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.

Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos

Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.

 

No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,

Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,

Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,

Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,

Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,

Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria

Que se deita sobre a cidade, olhabdo a ferrovia, a fábrica,

E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.

Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,

Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio

E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?

 

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante

Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio

Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.

Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.

Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.

E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -

E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -

E não olhei mais a estrela - mas o rosto que reflectiu o seu fulgor.

Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?

O mundo, companheiro, decerto não é um desenho

De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)

Mas um desencontro de frustrações em combate.

Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem

- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem-estar...

 

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.

Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética

Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa

Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.

O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,

Não filtraria no escuro um homem inconsequente,

Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem

É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -

Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.

 

Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo

Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -

É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,

Quando ainda sofria sobre armações metálicas do mundo,

Acuado como um cão metafísico, eu gania para  a eternidade,

Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,

A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.

Por isso, agora, organizei  meu sofrimento ao sofrimento

De todos: se multipliquei a minha dor,

Também multipliquei a minha esperança.

 

POEMA DO POETA BRASILEIRO PAULO MENDES CAMPOS

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:53


#3092 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.20

A palavra procura o seu sentido como:

A chama o pavio da vela

O velame o vento

Os olhos outros olhos

Os lábios outras bocas

A verdade em agonia uma certeza

O gato em passos de dança  o pássaro desprevenido

O imbecil outro imbecil outro imbecil a bofetada na inteligência

O ridículo exibicionista a celebrar a ignorância

 

E eu o que procuro?

 

A paz a pomba que já não voa

A Páscoa os ramos de oliveira

A normalidade dos dias mansos nesta incerteza

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:50


#3091 - DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO ||| POEMA DE JULIO CORTÁZAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

JULIO CORTÁZAR (1914 -1984)

 

DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO

 

Cada vez são mais os que crêem menos

Nas coisas que preencheram as nossas vidas,

Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,

O verbo, a pomba sobre a arca da História,

A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

 

Nem por isso caem do céu do neófito

Na ciência que expõe máquinas na lua;

Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard

Faça transplantes do coração

Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um

Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida

Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

 

 Cada vez são mais os que crêem menos

Na utilização do humanismo

Para o nirvana estereofónico

De mandarins e estetas.

 

Sem que isto queira significar

Que quando houver um instante de inspiração

Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,

Ou se vislumbre os trémulos anjos

De Angélico.

 

POEMA DE JULIO CORTÁZAR TRADUZIDO POR  JORGE HENRIQUE  BASTOS

_______________________________________________________________________________________________

BIOGRAFIA

Escritor argentino, Julio Cortazár nasceu a 26 de agosto de 1914, em Bruxelas, na Bélgica, durante uma viagem de negócios empreendida pelos seus pais. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires, onde Cortázar veio a estudar, obtendo, em 1935, habilitações como professor do ensino secundário pela Escuela Normal de Professores Mariano Acosta. Ingressou depois na Universidade de Buenos Aires e deu aulas nas escolas secundárias de Bolívar, de Chivilcoy e de Mendonza.
Em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Universidade de Cuyo, em Mendonza, onde se envolveu numa manifestação contra a política populista e sindicalista de Juan Domingo Peron, pelo que foi encarcerado. Posto em liberdade pouco tempo depois, viu, no entanto, vedada a sua carreira académica. Assumiu então, e em 1946, a direção de uma editora em Buenos Aires, funções que desempenhou até 1948, altura em que completou a sua licenciatura em Direito e Línguas. Cortázar passou então a trabalhar como tradutor.
Em 1949 publicou a sua primeira obra digna de interesse, Los Reyes, um longo poema narrativo em que utilizava arquétipos como o Minotauro e o Labirinto de Creta. Em 1951, época em que o regime de Peron se estabelecia como ditadura, publicou numa revista mantida por Jorge Luis Borges, a Los Anales de Buenos Aires, a sua primeira coletânea de contos, com o título Bestiário (1951).
Nesse mesmo ano, e em resultado das perseguições que lhe foram movidas, o autor optou pelo exílio, mudando para Paris, cidade que não mais abandonaria. A partir de 1952 passou a trabalhar para a UNESCO como tradutor independente.
Continuou a publicar coletâneas de contos, como Final de Juego (1956), Las Armas Secretas (1959), obra que viria a ser adaptada para cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni, com o título Blow Up, em 1966. Em 1960 consagrou-se também como romancista, com o aparecimento de Los Premios, obra em que contava o rumo de um grupo de pessoas que ganham como prémio de lotaria um cruzeiro-surpresa. O seu romance mais conhecido, Rayuela, seria publicado em 1963. A obra, original e imaginativa, influenciou significativamente a literatura da América Latina.
Em 1973 empreendeu uma longa viagem pela América do Sul, visitando países como o Peru, o Equador, o Chile e a Argentina, como investigador das violações dos direitos humanos no continente, apoiando, com os ganhos resultantes da venda das suas obras, os Sandinistas e as famílias de prisioneiros políticos.
Em 1975 lecionou, como professor convidado, nas Universidades de Oklahoma e do Barnard College de Nova Iorque. Em 1981 tomou a nacionalidade francesa e, dois anos depois, foi-lhe autorizado visitar de novo a Argentina.
Faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris. Embora seja geralmente aceite como causa da sua morte uma leucemia, existe também a opinião de que o autor tenha sido vítima de SIDA, nesse tempo ainda não diagnosticável.
 
Fonte da Biografia: BERTRAND

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:13


#3090 - AS VOZES TRISTES ||| POEMA DE RICARDO JAIMES FREYRE

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

RICARDO JAIMES FREYRE (1868-1933)

 

AS VOZES TRISTES

 

      Pelas brancas estepes

vai o trenó ligeiro;

distantes, os uivos dos lobos

unem-se aos cães em seu resfolêgo denso.

 

      Neva.

Dir-se-ia que o espaço se envolvera num véu,

recamado  de lírios

pelas asas do nordeste.

 

      O infinito branco...

Sobre o vasto deserto

voga uma vaga sensação de angústia,

de supremo abandono, fundo e sombrio desalento.

 

      Um pinheiro sozinho

ao longe é um desenho,

num fundo de brumas e de neve,

como esguio esqueleto.

 

      Entre os dois sudários

da terra e do céu,

avança no Nascente

o gelado crepúsculo de Inverno...

 

Poema do poeta Boliviano Ricardo Jaimes Freyre.

Jossé Bento traduziu

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:31


#3089 - O TEMPO CONCRETO ||| POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.03.20

O TEMPO CONCRETO

 

O tempo duro

com estas unhas de pedra

este hálito pobre

de órgãos esfomeados

estas quatro paredes de cinza e álcool

este rio negro correndo nas noites como um esgoto

 

O tempo magro

em que minhas mãos divididas

nitidamente separadas e caídas

ao longo dum corpo de cansaço

pedem o precipício a hecatombe clara

o acontecimento decisivo

 

O tempo fecundo

dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres

repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias

das ruas agrestes e pequenas da mágoa

familiar e precisa como uma esmola certa

 

O tempo escuro

da peste consentida do vício proclamado

da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos

da fome concreta dum sonho proibido

e do sabor amargo dum remorso invisível

 

O tempo ausente

dos olhos dum desejo de claras cidades

em que acenamos perdidos às soluções erguidas

com vozes bem distintas de cadáveres opressores

com gritos sufocados de problemas supostos

 

O tempo presente

das circunstâncias ferozes que erguem muros reais

dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos

das anedotas contadas num outro mundo de cafés

e das vidas dos outros sempre fracassadas

 

O tempo dos sonhos

sem coragem para poder vivê-los

com muralhas de mortos que não querem morrer

com razões de mais para poder viver

com uma força tão grande que temos de abafar

no fragor dos versos disfarçados

 

O tempo implacável

em que juramos de pé viver até ao fim

maiores dos que nós ser todo o grito nu

pureza conquistada no seio da vida impura

um raio de sol de sangue na face devastada

 

O tempo das palavras

numa circulação sombria como um poço

de ecos incontrolados

de timbres inesperados

como moedas de sangue cunhadas numa noite

demasiado curta e com luar de mais

 

O tempo impessoal

em que fingimos ter um destino qualquer

para que nos conheçam os amigos forçados

para que nós próprios nos sintamos humanos

e este fardo de trevas esta dor sem limites

a possamos levar numa mala portátil

 

O tempo do silêncio

em que o riso postiço dos fregueses da vida

finge ignorá-lo enquanto soluçamos

de raiva de razão reprimida revolta

e os senhores de bom senso passeiam divertidos

 

O tempo da razão

(e não da fantasia)

em que os versos são soldados comprimidos

que guardam as armas dentro do coração

que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue

a tinta de escrever duma nova canção

 

poema de antónio ramos rosa

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:40


#3088 - O ÚLTIMO INSTANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.03.20

 

 Quando a luz se torna sombra e encontra

a primeira respiração da noite

o silêncio invisível nocturno invade os corpos

estendidos sobre as partículas das últimas palavras ditas

os  dedos agarram-se às explicações e significados

dadas por máscaras que escondem o medo

e os olhos estabelecem o limite daquilo que o corpo pode suportar

quando chegar

o momento dos sussurros de canções

ouvidas na infância

cantadas para apaziguar o medo

do último instante de luz

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:32


#3087 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.20

Assimilando a árvore a borboleta e os gatos

no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho

com a saliva do  calor e os escuros fragmentos

regresso à lentidão de um baile a um violoncelo

tocado por um gnomo sobre um telhado de metal

Trago uma lâmpada de orvalho para  atravessar o abismo

e um pássaro adormecido sobre uma folha verde

Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua

mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis

entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor

Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes

enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram

Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada

e na fragrância do arco quando a consistência

é a bondade que flui entre os cornos da dança

Atravesso os murmúrios disfarçados ou os símbolos

que alçam as lânguidas cabeças submersas

até que os signos os alcancem e os respirem

Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras

Escondo-me num olho e voo dentro da sombra

Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes

Sedento movo as paredes na ternura da água

Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas

enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água

Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza

Os conceitos suspiram entre a língua das flores

Guitarra e musgo e tempo acariciado

perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas

Mulheres com sombrinhas descalças sobre a praia

o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias

Coloco a mão na âncora deste ritmo

O sangue penetra a garganta o sangue das flautas

e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso

que é um orgão do sol e um violino da lua

De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela

uma água enigmática desliza entre carícias

Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria

e o corpo saboreia o horizontal relâmpago

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:52


#3086 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.03.20

O eco que perturba o corpo

e acorda o medo invisível 

que habita os esconderijos da pele

e uma luz bacenta derrama sobre os teus pés

lágrimas silenciosas,

enquanto o corpo,

já despido

roça nas paredes da memória

para apagar cicatrizes antigas tatuadas

no coração da alma. 

 

Sobre a mesa rude e despida

os olhos desenham no corpo do pó imagens que julgavas esquecidas

mas

que a tua mão guardou na memória dos dedos os gestos

dramáticos e teatrais das borboletas e

dos corações com "AMO-TE, MAMÃ",

que na infância desenhavas em brancas e desertas folhas de papel

e, assim amordaçavas o eco

e iluminavas a luz.

             

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:47


#3085 - UM PONTO ||| POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.03.20

 

UM PONTO

 

Um ponto - talvez um centro

em permanência de tranquilidade

para a noite inteira. Um ponto

extremo, interno. Um pequeníssimo ponto

invulnerável

de estabilidade total

- nascido como? - fruto do espaço limpo,

de aberta aderência nua ao ar,

de contância livre, desocupada,

do descanso de ser até ao fundo simples,

de completa entrega?

 

Um ponto nu inabitado branco

de intocável serenidade,

fixo como um nervo e imponderável,

de fim inicial,

ponto de respiração,

clareira de estar,

abertura central viva

praia de ser e nada

- mas apenas um ponto, um puro ponto

contra a noite inteira,

contra o frio,

contra a destruição.

 

Ponto de união

de paz coextensa à noite,

opaco e diáfono nó

do desenlace perfeito.

Nó de água

da água mais nua.

Ninho interno do espaço.

Pequena lua essencial

num horizonte de segua paz.

 

Ponto, em ti descanso,

certeza do mundo e de mim

em ti, dentro da noite,

atinjo o equilíbrio actual e puro.

Ponto, antes do início,

de ti a ti, em mim,

pulsação lisa e leve,

suave motor da terra,

a pacífica respiração do oásis.

 

Ponto

de universo fixado

onde atingi a consistência dócil

de permanecer entrgue,

plenitude abrigada

na navegação nocturna.

 

Um ponto vazio,

plenamente vazio.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN "ANTOLOGIA POÉTICA", EDIÇÃO PUBLICAÇÕES D. QUIXOTE, 2001, COM PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

___________________________________________________________________________________________________________________________

___________________________________________________________________________________________________________________________

Biografia

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 
A crescente importância que a actividade literária foi tomando na sua vida levou-o a certa altura a abandonar o emprego no escritório em que trabalhava, para a ela se dedicar exclusivamente, com todas as consequências que tal decisão acarretava.
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:42


#3081 - FRANZ KAFKA ||| POEMA DE WILLIAM OSPINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.20

1490115030_835106_1490713782_rrss_normal.jpg

 

FRANZ KAFKA

 

Pai, digo-lhe, dá-me três grãos de cevada para despertar o adormecido.

Mas meu pai não responde:

é um enorme cavalo de bronze, alto sobre colinas e sinagogas.

Mãe, digo-lhe, afasta tanta névoa,

mostra-me um rosto doce, de onde brotem palavras ingénuas.

Mas ela perdeu-se pelos becos de pedra

e só encontro no espelho os seus olhos imensos.

Avô, digo então, já não lutes mais com o anjo,

vem contar-me histórias, junto ao ninho, enquanto gela o Elba.

Mas o velho olha-me com olhos ausentes, e  compreendo

que não é este o meu avô mas um velho cigano que me quer vender uma recordação.

Irmã, bela irmã, digo-lhe,

toma a minha mão pois faz escuro nesta casa imensa.

Mas ao meu lado passa uma condessa polaca monumental e arrogante

e ouve-se um violino, e fecha-se uma porta.

Irmão, digo, que belo cavalgar sobre o cavalinho de pau e de laca,

para onde nos levam estas tardes incertas?

Mas ele é só uma imagem, uma fotografia cinzenta nas minhas mãos,

e ao longe, atrozes, os canhões ressoam.

Goethe, digo-lhe, canta-me uma canção romana,

faz com que eu sinta no meu coração esta antiga tristeza.

Mas a lousa cala-se e sobre ela voam pombas cinzentas

e não posso abrir este livro porque as páginas são de cinza.

Milena, digo logo, talvez possas tu finalmente salvar-me,

diz-me que sou de carne e de sangue, que isto que me aflige é um desejo.

Mas ela faz-se fantasma entre milhares de seres esquálidos

e apenas apercebo duas chamas que se apagam muito longe.

 

Então é delírio tudo isto? A quem posso chamar que me salve?

O seu reino é deste mundo. Todos estão aceites e absolvidos.

São demasiado humanos, são demasiado justos,

e não consigo falar-lhes com o meu estrondo de élitros..

E não aprendi a atravessar as portas,

e não sei defender-me.

Se vires dois olhos cinzentos de gato na gótica noite de Praga

compreenderás que tento saber onde me encontro.

Se ouvires um coração na gótica noite de Praga

compreenderás quem sustenta todo este sonho.

 

Poema de William Ospina, do livro "Um país que sonha - cem anos de poesia colombiana", edição 1512, Março de 2012

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:00

NATÉRCIA FREIRE   |||   1919-2004

PARA O INSTANTE DE NOS PERDERMOS

 

Para o instante de nos perdermos,

estão soando já todos os sinos do Mundo!

E as sereias, no mar, se impacientamm

de nevoeiros sem fim.

Como será?...

Morrerei longe de ti?

Dir-me-ás adeus numa gare escura e fria 

ou partirás, de neve, entre a luz da manhã,

enlutada e viúva do clarão dos teus olhos?

 

Como será...?

Todas as aves que soltamos no sonho

estão suspensas no bronze, dessa música triste.

Todas as veredas que sulcamos, sem corpo,

vestem cinza e poeira de incêndios e de sóis...

Como será?

Pergunto aos ventos todos,

às aves e às alturas

e nada me responde!

 

Porque o instante de nos perdermos

será mais negro que o apagar do sol;

mais triste que o desabar dos mundos;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as crianças

nos berços feitos de astros;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as flores

em todos os jardins e campos da Terra.

 

Todos os amorosos mortos

estão chorando nos túmulos o instante de nos perdermos

e tecem, à nossa volta,

esta sede, esta dor, esta infinita procura

de todas as vidas que em nós brotam e se ocultam

em cada minuto de paixão.

 

São as suas vozes que vibram nos nossos ouvidos

e nos roçam, na pele, um vento de perdição.

É a recordação das suas  penas

que nos ensina a fundir melhor

as nossas almas de Deus.

É o tormento dos seus amores sem braços

que alucina o instante de todas as ausências.

É a dor, é a dor de saber que somos mortais,

com o infinito no peito

e séculos de pedra sobre a poeira que somos!

 

São as suas vozes de séculos que nos ensinam a luz.

São as suas lágrimas de séculos que nos humedecem os olhos  enternecidos.

 

São as  suas bocas desenhadas no espaço,

inatigíveis, fugazes, que nos sugerem o desejo

do beijo mais profundo, mais profundo.

São as suas mãos desfeitas e voláteis

que estão fazendo soar já, na tarde silenciosa,

para o instante de nos perdermos,

todos, todos os sinos do Mundo!

 

_______________________________________________________________________________________

_______________________________________________________________________________________

Natércia Freire

Escritora portuguesa nascida em 1920, em Benavente, e falecida a 19 de dezembro de 2004. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Dirigiu o suplemento literário "Artes e Letras" do Diário de Notícias e colaborou em publicações diversas e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Iniciou-se como decente na escola primária em 1944. Foi convidada para a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que se tornou membro, de 1971 a 1974.
Revelou-se na poesia em 1939 com a coletânea Meu Caminho de Luz. Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por Rio Infindável em 1947 e Anel de Sete Pedras em 1952), Ricardo Malheiros (1955) e Nacional de Poesia (1972), este último pela obra Os Intrusos. Da sua vasta obra destacam-se ainda Horizonte Fechado (1942) e os contos de A Alma da Velha Casa (1945).
 
FONTE INFOPÉDIA

 

POEMA DE NATÉRCIA FREIRE IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO QUASI EDIÇOES, JUNHO DE 2006, COM EDIÇÃO E NOTAS DE PEDRO SENA-LINO E PREFÁCIO DE MARIA GABRIELA LLANSOL                                                

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:24


#3079 - um desenhador de peixes ||| poema de Charles Bukowski

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.03.20

um desenhador de peixes

 

ele não parava de desenhar peixes

em papéis

e eu disse:

Jack, o que é que se passa?

mas ele não respondia

e a mulher dele disse

não há meio de ele procurar emprego

é isso que se passa

e eu tenho de tomar conta

dos putos; não sei

como é que vamos

fazer esta merda.

 

ele não parava de desenhar peixes

em papéis

e nem bêbedo estava.

 

fui à rua e trouxe 2

garrafas de vinho

e a patroa dele

encheu os copos.

 

e o Jack bebeu o dele

depois praguejou: esta

esferográfica fica sempre

sem tinta

quando estou mesmo no ponto crucial,

no cerne, quando estou

finalmente a arder

na cera imbecil do fogo...

 

atirou a caneta

para uma saco de papel cheio de garrafas vazias,

latas de sardinha e

de feijão vazias, vestiu o casaco

e saiu.

 

para onde é que ele vai?

perguntei.

 

estou-me nas tintas

para onde ele vai,

disse a patroa dele.

depois levantou o vestido

e mostrou-me as pernas;

eram bastante boas, eu

sempre fui um gajo de pernas

mas dirigi-me ao armário

e vesti o casaco.

 

onde é que vais? perguntou ela.

 

vou procurar emprego,

disse-lhe,

há um anúncio no Times,

precisam de porteiros

no novo edifício Fleischman.

 

desci os degraus

e andei meio quarteirão para norte

até ao bar mais próximo.

 

O jack estava lá sentado.

 

Não sei, disse ele,

acho que me vou

matar.

 

não faz mal, disse eu,

isso vai acontecer

de qualquer modo.

 

ficámos ali sentados o resto da tarde

a beber

e por volta das 7 da tarde saímos,

ele com uma tipa de cabelo flamejante

e eu com uma manca

leitora de Henry James

que se ria de boca

à banda.

 

estavam 17 graus

e pouco restava

do mundo.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI RETIRADO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO  ALFAGUARA DE NOVEMBRO DE 2018. ROSALINA MARSHALL TRADUZIU E VALÉRIO ROMÃO FEZ A SELECÇÃO, A ORGANIZAÇÃO E O PREFÁCIO

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:22


#3078 - FESTA DAS FOGACEIRAS - DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.20

DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

 

Ano dezanove do século vinte e um

domingo

janeiro

vinte

inverno

lua vermelha

eclipse total para ver mais logo na madrugada

 

É dia de festa na minha terra e da grande procissão

fanfarras e bandas  pipocas e balões algodão-doce

bancas de fogaças e outros  doces "regionais"

meninas de branco vestidas

cinturadas de vermelho ou azul

cabeças coroadas de fogaças para honrar a promessa feita há séculos

varandas enfeitadas por tecidos adamascados

gente anónima e de todas as condições

verga-se respeitosamente à passagem dos andores e do pálio

e das suas bocas saem silenciosos murmúrios em forma de oração

e foguetes troam anunciando o princípio e o fim da festa

animada pelos trapezistas dos negócios ambulantes 

montados no palanque das suas viaturas anunciam 

com voz peculiar pomadas e elixir para todas as maleitas

descontos na compra de cobertores ou

de um molho de peúgas

"...não é 100, nem 90, nem 80, nem 50... se comprar agora, e ainda leva este relógio como oferta... 

vai pagar, nem mais nem menos, duas notas de 20... uma pechincha!

aproxime-se freguesa aproveite a minha boa disposição

hoje é dia de festa..."

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:48


#3074 - ROMANCE DE UM FUTURO NATAL (POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.01.20

David Mourão-Ferreira  |||  24 fevereiro 1927 - 16 junho 1996

ROMANCE DE UM FUTURO NATAL

 

Vai a caminho de Marte

um foguetão de turistas

Turismo pobre   É um charter

de tarifa reduzida 

Ou serão refugiados

Parece que vão fugidos

Quem sabe de que se escapam

Quem sabe a que vão fugindo

 

Consta da lista uma grávida

com ar de Madona antiga

das que inda se desenhavam

nos fins do século vinte

Chegou à pista de embarque

mesmo à hora da partida

E traz escrito na face

o lance que decidira

 

Não quer que o seu filho nasça

na Terra que vai perdida

Dão-lhe razão    Todos sabem

que funda razão lhe assiste

Todos conhecem o estado

que a pobre Terra atingiu

sobretudo após a grave

crise do século trinta

 

Vão a caminho de Marte

como quem foge à desdita.

Sentem-se dentro da nave

bastante mais protegidos

É como voltar ao espaço

de antes de haverem nascido

Todos a grávida tratam

com cuidados infinitos

 

E sonham    Talvez em Marte

nem tudo esteja perdido

Mas não sabem que na cápsula

um grupo de terroristas

vai sabotando a viagem

mudando o rumo previsto

Fica tudo executado

em pouco mais de três dias

 

E torna de novo a nave

quase ao ponto de partida

Quem mais se aflige é a grávida

com ar de Madona antiga

ao ver que à Terra terá de

ir entregar o seu filho

Já lhe rebentam as águas

quando se apeia na pista

 

Já pra dentro de uma cave

os outros a encaminham

Já por entre as dor's do parto

um facho de luz luzia

Quem sabe se necessário

não fora enfim tudo isso

para que à Terra baixasse

mais um resgate possível

 

Pálida pálida pálida

lívida lívida lívida

de costas a mulher grávida

já vagamente sorria

 

Poema de David Mourão-Ferreira, in Obra Poética (1948-1995), edição Assírio & Alvim, Novembro de 2019

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:38


#3071 - POEMA DE MANUEL AFONSO COSTA

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.12.19

 

as merendas do espírito,

as mãos, eram labor artificial,

separadas pelos sítios de culto,

pelo silêncio dos pastos;

até a luz acampando

na lâmina dos utensílios

ou sobre os ombros

era coisa do acaso;

havendo uma ordem

e havia

nada tinha a ver com as regras

de oficiantes programados,

era um mistério

a sabedoria litúrgica da ignorância;

se era douta ou divina,

é assunto que me ultrapassa

 

POEMA DE MANUEL AFONSO COSTA, «SERIA SEMPRE TARDE», ASSÍRIO & ALVIM, 2019

 

BIOGRAFIA

Fez o doutoramento no Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e o Mestrado em História Cultural e Política na mesma Universidade. Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa. Professor Associado, desde 2012, na Faculdade de Direito da Universidade de Macau. Desde 2003, Professor Assistente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Professor também na Universidade de Aix-Marseille. Escreveu diversos artigos sobre História, História das Ideias, Filosofia e Literatura em jornais e revistas de especialidade e é autor dos livros Introdução ao pensamento social francês do século XVIII, U.T.A.D, Vila Real (1987), A ideia de felicidade em Portugal no século XVIII, entre as luzes e o romantismo. Eticidade, moralidade e transcendência (2008). Tradutor de poesia e poeta, publicou Caligrafia imperial e dias duvidosos, Assírio & Alvim, Lisboa (2007); Os últimos lugares, Assírio & Alvim (2004), Os limites da obscuridade, Caminho (1990), O roubo da fala, Ágora (1981). Colabora com a Biblioteca Pública de Macau desde 2014.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:40


#3069 - TAO YUANMING

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.19

 

O céu e a terra jamais irão desaparecer

as montanhas e os rios esses não mudarão nunca

ervas e árvores seguem regras imutáveis,

se a geada as engelha,

logo o orvalho as tornará viçosas de novo

o homem gaba-se de ser dotado de razão,

quase divino

porém ele é o único a quem as coisas

não acontecem assim

mal começa a sua viagem neste mundo,

logo parte sem data de regresso

 

alguém se apercebeu de que falta alguém?

pais e conhecidos pensarão nele ainda?

subsistem só os objectos que lhe pertenceram,

quando o olhar os cruza, aflito,

derrama-se em lágrimas

 

eu por mim não tenho o dom da imortalidade,

à mudança estou sujeito

irei morrer, sobre isso não há a mínima dúvida

segue portanto o meu conselho,

se tens por aí um bom vinho,

não o recuses assim sem mais nem menos.

 

POEMA DE TAO YUANMING (365-427), POETA DAS DINASTIAS DE JING E LIU SONG, INCLUÍDO NO LIVRO «POESIA E PROSA», EDIÇÃO ASSÍRIO &  ALVIM, 2019. A VERSÃO PORTUGUESA É DE MANUEL AFONSO E COSTA

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:38


#3062 - PRÉMIO MIGUEL DE CERVANTES 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.19

JOAN MARGARIT, 81 anos de idade, poeta catalão e arquitecto, foi galardoado com o Prémio Miguel de Cervantes, o mais importante prémio espanhol para as letras. Os candidatos são propostos pela Academia Real da Língua Espanhola.

