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#2840 - INSTRUMENTO DE SOMBRAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.07.18

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 Vasco Graça Moura

 

INSTRUMENTO DE SOMBRAS

 

coração, instrumento de sombras

e silêncios vibrantes, coração que te destróis

na turvação da alma,

de que matéria é feita a lucidez com quue palpitas

e sabes o que vai acontecer?

 

rente às águas fluviais, a neblina é mais espessa

entre os choupos de inverno.

também o amor é uma arte do tempo, uma

melodia delgada e frágil instalada em novembro,

tocada num instrumento de sombras

 

e pressentimentos, na indecisa fronteira

entre a vida e a morte. um dia

a chuva  há-de diluir tudo

na sua música, nas cadências da sua

lenta anestesia.

 

POESIA DE VASCO GRAÇA MOURA - POESIA REUNIDA, QUETZAL, 2012

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publicado às 08:21


#2832 - A Importância de seres tu

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.05.18

Quando tu passas...

As árvores inclinam-se respeitosamente

As aves ficam suspensas em gotas de orvalho

O ar fica transparente

O vento parado e

A respiração da natureza é um gemido.

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publicado às 13:46


#2829 - Poema de Hilda Hilst

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.04.18

HILDA HILST

 

Alcoólicas (trechos)

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

 

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

 

Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

 

POEMA DE HILDA HILST

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publicado às 18:26


#2827 - Adiamento de uma declaração que era suposto ser importante

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.04.18

Adiamento de uma declaração que era suposto ser importante

 

Uma pequena conversa como intróito

diálogos curtos

poupar as palavras

disparates podem ser ditos mas

não atropeles a minha fala

o silêncio é a minha deixa

lavas a garganta com o vinho que ainda não beberas

aclaras a voz

sacodes a rouquidão até ao lenço

brincas nervosa com as pontas onduladas do cabelo

uma porta abre-se

o empregado entra

com delicadeza diz as horas

e a declaração fica adiada

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publicado às 17:51


#2816 - Grita...o mais alto que puderes

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.18

 ALEXANDRA DE PINHO  EXPRESSÕES

 

Sobe

sobe até ao ponto mais alto do monte

e grita

Grita o teu nome

o nome dos teus pais

o nome dos teus filhos

se os tens

 

Grita

grita o mais alto que puderes

até sentires o peito a arder

mas grita

não te importes com a dor

muitas vezes alivia

 

Sobe

sobe ao sítio mais alto do monte 

e berra

berra as provocações que sofreste

as humilhações cravadas na cabeça para que não esquecesses

os maus e feios nomes tatuados na face da tua pele

 

Não gemas

grita

berra

o mais alto que a dor conseguir suportar

até as nuvens sumirem e

o céu ficar todo azul

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publicado às 18:53


#2815 - sob a voz contraída da poesia [um poema de Rosa Oliveira]

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.18

podia bordar a minha cara 

sobre tantas caras

do mundo

(abro parêntese

nele entra o voo desta paisagem

tão inútil

como mudar uma vírgula a alguém)

 

rostos que só vimos um momento

rostos que encontramos pelo caminho

os últimos momentos de um rosto

as ideias que se têm sobre um rosto

os seus longos trajectos ínvios

desde o latim liceal

o dorso dos rostos coberto de mato

 

olhos débeis palpitam dentro dos olhos

mal nos deixam ver os rostos nublados

por excesso de vegetação

palpitam

sobrepõem-se páginas de rostos

vemos rostos nos rostos

há rostos que choram tanto

que acabam por se partir

 

um molho de folhas arrefece

entre os meus olhos líricos de cortiça

por vezes olhamos para o espelho

não há nada lá dentro

por vezes morremos na rua

reflectidos nos vidros partidos

da varanda materna

no clarão intempestivo do fósforo

ilusão fulgurante

 

morremos um pouco

na mudança de linha

em cada parágrafo

mal assinalado

 

alguém

espera o primeiro choro da criança

para entrar nela

ainda suja da lama genética

 

venceste a insidiosa

a cadela que exige sangue

(julgas tu...)

 

Poema de Rosa Oliveira in tardio

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publicado às 18:07


#2810 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.18

iosif brodskii013.jpg

CANÇÃO

 

Queria que estivesses aqui comigo, querida,

Queria que estivesses aqui comigo.

Queria que te sentasses no sofá

e eu sentava-me ao teu lado contigo.

O lenço, o teu podia ser,

e minha era a lágrima, até ao queixo.

Mas, claro, podíamos inverter

os respectivos papéis.

 

Queria que estivesses aqui xomigo, querida,

Queria que estivesses aqui comigo.

Queria que estivéssemos no meu carro,

meter as mudanças era contigo.

Quando parássemos, daríamos

por nós algures, numa costa ignorada.

Ou então regressaríamos

à nossa antiga morada.

 

Queria que estivesses aqui comigo, querida,

Queria que estivesses aqui comigo.

Queria não saber nada de astronomia

quando as estrelas aparecem e as sigo,

quando a lua a água coa

que a dormir se mexe e suspira sem parar.

Queria ainda que a lua fosse uma moe

da para te telefonar.

 

Queria que estivesses aqui comigo, querida,

aqui neste hemisfério,

agora que estou na varanda sentado,

a beber uma cerveja.

Cai a tarde, o sol está a pôr-se;

ouvem-se rapazes aos berros e gaivotas a gritar.

Que interesse tem esquecer,

se se lhe segue morrer?

 

                      1989

 

Poema de Iosif Brodskii

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publicado às 16:53


#2808 - YONVILLE

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.03.18

 

YONVILLE

 

viu que o tempo atravessava tudo

entrava nas cabeças

desfazia pequenas ligações interiores

enlouquecia

 

sobre os cabelos caía

uma poeira de mãos rápidas

a rede quase invisível

à volta dos lábios

 

escondia os livros mais importantes

desfazia os dias em tarefas inúteis

atraiçoava os amigoa com amantes desdichados

 

secretamente sabia

o tempo vai transformar-nos

em glosas esventradas de nós mesmos

vai pôr a rezar os poetas mais obscuros

leva-nos pela mão

arrasa

 

olhou o horizonte e suspirou

era vasto demais

o prado e o céu juntavam-se

 

insuportável

como toda a paz campestre

 

Poema de Rosa Oliveira in tardio, edição Tinta-da-China, Março de 2017

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publicado às 10:15


#2807 - Fernando Pessoa - carta a Ronald de Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.18

Fernando Pessoa - carta a Ronald de Carvalho


"Para as mãos de Fernando Pessoa, fraternalmente Ronaldo de Carvalho. Rio MCMXIV"
A única carta conhecida de Fernando Pessoa a um poeta brasileiro.


Um exemplar do livro "Luz Gloriosa", foi oferecido a Fernando Pessoa pelo autor e enviado através de Luís de Montalvor, no seu regresso a Lisboa após dois anos como secretário da Embaixada de Portugal no Rio de Janeiro. O livro tem uma dedicatória escrita pelo punho de Ronald de Carvalho:

Em 29 de Fevereiro de 1915, Fernando Pessoa escreveu ao autor, agradecendo o livro que este lhe oferecera e fazendo uma crítica de "Luz Gloriosa", leia abaixo a carta na íntegra. A crítica de Fernando Pessoa parece ter influenciado Ronald de Carvalho, que iria aderir ao modernismo, destacando-se a sua intervenção na Semana de Arte Moderna de 1922, cinco anos mais novo do que Fernando Pessoa, Ronald de Carvalho viria a morrer, por coincidência, no mesmo ano do escritor português.


CARTA DE FERNANDO PESSOA AO POETA RONALD DE CARVALHO

 

Lisboa, 24 de Fevereiro de 1914?


Meu caro Poeta
.

Escrevo-lhe a desoras da Delicadeza. Há meses que o Luís de Montalvor me fez chegar aos olhos o seu Livro. Embora o lesse sem tardança, tenho demorado o agradecimento para além dos limites que se usam. A licença poética não admite tanto. Eu tenho abusado do direito concedido aos camaradas de responder longe de propósito. Começo a minha carta por lhe pedir as desculpas a que este adiamento obriga.


Não sei que lhe diga do seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um Poeta que se encontrasse, se é que um Poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos nos seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. Do poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que a presença das rosas. Para quê os ramos quebrados, ainda, e partido o caule das violetas?


Eu não lhe devia dizer isto, talvez, sem prefaciar que sou o mais severo dos críticos que tem havido. Exijo a todos mais do que eles podem dar. Para que lhes havia eu de exigir o que cabe na competência das suas forças? O poeta é o que sempre excede o que pode fazer.
O seu livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto para que, não me conhecendo, me não julgue posto sobre a severidade sem atenção às belezas do seu livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor faz falar as curvas nuas da sua Matéria. E então é o seu poema sobre o “Cais”, e o seu “Outono”, e este e aquele verso, caído dos deuses como o que é azul no céu nos intervalos da tormenta. Exija de si o que sabe que não poderá fazer. Não é outro o caminho da Beleza.
Eu detalho.


Tenho vivido tantas filosofias e tantas poéticas que me sinto já velho, e isto faz com que me dê o direito de o aconselhar, como Keats a Shelley, que esteja de vez em quando com as asas fechadas. Há um grande prazer estético às vezes em deixar passar sem exprimir uma emoção cuja passagem nos exige palavras. Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade.


Escrevo e paro. Pergunto a mim-próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. Decerto me faça justiça de crer que a quem não tem nenhum valor eu digo imediatamente que tem muito. Só vale a pena notar os erros dos que são na verdade Poetas, daqueles em quem os erros são erros. Para que notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar?


Com tudo isto, que parece hesitante no elogio, repito-lhe que o seu livro é dos mais belos que ultimamente tenho lido. A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os repuxos. Eles são com efeito as melhores horas da água, e decerto que os mais belos são aqueles, em jardins ainda do século dezoito (e que nós nunca poderemos ver) .
A sua sensibilidade dói-me. Por certo que outrora nos encontramos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo o nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirado os brinquedos, porque nós teimávamos que os soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andamos longas horas pela quinta. Como nos tinham tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade — que paga de seda para os nossos sacrifícios! — os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) essa era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e o seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as partidas que lhes fazem, porque são mostras de afeição. Foram belas essas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter essas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel da seda da nossa recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este — o terem-nos embrulhado os brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exatamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonho, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... Éramos duma artificialidade mais divina...


Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos, e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da Vida...
Perdoe-me que lhe escreva assim... A Vida, afinal, vale a pena que se lhe diga isto. Deus escuta-me talvez, mas de si ouve, como todos que escutam. A tragédia foi esta, mas não houve dramaturgo que a escrevesse...

Abraça-o

 

Fernando Pessoa

 

Fonte: PESSOA, Fernando. In “Correspondência (1905-1922)”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p.150. / in "Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa". Lisboa: Ática, 1966.  p. 135. /e TRIBUNA da Imprensa, Rio de Janeiro, 12-13 de Fevereiro de 1955, com o título “Carta inédita de Fernando Pessoa a Ronald de Carvalho”. [mantida a grafia original]

 

 

Autor - Templo Cultural Delfos

Elfi Kürten Fenske - Ano VII, 2017.

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publicado às 09:59


#2805 - DÚVIDA SOBERANA (À memória de Wislawa Szymborska)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.03.18

Não seremos puros, anuncia o poema.
Grão de areia havemos de conter,
o zumbido das moscas, música propícia
do âmago das infinitas brumas declararemos.
Das estrelas apenas o pulsar negro
havemos de saudar.

 

Grande calamidade a dor de um único
homem. Por isso odes não cantaremos
às esferas, mas as perturbações geológicas
saudaremos com grave equilíbrio,
se bem que com considerável afoiteza
rodopie dentro de nós o tempo zombador.

 

Se forças nos faltarem para gizar os grandes
voos, um murmúrio seco será então o penhor
da nossa vontade, porquanto mais amamos
o instante em que o espírito sangra
que as fileiras de preciosos pensamentos
dispostos em camadas seculares.

 

Certamente os olhos brilharão quando o rude chão
os pés tocarem e um oh soltarmos diante
do mundo que se revela. Morte, definitivamente
sim, mas só aos bocados deglutiremos,
talvez à espera do olvido impossível.

