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#3043 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.10.19

SINOPSE

«Gosto de mapas, gosto dos nomes que constelam os atlas geográficos, tenho logo vontade de ir ver como aquilo é, lá longe (imagino que esta curiosidade pelo mundo possa fazer ressoar alguns ecos no país dos descobrimentos). Este livro é uma viagem através das minhas viagens, um mosaico composto a partir de dezenas de quadros, de retratos, de histórias, da China ao Chile, do Afeganistão ao Sudão. Rostos, vozes, paisagens, desenham um mundo pessoal, sentimental, às vezes trágico, às vezes divertido, que é o meu. Acontecimentos graves são aí evocados, catástrofes, guerras civis, assim como minúsculas anedotas. Este périplo da memória através dos lugares e dos tempos, que começa e acaba, por acaso, nos Açores, traça sem dúvida também, distraidamente, sem quase o querer, um retrato do autor como globo terrestre.» 
Olivier Rolin

DETALHES DO PRODUTO

PEREGRINAÇÃO
ISBN:978-989-676-256-8
Edição/reimpressão:08-2019
Editor:Sextante Editora (chancela)
Código:07215
 
Idioma:Português
Dimensões:137 x 215 x 19 mm
Encadernação:Capa mole
Páginas:264
Tipo de Produto:Livro

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publicado às 10:29


#1062 - O adeus a todas as coisas belas

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.09


Um caçador de leões


Autor: Olivier Rolin
Título original: Un chasseur de lions
Tradução: Tiago França
Editora: Sextante
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-8093-95-0
Ano de publicação: 2009


Na génese deste magnífico romance está um golpe do acaso. Ao visitar o Museu de Arte de São Paulo, Olivier Rolin deparou pela primeira vez com o Retrato do Senhor Pertuiset, Caçador de Leões (1881), no qual Edouard Manet imortaliza um «pacóvio» de olhar inexpressivo e «farto bigode de morsa». Diante do quadro, o escritor lembra-se de já ter visto aquele homem grosseiro e recupera-o de um «obscuro recanto» da memória onde o sepultara, 25 anos antes, depois de ler a história da sua «rocambolesca» expedição à Terra do Fogo, num livrinho (Pequena História Austral) comprado em Punta Arenas, nas margens do Estreito de Magalhães.


À atracção pela invulgar personagem, junta-se uma perplexidade: a de saber como é que o percurso de Pertuiset se cruzou com o do sofisticado Manet (esse artista revolucionário que vivia como um burguês); ou melhor, a de saber como terá acontecido esta amizade entre tipos humanos diametralmente opostos. «É uma das poéticas consequências do tempo que passa: as testemunhas morrem, depois morrem os que ouviram contar as histórias, faz-se silêncio, as vidas desaparecem no esquecimento, o pouco que não se perde torna-se romance.» Eis a ficção a beber na realidade, a literatura como operação de resgate (nada contra).


Rolin começa justamente por resgatar Eugène Pertuiset: mitómano compulsivo, fanfarrão, caçador desastrado, traficante de armas, inventor de «balas explosíveis», mestre em fogos-de-artifício e crente nos poderes da sua própria «força magnética». Ele é o típico arrivista, ansioso por chegar às altas esferas políticas; o aventureiro irresponsável que se intromete nos conflitos militares do Peru e do Chile; o aldrabão aldrabado que acredita na existência de um tesouro inca, por desenterrar, na Terra do Fogo. O escritor segue-lhe os passos, descobrindo histórias picarescas nas bibliotecas da América do Sul e nunca escondendo um fascínio similar ao que Pertuiset decerto provocou em Manet — cujos dilemas artísticos e andanças pelos boulevards também acompanhamos, em paralelo, tendo a História francesa (final do séc. XIX) como pano de fundo. E como são admiráveis, essas páginas em que se evoca o cerco de Paris pelos prussianos (1870), os dias da Comuna e a «semana sangrenta».


Além destas duas linhas narrativas principais (servidas por uma escrita poderosamente visual, descritiva, cheia de cores e contornos, sempre à beira de se tornar pintura), há uma terceira: a do narrador/autor que interrompe (com judiciosos parêntesis curvos e rectos) o fluxo do romance, relatando a sua deambulação pelos lugares onde se deram os triunfos e as tragédias de Pertuiset e Manet, para confirmar o trabalho demolidor que o tempo exerce sobre as coisas, os homens e a sua memória, seja nos confins do mundo (Valparaiso, Porvenir), seja nas ruas parisienses onde os cabarés e outros antros de boémia foram substituídos por sucursais bancárias, armazéns de calçado e lojas de quinquilharia.
Atravessando este cafarnaum, que só por milagre nunca se torna confuso, há um sopro proustiano. Rolin vai atrás do tempo perdido. O do modelo, o do pintor e o seu. Fixa o «adeus a todas as coisas belas» (Villiers), segue o rasto do que se dissipou, sabendo que esta é «a única caça onde se tem a certeza de acabar morto pela fera, a única exploração onde se termina sempre entre os dentes dos antropófagos».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Retirado do blog "Bibliotecário de Babel"

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publicado às 21:54


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