Na qualidade de arquitecto, foi o autor dos cálculos de estrutura da catedral Sagrada Família e foi professor catedrático da Escola Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona.

No mês de Maio passado, recebeu o  Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:43


#3047 - NINHO DAS ÁGUIAS ||| POEMA DE RAMÓN COTE BARAIBAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.10.19

RÁMON COTE BARAIBAR

 

NINHO DAS ÁGUIAS

 

Já eras misteriosa desde então

e nos mapas antigos chamavam-te Lissabona.

À distância contava as tuas sete colinas

como a Roma dos Césares, e repetia-me

as histórias de navegadores e as tuas lendas de conquista.

Apesar de nos separar a imensidade

do mar Atlântico, desde a minha carteira de colégio

acariciava a curvatura do globo terráqueo,

jurando que um dia chegaria às tuas margens.

 

Tantas vezes cortejada e celeste

apareceste aos meus olhos num dia de verão

de 1984, quando te vi do quarto

do Ninho das Águias,

um hotel estreito e suicida

que se persigna no monte de S. Jorge

de cada vez que Lisboa amanhece.

 

Um mapa durante anos dobrado e desdobrado

ardeu de véspera e de espera

sobre milhares de degraus, ardeu sobre as praças,

sobre a constante inclinação

das suas ruas, sobre o seu soçobrar marinho,

e atiramo-lo de uma ponte

para que seja o acaso a única bússola a orientar-nos.

 

Tento olhar os dias desde então

como se estivesse a uma janela do quarto

do hotel do Ninho das Águias,

vendo pela primeira vez como amanhece

a fragrante, a profunda, a ondulada

cidade de Lisboa.

 

POEMA DE RÁMON COTE BARAIBAR

 

_____________________________________________________________________________________________________

Ramón Cote Baraibar es un poeta, narrador y ensayista de Colombia, nacido en CúcutaNorte de Santander en 1963. Es hijo del poeta Eduardo Cote Lamus y de la galerista Alicia Baraibar. Se graduó en Historia del Arte por la Universidad Complutense en Madrid. Su poesía está marcada profundamente por su sentido de temporalidad, que busca a través de breves e intensos textos dar cuenta de experiencias pasadas, particularmente de la niñez y la adolescencia, así como mantener un presente con nitidez y fuerza en el lector. La libertad al caminar por las tapias de su barrio, la forma de los óvalos de unas sillas de acero, la luz del atardecer a las 5:30 de la tarde, el color y olor de las magnolias, los oficios de las profesiones idas aparecen y desaparecen a lo largo de treinta años de trabajo con la palabra. La ciudad de Bogotá es un referente constante a lo largo de su obra.

Tal como dice el escritor y compañero de colegio Mario Mendoza en el prólogo a Botella papel, en Cote Baraibar "Su potencia interior se formó en esos años de adolescencia como quien arma una muralla y construye un foso para evitar la invasión de bárbaros indeseables. De ahí ese ritmo sagrado de su escritura, de homilía, de cantos chamánicos enunciados en la mitad de la selva como conjuros que nos salvarán cuando llegue el desastre. El corazón del artista adolescente es el corazón de las tinieblas.1​"

Cote Baraibar creció en Bogotá y a los 19 años viajó a Madrid a seguir una carrera en Historia del Arte. En España publicó su primer libro, Poemas para una fosa común (1984), con prólogo de Claudio Rodríguez y que ha sido publicado en tres oportunidades. Regresó a Colombia en 1990 y al año siguiente publicó El confuso trazado de las fundaciones, volumen de poemas en el que atisba su madurez. Allí están presentes temas urbanos de Bogotá y de Madrid y se destaca la atmósfera autoritaria del colegio en la que discurrió su infancia y adolescencia. También en 1991 publicó Informe sobre el estado de los trenes en la antigua estación de Las Delicias en el legendario Fondo Editorial Pequeña Venecia de Caracas, Venezuela. En esta plaquette da cuenta del antiguo y entonces abandonado cementerio de trenes de Madrid.

Durante la presidencia de César Gaviria Trujillo (1990-1994) trabajó en el área cultural del gobierno. Posteriormente ocupó un cargo diplomático en la representación de Colombia ante la Organización de Estados Americanos en Washington.

A su regreso a Colombia Cote Baraibar publicó Botella papel en 1999, libro que ha sido objeto de tres ediciones desde entonces. La última se realizó en diciembre de 2015, que incluye nuevos textos. Al decir de Juan Gustavo Cobo Borda, "a partir de la voz de quien compra bultos de periódico y botellas vacías, [Cote] intenta una antropología del recuerdo, al rescatar esas figuras ya casi desaparecidas que cruzaban Bogotá con el pregón de sus oficios: un afilador, un calderero, un vendedor de corbatas o un fotógrafo de parque.2​"

En el año 2003 Cote Baraibar publica Colección privada, libro con el que gana el III Premio Casa de América de Poesía Americana. Este poemario hace un homenaje a cuadros de la historia de la pintura de gran afinidad para el autor, una "colección privada" compuesta por ocho salas de pinturas del arte medieval al contemporáneo colombiano. Estos textos "han sido escritos como una ceremonia de restitución, agradecimiento y apropiación, porque solo la poesía nos permite preservar en palabras esas contadas revelaciones que nos visitan a lo largo de nuetras vidas3​". Este libro ha sido objeto de una tesis de maestría en Estados Unidos.4

Su siguiente poemario, titulado Los fuegos obligados, ganó el Premio Unicaja de poesía, que fue otorgado en Cádiz por José Manuel Caballero Bonald, entre otros miembros del jurado. En esta publicación Ramón Cote regresa al pasado, particularmente a su infancia: "Son los asuntos de tu vida, esas cosas con las que no puedes dejar de vivir, lo necesario que te hace lo que eres. Los recuerdos, la casa de tu infancia, mis padres que murieron hace poco", afirmó el escritor en una entrevista.5

Su trabajo más reciente es Como quien dice adiós a lo perdido, publicado a sus cincuenta años en 2013. Sobre él dice el poeta Jotamario Arbeláez: "Este libro da el adiós a esa imagen que pasaba como la verdadera cara de la poesía, llena de afeites, constelada de plumas de cacatúa. Retorna a señalar con el dedo de la palabra esos objetos que hacen parte de nuestra vida y de nuestro cuerpo, como el árbol del jardín y el libro de viejo. Este es el rostro poético. En la limpia descripción de los momentos y de las cosas, casi que en su sola enumeración acentuada con un exquisito adjetivo, nos sintoniza con un acontecer prodigioso, así sea común a todos, por la coloratura del verbo.6​"

Cote Baraibar también ha escrito narrativa, destacándose por dos libros de cuentos, Páginas de enmedio (2002) y Tres pisos más arriba (2008) y una novela que mantiene inédita.7​ Ha incursionado también en la literatura infantil con dos títulos: Feliza y el elefante y Magola contra la ley de la gravedad.

El escritor cucuteño ha preparado dos antologías de poesía para la Colección Visor de Poesía: Diez de ultramar. Joven poesía latinoamericana (1992), que tiene dos ediciones y La poesía del siglo XX en Colombia (2006).

Se encuentran dos antologías de poemas suyos: No todo es tuyo, olvido, publicado por la Universidad Nacional de Colombia en 2006 y Hábito del tiempo, editado por la Pontificia Universidad Javeriana de Bogotá en 2015 con un ensayo de Jorge Cadavid.

En octubre de 2016 participó en la presentación de la segunda edición de La vida cotidiana, de Eduardo Cote Lamus con un análisis sobre la influencia de este libro en la poesía colombiana.8

En diciembre de 2017 publicó en la Editorial Planeta la Antología de la poesía colombiana contemporánea.

En abril de 2019 la editorial El Ángel Editor, de Quito, Ecuador, publicó "Milagros comunes (Antología 1984-2014)", con un prólogo de Santiago Espinosa y un epílogo de Santiago Grijalva.

Cote Baraibar está preparando su octavo poemario.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:43


#3042 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.09.19

Talvez a hora tardia e um céu carregado de pragas explique a cidade vazia

e a pressa dos poucos transeuntes em chegar algures

indiferentes e vazios

esgotados, olhos cansados

em busca do seu porto de abrigo ou ao esperado desespero

onde depositarão as dores e a fadiga

porque outro dia já está à espreita e será desesperadamente igual

ao de hoje, ao de ontem e aos dias que já somam anos

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:29


#3041 - MONUMENTO AOS DESAPARECIDOS ||| POEMA DE JUAN MANUEL ROCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.09.19

JUAN MANUEL ROCA

 

MONUMENTO AOS DESAPARECIDOS

 

Penso nos talismãs

Que ficaram esquecidos num saco,

Nas camisas penduradas que revelam as suas formas

Como se fossem os vestidos

Do vestido dos seus ossos.

Faço um inventário de vazios,

De barcas que encalharam na névoa.

Se é arte de mágicos esfumar-se

Ao virar uma esquina, eles são mágicos?

Se a música é da mesma matéria do silêncio

São música inaudível, um ar escondido no ar?

São corpos desobedientes,

Renitentes a encher de novo um espaço,

A continuar a redigir minutas,

Cumprimentando o vizinho e preparando ao espelho

A cara de ir para o trabalho e voltar a casa?

Se as suas fossem artes encantatórias

Poderíamos deixar abertas as janelas

À espera que voltem

Com os seus barretes de cozinheito e lebres nas mãos,

No fim de um encontro de despedida.

Os parentes atropelam-se nas morgues,

Farejam nos hospitais

Que respiram num ritmo entrecortado,

Vêem os seus rostos passar como as horas

Nas nervosas rotativas dos diários,

Tal como alguns que procuram homens com lanternas

E outros buuscam o seu amor

No gabinete de objectos esquecidos.

Sem nos darmos conta levaram

Com eles uma parte perdida da cidade:

O beco a que ninguém quer regressar,

Um pedaço de ar que espera que o habitem.

Não são fantasmas. Não são endriagos

Enrolando fios na sala de costura,

Filhos da névoa ao despontar do dia.

Uma velha canção que soa a compasso

Faz-nos crer que os encontraremos,

Infiéis ao apelo da casa,

Com os seus sapatos de baile muito reluzentes

No regresso de outra cidade que fizeram sua.

Mas a canção termina,

Ou muda para som de fundo.

Não importa que sejam

o pão sem levedura das estatísticas,

Vagas histórias registadas no livro de perdas.

Ainda têm o rádio ligado no mesmo sítio,

Um amor nalgum lado,

Uma palavra quase a ser pronunciada.

Se voltassem depois de décadas de os esperar

Seriam reconhecidos

Nos retratos pendurados nas paredes,

Nos cartazes amarelecidos da polícia,

Nos panos que levam nos desfiles,

Nos recortes dos jornais antigos

Que guardam entre fotografias os seus parentes?

No copo da noite estão as suas marcas.

Alguns fugiram de si próprios

Tocados pela sombra,

Outros foram metidos em carros fantasmas

Ou levados aos empurrões para o vazio.

Tudo isto me acode quando o presidente da câmara

Com a sua cara de Pierrot,

Com o seu rosto transido à saída do Museu de Arte,

Pergunta a um escultor com que matéria se ergue

Um monumento aos desaparecidos,

Que sem serem sólidos, como os dias e como Deus,

Também se esfumam no ar.

 

POEMA DE JUAN MANUEL ROCA

 

__________________________________________________________________________________________________________

Juan Manuel Roca nasceu em Medellín, Colômbia. Poeta, narrador, ensaísta, crítico de arte e jornalista. Ganhou o II Prémio Nacional de Poesia Eduardo Cote Lamus (1975); o Prémio Nacional de Poesia Universidade de Antioquia (1979); o Prémio Melhor Comentarista de livros Cámara Colombiana del Libro (1992); o Prémio Nacional de Jornalismo Simón Bolívar (1993); o Prémio Nacional de Conto Universidade de Antioquia (2000); o Prémio Nacional de Poesia Ministério da Cultura (2004); o Prémio José Lezama Lima (2007), concedido pela Casa de las Américas, em Havana, Cuba; o Prémio Poetas do Mundo Latino Víctor Sandoval (2007, México); o Prémio Casa de América de Poesia Americana (2009, Madrid); o Prémio Cidade de Zacatecas (2009, México); e o Prémio Estado Crítico (2009) pelo melhor livro de poemas publicado em Espanha, atribuído ao livro Biblia de Pobres. Publicou, entre outros livros de poesia, Luna de Ciegos (1975), Los Ladrones Nocturnos (1977), Señal de Cuervos (1979), Ciudadano de la Noche (1989), La Farmacia del Ángel (1995), Las Hipótesis de Nadie (2005), Estatuas (2010) e Pasaporte del Apátrida (2011). Da sua extensa obra poética, foram publicadas várias antologias, entre as quais: Luna de Ciegos (Joaquín Mortiz, México, 1994), Legar de Apariciones (Ediciones Aurora, Bogotá, 2000), Cantar de Lejanía (Fondo de Cultura Económica, 2005), Cantar de Lejanía (Casa de las Américas, 2008), Botellas de Náufrago (Monte Ávila Editores, Caracas, 2008), Tres Orillas en busca de un Río (La Pluma de Mompox, 2011), De parte de la Noche (Unam, México, 2012), Colofón del Escribiente (Frailejón, Medellín, 2013) e Tres Caras de la Luna (Sílaba Editores, Medellín, 2013). É ainda um autor vastamente traduzido. Em 2003, foi publicada na Suécia a antologia intitulada Korpens Tecken (Señal del Cuervo), de 2003, com traduções de María Kallin e Víctor Rojas; em 2007, a antologia Luna de Ciegos (Blindenmond) foi traduzida para alemão por Tobías e Jana Burghardt; em 2008, o livro Las Hipótesis de Nadie foi traduzido por Stefan Van der Brendt para holandês; em 2009, a editora francesa Myriam Solal publicou a antologia bilingue Voleur de Nuit (francês-espanhol), traduzida por François Michel Durazzo; em 2010, a mesma editora publicou Biblia de Pobres (Bible de Pauvres), traduzida também por François Michel Durazzo, em edição bilingue (francês espanhol).

 

FONTE: WOOK

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:16


#3039 - NÃO ESPERES NADA ||| POEMA DE NICOLÁS SUESCÚN

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.09.19

images.jpeg

NICOLÁS SUESCÚN

 

NÃO ESPERES NADA

 

Não esperes nada

do amanhã,

não te sepultes

na esperança,

pensa:

Não verei a luz do novo dia,

esta é a miha última noite.

E bebe

até esqueceres tudo

para o voltares a esquecer,

que essa seja a tua vida,

um vaivém

entre o ser e o não ser.

Não esperes nada

do amanhã,

afunda-te no esquecimento

para que o novo dia

seja verdadeiramente um novo dia,

como se estivesse a começar

a dar voltas o mundo,

como se ir para além

não fosse vir para aqui,

como se a terra não girasse,

enlouquecida.

 

________________________________________________________________________________________

Nicolás Suescún nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Poeta, contista, tradutor, editor, jornalista e professor universitário. Fez estudos de literatura, história e humanidades nos  Estados Unidos e França. Ao longo de vários anos dirigiu a revista literária Eco. Traduziu Rimbaud, Flaubert, Ambrose Bierce, W.B. Yeats e Stephen  Crane, entre outros autores. Recebeu o prémio "Vida y Obra 2010": Este galardão bienal é entregue pela Secretaria de Cultura de Bogotá a um artista que tenha dado um contributo fundamental à cultura da capitral.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:07


#3033 - OS LIVROS TÊM QUE RESPIRAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.09.19

 

OS LIVROS TÊM QUE RESPIRAR

 

O livro aberto mostra a página 84

que respira mansamente

no intervalo das palavras

e a pausa para entender o texto

que cintila

nas partículas de pó

como se fossem brilhantes e apoteóticos  papelinhos

lançados para celebrar o final de um  espectáculo.

 

Fecho o livro

suavemente

para não acordar os

vários personagens que o habitam

e deixo no colo da página

um marcador para marcar

o caminho que ainda falta folhear

até aparecer a página com a palavra

"FIM"

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:17

 

EPÍSTOLA PARA UM CISNE

 

Cisne, que não conheces na água o teu reflexo verde

quando sob o teu corpo é dia e o sol afaga quedo

ou quando do teu porte há a sombra negra igual

e tudo o que está negro, e é noite,  e abandono e medo.

Nem concebes o amor, nem Leda, nem sequer eu mesma

que te amo no poema e temo o canto imaginado

que não cantaste agora ou não ouvi, de madrugada

quando  a minha mãe  morta era somente insone.

Nunca viste a beleza, nem a vida e os lábios

que sopram as primeiras e últimas palavras, ou

o hálito que sai sem voz da dor mais desolada.

Nem a doença, a morte e os olhos sem imagens

do ar  e das cores várias viste em que tu vogas branco.

É falso que celebres sozinho a tua morte e o fim,

se não sabes  que só o teu outro cisne se perde.

Mas quando vi insone e logo morta a minha mãe

estou certa de que a cega, a muda, falsa ave cantou.

 

POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO IN "OBRA BREVE - POESIA REUNIDA", EDIÇÃO 0976, MAIO 2006, ASSÍRIO & ALVIM

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:30


#3029 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.09.19

E dizes:

o rosto é único 

apenas habitável num

corpo singular com as suas extravagâncias

e particularidades -

os olhos

a boca

a textura dos lábios e do

barco que navega 

nas lágrimas ao

longo da costa da pele e

vai atracar entre

as margens dos pés

que suportam

além do corpo

o peso das dores e

da alma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:22


#3028 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.09.19

 

Um vento incandescente sopra de oeste

incendiando as dunas,

as marés

a lua

e as almas paradas nas ombreiras das portas e janelas

das casas brancas das planícies meridionais

encolhendo ainda mais as rugas da idade e do

desgosto e do tempo da viagem que resta fazer

para se tornarem

oliveiras

sobreiros

laranjeiras e

muitos ramos de cheiros e de

flores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:57


#3027 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.08.19

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 06:25


#3026 - OS BRUTOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.07.19

Brutos...