 

O privilégio do silêncio proclamaremos
diante das pedras cujos milénios não contaremos.
O infinito tocaremos só ao de leve, que nossos
curtos braços são precisos para dar à manivela
à celeridade triunfante.

 

Ressonância terá acolhimento em nosso
seio, mas não debateremos se será matéria
reciclável, pelo menos enquanto nos interrogar
a face esfolada de um único vivo. Alta metafísica,
devolver à procedência. Contrato rescindir com
o desassossego que não seja o eco
da própria vida a debater-se.

 

Beleza, só a lacerada daremos guarida,
a que emerge dos escombros que dão nome
à derrota, atiça a fome do que não há,
improviso irrepetível, fagulha em extinção,
oração que não redime, mas persiste
impertinente como maleita gerada pela nossa
retumbante miséria.

 

No entanto, generosos seremos sempre
com as barrigas inchadas, os olhos esbugalhados,
as falanges sem ardor, e por vós testemunharemos,
silenciosas musas, tudo o que é indigno da vossa
majestade, e à vossa presença o levaremos em inefáveis
vestes envolto, sem nada que provoque riso ou cólera.

 

Contudo, eternidade alguma almejaremos,
sequer a simples verdade, tributos por demais
pesados para as nossas frágeis canelas,
mas bem vinda seja um pouco ou toda a vivaz
liberdade brotada da carne da pura imaginação,
ainda que amiúde rendida à vénia conveniente.

 

No entanto permiti que protestemos
contra a alegre despreocupada cor azul
à ilharga das pancadas que o escuro arreia
em nossas junturas, não sabendo nós
com que intenções, salvo que nos salta ao caminho
com um alforge de incontáveis repenicantes ruídos.

 

Uns soluços amealharemos, mas paisagem
de sentimentos não seremos. Um momento
de deslumbramento, e é tudo — voltamos à inicial
mudez da pedra que fala, se interrogada com
os instrumentos convenientes. Não recriminaremos
a pressa se for o vento golfando sobre os povoados.
Abraçar a chuva é excepção permitida, conquanto
nos deixe o hirto pescoço à flor do dilúvio assomado.

 

Não remiraremos nas águas lustrais o perfil
primitivo ou a felina destreza com que saltávamos
de constelação em constelação, quando com delicadas
luvas o cosmos acolhedor afagávamos e em nosso
cálido regaço o mundo nem ao de leve cedia
ao apalpar inclemente; porém a máscara mais
esfarrapada afilaremos não para o fingimento
nos entreactos em que com esbracejante vigor
alinhavávamos os grandes temas — tempo, solidão,
eternidade —, mas para o desconsolo nosso
ocultarmos e não ofendermos a glória farejada,
a alta omnisciência que escarnece do nosso
desabrochar impuro, ou do assomo farfalhante
de um oceano de dúvidas.

 

Um bom dia de carantonha ressequida embora
acolheremos quando inferno de pó abraça
a cintura do território, mas não usaremos coloridas
lentes de ler da pedra o movimento, porquanto
confiamos na imobilidade primordial,
e um estremecer fortuito é normal,
seja vivo ou inanimado o assediado pelo temporal.

 

O sol consentiremos bem repartido pelas
unhas, cabelos e pele, inda que momentaneamente
uma nuvem escale o topo das preocupações
sensíveis. Daí termos a alma de prevenção,
mas bem trancada, que se insinua em tudo, a danada.

 

A mudança e a metamorfose aplaudiremos,
mesmo se com elas trazem a defenestração fatal.
Motivo de profundo regozijo será para nós
o olhar desdenhoso dos circunstantes
quando arribados à soleira declararmos
«saudações, senhores, somos a peregrina poesia».

 

Infinitamente compreensivos seremos
com o desiludido que logo se retira grunhindo
«isto não é um poema», mas milagres não
prometeremos, pelo menos nesta estação ou safra:

 

nas costas corsárias na flibusta outrora embrenhados,
até o ar expelir agora nos custa. Mas asas e bico
de rapina na imaginação teremos e, eia avante
agigantados ante a treva, com lume nos ossos
e bocejo rangente às lacustres moradas então
retornaremos (as sublimes mansões derruídas
foram pela mão do tempo), ao imo do primeiro
ovo, e seremos pão do povo, se pólvora já não
podemos, sequer a simples pedra que se atira
ao cocuruto do destino, aos fundilhos do infinito.

 

De borco, com o suor do esforço,
ergueremos já não as cidades futuras
onde o passado é longo e refulgente
e batedores trazem novas dos feitos imorredoiros,
mas um sítio apenas onde poisar a cabeça
espreitando o milagre corriqueiro.

 

Por isso mensageiros já não somos do estertor
dos tiranos nas praças do mundo enforcados,
mas reflectimos logo de manhã a taxa de madrugada
lançada sobre o nascente raio de sol, sobre a viela
que pisamos, e o abraço retribuído com um
entusiasmo de caveiras nas fileiras dos crematórios.
Decerto baixará o rating da dívida, mas aumentará
a soberana dúvida sobre nosso poder de esconjuro e dolo.

 

Um último suspiro porém guardaremos para gritar
«poesia ou morte», de tal sorte que nosso retorcido
esqueleto em mil estilhas se espalhará. Nossa eterna
tristeza, nossa definitiva derrota porém seria
todo o leitor aqui chegado não declarar
«algo aqui há a acrescentar».

 

Poema de José Luiz Tavares

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publicado às 22:15


#2803 - Cidade Velha Revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.03.18

JOSÉ LUIZ TAVARES

 

CIDADE VELHA REVISITADA

 

Darling, agora que mareio

ao descompasso desta chuva,

num maxixe bem swingado,

é vida esse eco que escoa

ao rasgão do frio na pele?

 

No sossego delatado

pela voz de um búzio,

dói, darling, essa distância

em que tudo se faz cerração

 

e o pensamento declina

ao gosto da época,

mesmo se a safra é agora

o pólen que fica nos dedos

e evoca longínquas serranias.

 

Ó, darling, o mundo

é esta derme que escurece

enquanto a boca mastiga

a heteronímica dúvida

se o homem é apesar

da sua pele ou da faca

que lhe fincam ao invés.

 

Sangra-me essa dúvida, darling,

num derrame prolongado,

e é sem respostas que me enrolo

à poeira que desumidifica

o rufar de domingo,

 

enquanto, ao débito da calema,

subo, darling, humílimo transeunte,

até onde o deus se acocora

e  entre gritos selvagens

vinco-lhe na boca

a limpidez que supusera

as primícias do teu nome.

 

POEMA DE JOSÉ LUIZ TAVARES

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publicado às 17:19


#2801 - Poema de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.03.18

 A vida exige de ti ainda mais escuro

A poesia vai acbar, os poetas

vão ser colocados em lugares mais úteis.

Por exemplo, observadores de pássaros

(enquanto os pássaros não 

acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao

entrar numa repartição pública.

Um senhor míope atendia devagar

ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum

poeta por este senhor?» E a pergunta

afligiu-me tanto por dentro e por

fora da cabeça que tive que voltar a ler

toda a poesia desde o princípio do mundo.

Uma pergunta numa cabeça.

- Como uma coroa de espinhos:

estão todos a ver onde o autor quer chegar? -

 

Do livro "Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É apenas Um Pouco Tarde" (1974)

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publicado às 20:08


#2797 - Prémio Literário Inês de Castro

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.18

Rosa Oliveira vence Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017      

 

 

Na sua 11.ª edição, o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017 foi atribuído a Rosa Oliveira pela obra Tardio, editada pela Tinta da China. Sobre a autora, que em 2013 publicou pela mesma editora, Cinza, o seu primeiro livro de poesia, escreveu António Guerreiro no Público, "Nunca a poesia de Rosa Oliveira se desliga da prosa do mundo, por mais que ouse alguns flirts com algo que a supera. Ela pratica, de certo modo, uma arte do recuo, traça com grande racionalidade os seus territórios, acaba por ser uma elegia da própria poesia, quase um túmulo do poeta que se vê obrigado a declinar os seus tempos sombrios como «uma longa marcha para a mediania»."

 

O júri do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017, composto por José Carlos Seabra Pereira (Presidente), Mário Cláudio, Isabel Pires de Lima, Pedro Mexia e António Carlos Cortez, não foi unânime na escolha da obra premiada, sendo o Prémio atribuído por maioria. Mário Cláudio votou em A queda de um homem, de Luís Osório, e Pedro Mexia em Hoje estarás comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral.

 

Nesta edição, o Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro 2017, um prémio de carreira, foi atribuído a Eugénio Lisboa.

 

Prémio Literário Fundação Inês de Castro tem distinguido ao longo dos anos autores e obras de reconhecido valor, tais como Pedro Tamen (2007), José Tolentino Mendonça (2009), Gonçalo M. Tavares (2011), Mário de Carvalho (2013) ou Rui Lage (2016), entre muitos outros.

 

A cerimónia de entrega do Prémio Literário Fundação Inês de Castro - um troféu de prata e pedra, da autoria do escultor João Cutileiro, que simboliza todo o drama e mistério que rodeiam o episódio de Pedro e Inês - terá lugar no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, no dia 17 de Março. O livro premiado, Tardio, de Rosa Oliveira, será apresentado por António Carlos Cortez, e Pedro Mexia falará sobre a obra de Eugénio Lisboa.

 

Biografias dos autores

 

Rosa Oliveira (Viseu, 1958) é autora dos ensaios Paris 1937 e Tragédias Sobrepostas: Sobre "O Indesejado" de Jorge de Sena. Foi leitora na Universidade de Barcelona e é professora no Ensino Superior Politécnico. Cinza, o seu primeiro livro de poesia (Tinta da China, 2013), foi galardoado com o Prémio PEN Clube Primeira Obra. Tardio, igualmente publicado pela Tinta da China recebe agora o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017. Tem poemas editados nas publicações literárias RelâmpagoColóquio-Letras (no prelo), Suroeste (Badajoz, 2016), Cidade Nua e nas antologias Voo Rasante (Mariposa Azual, 2015) e Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos(Companhia das Letras, 2017). Publicou na Granta 8 (Tinta-da-China, 2016) o primeiro conto de uma série em que presentemente trabalha.

 

Eugénio Lisboa (Loureço Marques, 1930) é um ensaísta e crítico literário português especialista em José Régio. Licenciado em engenharia electrotécnica pelo I.S.T. (1955), residiu em Moçambique até 1976, trabalhando sobretudo no ramo petrolífero, actividade que acumulou a partir de 1974 com a docência de Literatura Portuguesa nas universidades de Maputo e Estocolmo. Entre 1978 e 1995 foi Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal, em Londres, e entre 1995 e 1998, Presidente da Comissão Nacional da UNESCO. É Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham e pela Universidade de Aveiro. Recebeu os seguintes prémios literários: Prémio Cidade de Lisboa, pelo livro A Matéria Intensa; Prémio Jacinto Prado Coelho, pelo livro Portugaliae Monumenta Frivola; Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE, por Acta Est Fabula – Memórias I. Consulte aqui (link) as suas principais obras literárias.

 

Informação retirada do site da Fundação Inês de Castro

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publicado às 17:38


#2792 - Os dias que restam

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.03.18

Estás

sentada na soleira da porta

a meditar em qualquer coisa que

nem sabes bem

olhando as estrelas que se

colam à retina dos teus olhos.

E uma lágrima rola

por causa de uma memória, de uma saudade.

Um silêncio violento invade o teu corpo e

continuas sentada para poderes

suportar o peso das ausências.

Não é a memória que te atrapalha

mas as dores que ela contém

e que encerraste ao longo das tua vida,

num dique de paredes robustas que

estão prestes a ceder.

E a lágrima desliza suavemente pela tua alma em

direcção do coração.

E ficas em silêncio

apaziguada contigo e

com o tempo que te resta

e esperas com espantosa tranquilidade

o fim da tua jornada.

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publicado às 23:17


#2789 - À Deriva com Mar ao Fundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.03.18

 Tatiana Pequeno

 

À DERIVA COM MAR AO FUNDO

 

há uma imagem muito preciosa de nós.

por meses ela acompanhava o abrir in

voluntário da caixa de mensagens e o

dia tão outonal da tua presença chegava

mais veloz para a reserva dos voos de

ir ao encontro da tua larga omoplata de

receber. a fotografia arquiva aquele dia

já tão passado de julho (outro inverno) e

na tua blusa xadrez há alguma coisa ne

gra de mim enquanto no meu vestido pre

to há um detalhe de ti, além daquilo que

são os teus brincos muito arredondados.

e estou ancorada no teu corpo a dizer al

go do tipo «queria que aparecesse o mar».

nas ruas da Barra e do Rio Vermelho

procuramos mais uma vez a linguagem

modesta do aluguel - esta coisa menor -

que estivesse ao nosso alcance chegas

te a ligar para um pequeno imóvel com

varanda, do qual abstraímos rapidamente

(os preços sempre nos foram valores difíceis)

temendo a oxidação dos ferros e o gasto

com eletrodomésticos novos e alumínio

ao ficarmos tão próximas dos efeitos do

salitre presente no movimento equatorial

da maresia, fomos também ao banco onde

sob tua fala aceitei que fosse a hora de

mudar agência. mas sobretudo os investi

mentos que não tinha. indago-me hoje se

era já altura de perguntar sobre os segredos

cada vez mais graves que tu mantinhas.

talvez fosse o caso falar da brisa futura

a corroer a casa ou da umidade palusível

a destruir os livros. se enfim já pensavas

na troca ligeira das operadoras a longas

distâncias de nossos telefones. de qualquer

forma, ali, os planos pareciam todos feitos.

(havíamos escolhido um nome africano para

aquela criança adotada que seria nossa filha)

era quase tarde naquele imenso dia e no en

tanto paramos novamente ali naquele porto

na orla e, para sempre, o Sublime registrou

algo que te parecia sorrir e a mim também

sem que soubéssemos, afinal, que atrás de

nós a larga água de todos os santos nos des

protegia e nada depois de alguns meses faria

você desistir de preferir o sul àquela luz em

que insisti no ajuste da câmera para na memória

fazer caber, à esquerda o amor e à direita o mar.

 

POEMA DE TATIANA PEQUENO

 

 

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publicado às 10:50


#2787 - América

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.18

Carlos Drummond de Andrade

 

AMÉRICA

 

Sou apenas um homem.

Um homem pequenino à beira de um rio.

Vejo as águas que passam e não as compreendo.

Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.

Vi que amanheceu porque os galos cantaram.

Como poderia compreender-te, América?

É muito difícil.

 

Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.

O rosto denuncia certa experiência.

A mão escreveu tanto, e não sabe contar!

A boca também não sabe.

Os olhos sabem - e calam-se.

Ai, América, só  suspirando.

Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.

 

Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não acompanham.

Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples trempo

dispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios  do interior,

por trás de cordilheiras ou dentro do mar.

Eles me ajudariam, América, neste momento

de tímida conversa de amor.

 

Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos!

Sou tão pequeno (sou apenas um homem)

e verdadeiramente só conheço  minha terra natal,

dois ou três bois, o caminho da roça,

alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei.

Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha,

ignoro profundamente a natureza humana

e acho que não devia falar nessas coisas.

 

Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.

Nessa rua passsam meus pais, meus tios, a preta que me criou.

Passa também uma escola - o mapa -, o mundo de todas as cores.

Sei que há países roxos, ilhas brancas, promomtórios azuis.

A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se

em amarelo, em vermelho, em  preto, no fundo cinza da infância.

América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.

Sempre me perdia, não era fácil voltar.

O navio estava na sala.

Como rodava!

 

As cores foram murchando, ficou apenas  o tom escuro, no mundo escuro.

Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra.

Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios.

Seus passos urgentes ressoam na pedra,

ressoam em mim.

Pisado por todos, como sorriir, pedir que sejam felizes?

Sou apenas uma rua

na cidadezinha de Minas,

humilde caminho da América.

 

Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.

Muitas palavras já nem precisam ser ditas.

Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio,

certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,

violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu.

 

            Canta uma canção

            de viola ou banjo,

            dentes cerrados,

            alma entreaberta,

            descanta a memória

            do tempo mais fundo

            quando não havia

            nem casa nem rês

            e tudo era rio,

            era cobra e onça, 

            não havia lanterna

            e nem diamante,

            não havia nada.

            Só o primeiro cão,

            em frente do homem,

            cheirando o futuro.

            Os dois se reparam,

            se julgam, se pesam,

            e o carinho mudo

            corta a solidão.

            Canta uma canção

            no ermo continente,

            baixo, não te exaltes.

            Olha ao pé do fogo

            homens  agachados

           esperando comida.

           Como a barba cresce,

           como as mãos são duras,

           negras de cansaço.

           Canta a estela maia,

           reza ao deus do milho,

           mergulha no sonho

           anterior às artes,

           quando a forma hesita

           em consubstanciar-se.

           Canta so elementos

           em busca de forma.

           Entretanto a vida

           elege semblante.

           Olha: uma cidade.

           Quem a viu nascer?

           O sono dos homens

           após tanto esforço

           tem frio de morte.

           Não vás acordá-los,

           se é que estão dormindo.

 

Tantas cidades no mapa... Nenhuma, porém, tem mil anos.

E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.

Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos fogos terá?

Nunca se sabe, as cidades crescem,

mergulham no campo, tornam a aparecer.

O ouro as formas e dissolve; restam navetas de ouro.

Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados

(que vão esmagar a última revolução);

o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes;

a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas...

Estes pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.

A criança espantada

não sabe juntá-los.

 

Contaram-me que também há desertos.

E plantas tristes, animais confusos, ainda não completamente determinados.

Certos homens vão de país em país procurando um metal raro ou distribuindo palavras.

Certas mulheres são tão desesperadamente formosas que é impossível não comer-lhe os retratos e não proclamá-las

                                                                                                                                                                            [demônios.

 

Há vozes no rádio e no interior das árvores,

cabogramas, vitrolas e tiros.

Que barulho na noite,

que solidão!

 

Esta solidão da América... Ermo e cidade grande se espreitando.

Vozes do tempo colonial irrompem nas modernas canções,

e o barranqueiro do Rio São Francisco

- esse homem silencioso, na última luz da tarde,

junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizado

comtempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da Broadway.

 

O sentimento da mata e da ilha

perdura em meus filhos que ainda não amanheceram de todo

e têm medo da noite, do espaço e da morte.

Solidão de milhões de corpos nas casas, nas minas, no ar.

Mas de cada peito nasce um vacilante, pálido amor,

procura desajeitada de mão, desejo de ajudar,

carta posta no correio, sono que custa a chegar

porque na cadeira elétrica um  homem (que não conhecemos) morreu.

 

Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento.

Portanto, solidão é palavra de amor.

Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas.

Ela fixa no tempo a memória

ou o pressentimento ou a ânsia

de outros homens que a pé, a cavalo, de avião ou barco, percorrem teus caminhos, América.

 

Estes homens estão silenciosos mas sorriem de tanto sofrimento dominado.

Sou apenas o sorriso

na face de um homem calado.

 

POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE IN A ROSA DO POVO, EDIÇÃO COMPANHIA DAS LETRAS, FEVEREIRO DE 2017

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publicado às 13:33


#2781 - A Flor e a Náusea

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.02.18

carlos drummond de andrade

 

A FLOR E A NÁUSEA

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjoo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

 

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

 

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

 

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

 

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

 

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 

Poema de Carlos Drummond de Andrade in A Rosa do Povo, páginas 19, 20 e 21, edição Companhia das Letras Portugal, Fevereiro de 2017

 

 

 

 

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publicado às 17:40


#2779 - Miragens

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.02.18

 PINTURA  DE  ALEXANDRA  DE  PINHO

 

O corpo desliza no delírio, enquanto

um fruto amadurece no ventre.

O deserto sob os pés,

a cabeça deitada sobre o seio da duna descansa

da dor e da viagem.

Uma boca de areia, o milagre da água é uma miragem.

lâminas ondulantes brotam do solo quente e

formam cortinas transparentes enganando

o desejo. Obsessivo. Louco.

 

E o corpo continua a deslizar no delírio.

Apesar da noite, apesar do frio e

do brilho metálico  sonoro das estrelas,

a certeza que dos olhos brotarão tamareiras

quando o milagre acontecer.

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publicado às 22:43


#2774 - Os homens nus

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.02.18

IMG_20180212_172504.jpg

 O rio que mergulha noutro rio

o caudal aumenta  e afoga a terra

casas viradas ao contrário

o céu é um imenso mar onde as estrelas são gaivotas.

 

Homens nus pescam insectos

mergansos pescam crocodilos

crocodilos apanham homens nus com canas de pesca

e velas que iluminam o caminho aos morcegos.

 

O vento sopra de lado nenhum

o ar está parado

e gente de boca aberta engole o espanto

mas o ar está parado, não há vento.

 

Uma rosa para iludir o tempo e o bocejo

rebenta os balões 

da festa de um menino que gosta

de fazer o pino enquanto sonha.

 

O palhaço é um cão que mia

cujo nariz

cabe no seu

enorme sapato.

 

O sapo namora com uma melga

mas esta ainda não sabe e

graceja ridicularizando a sua incompetência

e o boi ressuscitou no corpo de uma minhoca.

 

E o rio continua a mergulhar num outro rio

e o caudal engrossa cada vez mais e

a terra é um imenso pano bêbedo

onde os crocodilos pescam insectos

sentados em cadeiras de pernas cruzadas

o rabo na boca como se fosse um cigarro.

 

Ratos com asas

infâmias

putin e trump

diabruras

a história que às vezes se quer repetir.

 

Ironias...

 

A história do sarcasmo e da estupidez

ignorantes com boca e poder e

as casas ao contrário e

as árvores ao contrário

o mundo ao contrário

irreal

digital

kafkiano

um carro  no espaço há-de servir para quê...

 

E os crocodilos                                

sentados em cadeiras de pernas cruzadas

rabo na boca

usam canas de pesca

para apanhar

homens nus e desprevenidos.

 

 

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publicado às 15:57


#2772 - O Ambiente em S. Vicente

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.18

ruy cinatti029.jpg

O AMBIENTE EM S. VICENTE

 

I

Dia.

Calma demais na baía azul

contra a muralha adiante da outra ilha.

Luz sem sombra

e um vazio que perfila

mortos os corpos deitados

na ideia 

e no cansaço

do movimento no cais e nas casas.

Ainda há vida

no velho tamarindeiro

hirto sob a poeira do vento

que sibila mas não sente

a nossa melancolia

dissolvida no ar quente:

o morno desassossego

que se respira em S. Vicente.

 

II

Noite.

Os montes sobem à lua

e descem vertiginosos na sombra.

O silêncio é mineral,

mesmo o das ondas na praia.

Passos acesos por um Petromax

deambulam, estacam.

Ouve-se uma voz: «entra já!»

O silêncio animou-se, falou fundo

como se anima e cala em S. Vicente.

 

III

Quando as nuvens pesam

e o céu e o sol

escurecem

toda a gente pensa:

acaso, o milagre?!

 

Mas não é milagre.

A chuva cai mesmo

quando acaso cai.

 

As ribeiras enchem.

A fome enverdece.

E a casa so pobre

escorrega na lama.

 

IV
E a pracinha ao fim da tarde

animada, sempre em festa

festinha lânguida prece

nos olhos da mulatinha

e de outras mais meninas

que passam, repassam, passam

os mesmos diminutivos

aos rapazes bailarinos

ou aos que  ouvem a banda

encostados à parede.

Até que chega a velhinha

com o seu cão, o seu bastão

e começa, a levitar,

a rodar,

a dizer: eu sou rainha

nos bailes de S. Vicente.

E a festa acaba em vidinha

em que os termos mais soezes

se confundem com os sublimes.

E só me resta gritar:

tu és minha, tu és minha

porque rimas com rainha,

com pracinha, com vidinha

e muita coisinha fina

e mais um raio de gente!

 

Poema de Ruy Cinatti in "Obra Poética, Volume I", páginas 411, 412, 413, 414 - Edição Assírio & Alvim, Outubro de 2016.

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publicado às 16:57


#2753 - TEORIA SENTADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.18

 

alexandra de pinho

 

TEORIA SENTADA

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade 

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.

 

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

 

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

 

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

 

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra 

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

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publicado às 21:22


#2752 - Barricada

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.01.18

Quando já não pudermos mais chorar e as palavras forem pequeninos suplícios e olhando para trás virmos apenas homens desmaiados, então alguém saltará para o passeio, com o rosto já belo, já espontâneo e livre, e uma canção nascida de nós ambos, do mais fundo de nós, a exaltar-nos!

 

Tu sabes se te quero e se fomos os dois abandonados, abandonados para uma bandeira, para um riso que sangre, para um salto no escuro, abandonados pelos lúgubres deuses, pelo filme que corre e desaparece, pela nota de vinte e um pedais, pela mobília de duas cadeiras e uma cama feita para morrer de nojo. Minha criança a quem já só falta cuspir e enviar o corpo e bens para a barricada, meu igual, tu segues-me; tu sabes que o caminho é insuportavelmente puro e nosso, é um duende gritando no telhado às ervas misteriosas, é um rapaz crescendo ao longo dos teus braços, é um lugar para sempre solene, para sempre temido! E o Rossio é uma praça para fazer chorar. Salvé, ò  arquitectos! Mas choraremos tanto que será um dilúvio. Automóveis-dilúvio. Sobretudos-dilúvio. Soldadinhos-dilúvio. E quando essa água morna inundar tudo, então, ò arquitectos, trabalhai de novo, mas com igual requinte e igual vontade: vinde trazer-nos rosas e arame, homens e arame, rosas e arame.

 

Poema de Mário Cesariny, página 193, do livro "POESIA", edição Assírio & Alvim, Novembro de 2017

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publicado às 22:55


#2744 - Estado Segundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.01.18

 

 ESTADO SEGUNDO

 

No meio duma vedação circular, esperava a ocasião favorável

a ignominiosos projectos de entrada. E todas as noites, depois

do jantar, a comissão de dança abarrotava de gente.

Examinaram o anel pondo-o de parte, ainda dentro do quarto.

Qualquer coisa ardia ao contrário, com frieza de ânimo e contrariamente à expectativa.

Fixaram, também, com virginal indignação, o grande quadro a óleo que pendia do tecto,

certamente um ex-militar pois no seu casaco farraposo havia fitas de medalhas.

A cancela rangia docemente quando, na mão de alguém, uma ponta de preocupação se tornou de um

cinzento pouco recomendável.

- Não, muito obrigado...

O dia surgiu a partir da fachada. Não havia neles cabelos bancos nem uma só linha que estivesse seca.

 

POEMA DE MÁRIO CESARINY RETIRADO DO LIVRO "POESIA", PÁGINA 265, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM (PORTO EDITORA), NOVEMBRO DE 2017

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publicado às 19:44


#2732 - Poema de Reynaldo Pérez Só

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.17

 Reynaldo Pérez Só

 

esta é uma cadeira
só uma cadeira
nela
sentou-se meu pai
meus irmãos
todos
os meus melhores amigos
agora
está sozinha
sem ninguém
uma cadeira.

 

Poema do poeta venezuelano Reynaldo Pérez Só

 

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publicado às 18:14


#2731 - Pânico

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.17

 ALEXANDRA DE PINHO  TRANSFRAGMENTOS

 
PÂNICO
 
É Inverno
o pássaro foge,
não gosta da noite.
o pinheiro enrola as raízes mais fundo.
o cristal parte-se.
a porta abre-se.
o dia afoga-se entre coxas e mamas e
perde a memória.
o vento uiva por entre espinhos e espelhos.
a chuva que tudo limpa e o
carrossel onde os cães se escarrancham.
almas frígidas montadas em cavalos com cio.
espadas, superstições, cânticos.
a noite que engole o dia, sôfrega, num
espasmo de
dor e prazer.

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publicado às 14:03


#2729 - Não há nada como um bom charuto

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.17

NÃO HÁ NADA COMO UM BOM CHARUTO

 

O mar está calmo esta noite

como um colchão,

e o espaço interior habitado

isso sabemos

com certeza, a

uma mesa com

uma toalha de jornal

completo com cabeçalhos que encabeçam

um bem-vindo à tua vida

a observar os poemas

a passar os olhos como carros

ou palavras que são o mesmo

 

Descontrai-te dizem as árvores empolando-se

na sua inocência,

Descontrai-te dizem os pirilampos, descontrai-te

Descontrai-te

o momento chegará,

as árvores aplaudem.

 

Poema de Larry Sawyer

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publicado às 18:53


#2728 - Atravessando o Deserto Sonâmbulo

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.17

 

ATRAVESSANDO O DESERTO SONÂMBULO

 

Despe as tuas roupas e deixa-as numa longa cobra

Atrás de ti como as estrelas caem sobre ti no céu

 

Qualquer coisa te segue e se suspende do teu respirar cansado

E resmungas qualquer coisa que tropeça na tua boca

 

Ergues uma oração que paira sobre ti como uma nuvem

Enquanto a tua pele nua reflecte as paisagens do teu suor

 

Despe as tuas roupas e deixa-as numa longa cobra

Atrás de ti como as estrelas caem sobre ti no céu

 

Desejas acordar e isso é o desejo que

Não acerta na tua cara para ir repousar nas cicatrizes das dunas

 

Para onde quer que olhes vês o teu próprio corpo

E o som do proprietário dos ossos

 

Ali a caminhar onde o fogo estava

A respirar hesitantemente estas palavras

 

Poema de Larry Sawyer, poeta americano

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publicado às 18:35


#2721 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) - Excerto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.12.17

uma viagem à india-gm tavares005.jpg

Gonçalo M. Tavares

 

(...)

1

Embora a humanidade demore tempo a chegar

a um sítio, devido a imprevistos espantosos

e a obras no caminho, a natureza, essa,

nunca se atrasa.

Sempre com a luz certa, a natureza prossegue.

Era já, então, fim de tarde, quando Maria E abriu a porta

e disse: Oh, caro Thom C, que bom ver-te,

trouxeste um amigo?

 

2

No jornal as notícias podem, em dias de chuva,

ser dobradas para caberem no bolso, permanecendo secas.

Qualquer notícia grandiosa, um terramoto mortífero

ou um palácio recém-inaugurado, quando bem dobrada,

cabe num espaço de 8 por 6 centímetros,

o que não deixa de surpreender. Esta imagem é ainda relevante

para quem não quer perceber a importância e o espaço

ocupados pelo universo ou pelos países adjacentes

na vida de um pequeno cidadão.

 

3

E mesmo um indivíduo de estatura mediana

poderá esquecer, durante meses,

o mapa da mundo no bolso de trás das calças.

Tal facto, parecendo paralelo à nossa história,

não deixa de se cruzar com ela, mostrando que nas ideias

o infinito é coisa para o início da manhã

do dia seguinte.

 

4

Maria E convidou, então, delicadamente, Thom C

e o seu amigo Bloom a entrarem, oferecendo-lhes de imediato

poltronas cómodas, whisky perfeito, aperitivos,

uma vista deslumbrante  sobre as chaminés de uma fábrica

de grande importância na região,

e, pormenor não irrelevante, mostrando ainda, nos movimentos que fazia,

aquilo que de longe eram os melhores indícios do apartamento: seios felizes,

pernas de fazer parar o pensamento e

nádegas espantosas, imprescindíveis, duplas e fortes.

Esta é a melhor região de Londres, disse Bloom,

enquanto da janela admirava o belo e espesso fumo negro

que da fábrica saía.

 

5

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas

que lhe pareciam ter um conforto excessivo.

Com prudência e curiosidade perguntou

se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento

que, apesar de pequeno, era prometedor,

sendo que todos sabem

que um homem pode demorar mais tempo

a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja

do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,

com mochila às costas.

(...)

 

Canto II (Excerto) - Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 73 e 74 - Edição Editorial Caminho, Agosto de 2011

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publicado às 13:34


#2717 - PARA EDWARD MUNCH

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 LARRY SAWYER

 

 

PARA EDWARD MUNCH

 

Os gritos dos montes

estão inchados de sentido

enquanto a boca se enche

com a cor azul

que gela o céu

e rouba a frieza

pelo sangue ardente

ou será que isso não funciona

esta manhã

à hora do costume

como se nos pudéssemos atrasar

para a noite que chega

através da pele

entrando pelos poros

horas de halogéneo irradiando

o seu sentido

como um coração a bater,

algumas nuvens nervosas, um

Inverno.

 

Poema de Larry Sawyer

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publicado às 16:36


#2716 - PHTONOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

ENIS BATUR

 

 

PHTONOS

 

"Diz-se que na Grécia antiga alguns deuses não tinham corpo.

O que os mantinha não era uma figura, mas um som, um sinal."

Puxou o seu cabelo de prata para trás das orelhas,

fazendo uma pausa entre as frases:

"o que sempre me faz recordar o Requiem de Mozart:

se uma mão ajudar, a morte e a vida podem sobreviver

no mesmo vaso de plantas. Se uma alimentar a outra,

qual é esta, pergunto-me? Algumas perguntas a que não podemos responder

infiltram-se pelos anos, fazem poça na nossa vida."

Distracção. Invocando uma manhã chuvosa de Salzburgo, talvez

a memória lhe esteja sobrecarregada por imagens do hospital

para onde fora levado, a seguir à noite em que começou

o último andamento do seu concerto para violino.

"Por detrás do coro esconde-se o próprio medo, solitário,

inultrapassável: escolher para que lado se virar num cruzamento

parece-me ser a mais glacial das decisões

- sorri com pesar por um momento - talvez seja por isso

que nunca consegui passar o portal que alcancei."

Semente dura, solo fértil - se regados separadamente,

também se alimentariam um ao outro: raízes misturam-se, num enredamento impossível,

tece-se um emaranhado pela sobrevivência lentamente partilhada.

Mas se é mesmo verdade que alguns deuses vivem sem corpo,

então o som phi faz assentar uma mancha escura na sala:

O vaso racha-se, o solo seca, tantas mortes

podem elevar o seu pendão na nossa vida enquanto vivemos.

 

Poema de Enis Batur, in O Divã Cinzento, 1990

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publicado às 14:09


#2715 - A Europa em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 MICHEL DEGUY

 

A EUROPA EM LISBOA

 

O amor "libertou-se" da prisão de Amor

Olha: fica esse belo vazio

do amor esvaziado    o lenço de mármore

que a amante agitava ao oceano agitado

ou à cativa amante um trovador cativo

 

E agora descreve o castelo de água pétrea

O castelo de gávea capitaina

Que fez  renascentistas pensarem feudalismos

Voto cumprido de um príncipe cumprindo o verso de Gôngora

"de uma torre de vento delgadamente erguida"

 

E agora

O sereno tapete do Tejo estirado retira-se a seus pés

E também o saber se retirou

Como um refluxo sob a secura ignara

Em que as novas despejam uma espuma de datas

 

Da torre de Belém à torre de Stephen

Não quero pôr em causa o sentido da visita

Que o passe cultural poliglota autoriza

Nessa gaiola fui atrás da mulher da limpeza

 

A quem incumbe zelar pelo vazio bem vazio  

Amarrar favores da pedra ao terceiro patamar

E arrumar turbantes, de pedra, escudos, de pedra,

                 de sultão, de cruzado

                                       abrir caminho à volta

do Amor que não regressará.

 

 

Lisboa, 1993

 

Poema de Michel Deguy traduzido por Vasco Graça Moura

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publicado às 10:03


#2714 - ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

 AMADEU BAPTISTA

 

 

ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

 

Vi como a actriz levitou entre as sete paredes da sala

e soube imediatamente como isso era bom.

O céu de antracite dos últimos dias

foi um sinal do tempo nos meus olhos

que de uma árvore a outra projectou

um momento único de calor e vida.

A actriz era o primeiro êxtase

nos vários segmentos dos meus olhos,

silenciosa sequência de roldanas

onde a luz é um milagre e algo palpita

nas têmporas como uma recordação.

Falou da ausência, a actriz?

Fumava em Roma num vestidinho negro

tão frágil como uma pérola

e actuava sobre as palavras como se algo real

estivesse para acontecer à nossa frente.

Sentada no banco de madeira,

com os botões da camisa sensulmente abertos

e os lábios vermelhos que lembravam um Verão próximo

         do passado

ela esculpia na terra

algo tão perturbador como  o princípio do mundo.

Foi bom  olhá-la nos olhos,

tomar a eloquência por uma evocação

onde o silêncio tem o poder de despertar no corpo

um ritmo alucinante de febre e de loucura.

