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#819 - Paul Valéry

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09

PALMA

Com sua graça inclemente,

a custo velando o brilho,

um anjo põe-me na mesa

o pão tenro, o leite liso;

baixando os olhos segreda

este sinal de uma prece

que fala à minha visão:

- Calma, calma, guarda a calma!

Conhece o peso da palma

sob a sua profusão!

Por mais que a palma se dobre

à abundância das graças,

seu rosto mantém-se nobre

nos frutos em que se enlaça.

Vê tu bem que bem que vibra,

e como esta lenta fibra

que cinde cada momento

desempata sem mistério

toda a atracção da terra

e o peso do firmamento.

Bela, arbitrando, subtil,

por entre o sol e a sombra,

simula de uma sibila

a sageza mais o sono;

em torno da mesma alma

não cansam a ampla palma

nem apelos nem adeuses.

Que doce e nobre o seu ar!

Como é digna de aspirar

somente aos dedos dos deuses!

Ouro leve o que murmura

sob a mão do ar desperto,

e com sedosa armadura

enche a alma do deserto.

Uma voz imperecível

de sementes aspergida

que ao vento vai entregar

é de si mesma o oráculo,

orgulhosa do milagre

de seus desgostos de cantar,

Enquanto de si não sabe

entre a areia e o céu

vem a luz da madrugada

compor-lhe um pouco de mel.

Sua doçura é medida

pela duração divina

em que não contam as dores:

antes ela as dissimula

num suco onde se acumula

o aroma dos amores.

Se por vezes desespera

e o adrável rigor,

mau grado o choro, se opera

sob a sombra do langor,

não acuses tu de avara

uma Sábia que prepara

tanto ouro e autoridade:

por entre a seiva solene

é já esp'rança eterna

que atinge a maturidade.

Tais dias não 'stão vazios

nem longe do universo:

têm ávidas raízes

a trabalhar os desertos.

De finos cabelos feitas

e pelas trevas eleitas

não podem parar sequer,

pelas entranhas do mundo,

de perseguir os profundos

veios que os cimos requerem.

Paciência, paciência,

paciência no azul!

Cada instante de silêncio

pode dar fruros maduros!

Virá a feliz surpresa:

uma pomba, a simples brisa,

o mais doce dos abalos,

a mulher que te procura,

farão cair essa chuva

que nos deixa ajoelhados!

Que um povo agora se roje,

palma!... irresistivelmente!

Que na poeira se role

sobre os sóis do firmamento!

Estas horas não perdeste

se leve permaneceste

depois de tais abandonos;

igual a quem pensa, insone

e cuja alma consome

para aumentar os seus dons!

Poema traduzido por David Mourão-Ferreira, pelo 50.º aniversário da morte de Paul Valéry

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publicado às 11:43


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