Gesticulam com os pés

inteligência rasteira

cérebros de minhoca

argumentam usando apenas a força

a sua arma preferida

caretas disformes

risos de hiena

agressores com a mão escondida

os trabalhos sujos  a outros encomendados

é conveniente ter um ar civilizado

aparentar inteligência

é preciso não falar

para não revelar ignorância

apenas «twittar»

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:02

 

A HIPÓTESE DO CINZENTO

 

Num país a preto e branco

recomendaram-me o cinzento. Um recurso

extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia

ensaiar

soluções inusitadas -

experimentar o morno (que não é frio nem

quente)

explorar o lusco-fusco (que

não é noite nem dia) praticar a omissão

(que não é mentira

nem verdade). Preto e branco misturados permitiam

finalmente

viver em conformidade

desocupar os extremos (tão alheios à virtude)

liquefazer-me na turba

no centro na

média

dourada. Com a paleta de cinzentos poderia

aprimorara arte da sobrevivência que

(como os mansos bem sabem) é

não estar vivo

nem morto.

 

POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, DO LIVRO "O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS", PÁG.136, EDIÇÃO QUETZAL, 2019

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:44


#3023 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.07.19

Sentado nas margens 

da sombra, quando

uma inquietação ocorre

e a penumbra escorre 

até aos  seus olhos aquosos

e uma réstea de luz

se torna oblíqua e

dormente, então percebe

que tudo termina

quando o delírio que vem da terra

a sua cabeça beija.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:41


#3021 - OS CÃES LADRAM TRÊS VEZES

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.07.19

 

Os cães ladram três vezes

Uma balandra de algas vomita

a sua carga no mar espesso e pardo

Numa casa 

algures na cidade

um rato persegue um gato

 

Os cães ladram três vezes

E uma velha toca bandolim

cigarro no canto dos lábios

voz rouca

hálito de rum

 

Os cães ladram três vezes

O mar reclama e ameaça

e o farol

empoleirado na escarpa granítica

afasta o medo

de marinheiros bêbados

 

Os cães ladram três vezes

O barco afunda-se

sovado por ondas sem piedade

e o rato

continua a perseguir

o gato

 

- Bom dia

- Bom dia

- Raios te partam, homem de deus

- Cala-te beata, não invoques o seu nome em vão

e o rato persegue o gato

a velha geme

o bandolim chora

o mar transformou os homens em gaivotas

o farol desmoronou-se

e os cães deixaram de ladrar

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:55


#3020 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.07.19

 

Os meus olhos

fotografam e

capturam a

melancolia da alma

do pássaro

que

num voo circular

se despede da árvore

que o acolheu e

foi a sua casa nos meses da

primavera e verão

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:42


#3019 - SENTINELA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.07.19

 

Despes a alma

Depois o corpo todo

Enterras os pés na terra

Sufocas o medo

Da tua garganta salgada 

Um relâmpago  incendeia a noite

Os teus pés ganham raízes

Na tua boca nasce a seiva

Que desagua na terra

Alimentando-a

Os teus olhos iluminam a noite

E os caminhos da peregrinação

És a sentinela que afasta as sombras nocturnas

Que habitam nos becos da desesperança

 

Despes a alma

Depois o corpo todo

Vigilante Sentinela

Serena Sentinela

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:27


#3018 - SOTAQUE DA TERRA ||| Poema de Mia Couto

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

 

SOTAQUE DA TERRA

 

Estas pedras

sonham ser casa

 

sei 

porque falo

a língua do chão

 

nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

 

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

 

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

 

Junho de 1986

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:27


#3017 - NESTA NOITE DE S. JOÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

Nesta noite de S. João

procuro

entre os meus  dedos 

o perfume na água dos teus olhos

as cerejas que desenhei no teu regaço

as pérolas que iluminam os teus seios

os lábios que abraçam os teus ombros

e

uma grinalda de lágrimas de orvalho

que perfumam os teus cabelos

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:37


#3015 - A LUZ

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.19

 

 

A LUZ

 

A luz marca o tempo das coisas invisíveis

enquanto as mãos atravessam  o espesso

manto das camadas de pó que permitem ver

a forma de todas as coisas visíveis

 

E as mãos ficam frias e as veias

azuis como os oceanos

onde o sangue navega

subindo e descendo

constantemente

como se procurasse qualquer coisa

esquecida ou suspensa

como embarcação em mar encapelado

 

E a luz vai marcando o tempo e o ritmo

de todas as coisas invisíveis

assinalando com sombras os gestos

de uma carícia começada mas inacabada

que ficou suspensa nas partículas da memória

e que a mão irá lembrar mais logo

mas já demasiado tarde 

porque a luz que marca o tempo 

das coisas visíveis e invisíveis

se extinguiu

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:24


#3014 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

Palavra mal dita

maldita

E uma pedra disfarçada de palavra

mal pensada

arremessada

Tem tento na língua

fecha a boca               

e assim a luz não fica

baça

eu sei

que é pedir demais

adoras o som

que emite as tuas cordas vocais

mas

por favor

tem piedade

não deixes  

que a corda

no pescoço

dê o final aperto

os ouvidos já não suportam mais

ouvir as idiotices que

a tua boca vomita

 

Não sei da tua importância

mas estás em todas:

TV, rádio, jornais, redes sociais e não sociais

para comentares as mais diversas matérias:

sarampo, eleiçoes, futebol, diarreias, política internacional, economia, enxaquecas, impotência sexual,

emigração, imigração, migração,

literatura,

carros, caspa, etc..., etc..., etc...

julgas ser um génio do renascimento italiano

um hermeneuta

o mestre da retórica

e julgas o país demasiado pequeno para a imensidão do teu ego

que ameaças abandonar

por que de ti não gostam

e seria uma bênção para

os olhos, ouvidos, coração - 

enfim para o corpo todo

e para o ambiente

que te reformasses

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:39


#3013 - COM A DATA DE HOJE ||| POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

 

COM A DATA DE HOJE

 

Nas esquinas destas horas trnsitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA", COLEÇÃO PLURAL, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, JUNHO 2016

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:45


#3010 - PARAÍSO ||| Poema de David Mourão-Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

PARAÍSO

 
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:53


#3009 - NÓMADAS ||| POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

transferir.jpeg

NÓMADAS

 

Só o amor pára o tempo (só

ele detém a voragem)

rasgámos cidades a meio

(cruzámos rios e lagos)

disponíveis para lugares com nomes

impronunciáveis. É preciso percorrer os mapas

mais ao acaso

(jamais evitar fronteiras

nunca ficar para trás)

tudo nos deve assombrar como

neve

em Abril. Só o amor pára o tempo só

nele perdura o enigma

(lançar pedras sem forma e o lago

devolver círculos).

 

Poema de João Luís Barreto Guimarães, do livro NÓMADA 2018, incluído na antologia O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS - Edição QUETZAL 2019

__________________________________________________________________________________________

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Poeta e tradutor, divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. O Tempo Avança por Sílabas reúne cem poemas selecionados pelo autor, dos dez livros que publicou até ao momento. É o seu quinto livro na Quetzal, após a publicação dos primeiros sete títulos na Poesia Reunida, em 2011, Você está Aqui, em 2013, Mediterrâneo, em 2016, ao qual foi atribuído o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, e Nómada, em 2018. A sua obra está representada em antologias poéticas e revistas literárias de numerosos países, tendo Mediterrâneo sido publicado em espanhol.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:21


#3008 - GAIVOTA ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

GAIVOTA

 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
 
poema de alexandre o'neill

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:18


#3001 - POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

MÁRIO DIONÍSIO  |||  1916-1993

 

Nos despojos da cidade

atrás dos altos prédios ao avesso

veem-se telhados chaminés

negras de fumo vê-se o ferro

em movimento das gruas

 

Há gente que mora aqui

pessoas cães mortos vivos

em tugúrios fedorentos

 

Há lama e há excrementos

junto a montões gordurosos

sobre o lixo os solavancos

de amantes abjectos copulando

Rindo e saltando sobre dejetos

aqui e ali crianças brincando

que amanhã serão ladrões

 

Contra um muro em ruína

a fescura de uma flor

crescendo ingénua

 

Quem vem ela aqui fazer

entre destroços 

tão bela

 

A meus pés a vou pisar

por raiva ou por piedade

Esmago-a furiosamente

gesto viril e demente

 

para não chorar

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO POESIA COMPLETA, PÁGINA 296, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASADA MOEDA, JUNHO DE 2016, COLEÇÃO PLURAL

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:31


#3000 - RETRATO ||| Poema de Francisco Luís Amaro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.19

Francisco Luís  Amaro (1923-2018)

 

RETRATO

 

Um silêncio, um olhar, uma palavra:

Nasceste assim na minha vida,

Inesperada flor de aroma denso,

Tão casual e breve...

 

Já te visionara no meu sonho,

Imagem de segredo, esparsa ao vento

Da noite rubra, delicada, intacta.

E pressentira teu hálito na sombra

Que minhas mãos desenham, inquietas.

 

Existias em mim. O teu olhar

Onde cintila, pura, a madrugada,

Guardara-o no meu peito, ó invisível,

Flutuante apelo das raízes

Que teimam em prender-te, minha vida!

 

Poema de Francisco Luís Amaro

 

__________________________________________________________________________________

Poeta português, natural de Alvito. Foi co-fundador e co-director da revista Árvore, publicada entre 1951 e 1952, e da qual fizeram também parte Raul de Carvalho, António Ramos Rosa e António Luís Moita. Colaborou ainda nas revistas Seara Nova, Távola Redonda, Portucale, entre várias outras. Foi secretário de redacção e, posteriormente, director-adjunto e consultor editorial da revista Colóquio/Letras. A sua poesia está inserida numa tendência que tenta conciliar a tradição herdada dos poetas presencistas com alguma da poesia neo-realista, nomeadamente a de Carlos de Oliveira. Da sua obra destacam-se os livros de poemas Dádiva (1949) e Diário Íntimo. Dádiva e outros poemas (1975).

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:15


#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:56


#2995 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.19

Escrevo, mas a mão desfalece e o corpo balança,

procura o equilíbrio

impossível

os dois lados têm pesos diferentes

de um lado o coração

no outro a alma

o peso da inteligência não conta

as lágrimas também 

as dores, as emoções

também não

e os afectos que importância têm?

O importante é o fogo...

o fogo de artifício

e saber disfarçar as impossibilidades

as pequenas lutas travadas todos os dias

- sim é disso que se trata 

o corpo é uma máquina poderosa

movida pela força da cabeça

e está lá tudo

em pequenas caixas

milhares de caixas

algumas nunca abertas

muitas -

melhor dizendo -

que guardam o esquecimento

albergue de memórias

uma poderosa biblioteca

que narra o passado

e o entendimento do futuro

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:04


#2989 - DE ANTEMÃO ||| POEMA DE HERBERTO HELDER

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.04.19

DE ANTEMÃO

 

Tocaram-me na cabeça om um dedo terrificamente

doce, Sopraram-me,

Eu era límpido pela boca dentro: límpido

engolfamento,

O sorvo do coração a cara

devorada,

O sangue nos lençóis tremia aida:

Metia medo,

Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:

ou uma braçada de perfume

tão agudo

que entrasse pela carne: se fizesse unânime

na carne

como um clarão,

Um anel vivo num dedo que vai morrer:

tocando ainda

a cabeça o rítmico pavor

do nome,

O leite circulava dentro delas,

É assim que as mães se alumiam

e trazem para si o espaço todo

como

se dançassem,

São em si mesmas uma lenta

matéria ordenada, Ou uma

crispação: uma ressaca,

E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:

eu já tinha uma ferida

um nome,

E o meu nome mantinha as coisas do mundo

todas

levantadas

Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas

o sangue, Como as estrelas duplas

duplamente

se dão força,

E fique assim - astro grande estanque

cosido em sangue: e a luz

obturada,

E então no seu pneuma luminoso:

um astro cheio, Coração: astéria: carne

de olaria pulsando, O espasmo

da mão às vezes

se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,

Ou se retira ao braço o movimento

pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira

o rasgão do ar

na dança,

Assim a estrela com dois membros

cravados recebendo

o tremor do mundo, E toda essa

massa peristáltica esmaga

a argila táctil: um pequeno músculo

convulso no fundo de água:

um troço de sangue nas costas, Que lhe passes

pelas roupas e nudez

as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro

um incêndio:

e te ilumines dele, E a tua cara se faça

miraculada

à combustão, E entres rutilante por uma porta

para outra porta, Essa porta que dê

para uma porta de ti própria,

A mão ateando a escrita que se desloca

brilha direita,

Toca-te toda: tocas no chão

através dela, A terra

treme

quando lhe tocas, Tudo

se transmite e trannsforma,

A gangrena é uma força,  Tu és a raiz dele,

Estás dentro

da luz de fora,  Como o choque

sísmico

da estrela

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "POESIA TODA" EDIÇÃO 406, MARÇO DE 1996, ASSÍRIO & ALVIM

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:39


#2988 - Construir a Esperança

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.19

 

Jeremias estava só

perante a verdade e a inocência

encerradas no fundo de uma gaveta

ou noutro sítio qualquer

na forma de papéis escritos com letra maiúscula e levemente inclinada para  o lado oposto do coração,

e com flores desenhadas no intervalo dos espaços em branco

por falta das palavras certas ou momentâneo esquecimento,

talvez para descobrir nas pétalas o perfume para incensar a memória. É o que recorda.

Era apenas um rapaz no início da adolescência

quando os seus olhos e ouvidos testemunharam

de maneira fortuita,

escondidos atrás do pesado reposteiro, 

a poucos passos do sítio onde

sentados 

com os cotovelos apoiados na pesada e enorme mesa de carvalho 

as pessoas que vagamente conhecia

discutiam a leitura do manifesto que o seu avô escrevera e

titulara de "Construir a Esperança". 

Mais tarde decobriu que se sentia prisioneiro

no sonho de 

ele também

e em memória do seu avô

construir a esperança - para alguns uma palavra  grotesca e subverssiva, 

outros acusavam-no de terrorista do pensamento e da palavra.

Jeremias sentia-se só

precisava de descobrir o paradeiro dos papéis -

deviam ser os únicos com flores no lugar das palavras -

para provar que outras pessoas

muito mais antigas que ele

já falavam e escreviam sobre a

construção da esperança.

O seu único medo era que

as flores tivessem crescido tanto

que sufocariam as letras das palavras do

texto que defenderia a sua verdade

e sua inocência 

para jamais se sentir só

tinha a esperança 

a alma

e o tempo

necessários para a sua redenção.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:45


#2982 - UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA ||| POEMA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA

 

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida

à volta da cabeça pronta a rebentar

mesmo que fossem quatro apenas as paredes

quatro paredes são de mais para uma vida

e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade

pura pura negação da vida três palavras onde

se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar

e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal

há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo

que substituo por razões de métrica mas são palavras como

por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância

coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa

e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida

que não leva talvez gravata mas que tem vida privada

gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho

e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ò meu deus

ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida

Talvez haja a janela haja árvores e céu

talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor

que talvez una uns com os outros estes dias

talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída

Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?

Sempre entre mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras

e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas

mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida

onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano

e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe

é mãe por profissão por pose pela posição de tão tonta cabeça

multiplicadas pelas capas das estúpidas inúmeras revistas

forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real

cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa

criança que se sabe quantos quilos pesa que cor tinha

a primeira e menos metafórica das merdas que cagou

e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional

como marido inteirramente a par das regras da mulher

meu deus que merda metafórica esta merda desta vida

E eu ter de passar a vida à procura da chave

e procurar abrir e não saber da chave

e não existir nunca porta ou chave

e chave ser palavra ambígua ter sentido

e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos

e a vida ser só uma e ser a vida

e haver mãos para as coisas gestos para as mãos

e não haver que porra uma saída

E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista

e tudo quanto faço interpretado e comentado

e haver nomes e eu ser isto e não aquilo

eeu sentir-me em nomes encerrado

Quero dormir não ter esta doença de pensar

estender-me sob o céu o mais possível ao comprido

e que bastante terra cubra o meu comprido corpo

e eu seja terra apenas e a terra nada seja

Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só

para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

 

POEMA DE RUY  BELO, RETIRADO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL» - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:37


#2979 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

Gostavas...

Gostavas de ter a lua na sala

O sol no quarto de inverno

A poesia pendurada nas hélices da ventoinha

A música suspensa das maçanetas das portas

Que alguns livros retirados da estante ficassem  preguiçosamente deitados no sofá e

escolherias mais alguns para acompanhar o deleite de saborear um  "Sauvignon"

E querias ver o sonho a flutuar no corpo de borboletas  empoleiradas nas janelas verdes dos teus olhos

 

Eu gostava somente que derramasses o teu perfume "L' Interdit" sobre o seio esquerdo para animar o lado direito do  meu corpo

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:25


#2976 - A MATÉRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.19

 

O teu transparente corpo

suspenso de um filamento invisível de luz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:28


#2972 - O DIA ESTÁ (L)INDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.03.19

 

O dia está lindo.

Que merda... o dia está lindo!

Que maneira foleira de dizer as coisas;

Um azul perfeito

Um verde mais verde

As roupas baloiçam no fio do arame -

parece que fazem surf.

Os grilos calaram-se, já não suportam o verde da dieta.

As formigas nunca se cansam, por causa da moral da história. 

As cigarras celebram os dias

A bandeira nacional está excitada num país de murchos que facilmente se excitam por tão pouco e

depois reclamam «isto é um país de merda».

Esquizofrenias de um país velho em idade e gente.

As cores - vermelha e verde - há muito tempo se misturaram

e conceberam uma cor castanha...

merda... o dia está lindo.

Uma caravana de camelos desfila sobre a terra da rua da minha casa

deve ser uma miragem

mas pode não ser 

porque cães excitados ladram

e os camelos disponibilizam as suas bossas

para uma boleia.

O dia está lindo...

eis uma forma preguiçosa

e nada poética de descrever o dia.

