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#2182 - KAROMAMA

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.17

 Oscar Milosz

 

KAROMAMA

 

São teus os meus pensamentos, rainha Karomama do tempo antiquíssimo,

Criança indolente de pernas demasiado longas, e mãos tão fracas

Karomama, filha de Tebas,

Que bebias trigo vermelho e comias trigo branco

Como os justos, à noite das tamargueiras.

Pequena rainha Karomama de outro tempo.

 

São teus os meus pensamentos, rainha Karomama

Cujo nome esquecido canta como um coro de lamentos

No meio-riso e no meio-soluço da minha voz;

Pois é ridículo e triste amar a rainha Karomama

Que viveu envolta em estranhos rostos pintados

Num palácio aberto, tão antes de nós,

Pequena rainha Karomama.

 

Que fazias em tuas manhãs perdidas, Dama Karomama?

Para a rigidez de algum débil deus de cabeça animal

Alongavas gravemente os teus braços inábeis e magros

Enquanto doces fogos percorriam o rio matinal.

Oh Karomama de olhos cansados, e longos pés alinhados,

Morta do berço dos anos, de cabelos torturados...

Minha pobre, pobre rainha Karomama.

 

E dos teus dias, sábia sacerdotisa, o que fazias?

Ralavas talvez tuas pequenas servas

Dóceis como cobras, mas como elas impassíveis;

Contavas jóias, sonhavas com filhos de reis

Sinistros e perfumados, vindos de muito longe,

De além dos mares cor de sempre e de longe

Para dizer: «Salve gloriosa Karomama.»

 

E nas noites de eterno verão cantavas debaixo dos sicômoros

Sagrados, Karomama, flor azul das luas consumidas;

Cantavas a velha história dos pobres mortos

Que comiam furtivamente coisas proibidas

E sentias subir em grandes suspiros os teus seios baixos

De criança negra e a tua alma vacilava de terror.

Nas noites de eterno verão, não é verdade, Karomama?

 

- Certo dia (terás mesmo existido, Karomama?),

Envolveram o teu corpo numa faixa amarela,

Fecharam-no dentro de um caixão grotesco e suave em madeira de cedro.

A flor da tua voz foi desfolhada pela estação do silêncio.

Os escribas entregaram o teu nome ao papiro

E é tudo tão triste e tão antigo e tão perdido...

É como o infinito das águas na noite e no frio.

 

Saberás, oh lendária Karomama!

Que a minha alma é velha como o canto do mar

E solitária como uma esfinge no deserto,

A minha alma doente de sempre e de outrora.

E sabes melhor ainda, princesa iniciada,

Que o destino gravou no meu coração um estranho sinal,

Símbolo de real desgraça e de alegria ideal.

 

Sim, sabes tudo isso, longínqua Karomama,

Apesar do jeito de criança que eternizou

O autor da tua estátua polida pelos beijos

Dos séculos que esmoreceram longe, estrangeiros.

Sinto-te perto, ouço o teu longo sorrir

Murmurar na noite: «Irmão, não deves rir.»

- São teus os meus pensamentos, rainha Karomama.

 

POEMA DE OSCAR MILOSZ (1877-1939)

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publicado às 23:06


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