Ela, a actriz, nada podia fazer,

embora invocasse a infância com todas as forças do espírito,

em nítidas sucessões de terríveis marés-vivas.

Sentei-me e aplaudi.

Ela era sobretudo o exercício das coisas que nos fazem aproximar da solidão dos homens,

a cidade cercava-a e entontecia-a

porque algo se lhe colava à pele, um enigma, uma ave, talvez,

essa memo a que perdemos o rastro entre Bari e La Spezia

quando os múltiplos sinais da representação nos intimidavam

a conferir à comunicação o estatuto do medo e do fascínio.

A actriz? Agora podes vê-la.

Entre os toldos amarelos e azuis e a areia ocre dessa praia

ela penteia meditativamente os cabelos de oiro,

embala a boneca de trapos,

canta sentada num trono onde cada um de nós já se sentou

          um dia

para se sentir espectador de algo fascinante

que em silêncio responde à nossa solidão.

Escuta-a.

Ela chama  um nome desconhecido num rumor incontornável,

o nome do homem que partiu,

persegue-o num único movimento,

a sombra do seu corpo alonga-se na ausência

e o arco dos seus braços transfigura-lhe o olhar,

é uma mulher que vem com o rosto iluminado pela escuridão

para regressar do outro lado da noite

com uma criança nos braços,

ela própria,

um peixe vermelho que cintila

como uma pedra na distância

que vai do inferno ao paraíso,

de Capri a Peruggia.

Não é um incêndio que ela tem na boca?

A actriz tem na boca um incêndio

que é tanto a ternura como a exaltação,

ela entregou-se ao grito pela incandescência pura,

é um sonho e exalta-se pela beatitude de um crime

nesse sangue espesso

que é um círculo fulvo noutra esfera do mundo,

um brilho que se amplia numa barra de vidro

onde o rosto reflecte mil acrobacias

que reencontra a pedra onde a limpidez preserva

a tensão dos rostos em cada expectativa.

E a actriz sorri ainda porque o poder da luz amplia nos lugares

formas tão indistintas como as que há no coração

e outras tão belas como as corças que correm na planície

e nós pensamos que nos pertencem com o mesmo vigor

da agilidade do salto que empreendem.

Chamaste? Viste como isto era bom?

E o sortilégio era esse,

a magia do mundo,

a passagem de um lugar para outro lugar

onde tudo era possível

e um tiro à queima-roupa sobre o nosso peito

continha em si a graça de nos devolver à vida.

 

POEMA DE AMADEU BAPTISTA

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publicado às 18:31


#2713 - Então queres ser um escritor?

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

CHARLES BUKOWSKI

 

ENTÃO QUERES SER UM ESCRITOR?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 

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publicado às 17:12


#2711 - CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.12.17

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 

CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

 

Principia a estação, com o seu ruído

feito de sons de pássaros, que eu decifro.

Mais difícil sinal são as cores várias,

que despontam cada dia e eu vejo,

ano após ano, iguais e singulares.

Primeiro, um pouco além, o lírio roxo,

que me traz consigo a criança viva

que o colheu e, tal como a um barco

o fez singrar, só, roxo, macerado,

na água que descia por um rego.

Um lírio com a mão que o cortara

já decepada e presa ao passado,

sem o seu corpo. Vejo as três pétalas

assim a confundir-se com os três dedos,

como se as nossas mãos por vezes vivessem

mais do que os passados corpos.

Depois, foi esta a manhã das camélias

brancas, cravadas com dureza em rostos,

que, ainda de olhos fechados, tocam

as corolas em busca do seu cheiro.

São camélias mortais, e ainda atraem

a face dos mortos, que algum dia

as bafejaram com o seu hálito próximo.

Manchas brancas de círculos informes,

cada círculo contendo outro círculo.

E, no centro de cada rosto, apenas,

em cada Primavera, duram os olhos.

 

Já caem as glicínias, de alto, sobre

o esplendor do crânio ou do cabelo.

São cachos também roxos, em manhãs

de assombro, por cada dia mais

trazer um diverso cacho pendente.

Misturam-se com a cabeleira antiga

estes cachos de glicínias de hoje.

Mas são absolutos, novos, singulares

os momentos com a sua luz e cor,

os seus insectos e as suas sombras.

Alguém, que os colhera os fez prender

entre cabelos fecundos, de orelhas,

adornos para os filhos da Terra.

Estão, depois dos lírios e das camélias,

para salvar, em cada dia novo,

o viço dos cabelos, mais eternos

do que a já sepultada carne. Carne

de alguém que tinha um nome seu e que

se oferecia, com deleite, ao Tempo.

Só pode ter sido a de parentes, dúbios

cohabitantes do ser que relata

esta actual Primavera, com saudade.

A Primavera, que me surpreende

somente por estar a ser olhada.

 

Se aquela rosa rubra, na manhã

em que surgiu, logo fosse ignorada,

eu não estaria aqui neste papel,

dando-me inteira à nova Primavera.

Recebo-a, olho-a como um visitante,

aliás porque, na sua latada,

ela está perto do meu sólio. Rosa

de repente vista, primeira rosa

na natural frescura. E, também,

o vento lhe tocou, e já a abrem

aquelas mãos que haviam sabido

lançar barcos de pétalas aqui.

Junto da rosa só cabe esta boca,

pronta a beijar com amor as suas línguas

ou a beber a linfa que é da abelha.

Havia uma boca assim, sem a face,

a respirar ao ritmo dessa rosa,

que hoje nasceu fadada para ser

a sempre minha, única, igual.

A cor da rosa mostra-me o lugar

daquela boca, e eu quero sentir-me

aqui e ali. Pois vejo-te, rosa,

e vejo a outra, a que foi beijada.

Assim, não posso mais do que olhar.

Rosas terás em redor, solitária.

 

- Eis os melros, rasteiros, que insistem

em tornar-se evidentes, saltitando

sobre cômoros de terra. Mas hoje

perante o mistério das flores súbitas,

são como eu, embora não como eu,

com a negra plumagem que os cobre.

Sobre a lage do poço correm dois,

negros contendores no mesmo sprint,

músicos de assobio que eu bem entendo.

 

E, próximos da rosa, mas alheios,

estão a nascer os narcisos, de amarelas

frisadas campânulas e de sépalas

perto do solo, e que se elevam

na luz de cor. Também uma figura

de mulher genuflectida as colhia,

e uma criança, oscilando no riso,

quer ter para si uma flor solar.

Junto aos eternos matizes das pedras,

a cor dos narcisos, nítida, clara,

evoca esses desejos saciados

em tempo ido: o da mulher, prendendo-os

no seu seio, e os da criança, seguindo

o movimento que pertence ao tempo.

Hoje, como hei-de separar os corpos

da haste e da corola dos narcisos,

pois a mancha amarela tem a forma

humana contida em si, curva, erecta.

 

Salva-me o vermelho vivo da rosa,

que atrai a cor intensa dos narcisos

para contraste, outra tensão,

que eu revivo, amando o beijo da rosa

e a prece ao sol destes narcisos.

Mas outra prece, hesitante, desponta

ao raso dos terrenos, dispersa, ágil.

Flores que vibram esguias e tácteis,

de um vermelho ardente, submissas

como pálpebras, ao cair da noite.

Abrem-se na aurora, comovidas

pela unção da luz, porque se chamam

páscoas. E são amadas, benditas.

Anunciam a passagem eterna

da luz sagrada entre noite e aurora.

A aragem devagar as sacode,

finas folhas e hastes a dançar,

em pleno dia de êxtase, no sono

das corolas exaustas pela noite.

 

Noutra manhã, eu vejo, deslumbrada,

a poalha da brancura florida

que envolve os troncos velhos da ameixoeira,

flores que o ar conhece e o vento leva,

há muito, para lugares e tempos.

Poalha em que não estão vultos humanos.

Apenas um nó de sombra, atrás

de cada flor, mostra a imagem de antes

ou a espessura de um fruto futuro.

São as flores do jardim que guardam o enigma,

pois cada espécie vista tem em si

um sinal visível de outra estação.

Flores solitárias que, uma a uma, vêm

ligar-se a fragmentos de vida antiga.

 

- Repetem-se os melros p'lo empedrado,

a debicar sempre nas pedras húmidas,

sob o fascínio do cálido dia.

Tão nítidos, tão certos, a presença deles

não cabe ao lado de uma flora rara,

a desta Primavera em narração.

 

Também os loureiros em flor, visíveis

ao longe como nuvens, são visões

completas, com  a floração e as folhas

na mesma cor de sempre, indecifrável.

Alguém pega no ramo do loureiro,

num verso clássico, e o dá a toda

a humanidade, pois a memória

da poesia passa de poeta a poeta,

para o mundo. Se o meu relato é vivo

é porque olho c'os outros a Primavera,

e nesta Primavera eu vi melhor,

presa do assombro do que é novo e antigo.

Os meus olhos, o espírito e as mãos

pegam em cada imagem de uma flor,

em cada dia de visão e ganho.

Mas a perda, enfim, virá somar tudo

igual a si mesmo, uno, passado.

E, de repente, uma flor de palavras

muito branca chega até mim, e é

esta estação, nesse florir de goivos.

Uma carta traz-me inscrita as palavras

de Eugénio, goivos, e o seu eflúvio.

Esta transcreve-a ele de Pessanha,

diante de tão nítidos canteiros.

Grata, prendo-me a esses elos vivos

da corrente de vozes, que se oferecem

aos ouvintes, depois de recolherem

o real, o findo, o que foi amado.

Aqui, depois do loureiro, floriu

a acácia, também sem qualquer vulto

escondido no seu florir imenso.

São árvores solitárias, constantes

na pura relação com a luz solar.

E, talvez por fim, neste  infinito,

uma inflorescência de gladíolo

rosada, erecta, se tenha aberto.

 

Vem de um único bolbo, soterrado,

está só, entre a verdura vária.

Junto de si viveram outras hastes

também de gladíolos, há muito tempo.

Braços levaram-nas juntas, consigo,

em braçadas de amor e de alegrias.

Os braços são as linhas de matizes,

unidas em redor da cor suavíssima

das flores de hoje, a florir aqui.

Cada manhã me põe diante dos olhos

nova forma de cor e  luz e, às vezes

figuras esbatidas de outra estação

igual, porém perdida já, inane.

 

- Melro audaz, que te aproximas mais

de mim, ou do que eu fui e agora sou,

não vejas que eu represento o Tempo.

A tua colheita de grãos e de larvas

seja o teu mais subtil pensamento.

 

- E, afinal, entraste no meu espaço,

num intervalo entre o concreto e o abstracto.

 

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

Carcavelos, Março, 1997

 

____________________________________________________________________________________________

 

Fiama Hasse Pais Brandão
 
Dramaturga, tradutora e poetisa, nasceu a 15 de agosto de 1938, em Lisboa,faleceu a 19 de janeiro de 2007, na mesma cidade. Frequentou o colégio St.Julian's School, em Carcavelos, e, mais tarde, o curso de Filologia Germânicada Universidade de Lisboa. Fez crítica de teatro, estagiou no TeatroExperimental do Porto (1964), e foi, com Gastão Cruz - com quem se casaria - e outros, fundadora do grupo Teatro Hoje (1974). Ao longo da sua vida,exerceu  atividade de investigação na área da linguística assim como  pesquisa histórica e literária sobre o século XVI em Portugal. Traduziu vários autores como Bertolt Brecht, Antonin Artaud, Novalis e    Anton Chekhov e colaborou em revistas literárias, como Seara Nova Cadernos do Meio-Dia Vértice entre outras. 
                                                                                                                                                                                                                                    Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61 coletânea que refletia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem  na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão                             i impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do              tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acessopela palavra pura a um tempo primordial. 
critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maiorpode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta comofontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme doConhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar naspalavras e nas imagens e que  por acumulação diurna e através daabsorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de CânticoMaior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve 1991).
 
Sob o Olhar de Medeia , a obra que marca a primeira incursão no romance porparte desta autora, foi publicado em 1998. 
Fiama Pais Brandão recebeu várias distinções, entre as quais se destacam o Prémio Adolfo Casais Monteiro, 1957; o Prémio Revelação de Teatro, 1961; o Prémio Pen Clube Português de Poesia, 1985; o Grande Prémio de PoesiaAPE/CTT, 1996; o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, 1996; e o Prémio Pen Clube Português de Ficção e o Prémio da Crítica da AssociaçãoPortuguesa de Críticos Literários, ambos em 2005.
 

 

 

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publicado às 19:03


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

mario cesariny poesia003.jpg

Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

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publicado às 16:38


#2707 - CONVERSANDO COM OS ASTROS

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.17

 TERESA RITA LOPES

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS

 

1

Confesso que me desiludiste um pouco

Quando ouvi dizer que estavas para chegar

pus-me ansiosa à tua espera

                                             Foste o primeiro

cometa da minha vida

                                  Antes de te conhecer pensava

que serias maior mais vistoso mais em fogo

                                                                    Depois

aceitei o teu recato a tua timidez

                                                  e tentámos

acertar o passo e o olhar

                                      Encontrámo-nos no céu

da Cacela e depois puseste-te a caminhar comigo

até Lisboa

               Aqui perdemo-nos de vista

                                                        Há luz eléctrica

a mais     Nesta cidade até do céu somos despossuídos:

o buruburinho das luzes obscurece os astros

                                                                      que fogem

a esconder-se atrás dos  montes mais próximos

                                                                           Dizem

os cientistas que voltas daqui a três mil anos

Que é isso para o deus de quem és brinquedo

e eu também?

                    Em breve regressarás ao teu abismo

e um dia destes também eu mergulharei no meu

Marquemos já encontro para o dia 11 de Abril

de 4997

           à esquina do crepúsculo

 

2

Eis-te de repente     Espreitas e devagar

levantas-te do leito do rio afogueada

sacudindo a saia

                         Que fazias aí deitada com ele

minha magana?

                     ah lua! maluca lua que não tomas

juízo!

      Aqui estamos de novo   cara a cara

sorriso no sorriso

                         Quantas vezes já nos olhámos

assim nos olhos    tão enamoradas?

                                                       Saboreio

daqui deste meu décimo andar jardim suspenso

todos os momentos da tua caminhada céu acima

Agora já estás perfeitamente senhora de ti

redonda e rutilante

                             e olhas de alto o rio

que se aquieta para te receber e espelhar

tua inevitável retirada

                                 Ninguém te dá a idade

que tens

            Quem havia de dizer que ficaríamos

grisalhas um dia!

Mas a ti fica-te bem esse

cabelo de neve luminosa     O meu pediu ao Outono

o ruivo fulgor de suas folhas

                                           Ah lua amiga minha

da longínqua infância da perdida juventude

cúmplice de tanto fervor adulto    sozinho e

comungado   confidente de tanto pranto em fogo

transformado   à tua alquímica maneira em fina

prata

       aonde vais buscar esse sorriso manso

teu sereno aceitar de tudo o que acontece

tua ironia doce?

                       Quem me dera libertar-me assim

da canseira do dia!

                             Minha amiga minha Mãe meu amor

porque és tudo isso ao mesmo tempo

                                                            afaga o áspero

dorso da minha irrequieta mágoa

                                                   e afoga-me no teu

mar de luar

                que é água e ar e fogo ao mesmo tempo

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS - POEMA DE TERESA RITA LOPES

 

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publicado às 22:19


#2706 - O Homem Solitário

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

BORIS HRISTOV

 

O HOMEM SOLITÁRIO

 

Tem uma cicatriz na testa e senta-se sempre na ponta,

mesmo quando é grande o homem solitário é pequeno.

 

Junta ervas ou talha com a tesoura das recordações,

se não tem nada a fazer - e arrasta a sua manta gasta.

 

Uma cabeça de cavalo ilumina os campos e

o  homem solitário vai apenas olhá-la - não quer que tenha uma crina.

 

Enquanto os outros gritam ou falam da arte

à mesa, o homem solitário apanha as moscas e deixa-as voar.

 

Mas se escreve versos deixará sem dúvida

uma lágrima nos olhos ou um arranhão na vossa memória.

 

Tem um lar e sopa quente, mas está tão só;

a sua vida - abandonada como uma arca no fundo do corredor.

 

Que a sua casa se desmorone,

comerá cinzas, mas não se ajoelhará perante ninguém.

 

Em que fogo ardeu? E sob que ferro de passar?

Para o saber ter-se-á de beber com ele muito vinho.

 

Enquanto caminha com uma mancha na camisa limpa,

o homem solitário desaparece na multidão como átomo.

 

Com uma das mão leva um livro para a sua alma doente,

com a outra o homem solitário segura a pequena corda que traz no bolso.

 

Poema do poeta bulgaro Boris Hristov

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publicado às 20:46


#2705 - No Palácio do Marquês de Fronteira em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

EVA CHRISTINA ZELLER

 

NO PALÁCIO DO MARQUÊS DE FRONTEIRA EM LISBOA

 

Um gato preto guia-nos:

queiram ter a bondade os aposentos particulares do Marquês

aqui tomam-se as refeições

aqui acende-se a lareira à noite

atrás destas portas vivem os gatos

não, crianças não

azulejos centenários

batalhas caçadas um pastor pintado

voilá e aqui fora queiram ter a bondade sob o azul

o azul cacos mosaicos azulejos reunidos e desbotados

Poesia Diana Neptuno

a Justiça é cega minhas senhoras

mas ali estão so cisnes pretos devido ao ruído da cidade passam pelas grutas

e os seus pescoços

não, vejam com os vossos próprios olhos

e no parque cuidado por favor

em restauro as fachadas

já muitos caíram estenderam-se

como a deusa da Vitória dentro da hera

compreendem, todo esse tempo e o ruído

o  betão nos ossos corrói

um pequeno rosto olha-me, vindo do arbusto de buxo

como se fosse o meu

 

POEMA DE EVA CHRISTINA ZELLER

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publicado às 20:03


#2700 - Quatro e Meia da Manhã

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.11.17

 CHARLES BUKOWSKI

 

os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre

quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo e
como algo esfaqueado
e cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 

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publicado às 18:16


#2698 - O PÁSSARO AZUL

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 CHARLES BUKOWSKI

Nascimento16 de agosto de 1920, Andernach, Alemanha
 
 

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

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publicado às 23:16


#2696 - DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

ARMANDO SILVA CARVALHO

Nascimento28 de março de 1938, Olho Marinho
Falecimento1 de junho de 2017, Caldas da Rainha
 
 
DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA
 
Gosto de sentir a natureza e fingir
que não lhe pertenço.
O vento é esta mão gigante e nunca vista
que sacode o carro perante um mar
em brancas gargalhadas.
Não é o mundo que tenho na cabeça.
Penso nas gotas de água que embaciam o vidro,
e vejo o véu da chuva que ainda não chegou
com as nuvens atrasadas.
 
As palavras recusam-se a ser irmãs das ondas.
O meu silêncio não quer ser filho do clamor da tempestade
que faz dançar as aves na escuridão das nuvens
como sondas.
 
Mas como é belo
que tudo viva na luta de viver,
a fúria da maré o espelho do  meu rosto debruçado para dentro
como um poema de Pedro Homem de Melo.
 
O mundo natural dá-me a acidez da voz
que se solta
nos cabos teleféricos
e transporta o ruído dos loucos suicidas
a luxúria do tempo
ou esse luxo que se chama esperança.
 
No céu desamarrado a gaivota baila,
no chão perto do mar outro baile circunda
o meu coração desordenado.
 
E nunca saberei como se dança.
 
POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

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publicado às 19:11


#2695 - COM PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.11.17

Casimiro de Brito.jpg

 CASIMIRO  DE  BRITO

 

 

COM PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

 

Também eu me sentei, anos a fio,

à mesa de Pessoa no Martinho

da Arcada e olhei para dentro do novelo emaranhado

da sua vida. Não há nada

para desenrolar, concluímos. Corriam

os anos setenta, oitenta

e os meus dias eram uma concha recheada de

metáforas cotações enigmas letras

de câmbio de afectos graffitti estatísticas

enquanto nas ruas de Lisboa a revolução rolava

ao sabor da maré e das brisas agitadas

pelo patrão Vasques e por outras

abelhas mestras. "Governa quem é alegre (...)

para ser triste é preciso sentir".

Também eu tomei café

de costas viradas para o Tejo e encontrei

o meu sossego no desassossego de Soares

como se fôssemos o mesmo guarda-livros cansado

que descia a Rua Augusta e depois se dividia

em dois, ele

a caminho da Rua da Madalena, eu

da Rua do Ouro, onde escrevíamos

apressadas sílabas no verso de papéis comerciais

que nos pagavam o pão e a renda

da casa. Do meu gabinete eu via o "lago azul" do Tejo,

ele não. O que mais me fascina

nesta fotografia

é a página que o poeta lê como se fosse

a mãe louca que embala um  filho

morto. Uma tãbua

"todos os papéis estão brancos"

"todas as mensagens se adivinham"

onde eu posso entrar e entrava nesses dias

quando me cansava de caminhar nas ruas baixas

que vão dar ao Cais das Colunas e então sentava-me

à sua mesa e misturava

como se fossem obscuras folhas de café

as palavras dele e outras minhas:

 

Sofro de não sofrer e sobre a morte

escrevo em seu trabalho de não saber

sofrer lavrando-a enquanto

a vida visita. Vivo ou finjo que vivo?

O discurso do corpo

canta, uma vaga aragem que sai fresca

do calor do dia e me faz

esquecer tudo e com as aves

resvalo e com os rios...

 

Incontáveis foram as veze em que o meu cansaço

da bolsa e da vida,

dos ruídos da baixa e dos barcos que partiam

no azul nevoeiro

se aconchegava na página desconhecida

como se fosse um velho buraco de

família uma espécie de sono

metafórico uma imersão

em águas antigas que exerciam em mim

um vago domínio. E então eu lia

o que ele talvez ali

estivesse lendo:

"Nem uma saudade já me resta

dos búzios à beira dos mares"

e também eu me sentia

nesses momentos

o sócio minoritário de um pequeno comércio de poetas

sentados na bruma: havia um que buscava

o mar dos búzios, outro que partia

para as praias onde havia búzios

e ouvia o mar "só e calmo",

como quem habita um aroma

paciente. Também eu

escrevi versos como se fossem lançamentos

de escrita, "com cuidado

e indiferença": havia que fundir-me,

entrar para dentro da areia

idizível; havia que pesar o ouro das palavras

sabendo que pesava

cinza. "O universo

não ẽ meu", lia Pessoa na página em que não sei

o que lia, o universo "sou eu" - fonte

sonolenta

 que se bebe a si própria

e mais nada. Também a mim

me doeu "a cabeça e o universo" nesses dias

em que fui abandonado à tona de água

como se a água tivesse um dentro e um fora

e os cabelos que me foram caindo não dissessem

que tudo são cabelos correndo como rios

um pouco loucos

de um lado para o outro - "uma vaga doença",

"um prenúncio de morte"

que não tem outro mistério além do mistério

de partirem barcos. Também eu

me sentei à mesa de Pessoa no Martinho

da Arcada enquanto lá fora chovia

"como se houvesse chovido (...)

desde a primeira página do mundo"

e o que faço agora é vê-lo estar lendo um nada

que é tudo basta olhar

para o olhar do amigo que sobre o poeta se debruça,

mudo. O enigma que vê outro enigma

no palco ainda verde

e já em ruína

 

POEMA DE CASIMIRO DE BRITO

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publicado às 21:36


#2694 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

Um corpo deitado sobre a pedra fria de um beco.

A alma é uma sombra inquieta que

sabe não ter força para

erguer o corpo.

Gotas de chuva escorrem

dos seus olhos assustados e

desaguam nas margens da boca.

Palavras surdas rasgam a pele

implorando ajuda -

ninguém as ouvirá:

está só num beco e assim ficará.

 

Na grande avenida,

a dois passos dali,

gente festiva celebra entre efusivos

beijos e promessas solenemente proclamadas

a passagem para um novo dia, um novo ano.

 

E o corpo já não os ouvirá.

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publicado às 18:24


#2693 - LISBOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

bernard-noel.jpg

 BERNARD NOËL

 

LISBOA

 

sete colinas e nenhum papa um tremor

quando o grande sol mastiga o mar da palha

as casas alinhadas como espectadores

de pé diante de outras que vêem

envelhecer por cima delas as roupas estendidas do tempo

a cidade está tão cumeada de vermelhos

que vista de cima parece menchada de sangue

o olhar procura em todo o lado o branco de uma lenda

mas o presente pequenino tudo tapou

só o corpo do poeta ficou intacto

o álcool conserva muito melhor do que a memória

assim se esconde debaixo de uma pedra pesada

a prova de que o ser é menos que o não ser

quem saberá jogar com o desassossego

para que a duração empalhe enfim a pele

e mude a aparência em carne imortal

de um momento para o outro um novo morto morreu

tanto como o mais antigo de todos os mortos

estranha igualdade que desafia o tempo

 

POEMA DO POETA FRANCÊS BERNARD NOËL

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publicado às 16:04


#2692 - Amanhã, o Fim do Mundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

 PENTTI HOLAPPA

 

AMANHÃ, O FIM DO MUNDO

 

O fim do mundo chega amanhã

passeamos no jardim de inverno de Lisboa.

É Janeiro, as camélias florescem e

os flamingos nadam na lagoa artificial.

A água é H2O original e a terra antiga.

Parece maravilhoso dividir um destino que se separa.

Acertou-nos uma flecha vinda de longe.

Alguém pensou em nós, na nossa espécie, no mundo.

Há só um único ponto, em que tudo se apoia, 

e está escondido no nosso conhecimento

ou no lixo ao lado da rua ou no

outro lado da Via Láctea, ou em Deus, mesmo no Amor.

Percebi hoje uma coisa tremenda.

Estou tão perto de ti, que me lanço para longe.

Na última noite quero passear

contigo em Lisboa.

 

Poema do poeta finlandês Pentti Holappa

 

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publicado às 16:00


#2690 - FERNANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.17

 

 

FERNANDO PESSOA, LISBOA ODER UMGEKEHRT

FERNANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

 

Boa tarde, Álvaro de Campo.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no engraxador da Rua de Santa Marta.

Os teus jogos de mão são um soneto

perfeito e acabado, evocando brilhos

em que Lisboa se revê -

lusitana, lascivamente cortejada

com olhos de alçapão.

O Tejo a teus pés engole as lágrimas

negras aqui choradas

pelas vítimas de conquistadores armados de gravata.

 

Boa tarde, Alberto Caeiro.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no cauteleiro de camisa azul,

aquele com os discos de suor nos sovacos.

Como um profeta, prometes na Baixa a toda a gente

o céu na terra.

A tua voz ardente de fadista atravessa-se

entre as casas,

para nos fazer tropeçar nos sons guturais

e cair nos braços da tristeza ferida,

atordoados do bacalhau.

 

Boa tarde, Ricardo Reis.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no guarda-freio da linha 12.

Brilha em ti a criança através das lunetas

quando travas e aceleras o cometa de lata,

sedento de carris, e os passageiros pensam

que chegou o Juízo Final.

Arrastas-te por Alfama, vais-lhe deixando cair

no coração as tuas odes nocturnas,

ancorando os seus dias no devaneio,

apesar da miséria.

 

Agosto de 1997

Poema escrito por Martin Steiner e traduzido por João Barrento

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publicado às 22:53


#2689 - LISBOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.17

 WILLIAM CLIFF

 

LISBOA

 

o céu do Atlântico o grande céu errante

o céu e estas nuvens que passam lentamente

o céu que com o vento se nos faz inconstante

e nos despeja água que colhe prontamente

 

céu que faz renascer o gosto das viagens

no corpo do que quer por certo ainda sonhar

enquanto vê correr a sombra das imagens

pensamentos e fumos lá por fora a voar

 

oh! como é triste aqui desejar o amor

neste canto da terra tão longe da Europa

oh! como nos enfraquece todo este céu sem cor

e estas ondas que caem com a dureza da rocha

 

como está só aquele que passeia com o cão

e quer beber ao longe a sua solidão

com o seu negro olhar odeia e não mais quer

que olhar as mesmas ondas sem sequer as ver

 

oh! como este vento nos corta já a pele

como é mais forte aqui o sopro do mar alto

e como é tão difícil achar neste vergel

um lugar para o barco onde ancorar a salvo

 

e todo o mau humor na cara desta gente

e o silêncio diante da imensidão marinha

e este enorme rio com o seu maldoso vento

onde passam vapores para a Praça sozinha

 

Poema do poeta belga William Cliff

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publicado às 22:20


#2684 - Os Homens Ocos

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.17

T. S. Eliot

 

OS HOMENS OCOS

 

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

 

(Trecho de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot.) 

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publicado às 18:28


#2683 - Aprendizagem

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.17

 

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

 

Poema de Ferreira Gullar

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publicado às 18:14


#2682 - GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.11.17

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GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

 

O corpo não espera. Não. Por nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura assetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sede, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo...

 

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

 

Poema de Jorge de Sena

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publicado às 23:36

"Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos", escritos por cem poetas, acaba de ser publicado pela Companhia das Letras, celebrando a pluralidade da poesia com autores famosos, mais desconhecidos, esquecidos ou acidentais.

A recolha foi feita pelo jornalista e escritor José Mário Silva que introduz a antologia com breves notas, nas quais se defende ainda antes do ataque: "Os cem poemas aqui reunidos não serão os melhores de um século, 'stricto sensu', mas fixam a resposta do antologiador à pergunta 'Quais são, para si, os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos?'".

José Mário Silva reconhece que entre milhares de poemas portugueses escritos ao longo de um século é impossível escolher os melhores, não só por a escolha ser sempre incompleta, mas pela própria indefinição quanto ao que significa "melhor" em poesia, e sobretudo pela subjetividade do ato: "Uma antologia diz sempre mais sobre quem seleciona do que sobre a matéria selecionada".

"Nem o mais amplo e lúcido comité de sábios poderá chegar a um consenso que é, por definição, impossível", escreve José Mário Silva, que avançou, então, para a definição de critérios de escolha dos poemas.

O mais difícil prendeu-se com a representatividade e José Mário Silva optou por não fazer corresponder o número de textos escolhidos de cada autor com a sua importância relativa na história da literatura, para permitir uma maior variedade de vozes.

Se assim não fosse, "gigantes" como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Herberto Helder teriam de estar muito mais representados do que um jovem escritor com escassa bibliografia.

Ainda se levantaria outro problema, que era o de o leitor ser induzido a pensar que um Vitorino Nemésio era mais significativo do que um Mário Cesariny, só por o livro conter mais poemas do primeiro do que do segundo.

Assim, chegou o antologiador ao "critério radical" de escolher apenas um poema por autor, ou seja, o livro reúne cem poemas de cem poetas, sendo que -- e esta é a exceção -- Fernando Pessoa, que foi vários num só, aparece quatro vezes, enquanto ortónimo e enquanto cada um dos seus principais heterónimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis).

A baliza temporal do século implicou a exclusão de poemas publicados pela primeira vez em livro antes de 1917, mas ainda assim foi suficiente para abranger autores ainda nascidos antes de 1900, como Camilo Pessanha, Angelo de Lima, Teixeira de Pascoaes, Judith Teixeira, Almada Negreiros ou Florbela Espanca.

São evocados também alguns poetas mais esquecidos, entre os quais José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, António Maria Lisboa, Ana Hatherly ou Luís Pignatelli, e outros que nem têm a poesia como género literário principal, como é o caso de Jorge de Sena, Carlos de Oliveira ou Eduardo Guerra Carneiro.

Na lista contam-se, entre muitos outros, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, Herberto Helder, Ruy Belo, Al Berto, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Hélia Correia ou Nuno Júdice.

Também as vozes mais jovens e menos conhecidas da poesia portuguesa, como é o caso de Rui Lage, Golgona Anghel, Raquel Nobre Guerra ou Matilde Campilho, constam deste livro de 192 páginas, dividido em quatro partes, intituladas "Retratos", "Relatos", Desacatos", "Hiatos".

 

AUTOR: AGÊNCIA LUSA

 

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publicado às 22:54


#2678 - A FLOR DA SOLIDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

A FLOR DA SOLIDÃO

 

Vivemos convivemos resistimos

cruzámo-nos nas ruas sob as árvores

fizemos porventura algum ruído

traçámos pelo ar tímidos gestos

e no entanto por que palavras dizer

que nosso era um coração solitário

silencioso profundamente silencioso

e afinal o nosso olhar olhava

como os olhos que olham nas florestas

No centro da cidade tumultuosa

no ângulo visível das múltiplas arestas

a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa

Nós tínhamos um nome para isto

mas o tempo dos homens impiedoso

matou-nos quem morria até aqui

E neste coração ambicioso

sozinho como um homem morre cristo

Que nome dar agora ao vazio

que mana irresistível como um rio?

Ele nasce engrossa e vai desaguar

e entre tantos gestos é um mar

Vivemos convivemos resistimos

sem saber que em tudo um pouco nós morremos

 

Poma de Ruy Belo

 

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publicado às 19:34


#2677 - RUA DE ROMA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

RUA DE ROMA

 

Quero uma rua de Roma

com seus rubros    com seus ocres

com essa igreja barroca

essa fonte    esse quiosque

aquele pátio na sombra

ao longe a luz de um zimbório

mais o cimo dessa torre

que não tem raiz no solo

Em troca darei Moscovo

Oslo    Tóquio    Banguecoque

Fugaz e secreta à força

de se mostrar rumorosa

só essa rua de Roma

em cada nervo me toca

Por isso a quero assim toda

opulenta de tão pobre

com o voo desta poma

o ribombar desta moto

com este bar de mau gosto

em cuja esplanada tomo

este espresso após o almoço

à tarde um campari soda

Em troca darei Lisboa

Londres    Rio    Nova Iorque

toda a prata    todo o ouro

que não tenho em nenhum cofre

só no cotão do meu bolso

e no que a pátria me explora

Quero essa rua de Roma

Aqui onde estou sufoco

Aqui as manhãs irrompem

de noites que nunca morrem

Quero esse musgo    essa fonte

essas folhas que se movem

sob o sopro do siroco

ora tépido ora tórrido

frente à igreja barroca

tão apagada por fora

mas que do altar ao coro

por dentro aparece enorme

Quero essa rua de Roma

casta    rugosa    remota

Em troca darei as lobas

que  não aleitaram Rómulo

mas me deixaram na boca

o travo do transitório

Quero essa rua de Roma

sem conhecer quem lá mora

além da madonna loura

misto de corça e de cobra

que ao longo de tantas noites

tanta insónia me provoca

Quanto às restantes pessoas

inventarei como sofrem

Quero essa rua de Roma

Terá de ser sem demora

Sabemos lá quando rondam

abutres à nossa roda

Mas não me lembro do nome

da rua que assim evoco

soberba se bem que tosca

direita se bem que torta

com um Sol que tanto a doura

como a seguir a devora

Em troca darei o troco

do que por nada se troca

o florescer de uma bomba

o deflagrar de uma rosa

Quero essa rua de Roma

Amanhã    Ontem    Agora

Que importa saber-lhe o nome

se a trago dentro dos olhos

Há uma igual em Verona

Outra ainda mais a norte

Outra talvez nem tão longe

num burgo que o mundo ignora

Outra que apenas se encontra

onde a paixão a descobre

Mas rua sempre de Roma

Romana em todo o seu porte

mistura de alma e de corpo

aquém    além    do ilusório

Romana mesmo que em Roma

não haja que a recorde

Onde quer que o sexo a sonhe

e o coração a coloque

é lá que todo sou todo

Aqui não    Aqui não posso

 

POEMA DE DAVID  MOURÃO-FERREIRA

 

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publicado às 18:51

 

 

 

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros

Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores

Os pássaros começam onde as árvores acabam

Os pássaros fazem cantar as árvores

Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se

deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal

Como pássaros poisam as folhas na terra

quando o outono desce veladamente sobre os campos

Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores

mas deixo essa forma de dizer ao romancista

é complicada e não se dá bem na poesia

não foi ainda isolada da filosofia

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros

Quem é que lá os pendura nos ramos?

De quem é a mão a inúmera mão?

Eu passo e muda-se-me o coração

 

POEMA DE RUY BELO

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publicado às 18:45


#2674 - Soneto

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.17

Nascimento10 de agosto de 1921, Belém, Pará, Brasil
Falecimento1 de julho de 1981, Lisboa
 
 
SONETO
 
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
 
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
 
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
 
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
 
Poema de Carlos de Oliveira
 
 

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publicado às 17:46


#2673 - Um Poema de Vitorino Nemésio

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.17

Nascimento19 de dezembro de 1901, Ilha Terceira
Falecimento20 de fevereiro de 1978, Lisboa
 
 
 
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-loo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para aconsciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
 
Poema de Vitorino Nemésio

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publicado às 17:22


#2671 - Um poema de José Ángel Valente

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.11.17

 

Se depois de morrer nos levantamos,

se depois de morrer

venho para ti como dantes vinha

e algo há em mim que desconheces

porque não sou o mesmo,

que dor o morrer, saber que nunca

alcançarei as margens 

do ser que foste para mim tão dentro

de mim mesmo,

se tu eras eu e inteiro me invadias

porque é tão cega agora  esta fronteira,

tão aziago este muro de palavras

subitamente geladas

quando mais te requeiro,

te digo vem e às vezes

ainda me olhas com ternura

apenas nascida da lembrança.

 

Que dor é morrer, chegar a ti, beijar-te

desesperadamente

e sentir que o espelho

não reflecte o meu rosto

nem tu sentes,

tu que tanto amei,

a minha ansiosa impresença.

 

Poema de José Ángel Valente, traduzido por Pedro Tamen.

 

_________________________________________________________________________________________________________________

José Ángel Valente nasceu em Orense em 1929.

Estudou nas Universidades de Santiago de Compostela e de Madrid, onde se licenciou em Filologia Românica.

Estudou em Oxford, onde obteve o Master of Arts.

De1958 a 1980 viveu em Genebra, onde foi tradutor em organizações internacionais, e posteriormente em Paris, onde dirige um serviço da Unesco.

Poeta conceituado, obteve em 1955 o Prémio Adonais da Poesia, em 1960 e 1980 o Prémio da Crítica, e em 1988 o Prémio Príncipe das Astúrias.

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publicado às 19:10


#2666 - Eu sou outro

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 YOLANDA PANTIN

 

EU SOU OUTRO

 

Aceitei o convite para viajar.

No carro,

a paisagem passa demasiado depressa.

Roça o ouvido

a música surda que o interior repele.

Atravessamos o país sem parar,

a não ser para urinar ou beber um gole de água

nas estações de serviço.

O verão castiga cinzento e estático

como o céu.

Conversas banais distraem o assédio

das horas mortas.

Montamos as tendas

na margem de um rio largo e lamacento.

As aves chilreiam ao levantar voo.

Abeiro-me do rio

como Narciso do lago.

As águas turvas não me reflectem o rosto.

Sonhei com isto

 

              (A ferida sarou sobre a carne morta)
 
_________________________________________________________________________________________________________________
Yolanda Pantin nasceu em Caracas em 1954. Estudou Letras na Universidade de Caracas. Publicou vários livros de poesia, entre os quais se destacam Casa o Lobo, Correo del Corazón, La Canción Fria, Poemas del Escritor, El Cielo de Paris. Com o livro Poemas del Escritor (1989) obteve o Prémio de Poesia Fundarte.

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publicado às 19:15


#2665 - Um poema de Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 Alberto Raposo Pidwell Tavares (Al Berto)

11 Jan 1948 | 13 Jun 1997
 
 
 
panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã
 
senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a itensidade de um astro
 
dá as mãos e  o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas
 
por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço
 
POEMA DE AL BERTO
 

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publicado às 18:54


#2664 - ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.17

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

 

Foi junto dos pântanos que nasci. Neles vi o rosto de meus pais

e de todos os antepassados. Olham-me sempre através do lodo

tranquilamente. Quando me falam, talvez a água entre

pelas suas gargantas e as palavras tornam-se mais lentas e serenas.

Escuto-os e sei como hei-de continuar a viver ao seu lado. Eles ensinam-me

o sentido que procuro em cada frase. Reparo que um verso fica

mais perto, e descubro como as sílabas longas e breves encontram

a pouco e pouco o que é o seu justo lugar; trata-se da harmonia apenas

que lhes pertence. Há-de ser assim naturalmente e tudo se repete

sem qualquer esforço, como se os deuses estivessem ali. Mas eu sinto-me

tão frágil diante deles... Sei que os seus lábios são demasiado pesados

e, por isso, nada lhes pergunto. Espero, tranquilamente. Então eles olham-me

com contida alegria, acenam-me, fazem sinais que não compreendo

sequer: Há uma explicação que procuro ainda e fito de repente

as suas pupilas. Aí, nesse ponto negro, surpreendo aquilo que principia

a oscilar entre o nada e todas as coisas, a ignorância e o meu conhecimento:

esta será a claridade de que precisam para me ver. Não me ofusca

e é essa a luz que mais desejo agora. Mas sei que preciso

também da noite. E é acerca dela que tantas vezes escrevo. Há-de alguém

continuar a ler o que chega dessa sombra, mesmo que seja eu que a venha

dissipar para que se torne só meu o que digo. Pergunto algumas vezes

pela paz que existe em tudo o que perdemos. Imaginarei

depois a minha última viagrm. Só isto. Não é mais fácil falar sobre

a última viagen de cada um de nós? Ela arrasta-nos para o interior

da areia. Encontramos, depois, as mesmas ondas esquecidas, os sinais do mar

ou alguns versos, aqueles que há muito ficaram presos às nossas mãos.

Encontramos também aquilo que poderia ser apenas a proximidade

de qualquer sonho. Sim, porque é adormecidos que nós seguimos

por esse caminho difícil, entre sombras, com o peso das nossas pálpebras

pousadas sobre o corpo. Ah, conheço esse peso. Queria recordá-lo

como se viessem falar acerca do meu rosto com simplicidade

para que finalmente o consigam reconhecer. Mas quem há-de

escrever o que por mim não pode ser escrito, senão com o silêncio

de ambos? Este era o meu destino, o caminho que sigo

ao encontro de outras vozes, cercado pelas nuvens que existem

apenas no interior dos olhos, nessa escuridão súbita que se torna

uma secreta forma de saber. Aí descubro estas palavras e para elas quero

a mesma simplicidade, porque é assim que se fala da morte.

 

POEMA DE FERNANDO GUIMARÃES

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________


Escritores > Fernando Guimarães

Data Nasc: 03/02/1928 Naturalidade: Cedofeita, Porto

Na web:


 Biografia

Fernando de Oliveira Guimarães, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu na freguesia de Cedofeita, a 3 de fevereiro de 1928.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, viu editado, em 1956, o seu primeiro livro de poesia, ‘Face junto ao vento’, mas poucos anos antes já tinha debutado na revista Eros, com a publicação de alguns poemas.

Lecionou Filosofia em várias escolas do ensino secundário e colaborou em diversos jornais e revistas, como O Comércio do Porto, Jornal de Letras, Árvore.

O seu trabalho enquanto tradutor reflete afinidades literárias muito concretas – traduziu obras de Shelley, Keats, Byron, Dylan Thomas, Hugo von Hofmannsthal e Elaine Feinstein.

Trabalhou como investigador no Centro de Literatura da Universidade do Porto. Integrou o Conselho Científico e foi membro investigador do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa.

Recebeu, entre outros, o Prémio D. Dinis (1985), o Pen Clube Português (1988) e o Prémio Luís Miguel Nava (2003).

Em 1995 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Fernando Guimarães é um reincidente na lista de autores galardoados com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Em 1992, a distinção reconheceu a obra ‘O Anel Débil’ (Edições Afrontamento); volvidos 15 anos, foi o livro ‘Na voz de um nome’ (Roma Editora). Este último livro valeu-lhe também o Prémio Literário Ruy Belo 2008.

Em 2006 foi-lhe atribuído pela Universidade de Évora o Prémio de Ensaio Vergílio Ferreira, tendo em vista o conjunto da sua obra ensaística.

A sua obra poética “Os caminhos Habitados”, venceu o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes 2014.

Bibliografia:

A Face Junto ao Vento, 1956 (poesia)

Os Habitantes do Amor, 1959 (poesia)

As mãos Inteiras, 1971 (poesia)

Três Poemas, 1975 (poesia)

Poesia 1952-1980, 1981

A Poesia da Presença, 1981 (ensaio)

Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, 1982 (ensaio)

Casa: o Seu Desenho, INCM, 1985 (poesia)

Tratado de Harmonia, 1988 (poesia)

Poética do Saudosismo, 1988 (ensaio)

A Analogia das Folhas, Edições Lumiar, 1990 (poesia)

Poética do Simbolismo em Portugal, 1990 (ensaio)

O Anel Débil, Edições Afrontamento, 1992 (poesia)

Conhecimento e Poesia, 1992 (ensaio)

Poesias Completas, Vol.I, Edições Afrontamento, 1994

Os Problemas da Modernidade, 1994 (ensaio)

As quatro Idades, Presença, 1996 (prosa)

Diotima e as outras Vozes, Campo das Letras, 1999 (teatro)

O Modernismo Português e a sua Poética, 1999 (ensaio)

Limites para uma Árvore, 2000 (poesia)

Lições das Trevas, 2002 (poesia)

Artes Plásticas e Literatura: do Romantismo ao Surrealismo, 2003 (ensaio)

Mulher, Asa, 2006 (poesia)

Na Voz de um nome, Roma Editora, 2006 (poesia)

Sentido e Sensibilidade, Caixotim, 2007 (ensaio)

A Obra de Arte e o Seu Mundo, 2007 (ensaio)

A Poesia Contemporânea Portuguesa (3ª edição), 2008 (ensaio)

Agumas das Palavras – Poesia Reunida 1956-2008, Quasi Edições, 2008

História do Pensamento Estético em Portugal, 2009 (ensaio)

As Raízes Diferentes, Relógio d’Água, 2011 (poesia)

Os Caminhos Habitados, Edições Afrontamento, 2013 (poesia)

 


Principais Obras Publicadas

Poesia 1952-1980
2015, Modo de Ler

As suas imagens mais significativas correspondem a um empenho de captar o ritmo de tudo quanto, de algum modo, se pode dizer palpita, ou se desenvolve a partir de um núcleo geminativo. Eis uma poesia cuja ontologia poderia mesmo exprimir, em abstrato, dizendo nós não existimos, e nada existe, salvo … Ler mais

Os Caminhos Habitados
2013, Edições Afrontamento

“Há-de ser o silêncio. Ele vem de novo ao teu encontro como se o esperasses. Talvez seja maior a tranquilidade que existe no único caminho que vinhas percorrer. Sabes que se esta sombra te acompanha é porque nela habitas.” Poema da pág. 59

A Poesia Contêmporanea Portuguesa
2009, Quasi Edições

Apresenta-se aqui uma visão geral da poesia na segunda metade do século XX. Esta poesia é atravessada por alguns movimentos que vêm de um tempo anterior ou que com ela coincidem: Neo-Realismo, Surrealismo, Poesia Experimental ou, recentemente, o Pós-Modernismo. À margem destes movimentos, vários poetas mais ou menos isolados se … Ler mais

Uma obra essencialmente filosófica que dá conta do aparecimento do pensamento estético em Portugal.

Sentido e Sensibilidade
2007, Edições Caixotim

Volume de ensaios da autoria do professor e ensaísta Fernando Guimarães, em torno da obra de diversos autores portugueses, evidenciando os traços que lhes são comuns. Obra de marcante interesse para uma compreensão alargada das intersecções dos autores românticos na literatura moderna.

Mulher
2006, Edições ASA

Em Mulher recolhe-se a poesia de Fernando Guimarães onde esta palavra, que pode estar presente ou ausente, exprime a comunicação e o encontro que se entreabrem no ser, na existência humana. Tais poemas aproximam-se de uma reflexão – digamos uma ontologia – que vai procurar o sentido que há nessa existência.

Na Voz de um Nome
2006, Roma Editora
 
Lições de Trevas
2002, Quasi Edições

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Na primeira parte do seu novo livro, «Lições de Trevas», Fernando Guimarães procede a um convite à leitura. São poemas sobre como ler um livro, dirigindo-se ao leitor e explicando que a poesia não é tanto … Ler mais

 

INFORMAÇÃO RETIRADA DO «SÍTIO» ESCRITORES.ONLINE

 

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publicado às 19:09


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