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#3027 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.08.19

 

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publicado às 06:25


#3026 - OS BRUTOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.07.19

Brutos...

Gesticulam com os pés

inteligência rasteira

cérebros de minhoca

argumentam usando apenas a força

a sua arma preferida

caretas disformes

risos de hiena

agressores com a mão escondida

os trabalhos sujos  a outros encomendados

é conveniente ter um ar civilizado

aparentar inteligência

é preciso não falar

para não revelar ignorância

apenas «twittar»

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publicado às 21:02

 

A HIPÓTESE DO CINZENTO

 

Num país a preto e branco

recomendaram-me o cinzento. Um recurso

extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia

ensaiar

soluções inusitadas -

experimentar o morno (que não é frio nem

quente)

explorar o lusco-fusco (que

não é noite nem dia) praticar a omissão

(que não é mentira

nem verdade). Preto e branco misturados permitiam

finalmente

viver em conformidade

desocupar os extremos (tão alheios à virtude)

liquefazer-me na turba

no centro na

média

dourada. Com a paleta de cinzentos poderia

aprimorara arte da sobrevivência que

(como os mansos bem sabem) é

não estar vivo

nem morto.

 

POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, DO LIVRO "O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS", PÁG.136, EDIÇÃO QUETZAL, 2019

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publicado às 20:44


#3023 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.07.19

Sentado nas margens 

da sombra, quando

uma inquietação ocorre

e a penumbra escorre 

até aos  seus olhos aquosos

e uma réstea de luz

se torna oblíqua e

dormente, então percebe

que tudo termina

quando o delírio que vem da terra

a sua cabeça beija.

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publicado às 23:41


#3021 - OS CÃES LADRAM TRÊS VEZES

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.07.19

 

Os cães ladram três vezes

Uma balandra de algas vomita

a sua carga no mar espesso e pardo

Numa casa 

algures na cidade

um rato persegue um gato

 

Os cães ladram três vezes

E uma velha toca bandolim

cigarro no canto dos lábios

voz rouca

hálito de rum

 

Os cães ladram três vezes

O mar reclama e ameaça

e o farol

empoleirado na escarpa granítica

afasta o medo

de marinheiros bêbados

 

Os cães ladram três vezes

O barco afunda-se

sovado por ondas sem piedade

e o rato

continua a perseguir

o gato

 

- Bom dia

- Bom dia

- Raios te partam, homem de deus

- Cala-te beata, não invoques o seu nome em vão

e o rato persegue o gato

a velha geme

o bandolim chora

o mar transformou os homens em gaivotas

o farol desmoronou-se

e os cães deixaram de ladrar

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publicado às 09:55


#3020 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.07.19

 

Os meus olhos

fotografam e

capturam a

melancolia da alma

do pássaro

que

num voo circular

se despede da árvore

que o acolheu e

foi a sua casa nos meses da

primavera e verão

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publicado às 23:42


#3019 - SENTINELA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.07.19

 

Despes a alma

Depois o corpo todo

Enterras os pés na terra

Sufocas o medo

Da tua garganta salgada 

Um relâmpago  incendeia a noite

Os teus pés ganham raízes

Na tua boca nasce a seiva

Que desagua na terra

Alimentando-a

Os teus olhos iluminam a noite

E os caminhos da peregrinação

És a sentinela que afasta as sombras nocturnas

Que habitam nos becos da desesperança

 

Despes a alma

Depois o corpo todo

Vigilante Sentinela

Serena Sentinela

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publicado às 22:27


#3018 - SOTAQUE DA TERRA ||| Poema de Mia Couto

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

 

SOTAQUE DA TERRA

 

Estas pedras

sonham ser casa

 

sei 

porque falo

a língua do chão

 

nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

 

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

 

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

 

Junho de 1986

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publicado às 18:27


#3017 - NESTA NOITE DE S. JOÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

Nesta noite de S. João

procuro

entre os meus  dedos 

o perfume na água dos teus olhos

as cerejas que desenhei no teu regaço

as pérolas que iluminam os teus seios

os lábios que abraçam os teus ombros

e

uma grinalda de lágrimas de orvalho

que perfumam os teus cabelos

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publicado às 00:37


#3015 - A LUZ

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.19

 

 

A LUZ

 

A luz marca o tempo das coisas invisíveis

enquanto as mãos atravessam  o espesso

manto das camadas de pó que permitem ver

a forma de todas as coisas visíveis

 

E as mãos ficam frias e as veias

azuis como os oceanos

onde o sangue navega

subindo e descendo

constantemente

como se procurasse qualquer coisa

esquecida ou suspensa

como embarcação em mar encapelado

 

E a luz vai marcando o tempo e o ritmo

de todas as coisas invisíveis

assinalando com sombras os gestos

de uma carícia começada mas inacabada

que ficou suspensa nas partículas da memória

e que a mão irá lembrar mais logo

mas já demasiado tarde 

porque a luz que marca o tempo 

das coisas visíveis e invisíveis

se extinguiu

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publicado às 15:24


#3014 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

Palavra mal dita

maldita

E uma pedra disfarçada de palavra

mal pensada

arremessada

Tem tento na língua

fecha a boca               

e assim a luz não fica

baça

eu sei

que é pedir demais

adoras o som

que emite as tuas cordas vocais

mas

por favor

tem piedade

não deixes  

que a corda

no pescoço

dê o final aperto

os ouvidos já não suportam mais

ouvir as idiotices que

a tua boca vomita

 

Não sei da tua importância

mas estás em todas:

TV, rádio, jornais, redes sociais e não sociais

para comentares as mais diversas matérias:

sarampo, eleiçoes, futebol, diarreias, política internacional, economia, enxaquecas, impotência sexual,

emigração, imigração, migração,

literatura,

carros, caspa, etc..., etc..., etc...

julgas ser um génio do renascimento italiano

um hermeneuta

o mestre da retórica

e julgas o país demasiado pequeno para a imensidão do teu ego

que ameaças abandonar

por que de ti não gostam

e seria uma bênção para

os olhos, ouvidos, coração - 

enfim para o corpo todo

e para o ambiente

que te reformasses

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publicado às 14:39


#3013 - COM A DATA DE HOJE ||| POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

 

COM A DATA DE HOJE

 

Nas esquinas destas horas trnsitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA", COLEÇÃO PLURAL, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, JUNHO 2016

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publicado às 10:45


#3012 - LIBERDADE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.19

 

Palavra cansada

Palavra rouca de tanto ser

gritada

nas praças

nas varandas

em qualquer lado

de um lugar qualquer

 

Palavra cansada

com idade avançada

letras cheias de rugas

cuspidas

arrebatadas

mordidas

chicoteadas

electrocutadas

assassinadas uma a uma

devagarinho porque não há pressa

no trabalho feito por sicários 

disfarçados de gente nobre e honrada

cavalheiros elegantes com 

o peito inchado de comendas

 

Palavra muito antiga

que tem a idade do homem

e que será sempre gritada:

Liberdade

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publicado às 22:33


#3010 - PARAÍSO ||| Poema de David Mourão-Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

PARAÍSO

 
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

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publicado às 17:53


#3009 - NÓMADAS ||| POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

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NÓMADAS

 

Só o amor pára o tempo (só

ele detém a voragem)

rasgámos cidades a meio

(cruzámos rios e lagos)

disponíveis para lugares com nomes

impronunciáveis. É preciso percorrer os mapas

mais ao acaso

(jamais evitar fronteiras

nunca ficar para trás)

tudo nos deve assombrar como

neve

em Abril. Só o amor pára o tempo só

nele perdura o enigma

(lançar pedras sem forma e o lago

devolver círculos).

 

Poema de João Luís Barreto Guimarães, do livro NÓMADA 2018, incluído na antologia O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS - Edição QUETZAL 2019

__________________________________________________________________________________________

João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Poeta e tradutor, divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. O Tempo Avança por Sílabas reúne cem poemas selecionados pelo autor, dos dez livros que publicou até ao momento. É o seu quinto livro na Quetzal, após a publicação dos primeiros sete títulos na Poesia Reunida, em 2011, Você está Aqui, em 2013, Mediterrâneo, em 2016, ao qual foi atribuído o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, e Nómada, em 2018. A sua obra está representada em antologias poéticas e revistas literárias de numerosos países, tendo Mediterrâneo sido publicado em espanhol.

 

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publicado às 16:21


#3008 - GAIVOTA ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

GAIVOTA

 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
 
poema de alexandre o'neill

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publicado às 09:18


#3001 - POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

MÁRIO DIONÍSIO  |||  1916-1993

 

Nos despojos da cidade

atrás dos altos prédios ao avesso

veem-se telhados chaminés

negras de fumo vê-se o ferro

em movimento das gruas

 

Há gente que mora aqui

pessoas cães mortos vivos

em tugúrios fedorentos

 

Há lama e há excrementos

junto a montões gordurosos

sobre o lixo os solavancos

de amantes abjectos copulando

Rindo e saltando sobre dejetos

aqui e ali crianças brincando

que amanhã serão ladrões

 

Contra um muro em ruína

a fescura de uma flor

crescendo ingénua

 

Quem vem ela aqui fazer

entre destroços 

tão bela

 

A meus pés a vou pisar

por raiva ou por piedade

Esmago-a furiosamente

gesto viril e demente

 

para não chorar

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO POESIA COMPLETA, PÁGINA 296, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASADA MOEDA, JUNHO DE 2016, COLEÇÃO PLURAL

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publicado às 22:31


#3000 - RETRATO ||| Poema de Francisco Luís Amaro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.19

Francisco Luís  Amaro (1923-2018)

 

RETRATO

 

Um silêncio, um olhar, uma palavra:

Nasceste assim na minha vida,

Inesperada flor de aroma denso,

Tão casual e breve...

 

Já te visionara no meu sonho,

Imagem de segredo, esparsa ao vento

Da noite rubra, delicada, intacta.

E pressentira teu hálito na sombra

Que minhas mãos desenham, inquietas.

 

Existias em mim. O teu olhar

Onde cintila, pura, a madrugada,

Guardara-o no meu peito, ó invisível,

Flutuante apelo das raízes

Que teimam em prender-te, minha vida!

 

Poema de Francisco Luís Amaro

 

__________________________________________________________________________________

Poeta português, natural de Alvito. Foi co-fundador e co-director da revista Árvore, publicada entre 1951 e 1952, e da qual fizeram também parte Raul de Carvalho, António Ramos Rosa e António Luís Moita. Colaborou ainda nas revistas Seara Nova, Távola Redonda, Portucale, entre várias outras. Foi secretário de redacção e, posteriormente, director-adjunto e consultor editorial da revista Colóquio/Letras. A sua poesia está inserida numa tendência que tenta conciliar a tradição herdada dos poetas presencistas com alguma da poesia neo-realista, nomeadamente a de Carlos de Oliveira. Da sua obra destacam-se os livros de poemas Dádiva (1949) e Diário Íntimo. Dádiva e outros poemas (1975).

 

 

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publicado às 18:15


#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

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publicado às 19:56


#2995 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.19

Escrevo, mas a mão desfalece e o corpo balança,

procura o equilíbrio

impossível

os dois lados têm pesos diferentes

de um lado o coração

no outro a alma

o peso da inteligência não conta

as lágrimas também 

as dores, as emoções

também não

e os afectos que importância têm?

O importante é o fogo...

o fogo de artifício

e saber disfarçar as impossibilidades

as pequenas lutas travadas todos os dias

- sim é disso que se trata 

o corpo é uma máquina poderosa

movida pela força da cabeça

e está lá tudo

em pequenas caixas

milhares de caixas

algumas nunca abertas

muitas -

melhor dizendo -

que guardam o esquecimento

albergue de memórias

uma poderosa biblioteca

que narra o passado

e o entendimento do futuro

 

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publicado às 18:04


#2989 - DE ANTEMÃO ||| POEMA DE HERBERTO HELDER

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.04.19

DE ANTEMÃO

 

Tocaram-me na cabeça om um dedo terrificamente

doce, Sopraram-me,

Eu era límpido pela boca dentro: límpido

engolfamento,

O sorvo do coração a cara

devorada,

O sangue nos lençóis tremia aida:

Metia medo,

Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:

ou uma braçada de perfume

tão agudo

que entrasse pela carne: se fizesse unânime

na carne

como um clarão,

Um anel vivo num dedo que vai morrer:

tocando ainda

a cabeça o rítmico pavor

do nome,

O leite circulava dentro delas,

É assim que as mães se alumiam

e trazem para si o espaço todo

como

se dançassem,

São em si mesmas uma lenta

matéria ordenada, Ou uma

crispação: uma ressaca,

E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:

eu já tinha uma ferida

um nome,

E o meu nome mantinha as coisas do mundo

todas

levantadas

Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas

o sangue, Como as estrelas duplas

duplamente

se dão força,

E fique assim - astro grande estanque

cosido em sangue: e a luz

obturada,

E então no seu pneuma luminoso:

um astro cheio, Coração: astéria: carne

de olaria pulsando, O espasmo

da mão às vezes

se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,

Ou se retira ao braço o movimento

pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira

o rasgão do ar

na dança,

Assim a estrela com dois membros

cravados recebendo

o tremor do mundo, E toda essa

massa peristáltica esmaga

a argila táctil: um pequeno músculo

convulso no fundo de água:

um troço de sangue nas costas, Que lhe passes

pelas roupas e nudez

as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro

um incêndio:

e te ilumines dele, E a tua cara se faça

miraculada

à combustão, E entres rutilante por uma porta

para outra porta, Essa porta que dê

para uma porta de ti própria,

A mão ateando a escrita que se desloca

brilha direita,

Toca-te toda: tocas no chão

através dela, A terra

treme

quando lhe tocas, Tudo

se transmite e trannsforma,

A gangrena é uma força,  Tu és a raiz dele,

Estás dentro

da luz de fora,  Como o choque

sísmico

da estrela

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "POESIA TODA" EDIÇÃO 406, MARÇO DE 1996, ASSÍRIO & ALVIM

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publicado às 22:39


#2988 - Construir a Esperança

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.19

 

Jeremias estava só

perante a verdade e a inocência

encerradas no fundo de uma gaveta

ou noutro sítio qualquer

na forma de papéis escritos com letra maiúscula e levemente inclinada para  o lado oposto do coração,

e com flores desenhadas no intervalo dos espaços em branco

por falta das palavras certas ou momentâneo esquecimento,

talvez para descobrir nas pétalas o perfume para incensar a memória. É o que recorda.

Era apenas um rapaz no início da adolescência

quando os seus olhos e ouvidos testemunharam

de maneira fortuita,

escondidos atrás do pesado reposteiro, 

a poucos passos do sítio onde

sentados 

com os cotovelos apoiados na pesada e enorme mesa de carvalho 

as pessoas que vagamente conhecia

discutiam a leitura do manifesto que o seu avô escrevera e

titulara de "Construir a Esperança". 

Mais tarde decobriu que se sentia prisioneiro

no sonho de 

ele também

e em memória do seu avô

construir a esperança - para alguns uma palavra  grotesca e subverssiva, 

outros acusavam-no de terrorista do pensamento e da palavra.

Jeremias sentia-se só

precisava de descobrir o paradeiro dos papéis -

deviam ser os únicos com flores no lugar das palavras -

para provar que outras pessoas

muito mais antigas que ele

já falavam e escreviam sobre a

construção da esperança.

O seu único medo era que

as flores tivessem crescido tanto

que sufocariam as letras das palavras do

texto que defenderia a sua verdade

e sua inocência 

para jamais se sentir só

tinha a esperança 

a alma

e o tempo

necessários para a sua redenção.

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publicado às 19:45


#2982 - UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA ||| POEMA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA

 

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida

à volta da cabeça pronta a rebentar

mesmo que fossem quatro apenas as paredes

quatro paredes são de mais para uma vida

e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade

pura pura negação da vida três palavras onde

se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar

e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal

há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo

que substituo por razões de métrica mas são palavras como

por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância

coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa

e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida

que não leva talvez gravata mas que tem vida privada

gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho

e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ò meu deus

ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida

Talvez haja a janela haja árvores e céu

talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor

que talvez una uns com os outros estes dias

talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída

Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?

Sempre entre mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras

e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas

mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida

onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano

e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe

é mãe por profissão por pose pela posição de tão tonta cabeça

multiplicadas pelas capas das estúpidas inúmeras revistas

forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real

cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa

criança que se sabe quantos quilos pesa que cor tinha

a primeira e menos metafórica das merdas que cagou

e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional

como marido inteirramente a par das regras da mulher

meu deus que merda metafórica esta merda desta vida

E eu ter de passar a vida à procura da chave

e procurar abrir e não saber da chave

e não existir nunca porta ou chave

e chave ser palavra ambígua ter sentido

e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos

e a vida ser só uma e ser a vida

e haver mãos para as coisas gestos para as mãos

e não haver que porra uma saída

E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista

e tudo quanto faço interpretado e comentado

e haver nomes e eu ser isto e não aquilo

eeu sentir-me em nomes encerrado

Quero dormir não ter esta doença de pensar

estender-me sob o céu o mais possível ao comprido

e que bastante terra cubra o meu comprido corpo

e eu seja terra apenas e a terra nada seja

Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só

para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

 

POEMA DE RUY  BELO, RETIRADO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL» - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 17:37


#2979 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

Gostavas...

Gostavas de ter a lua na sala

O sol no quarto de inverno

A poesia pendurada nas hélices da ventoinha

A música suspensa das maçanetas das portas

Que alguns livros retirados da estante ficassem  preguiçosamente deitados no sofá e

escolherias mais alguns para acompanhar o deleite de saborear um  "Sauvignon"

E querias ver o sonho a flutuar no corpo de borboletas  empoleiradas nas janelas verdes dos teus olhos

 

Eu gostava somente que derramasses o teu perfume "L' Interdit" sobre o seio esquerdo para animar o lado direito do  meu corpo

 

 

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publicado às 16:25


#2976 - A MATÉRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.19

 

O teu transparente corpo

suspenso de um filamento invisível de luz.

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publicado às 17:28


#2972 - O DIA ESTÁ (L)INDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.03.19

 

O dia está lindo.

Que merda... o dia está lindo!

Que maneira foleira de dizer as coisas;

Um azul perfeito

Um verde mais verde

As roupas baloiçam no fio do arame -

parece que fazem surf.

Os grilos calaram-se, já não suportam o verde da dieta.

As formigas nunca se cansam, por causa da moral da história. 

As cigarras celebram os dias

A bandeira nacional está excitada num país de murchos que facilmente se excitam por tão pouco e

depois reclamam «isto é um país de merda».

Esquizofrenias de um país velho em idade e gente.

As cores - vermelha e verde - há muito tempo se misturaram

e conceberam uma cor castanha...

merda... o dia está lindo.

Uma caravana de camelos desfila sobre a terra da rua da minha casa

deve ser uma miragem

mas pode não ser 

porque cães excitados ladram

e os camelos disponibilizam as suas bossas

para uma boleia.

O dia está lindo...

eis uma forma preguiçosa

e nada poética de descrever o dia.

Pois, dizes tu, é falta de jeito,

enquanto o gato se roça na tua perna

e reclama uma mão sobre o pêlo, e as 

filiformes minhocas põem a cabeça de fora,

como se fossem periscópios a examinarem as manobras do inimigo.

O dia está lindo.

Que maneira idiota de dizer  que o dia está lindo.

 

 

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publicado às 14:39


#2971 - UMA PEQUENA LUZ BRUXULEANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.19

 

Nunca saberei a resposta da pergunta

que nunca farei.

Não sei. 

Não sei por que não a farei!...

A casa em frente das nossas sombras

continua desabitada.

As janelas têm cortinas em teias de aranha

tecidas nas vidraças.

À noite

uma coruja

toma conta do ar frio

e uma luz bruxuleante ilumina as partículas da poeira

que adormecem sobre

os esqueletos do mobiliário.

Murmúrios ouvem-se e

rastejam até aos nossos pés.

Escalam silenciosamente e

com agilidade os nossos corpos e

alojam-se, sem pedir licença,  no

interior do ouvido.

É apenas o murmúrio

de alguém que vive só, faz  demasiado tempo e

procura um confidente,

um ouvinte.

Mas não o entendemos ou

não o queremos ouvir

que o  ouvido já está ocupado com outros rumores

que vêm das folhas inquietas da laranjeira

em cujos ramos bichos de vária natureza se reúnem

todas as noites

para espiar, discutir, especular, intrigar

a coruja.

Mas nada descobrem.

A coruja, apenas cuida da pequena luz bruxuleante

que aquece as várias camadas de pó que

habitam a casa

deitadas sobre o ar horizontal

de todas as coisas

existentes no seu interior.

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publicado às 18:46


#2970 - POEMA EM AUTO-EXÍLIO ||| Poema de Dilip Chitre

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.19

DILIP CHITRE  |||   1938 - 2009

 

POEMA EM AUTO-EXÍLIO

 

A primeira borboleta morta da estação

Tem asas recentemente rasgadas. Os significados são transferidos

Como a humidade das ervas

Para os sapatos. A América é incrivelmente erótica.

Demasiadas pernas tornam todas estas ruas sensuais.

Em Bombaim, temos uma única centopeia

Caminhando em direcção à cidade todas as manhãs.

Lá faz tanto calor, e mesmo assim, sem modéstia,

Os que têm meios usam todas as roupas que podem.

E também, ao contrário daqui, os que têm dinheiro

Comem sem contar calorias.

Tenho saudades de casa, o que é estúpido evidentemente.

Lá nunca fui um chauvinista famoso,

Nem é a América pouco bela. Mas estou tão aterrorizado

Com esta mocidade resplandecente, esta inocência requintada,

Estas visões exóticas do resto do mundo,

Que existe algures,

Que me sinto já obsoleto,

Não sendo americano.

Talvez devesse ter sido, afinal de contas, um guru,

Ou um iogue, um gigolô, um encantador de serpentes, ou um cozinheiro

De clandestinos molhos de caril em vez de ser um poeta.

América, aqui vou eu, demasiado

Tarde

 

POEMA DO POETA INDIANO DILIP CHITRE

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publicado às 23:17


#2968 - O VISITANTE NOCTURNO ||| Poema de Muhammad 'Afifi Matar

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

MUHAMMAD  'AFIFI MATAR  ||  1935-2010

 

O VISITANTE NOCTURNO

 

eram seus olhos verdes

um sonho que chorava no asfalto da rua

e os versículos da sua inocência

uma sede no homem enterrada

 

desatou o cavalo verde da chuva dos cravos do raio

e deslizou através das nuvens

para visitar o sonho adormecido nas camas das crianças

e alimentá-las, ou dar-lhes de beber, da fonte do verde mel.

 

seus pés bons

e seu corpo trémulo e nu

esfolavam-se nos mastros  da noite.

e nos seus dorsos fundiam-se colunas de granito.

foi enterrado sobre os beirados dos tectos e das torres

crucificado, sangrando, mordido nas trevas pelos gatos.

 

o peixe negro salta na corrente do sangue

e  escapa:

comboios de gente surda

trombetas que ressoam,

génios que gritam dentro de uma garrafa

vozes que clamam na garganta do asfalto

 

quem, no ventre tenebroso, morreu

e quando secará o sangue?

 

POEMA DE MUHAMMAD  'AFIFI MATAR

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publicado às 19:17


#2966 - A CONTRA-SENHA ||| POEMA DE LUIS CARTAÑÁ

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.19

A CONTRA-SENHA

 

Cheguei do fundo da pedra:

precocemente do centro da rosa:

toquei as mãos e a artéria.

Ando ainda com a pele dos mármores

sombrios do deserto inocente. Oponho-me,

oponho-me ao relâmpago da água

e do mandato: ordeno, troco,

louvo a penugem como espada de enxofre

ou perfeição. Ordeno

ainda os horizontes.

Minha voz não é débil

nem o nascimento se cheguei e pus uma pedra

o coração como destino

e como canto a palavra amor e sem resposta, espero.

E como uma chuva de martelos,

de homem demasiado homem, de pancadas demasiado pancadas,

ou de paixão sem limites lancei minha funda ao  vento:

quero mais terra, mais terra e repartir unhas e chicotes

e repartir palavra e boca: Como um último respirar do homem

que viveu sem história na pegada e criou.

Criou a magnitude do homem lá do fundo da matéria única,

uma nova matéria, forças a rasgar o último recanto do vento

e a ordenar o eco

da última terra ou gratidão

que reste em minhas sandálias.

 

Caminhei até aqui,

cheguei precocemente do fundo da pedra

com a boca doce ou a palavra dividida. Ordeno

ainda os horizontes.

 

POEMA DE LUIS CARTAÑÁ (1942-1988)

_______________________________________________________________________________________________________________

LUIS CARTAÑÁ OTERO nació en La Habana, Cuba en 1942.  Viaja de muy joven a los Estados Unidos donde estudia inglés en la Universidad de Georgetown en Washington, D.C.  Se traslada a España, allí realiza estudios en derecho y hace amistad con los escritores Pere Gimferer, José Caballero Bonald, Gloria Fuertes, José Batlló, Ignacio Gómez de Liaño y Francisco de Asís Fernández, entre otros.  Durante su estancia en España publica su primer poemario Estos humanos dioses (1967).  Precisamente, en 1967, viene a residir a Puerto Rico, donde se dedica a la cátedra de literatura en el Recinto Universitario de Mayagüez de la UPR.  Desde allí inicia una dinámica actividad cultural participando en numerosos encuentros culturales y congresos literarios en Puerto Rico, Perú, República Dominicana, México, Colombia y Estados Unidos.  Junto a otros escritores funda la Confederación de Escritores Latinoamericanos.  En Puerto Rico Cartañá se identifica con los poetas de la Generación de 1960; particularmente con el grupo del Oeste de la isla, representado por Carmelo Rodríguez Torres, Jorge María Ruscalleda BercedonizSotero Rivera Avilés, Juan Torres Alonso, Billy Cajigas, Wilfredo Ruiz Oliveras, Jaime Martínez Tolentino e Inés Crespo, entre otros.  Funda y dirige la colección “Jardín de espejos,” responsable por la edición de Antología minuto de Francisco Matos Paoli y Antología de la poesía sueca contemporánea, entre sus títulos más destacados.  Publicó los poemarios Joven resina (1971), Tocata, fuga y presencia(1972), Canciones olvidadas (Chanson Oubliés) (1977, 1985 y 1988, ésta última con prólogo de Pere Gimferer), Sobre la música (1981), La mandarina y el fuego (1983, con prólogo de Francisco Matos Paoli), Los cuadernos del señor Aliloil (1985) y Permanencia del fuego (1989), publicado a pocos meses de su fallecimiento.  Cartañá propulsó la candidatura de Francisco Matos Paoli al Premio Nobel de literatura, quien se convertiría en el primer escritor puertorriqueño en ser considerado para tan prestigioso galardón.  La poesía de Cartañá ha sido incluida en las antologías Poesía en éxodo (Miami, 1970), 9 poetas cubanos (Madrid, 1984), Antología de poesía puertorriqueña 1984-1985 (Río Piedras, Puerto Rico, 1985), Poesía cubana contemporánea (Madrid, 1986), Poetas cubanos en España (Madrid, 1988), Pulso de poesía (Mayagüez, Puerto Rico, 1992) y Al pie de la memoria. Antología de poetas cubanos muertos en el exilio (1959-2002) (Miami, 2002).  En 1988 se traslada a España para realizar estudios doctorales de Filología Hispánica en la Universidad Complutense de Madrid, enviado por el Recinto Universitario de Mayagüez.  Luego se traslada a la ciudad de Miami donde muere de un tumor en el cerebro el 11 de febrero de 1989.

 

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publicado às 18:24


2961 - RETRATO || POEMA DE CECÍLIA MEIRELES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.01.19

CECÍLIA MEIRELES (1901 - RIO DE JANEIRO / 1964 - RIO DE JANEIRO)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

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publicado às 19:48


#2959 - DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.01.19

 

DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

 

Ano dezanove do século vinte e um

domingo

janeiro

vinte

inverno

lua vermelha

eclipse total para ver mais logo na madrugada

 

É dia de festa na minha terra e da grande procissão

fanfarras e bandas  pipocas e balões algodão-doce

bancas de fogaças e outros  doces "regionais"

meninas de branco vestidas

cinturadas de vermelho ou azul

cabeças coroadas de fogaças para honrar a promessa feita há séculos

varandas enfeitadas por tecidos adamascados

gente anónima e de todas as condições

verga-se respeitosamente à passagem dos andores e do pálio

e das suas bocas saem silenciosos murmúrios em forma de oração

e foguetes troam anunciando o princípio e o fim da festa

animada pelos trapezistas dos negócios ambulantes 

montados no palanque das suas viaturas anunciam 

com voz peculiar pomadas e elixir para todas as maleitas

descontos na compra de cobertores ou

de um molho de peúgas

"...não é 100, nem 90, nem 80, nem 50... se comprar agora, e ainda leva este relógio como oferta... 

vai pagar, nem mais nem menos, duas notas de 20... uma pechincha!

aproxime-se freguesa aproveite a minha boa disposição

hoje é dia de festa..."

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publicado às 22:07


#2958 - E POR VEZES ||| POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996)

 

E POR VEZES

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA IN «MATURA IDADE» - 1973

 

 

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publicado às 22:16


#2957 - UM ADEUS PORTUGUÊS ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz de ombros puros e a sombra 
de uma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta cama comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta dor portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Não tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

                               * 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti. 

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL in «NO REINO DA DINAMARCA» - 1958

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publicado às 16:41


#2956 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

 

Tu, ò Estranho,

que entras na noite

todas as noites

Braços caídos cansados de tanto procurar

A cabeça enterrada nos ombros com

o peso de tamanha tristeza.

O corpo inclinado, cansado

com vontade de desistir.

 

Todas as noites 

entras na noite

buscas nos becos e esquinas

um pouco de paz,

uma luz que aqueça o coração

uma estrela  que acolha os destroços da tua alma

uma flor com pétalas regadas com tuas lágrimas

 

Todas as noites

entras pela noite

em busca de um sonho

que perdeste algures e não sabes onde.

 

Até que numa noite

a noite entre dentro de ti.

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publicado às 00:55


#2955 - DIA DE DESCANSO [POEMA DE FERNANDO LEMOS]

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.01.19

FERNANDO LEMOS | 3 DE MAIO DE 1926

 

DIA DE DESCANSO

 

Hoje reservo o dia inteiro para chorar

É o domingo decadente    em que muitos

esperam pela morte de pé

É o dia do sarro que vem à boca da medocridade

circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos

dos amores que deram em estribilhos

das correrias pederásticas para o futebol em calções

mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10%

de desconto em todo o vestuário

 

E choro    choro    porque a coragem

não me falta para tudo isto e assisto

na nega de me ceder ao braço dado

 

Precisarei de um cansaço mas

lá estavam espertas

as mil e não sei quantas lojas abertas

para mo vender!

 

Mas hoje é domingo

Lá está o chão reluzente de martírio

e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter

já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

 

E choro de coragem    isto é

as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos

Falo cristalinamente sózinho

procurando entre as paredes e as varandas que vão cair

algum acaso    isto é

o eco, de qualquer drama vazio

 

Espero como quem espera

o momento de posse entre dois ponteiros

de torneira em torneira nas súplicas febris

em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas

para as não cortar em gritos 

Espero e entretanto o mundo não se cansa

de me dar drogas para dormir e criar

novelos de lã à volta do coração

Não me lastimo   grito

Quero que estas correntes da boca se tornem úteis

e não ficar pr'aqui moldado estátua

em verdete  de ser chorado

A tropeçar onde não há perigo

com calçado duro a pisar as nuvens

neste tão estreitado mundo

 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso

podem pensar os homens das ideias revolucionárias

e choro

choro de coragem e para os microfones da revolução

As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento

por amor ao chão da terra que me pisam

 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução

alheia às tais guerras de papel químico

 

Espero sem esperança mas certo

do que espero como de saber  que um homem

não chora    e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar

porque é domingo e o que espero não é a morte de pé

talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

 

Uma vez era ainda pequeno

chorei ao ver um prédio desabitado

Moro nele mesmo aos domingos e rio-me

das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas

Sei que nada adianta

Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno

Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar

ao choro da coragem de esperar

 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado

um grito afinal terá assim o seu eco

 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente

até que a noite me venha

cobrir o corpo de abafo quente

 

Então sairei à procura da prostituta cega

para lhe contar junto ao peito

como as pessoas se comportam aos domingos

 

POEMA DE FERNANDO LEMOS in «Teclado Universal» - 1963

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publicado às 19:24


#2950 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.01.19

 

Há noites melancólicas

em que dispo o sonho e

com as suas roupas visto a alma

dispo o desejo

cubro o corpo

fico refém da ignorância

quando não tenho resposta à pergunta

feita pela noite que entra de mansinho na madrugada para

não acordar o medo

 

E na horizontal me fico

olhos cravados no céu do quarto

à procura de uma estrela que acolha as inquietações

que não me largam

agarram-se à pele

talvez por gostarem do perfume que uso

vou mudar ou não usar ou

aspergir um repelente daqueles que afastam

os pequenos vampiros alados

não sei

talvez resulte

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publicado às 11:48


#2949 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

 

O silêncio não existe porque é  o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve,  para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não  os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN «RELÂMPAGO DE NADA», 2004

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publicado às 21:27


#2948 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua própria substância de cinzas e sangue petrificado, a habitação em que a fénix poderá renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lançar-se  a um trabalho para o qual a disposição ainda não surgiu, mas que poderá despertar os impulsos da construção solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A construção está envolta numa espessa bruma e não há nela sinais de figuras ou formas, porque essa névoa é o próprio nada da confusão inicial e o fim de toda a construção como possibilidade de vida e de renovo. É do obscuro fundo da retina que surge um ténue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da construção e  a faz palpitar e estremecer. O construtor poderá então discernir algumas linhas de força, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarificação. Haverá um momento em que ele sentirá que o edifício dança porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, é já a fénix que resplandece no fulgor da edificação e na plenitude do ser e do olhar na sua mútua criação

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA in "O Aprendiz Secreto", 2001

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publicado às 20:12


#2947 - AH, PODER SER TU, SENDO EU! [POEMA DE RUY BELO]

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

AH, PODER SE TU, SENDO EU!

 

Ei-lo que avança

de costas resguardadas pela minha esperança

Não sei quem é. Leva consigo

além de sob o braço o jornal

a sedução de ser seja quem for

aquele que não sou

E vai não sei onde

visitar não sei quem

Sinto saudades de alguém

lido ou sonhado por mim

em sítios onde não estive

Há uma parte de mim que me abandona

e me edifica nesse vulto que

cheio de ser visto por mim

é o maior acontecimento

da tarde de domingo

Ei-lo que avança e desaparece

E estou de novo comigo

sobre o asfalto onde quero estar

 

POEMA DE RUY BELO RETIRADO DE "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES" -  EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 15:55


#2945 - ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.01.19

EUGÉNIO DE ANDRADE | 1923-2005

 

ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Com as aves aprende-se a morrer.

Também o frio de janeiro 

enredado nos ramos não ensina outra coisa

- dizias tu, olhando

as palmeiras correr para a luz.

Que chegava ao fim.

E com ela as palavras.

Procurei os teus olhos onde o azul

inocente se refugiara.

Na infância, o coração do linho

afastava os animais de sombra.

Amanhã já não serei eu a ver-te

subir aos choupos brancos.

O resplendor das mãos imperecível.

 

POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE IN "HOMENAGENS E OUTROS EPITÁFIOS".

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publicado às 18:15


#2944 - O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.01.19

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CHARLES BUKOWSKI

 

O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

 

não os encontrarás com regularidade

pois não se encontram

onde se encontra 

a multidão

 

estes seres ímpares,

não há muitos

mas deles

vêm

os poucos

bons quadros

as poucas

boas sinfonias

os poucos

bons livros

e outras

obras.

 

e dos

melhores

entre os estranhos

talvez

nada.

 

eles são

os seus próprios

quadros

os seus próprios

livros

a sua própria música

as suas próprias

obras.

 

às vezes penso

que

os vejo - por exemplo

um determinado

velho

sentado num

determinado banco de jardim

de uma determinada 

forma

 

ou

uma cara fugaz

num carro

que passa

em direcção

contrária

 

ou

há um certo

gesto de mãos

do rapaz ou

da rapariga

a embalar compras

em sacos

de supermercado.

 

às vezes

até é alguém

com quem se vive

há algum

tempo - 

dás conta de

um fugidio

olhar luminoso

que nunca lhes viras

antes.

 

às vezes

apenas notas

a sua existência

subitamente

e de forma vívida

alguns meses

alguns anos

depois de

partirem.

 

lembro-me 

de um caso

assim -

ele tinha

cerca de 20 anos

bêbedo

às 10 da manhã

a fitar

um espelho partido

em Nova Orleães

 

cara sonhadora

contra

as paredes 

do mundo

 

para

onde

fui eu?

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI IN "OS CÃES LADRAM FACAS" - EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:21


#2942 - MINHA RUA DE INVERNO

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

É fim de tarde na minha rua de inverno

os pardais saúdam o agasalho das folhas

dentro de casa faz o tempo que se quiser

primavera verão ou outra estação qualquer

no sofá um livro espreita pela frincha da almofada

o gato espreita o voar de uma borboleta que se perdeu no caminho

o corpo elástico já esticado à espera

o telefone toca não atendo para mim não é eu sei

e os pardais recolhem ao abrigo das folhas das árvores da minha rua de inverno

restos de água de nuvens feridas limpam a alma da rua

a luz pública acende e ilumina pequenos lagos onde brilham estrelas coloridas.

 

É fim de tarde na minha rua

a noite chega montada em camelos como nas histórias de natal

sem ouro incenso ou mirra e a minha rua não tem neons

apenas palavras escritas que explicam o que se faz lá dentro

e dentro das casas que acompanham a minha rua nada sei

apenas especulações sobre silêncios, ruídos que transpiram dor prazer mágoas aconchegos

É noite na minha rua de inverno e a primavera já começa a gatinhar

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publicado às 19:54


#2941 - ODE DO HOMEM DE PÉ (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

ODE DO HOMEM DE PÉ

 

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo

pelos passos lentos como o rolar dos anos

pelos dias vulgares cheios de maçãs

pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco

pelas crianças mal vestidas para a vida

nos bicos dos pés te saúdo

pela paixão que transferiu campaspe

do amor de alexandre então dono do mundo

para o coração de apeles pintor pobre

que tinha como dom o simples dom de olhar

por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos

pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

 

Oh como o sofrimento purifica minha rua

Ele passa-nos as mãos por todo o corpo

desce por nós como um olhar de mãe

e a mais agasalhada vida vê-se nua

 

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos

chove a meu lado atrás de mim na minha frente

Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva

peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto

aquela que a seu lado é demolida

onde eu pecador me confesso e agradeço

este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira

passadas já segunda terça e quarta

e poder erguer as duas mãos acima da terra

rua onde passaram meus pais

onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos

onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã

e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi

rua onde tudo ganhei tudo logo perdi

onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores

e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações

que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças

onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de                                                                                                                                                     todos os dias

e muitas outras coisas que depois esqueci

rua que me levaste a tanto sonho vão

que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer

bem pouco basta minha rua para faze feliz o homem:

acender por exemplo repentinamente a luz

na sala onde pairava um certo mal-estar

o que dissipa como que para sempre a sua triste condição

Ou então na morte do escritor amigo recitar

o elogio fúnebre de há muito preparado

que se haverá de matar ainda mais o morto

e ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida

A inquiteção que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz

quando de pernas excessivamente livres

cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos

quando se me exigia o sacrifício dos olhares

e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida

Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua

ao fim de ti nem mesmo há já esse equeno almoço

aonde pelo menos qualquer coisa começava

Não disponho de alento para muitos anos

Sinto-me velho nasci em 33 estamos em 60

vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar

incapaz de lutar mandar obedecer

como que fiquei sempre à espera da maioridade

 

É tempo de assistir aos funerais dos amigos

começo a estar bom para jazer

«bom é acabar» - dizia o vice-rei

Já sou de deus deixei de ter idade rua

ele passou a ser a minha própria idade

não me levouu em conta o céu antecipado

e se algum dia porventura alguma criatura me moveu

o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua

Se título algum tive já me vai caindo

só deus é minha veste e minha história

Que ele me abra ó rua a porta da palavra

 

Agora que por fim alguém em sua voz me chama

pelos rostos presentes pelo grande ausente

que me livrou num tempo de injustiça por tudo

ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo

 

POEMA DE RUY BELO IN "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 16:36


#2935 - SILENT NIGHT

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

SILENT NIGHT

É inverno nas praias do Ocidente.
As ondas rasgam as areias finas da costa e são
violentas,
iradas,
medonhas.
Que viram elas das terras por onde passaram?
Orgulhos,
preconceitos,
luxúrias,
indiferenças e
ossos que rasgam ventres de fome,
olhos mortos de nada verem,
esperanças dizimadas em
canos de armas,
futuros que não conhecerão o dia de amanhã.

É Natal, e o mundo continuará a girar
até ser novamente Natal.

E depois, 

regressarão os dias

do esquecimento 

e da indiferença

até ser novamente Natal.

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publicado às 19:53


#2929 - A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.12.18

RUY BELO (27 DE EVEREIRO DE 1933 | 8 DE AGOSTO DE 1978)

 

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

 

O senhor deus é espectador desse homem

Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe

nos olhos o tempo suave das árvores

Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma

cada uma das quatro estações

A primavera veio e ele árvore singular

á beira do tempo plantada

vestiu-se de palavras

E foi a folha verde que deus passou

pela terra desolada e ressequida

Quando as palavras o deixaram de cobrir

ficaram-lhe dois dos olhos por onde

o senhor olha finitamente a sua obra

Até que as chuvas lhe molharam os olhos

e deles saíram rios que foram desaguar

ao grande mar do princípio

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 23:21


#2928 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

charles bukovski os  caes ladram facas023 (2).jpg

CONSELHO

 

tal como o vento corta, outra vez, desde o mar

e a terra é assolada por tumultos e desordem

tem cuidado com o sabre da escolha,

lembra-te

o que talvez fosse nobre

há 5 séculos

ou até mesmo 20 anos

é agora

a maior parte das vezes

um acto desperdiçado

a tua vida passa uma única vez

já a história tem oportunidade atrás de oportunidade

para provar a imbecilidade dos homens.

 

Tem cuidado, portanto, diria eu,

com qualquer 

acto

ideal

ou acção

aparentemente nobre,

seja por este país ou por amor ou pela Arte,

não te deixes possuir pela proximidade do minuto

nem pela beleza ou pela política

que murcharão como flores cortadas;

amor, sim, mas não enquanto ardil do casamento,

e cuidado com comida má e trabalho excessivo;

terás de viver num país,

mas amar não é uma ordem

seja mulher seja nação;

leva o teu tempo; e bebe tanto quanto seja necessário

por forma a manter a continuidade,

porque a bebida é um modo de vida

através do qual o participante reclama

uma nova oportunidade na vida;

mais ainda, direi,

vive sozinho o máximo possível;

cria filhos se por acaso acontecer

mas tenta não ter de aguentar

criá-los; não te envolvas em questiúnculas

de mão ou voz

a não ser que o teu adversário atente contra a tua vida

ou contra a vida da tua alma; então,

mata, se necessário; e quando chegar a hora da morte

não sejas egoísta:

pensa como é económica a morte

e no lugar paraonde vais:

sem qualquer marca de vergonha ou de fracasso

ou necessidade de compaixão

como o vento corta desde o mar

e o tempo passa

erodindo os teus ossos numa paz suave.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI EXTRAÍDO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:28


#2925 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

Só tu sabes como

povoar o meu coração.

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publicado às 14:51


#2924 - O RESPEITO É MUITO BONITO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

Lugares sem nome

povoados por gente sem nome; 

lugares que já não têm alma

mutilados por dores invisíveis,

bocas caladas,

línguas entrevadas,

troncos curvados de tantas vénias - pois o respeito é muito bonito - diz quem manda e pode

nesta terra de "doutores".

"É a vida...  é a nossa sina..." dizem

falando para dentro

com a voz já exausta de tanto calar

e que nunca viram o cheiro do mar

neste país que  já foi de marinheiros

e hoje não têm barcos para navegar.

 

Reivindicar é uma palavra feia

que não deve ser dita nem praticada

para não incomodar o poder.

E o corpo cada vez mais baixo quase a roçar a terra

cabeças descobertas  - o respeito é muito bonito - 

os chapéus nas mãos escondem os calos dos dias duros

e ainda lhes chamam de mandriões.

 

E o mar tão perto

e não sabem

que cor e cheiro ele tem.

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publicado às 10:07


#2923 - POEMA CITRINO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

POEMA CITRINO

 

O poema

que nasce e cresce 

agarrado ao tronco da laranjeira e

que vai amadurecendo sob

o sol de inverno

é um poema citrino 

que pavoneia o sabor e a cor

para que alguém o prove

para não cair de podre.

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publicado às 09:54


#2922 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.18

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

 

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o  transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

O português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é a patriótica organização

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e o povo em vão requer

curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL», EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 21:42


#2920 - O LAMENTO DA MULHER

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.18

O LAMENTO DA MULHER

 

Canto a canção de uma mágoa incessante,

A história do meu infortúnio, do peso da minha dor,

Dor do presente e dor do passado,

Dor sem fim de exílio e desgosto,

Mas nunca, desde o tempo de menina, maior do que agora.

Primeiro a agonia, quando o meu senhor partiu,

Para longe dos seus, para além do mar;

Dolorosa a tristeza ao romper da aurora,

Ansiando pelo rumor que diria em que longínqua terra,

Passando horas tão difíceis, o meu amado tardava.

Até longe vagueei então, sem amigos e sem casa,

Procurando ajuda para a minha necessidade pesada.

Com intrigas secretas  os parentes dele intentaram

Separar-nos, criando entre nós vários mundos

E ódio amargo. O meu coração ficou doente.

Com azedume, o  meu senhor ofereceu-me abrigo aqui.

Em toda esta terra poucos eram os que me amavam,

Poucos os que eram leais, poucos os que eram amigos.

Assim o meu espírito está pesado de mágoa

Por saber que o meu amado, o meu homem e companheiro querido,

Vergado pela má fortuna e pela amargua do coração

Mascara o seu propósito e planeia o mal.

Com os corações felizes de outrora tantas vezes nos gabámos

De que nada nos separaria, a não ser a morte;

Tudo isso falhou e o nosso antigo amor

É agora como se nunca tivesse sido!

Longe ou perto, para onde quer que fuja, para lá me segue

O ódio daquele que outrora tão querido.

Nesta floresta, ele fixaram a minha morada

Por baixo de um carvalho numa gruta de terra,

Uma velha caverna habitada em tempos antigos,

Onde o meu coração é esmagado pelo peso da minha dor.

Tristes são as suas profundezas e os penhascos que a cobrem,

Severos os seus confins com os espinhos que lá crescedram -

Uma morada sem alegria onde dia a dia a saudade

De um amado ausente traz angústia ao coração.

Amantes há que podem viver o seu amor,

Conservando alegremente o leito da felicidade,

Enquanto eu percorro a minha gruta de terra debaixo do carvalho

De um lado para o outro na aurora solitária.

Aqui tenho de sentar-me durante o longo dia de Verão,

Aqui tenho de chorar em aflição e dor;

E nunca, na verdade, o meu coração conhecerá descanso

De toda a sua agonia e de todo o seu padecimento,

Por meio dos quais o fardo da vida me prostrou.

Qualquer idade do homem está sempre sujeita à mágoa,

E os pensamentos do seu coração à amargura, ainda que os carregue com alegria;

Perturbado é o seu espírito, perseguido pelo sofrimento - 

Quer possua toda a riqueza do mundo,

Quer seja acossado pelo Destino num país longínquo.

O meu amado está sentado de alma cansada e triste,

Fustigado pela tempestade e hirto com a geada,

Numa cela desventurada sob penhascos rochosos,

Circundada por águas que o apartam - 

A mais pungente das mágoas deve sofrer o meu amado

Recordando-se sempre de um lar mais feliz.

Triste o destino daquele que está condenado a esperar

Com um coração saudoso por um amor ausente.

 

POEMA ANÓNIMO, DO LIVRO DE EXETER, SÉCULO X, REINO UNIDO

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The Wife's Lament
Verse Indeterminate Saxon


Ic þis giedd wrece bi me ful geomorre,
minre sylfre sið. Ic þæt secgan mæg,
hwæt ic yrmþa gebad, siþþan ic up weox,
niwes oþþe ealdes, no ma þonne nu.
5
A ic wite wonn minra wræcsiþa.
ærest min hlaford gewat heonan of leodum
ofer yþa gelac; hæfde ic uhtceare
hwær min leodfruma londes wære.
ða ic me feran gewat folgað secan,
10
wineleas wræcca, for minre weaþearfe.
Ongunnon þæt þæs monnes magas hycgan
þurh dyrne geþoht, þæt hy todælden unc,
þæt wit gewidost in woruldrice
lifdon laðlicost, ond mec longade.
15
Het mec hlaford min herheard niman,
ahte ic leofra lyt on þissum londstede,
holdra freonda. Forþon is min hyge geomor,
ða ic me ful gemæcne monnan funde,
heardsæligne, hygegeomorne,
20
mod miþendne, morþor hycgendne.
Bliþe gebæro ful oft wit beotedan
þæt unc ne gedælde nemne deað ana
owiht elles; eft is þæt onhworfen,
is nu swa hit no wære
25
freondscipe uncer. Sceal ic feor ge neah
mines felaleofan fæhðu dreogan.
Heht mec mon wunian on wuda bearwe,
under actreo in þam eorðscræfe.
Eald is þes eorðsele, eal ic eom oflongad,
30
sindon dena dimme, duna uphea,
bitre burgtunas, brerum beweaxne,
wic wynna leas. Ful oft mec her wraþe begeat
fromsiþ frean. Frynd sind on eorþan,
leofe lifgende, leger weardiað,
35
210
þonne ic on uhtan ana gonge
under actreo geond þas eorðscrafu.
þær ic sittan mot sumorlangne dæg,
þær ic wepan mæg mine wræcsiþas,
earfoþa fela; forþon ic æfre ne mæg
40
þære modceare minre gerestan,
ne ealles þæs longaþes þe mec on þissum life begeat.
A scyle geong mon wesan geomormod,
heard heortan geþoht, swylce habban sceal
bliþe gebæro, eac þon breostceare,
45
sinsorgna gedreag, sy æt him sylfum gelong
eal his worulde wyn, sy ful wide fah
feorres folclondes, þæt min freond siteð
under stanhliþe storme behrimed,
wine werigmod, wætre beflowen
50
on dreorsele. Dreogeð se min wine
micle modceare; he gemon to oft
wynlicran wic. Wa bið þam þe sceal
of langoþe leofes abidan.

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publicado às 20:53


#2916 - Oráculos

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.18

 

Tu, que me vigilas do alto da tua sabedoria,

sentada na penumbra do oráculo,

para ninguém saber que és tu que

iluminas as minhas mãos e

enxugas a alma quando a

tristeza rola uma lágrima

que a tua alquimia transforma numa pérola

e, me dizes:

"guarda-a no lugar mais solar da memória".

São palavras desenhadas na boca dos séculos

que mostram as cicatrizes de feridas muito antigas

que só os sapientes, os peregrinos e os puros souberam curar e preservar

sob a forma de letras de todos os alfabetos  

que alquimistas como tu

transformaram a rude palavra da dor, da tristeza, do abandono

em pérolas que iluminaram e continuarão a iluminar os gestos

que simplificam e apaziguam a complexa humanidade.

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publicado às 21:43


#2915 - O DEUS QUE É TRANSPARÊNCIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.18

O DEUS QUE É TRANSPARÊNCIA

Ninguém me saúda nas esquinas do papel.

Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.

Mas nos dedos sinto o rumor de um segredo vegetal.

É como se procurasse alargar a mão dos deuses.

É como arder com a água na brancura ofuscante

da ressaca. E as palavras da casa se levantam

a janela a porta a cama e a cadeira.

São presenças espessas e nítidas no perfil.

Assim se forma um círculo com energia erguida

nas sílabas preenchidas pela coerência do mundo.

Maternas são as sombras em torno de um centro verde

que foi talvez um deus antigo que se esqueceu

e o esquecimento é o seu signo: a transparência.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA, in «Antologia Poética», selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes, edição Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2001

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publicado às 17:12


#2912 - IDA VITALE VENCE PRÉMIO CERVANTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.18

Ida Vitale, poetisa uruguaia, vence Prémio Cervantes 2018, o mais importante prémio da literatura em castelhano.

Com 95 anos de idade, Ida Vitale, além de poetisa, é jornalista, tradutora e crítica literária, e tem vasta obra publicada, destacando-se "La Luz desta Memoria", "Procura de Lo Imposible", "Léxico de Afinidades", Sueños de la Constancia" e "Cada uno em su noche".

 

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publicado às 08:57


#2910 - UM GESTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.18

UM GESTO

«Que cansativa que a polícia é!» suspirou, Matilde, fechando a janela. Depois, sorrindo do seu próprio comentário, deu dois passos no aposento e relanceou os olhos pelo espelho, que a penumbra como que apagara. Foi aí que se lembrou de uma mulher que vira três ou quatro dias antes, ao volante de um carro que parara junto ao seu, esperando que o sinal abrisse. Aproveitando aqueles breves momentos, a mulher mirara-se no retrovisor e, depois de levar um dedo aos lábios e o molhar com a língua, passara-o pelas sobrancelhas. Matilde puxou uma cadeira para o centro da sala e sentou-se, sem conseguir deixar de pensar naquele gesto, à luz do qual todos os móveis que a cercavam pareciam ganhar raízes no seu espírito. São gestos assim que emcorpam a vida, que lhe dão espessura, pensou ela. Tinha a certeza de que, enquanto se lembrasse daquele gesto e da mulher que o executara, o instante em que o captara continuaria a existir, tal como ela naquele preciso momento existia ali, naquela sala, deliberadamente alheada do aparato policial montado nas ruas adjacentes, devido a uma qualquer concentração perfeitamente inóqua e que só no caso de nas próximas horas nada haver no mundo digno de atenção mereceria umas escassas linhas nos jornais do dia imediato. Que peso teria aquela manifestação em comparação com o gesto da mulher que passara o dedo, molhado de cuspo, pelas sobrancelhas? Saberiam aqueles homens armados até aos dentes e distribuindo barreiras de arame farpado ao longo da avenida que o que eles supunham ser «este momento» amanhã já não teria existido? As feições da mulher haviam começado, é certo a diluir-se-lhe na memória, onde, de resto, o automóvel em que ela se encontrava e mesmo o seu cabelo já não tinham qualquer cor.  Talvez esses pormenores funcionassem como catalizadores e contribuíssem para que o instante em que Matilde a entrevira através dos vidros dos dois carros se perpetuasse para além da sua contingência. Mas não. Matilde estava certa de que isso pouco importaria. Fosse a mulher loira ou morena, gorda ou magra, o que na realidade havia de marcante é  que levara um dedo à boca e às sobrancelhas e que, sem disso  poder ter tido consciência, colocara assim, ali, um travão no tempo, dando consistência a qualquer coisa sobre a qual os nossos gestos normalmente não produzem mais efeito que os de quem se industriasse a desenhar cruzes na água.

TEXTO DE LUÍS MIGUEL NAVA in Poesia Completa (1979-1994), Edição Publicações D. Quixote, Março de 2002

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Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava
 
Nasceu a 1957
Morreu em 1995
Luís Miguel de Oliveira Perry Nava foi um escritor português. Era bisneto de José Bressane de Leite Perry, político da monarquia constitucional e visconde de Leite Perry.
 
Luís Miguel Nava nasceu em Viseu, Portugal, em 1957. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, partindo mais tarde para Oxford, onde lecionou Português. Estreou com o volume de poemas Películas (1979), pelo qual recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou ainda as coletâneas A Inércia da Deserção (1981), Como Alguém Disse (1982),Rebentação (1984),O Céu Sob as Entranhas (1989) e Vulcão (1994). Em 1986, mudou-se para a capital belga, trabalhando como tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. Foi assassinado em seu apartamento de Bruxelas, em 1995.

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publicado às 19:20


#2898 - ATRAVÉS DA CHUVA E DA NÉVOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.11.18

RUY BELO

 

ATRAVÉS DA CHUVA E DA NÉVOA

 

Chovia e vi-te entrar no mar

longe de aqui há muito tempo já

ó meu amor o teu olhar

o meu olhar o teu amor

Mais tarde olhei-te e nem te conhecia

Agora aqui relembro e pergunto:

Qual é a realidade de tudo isto?

Afinal onde é que as coisas continuam

e como continuam se é que continuam?

Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos

a casa povoada o nome no registo

uma menção no livro das primeiras letras?

Chovia e vi-te  entrar no mar

ó meu amor o teu olhar

o meu olhar o teu amor

Que importa que algures continues?

Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar

Que posso eu fazer por tudo isso agora?

Talvez dizer apenas

chovia e vi-te entrar no mar

E aceitar a irremediável morte para tudo e todos

 

POEMA DE RUY BELO IN «O TEMPO DAS SUAVES RAPARIGAS E OUTROS POEMAS DE AMOR», EDIÇÃO 1402, JULHO 2010, ASSÍRIO & ALVIM

 

 

 

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publicado às 20:02


#2890 - Disseram-lhe que era lagarto, acreditou

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.10.18

O pântano sopra um cheiro triste, amargo e podre.

E os mortos estão calados.

Os vivos estão mortos.

As raízes secaram de medo.

Todas as águas apodreceram no veneno de pequenos anões de cabeças quadradas,

risos fúnebres estampados nos olhos oblíquos e delirantes

que pisam com arrogância a Terra.

Apesar da inteligência rarefeita, 

impõem-se pela enorme capacidade de se multiplicarem

e criarem réplicas

cegas e obedientes

que espalham o boato e a mentira

aprisionando a verdade num imenso algoritmo.

A lua, envergonhada, escondeu-se numa perpétua nuvem.

As estrelas explodiram por já não poderem ver tanta vergonha e tamanha demência.

O mundo ao contrário

o homem rasteja

já não caminha

disseram-lhe:

tu és lagarto.

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publicado às 07:10


#2886 - CANTO DAS IMAGENS

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.10.18

CANTO DAS IMAGENS

 

Ao princípio era só uma em cada olhar

após a grande divisão das águas

e mesmo, segundo disse Baudelaire, a imagem

até ao seu século do real múltiplo

era una, única e própria. Dementes

chamou este cantor aos fotogramas

que roubavam à alma a unicidade

e deram aos olhos frívolos as figuras

plurais, idênticas, dispersivas.

Era somente uma a imagem mística,

dos entes naturais aos transcendentes.

Só uma esta vermelha afelandra

embora as suas irmãs se lhe assemelhem

e desassemelhem, cada uma, sempre.

O concreto pulsava neste ritmo

das coisas parcas, poucas, singulares.

E de repente, nos olhos do poeta

cada coisa reproduziu a imagem

inumeradamente, e a ideia

decaíra no banal prolixo.

Antes, podia hesitar-se entre o modelo

e as sombras de Platão, agora as flores

malignas podem reproduzir-se no mundo

nítidas, iguais, supérfluas.

Eu ainda vejo o olhar antigo de Baudelaire

e cada coisa vibra no seu mito,

e cada imagem cria o seu espírito,

e cada cópia fotográfica muda

na liminarmente máxima diferença.

Ao crítico e amante da Pintura

as dúbias imagens decerto deram

a cada rosto um só outro rosto,

a cada paisagem uma só tela.

Já os vidros, a água, a prata traziam

a incerteza aos traçoa, como se os olhos

que nos deu a Natureza nos fossem

infiéis. E o poeta pôde resistie

a esta perda das formas consagradas

e consubstanciais das coisas que ainda

ecoam a Criação como o  eco cósmico.

 

30 de Outubro de 1993

 

POEMA DE FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

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publicado às 13:09


#2883 - Poesia - Antologia Mínima

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.18

Uma nova antologia de Fernando Pessoa composta por 87 poemas escritos pelo ortónimo e por nove heterónimos, com o título "POESIA - ANTOLOGIA MÍNIMA" publicada pela Tinta-da-China, já está disponível nas livrarias.

 

A MAIS SINTÉTICA ANTOLOGIA DO MAIS VASTO DOS POETAS

Este livro é um convite a «desaprender Pessoa», segundo a expressão do mestre Alberto Caeiro, e a lê-lo como se tivéssemos acabado de o descobrir. Ao arrepio de uma tendência recente que colocou o poeta num novo cenário, menos literário e cultural, e mais urbano e utilitário, o que esta Antologia Mínima propõe é a descoberta ou redescoberta de Fernando Pessoa através de alguns dos mais espantosos versos do século XX: da «Ode marítima» à «Tabacaria», passando por «Chuva oblíqua», «O mostrengo», «O guardador de rebanhos», «Opiário», «Autopsicografia» e muitos poemas menos conhecidos, sempre reveladores de um génio que continua a inspirar espanto, enlevo e admiração.

O essencial da poesia de Fernando Pessoa e seus principais heterónimos, numa edição de Jerónimo Pizarro.

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publicado às 10:28


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