Pois, dizes tu, é falta de jeito,

enquanto o gato se roça na tua perna

e reclama uma mão sobre o pêlo, e as 

filiformes minhocas põem a cabeça de fora,

como se fossem periscópios a examinarem as manobras do inimigo.

O dia está lindo.

Que maneira idiota de dizer  que o dia está lindo.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:39


#2971 - UMA PEQUENA LUZ BRUXULEANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.19

 

Nunca saberei a resposta da pergunta

que nunca farei.

Não sei. 

Não sei por que não a farei!...

A casa em frente das nossas sombras

continua desabitada.

As janelas têm cortinas em teias de aranha

tecidas nas vidraças.

À noite

uma coruja

toma conta do ar frio

e uma luz bruxuleante ilumina as partículas da poeira

que adormecem sobre

os esqueletos do mobiliário.

Murmúrios ouvem-se e

rastejam até aos nossos pés.

Escalam silenciosamente e

com agilidade os nossos corpos e

alojam-se, sem pedir licença,  no

interior do ouvido.

É apenas o murmúrio

de alguém que vive só, faz  demasiado tempo e

procura um confidente,

um ouvinte.

Mas não o entendemos ou

não o queremos ouvir

que o  ouvido já está ocupado com outros rumores

que vêm das folhas inquietas da laranjeira

em cujos ramos bichos de vária natureza se reúnem

todas as noites

para espiar, discutir, especular, intrigar

a coruja.

Mas nada descobrem.

A coruja, apenas cuida da pequena luz bruxuleante

que aquece as várias camadas de pó que

habitam a casa

deitadas sobre o ar horizontal

de todas as coisas

existentes no seu interior.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:46


#2970 - POEMA EM AUTO-EXÍLIO ||| Poema de Dilip Chitre

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.19

DILIP CHITRE  |||   1938 - 2009

 

POEMA EM AUTO-EXÍLIO

 

A primeira borboleta morta da estação

Tem asas recentemente rasgadas. Os significados são transferidos

Como a humidade das ervas

Para os sapatos. A América é incrivelmente erótica.

Demasiadas pernas tornam todas estas ruas sensuais.

Em Bombaim, temos uma única centopeia

Caminhando em direcção à cidade todas as manhãs.

Lá faz tanto calor, e mesmo assim, sem modéstia,

Os que têm meios usam todas as roupas que podem.

E também, ao contrário daqui, os que têm dinheiro

Comem sem contar calorias.

Tenho saudades de casa, o que é estúpido evidentemente.

Lá nunca fui um chauvinista famoso,

Nem é a América pouco bela. Mas estou tão aterrorizado

Com esta mocidade resplandecente, esta inocência requintada,

Estas visões exóticas do resto do mundo,

Que existe algures,

Que me sinto já obsoleto,

Não sendo americano.

Talvez devesse ter sido, afinal de contas, um guru,

Ou um iogue, um gigolô, um encantador de serpentes, ou um cozinheiro

De clandestinos molhos de caril em vez de ser um poeta.

América, aqui vou eu, demasiado

Tarde

 

POEMA DO POETA INDIANO DILIP CHITRE

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:17


#2968 - O VISITANTE NOCTURNO ||| Poema de Muhammad 'Afifi Matar

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

MUHAMMAD  'AFIFI MATAR  ||  1935-2010

 

O VISITANTE NOCTURNO

 

eram seus olhos verdes

um sonho que chorava no asfalto da rua

e os versículos da sua inocência

uma sede no homem enterrada

 

desatou o cavalo verde da chuva dos cravos do raio

e deslizou através das nuvens

para visitar o sonho adormecido nas camas das crianças

e alimentá-las, ou dar-lhes de beber, da fonte do verde mel.

 

seus pés bons

e seu corpo trémulo e nu

esfolavam-se nos mastros  da noite.

e nos seus dorsos fundiam-se colunas de granito.

foi enterrado sobre os beirados dos tectos e das torres

crucificado, sangrando, mordido nas trevas pelos gatos.

 

o peixe negro salta na corrente do sangue

e  escapa:

comboios de gente surda

trombetas que ressoam,

génios que gritam dentro de uma garrafa

vozes que clamam na garganta do asfalto

 

quem, no ventre tenebroso, morreu

e quando secará o sangue?

 

POEMA DE MUHAMMAD  'AFIFI MATAR

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:17


#2966 - A CONTRA-SENHA ||| POEMA DE LUIS CARTAÑÁ

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.19

A CONTRA-SENHA

 

Cheguei do fundo da pedra:

precocemente do centro da rosa:

toquei as mãos e a artéria.

Ando ainda com a pele dos mármores

sombrios do deserto inocente. Oponho-me,

oponho-me ao relâmpago da água

e do mandato: ordeno, troco,

louvo a penugem como espada de enxofre

ou perfeição. Ordeno

ainda os horizontes.

Minha voz não é débil

nem o nascimento se cheguei e pus uma pedra

o coração como destino

e como canto a palavra amor e sem resposta, espero.

E como uma chuva de martelos,

de homem demasiado homem, de pancadas demasiado pancadas,

ou de paixão sem limites lancei minha funda ao  vento:

quero mais terra, mais terra e repartir unhas e chicotes

e repartir palavra e boca: Como um último respirar do homem

que viveu sem história na pegada e criou.

Criou a magnitude do homem lá do fundo da matéria única,

uma nova matéria, forças a rasgar o último recanto do vento

e a ordenar o eco

da última terra ou gratidão

que reste em minhas sandálias.

 

Caminhei até aqui,

cheguei precocemente do fundo da pedra

com a boca doce ou a palavra dividida. Ordeno

ainda os horizontes.

 

POEMA DE LUIS CARTAÑÁ (1942-1988)

_______________________________________________________________________________________________________________

LUIS CARTAÑÁ OTERO nació en La Habana, Cuba en 1942.  Viaja de muy joven a los Estados Unidos donde estudia inglés en la Universidad de Georgetown en Washington, D.C.  Se traslada a España, allí realiza estudios en derecho y hace amistad con los escritores Pere Gimferer, José Caballero Bonald, Gloria Fuertes, José Batlló, Ignacio Gómez de Liaño y Francisco de Asís Fernández, entre otros.  Durante su estancia en España publica su primer poemario Estos humanos dioses (1967).  Precisamente, en 1967, viene a residir a Puerto Rico, donde se dedica a la cátedra de literatura en el Recinto Universitario de Mayagüez de la UPR.  Desde allí inicia una dinámica actividad cultural participando en numerosos encuentros culturales y congresos literarios en Puerto Rico, Perú, República Dominicana, México, Colombia y Estados Unidos.  Junto a otros escritores funda la Confederación de Escritores Latinoamericanos.  En Puerto Rico Cartañá se identifica con los poetas de la Generación de 1960; particularmente con el grupo del Oeste de la isla, representado por Carmelo Rodríguez Torres, Jorge María Ruscalleda BercedonizSotero Rivera Avilés, Juan Torres Alonso, Billy Cajigas, Wilfredo Ruiz Oliveras, Jaime Martínez Tolentino e Inés Crespo, entre otros.  Funda y dirige la colección “Jardín de espejos,” responsable por la edición de Antología minuto de Francisco Matos Paoli y Antología de la poesía sueca contemporánea, entre sus títulos más destacados.  Publicó los poemarios Joven resina (1971), Tocata, fuga y presencia(1972), Canciones olvidadas (Chanson Oubliés) (1977, 1985 y 1988, ésta última con prólogo de Pere Gimferer), Sobre la música (1981), La mandarina y el fuego (1983, con prólogo de Francisco Matos Paoli), Los cuadernos del señor Aliloil (1985) y Permanencia del fuego (1989), publicado a pocos meses de su fallecimiento.  Cartañá propulsó la candidatura de Francisco Matos Paoli al Premio Nobel de literatura, quien se convertiría en el primer escritor puertorriqueño en ser considerado para tan prestigioso galardón.  La poesía de Cartañá ha sido incluida en las antologías Poesía en éxodo (Miami, 1970), 9 poetas cubanos (Madrid, 1984), Antología de poesía puertorriqueña 1984-1985 (Río Piedras, Puerto Rico, 1985), Poesía cubana contemporánea (Madrid, 1986), Poetas cubanos en España (Madrid, 1988), Pulso de poesía (Mayagüez, Puerto Rico, 1992) y Al pie de la memoria. Antología de poetas cubanos muertos en el exilio (1959-2002) (Miami, 2002).  En 1988 se traslada a España para realizar estudios doctorales de Filología Hispánica en la Universidad Complutense de Madrid, enviado por el Recinto Universitario de Mayagüez.  Luego se traslada a la ciudad de Miami donde muere de un tumor en el cerebro el 11 de febrero de 1989.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:24


2961 - RETRATO || POEMA DE CECÍLIA MEIRELES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.01.19

CECÍLIA MEIRELES (1901 - RIO DE JANEIRO / 1964 - RIO DE JANEIRO)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:48


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

BERTRAND - SUGESTÃO DE LIVROS E LEITURAS

20% a 50% IMEDIATO em todos os livros - Instagram Post 25-26/03

Livros Young Adult Fev 2020 - Billboard


O Mundo na Mão - Large Billboard



Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas