Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#2298 - OLHANDO O MURO

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.04.17

 LUÍS MIGUEL NAVA (1957-1995)

 

OLHANDO O MURO

 

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então

na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam,

nos fragmentos vários do horizonte de que a luz fazia

um jogo insuportável. Tão pouco em como a sublevação

das paisagens é matéria da linguagem, tão pouco nisso

ele atentava ao colocar o olhar no muro, outro suporte

procurando, a ele idêntico, no leite à superfície do qual

pequeninos nós de fezes eclodiam, nós que com uma

vara ele agitava e perturbava com fascínio. Metade do

seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da

fabulação de que apenas os animais o libertavam contra a 

face lhe quebrando imagens fortes - as fezes imiscuindo-se

no muro, a luz uma indecção que alastra pelo leite, a vara

de agitá-lo desviada desse ofício. Estranhos actos cometia

ele então, deles o mais minucioso sendo  a introdução de

mínimos calhaus nos intestinos.

 

Poema de Luís Miguel Nava 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:03


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas