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#1527 - Estéticas do modernismo em Orpheu

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.11

(... ) Tocando embora a censurada e dita escolar mania das classificações, poder-se-á, quase estabelecer um esquema das variações do esteticismo órfico:

 

Paùlismo

 

Directa ultrapassagem de A Águia.

Raízes no simbolismo e decadentismo.

Influência difusa dos nossos líricos e contistas afins.

Fernando Pessoa; Sá-Carneiro; Alfredo Pedro Guisado; Cortes Rodrigues; paúlicos à margem do paùlismo, Raul Leal e Ângelo Lima.

 

Interseccionismo

 

Ajustamento a uma diferente exploração psíquica. Vaga aproximação à liberdade futurista e ao orfismo de Delaunay.

Fernando Pessoa - Álvaro de Campos; Sá-Carneiro.

 

Simultaneísmo

 

Tradução de uma visão essencialmente plástica.

 Sugestão da técnica de continuidade de James Joyce.

Almada Negreiros.

 

Futurismo

 

Profissão de fé aos manifestos futuristas. Exaltação do precursor Walt Whitman.

Álvaro de Campos; Almada Negreiros; Santa-Rita Pintor; José Pacheco; Amadeu de Sousa-Cardoso, em parte.

 

Simbolismo

 

Peristência quase pura ou contaminada de classicismo, da poética simbolista.

Luís de Montalvor; Ronald de Carvalho; Eduardo Guimarães; Fernando Pessoa.

 

Decadentismo

 

Quase sempre confundido na estética paúlica.

Emprego de verso ou de prosa.

Sá-Carneiro, Albino de Meneses; Castelo de Morais.

 

Sensacionismo

 

Classificação genérica que incluia toda e qualquer tonalidade órfica.

 

Excerto  retirado do livro ORPHEU, vol. 1, edições Ática, Lisboa

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publicado às 21:58


#1376 - Adormecida

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.11

As tuas mãos dormiam na lagôa incenso.

E pelas alamedas destruídas, loucas,

Desceu-se em minha alma a procurar as bocas

Que me rezaram Ser sôbre o teu manto extenso.

 

Vagamente desceu sôbre o silêncio, a arfar,

Combatendo de luz, a esvoaçar no ataue...

E de noite caiu Egipto em meu olhar,

Nos teus braços em cruz, sepulcros em Karnak.

 

Bocas de Faraós rezam múmias cansadas...

Tebas em mim fenece em bronze de toadas,

Apagando-se em cinza em lâmpadas sombrias.

 

E tu aormecida há tanto tempo, em pranto.

Os cisnes na lagôa embraqueceram tanto,

Que se esqueceram Côr nas tuas mãos esguias.

 

Poema de Alfredo Pedro Guisado retirado do livro "Orpheu, edições Ática, 3.ª reedição do volume I

 

 

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publicado às 23:17


#1115 - Poemas Sem Suporte

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.12.09

ELEGIA

Minha presença de setim,

Toda bordada a côr de rosa,

Que fôste sempre um adeus em mim

Por uma tarde silenciosa...

 

Ó dedos longos que toquei,

Mas se os toquei, desapareceram...

Ó minhas bôcas que esperei,

E nunca mais se me entenderam...

 

Meus Boulevards d'Europa e beijos

Onde fui só um espectador...

- Que sôno lasso, o meu amor;

- Que poeira d'ouro, os meus desejos...

 

Ha maos pendidas de amuradas

No meu anseio a divagar...

Em mim findou todo o luar

Da lua dum conto de fadas...

 

Eu fui alguém que se enganou

E achou mais belo  ter errado...

Mantenho o trôno mascarado

Aonde me sagrei Pierrot.

 

Minhas tristezas de cristal,

Meus débeis arrependimentos

São hoje os velhos paramentos

Duma pesada Catedral.

 

Pobres enleios de carmim

Que reservara pra algum dia...

A sombra loira, fugidia,

Jámais se abeirará de mim...

 

- Ó minhas cartas nunca escritas,

E os meus retratos que rasguei...

As orações que não rezei...

Madeixas falsas, flôres e fitas...

 

O "petit-bleu" que não chegou...

As horas vagas do jardim...

O anel de beijos e marfim

Que os seus dedos nunca anelou...

 

Convalescença afectuosa

Num hospital branco de paz...

A dôr magoada e duvidosa

Dum outro tempo mais lilaz...

 

Um braço que nos acalenta...

Livros de côr á cabeceira...

Minha ternura friorenta -

Ter amas pela vida inteira...

 

Ó grande Hotel universal

Dos meus frenéticos enganos,

Com aquecimento-central,

Escrocs, cocottes, tziganos...

 

Ó meus Cafés de grande vida

Com dançarinas multicolôres...

- Ai, não são mais as minhas dôres

Que a sua dança interrompida...

 

Poema de Mário de Sá-Carneiro para Santa Rita Pintor escrito em Lisboa em Março de 1915 na revista trimestral de literatura  Orpheu, ano I, n.º 2, Abril-Maio-Junho.

Editor: António Ferro

Directores: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro

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publicado às 23:40


José de Almada Negreiros sobre Fernando Pessoa...

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.01.09

..."Começo por Fernando Pessoa.

Não recordo ter estado alguma vez com Fernando Pessoa e mais outros. Ou lembro vagamente. Lembro-me apenas de ter estado anos com ele e mais ninguém connosco. O poeta Américo Durão lembra-se de ser eu o único do "Orpheu" tu-cá-tu-lá com Fernando Pessoa. Sou comovidamente grato a este testemunho público daquele poeta, tanto mais que devo não ter sido o mais assíduo companheiro de Fernando Pessoa, e o facto de os do "Orpheu" não se tratarem por tu, torna bem significativo o da sua aberta recordação. Há verificável impossível salvo do poeta.

Devo a Fernando Pessoa (repito: pela primeira vez na minha vida) a alegria de ver noutrem a oposição e não o costumado contrário nosso alheio. Obrigado Fernando. Não há aqui de quê agradecer. Também o sei. Desculpe. É a afectividade. Carinho.

De parte a parte, em ambos nós nada havia de contrários pois que nenhum dependia dessas classificações engendradas a título social para o sossego e a comodidade de uns tantos. Não. Éramos poetas. Perdão: apresentávamo-nos para poetas. Antes de bons ou maus poetas bebíamos já ambos o delirante veneno de não pertencermos a nada e sermos cá. Partíamos logo desde o respeito muito bem pesado por tudo quanto a outros lhes era forçoso participar no quotidiano. Não ter este forçoso era o nosso carimbo de poetas. Mas para melhor fazer entender o carimbo, direi que isenção que significa poeta tem arrumo na nomenclatura social e na mesma palavra que faz de réu em desclassificado.

Foi neste momento que dei a Fernando Pessoa um pequeno papel muito dobrado e que ainda o dobrei mais deante dele. Desdobrou-o com o mesmo cuidado com que o dobrei, e leu: Quer o queiramos quer não, nós (o artista) estamos muito longe de pertencer à comunidade". Assinado: Cézanne."...

Texto retirado do livro de Almada Negreiros "Orpheu", edição Ática

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publicado às 00:15


Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.09

Redescoberta de livros e leituras

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publicado às 19:47


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