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#1437 - Os Lamed Wufniks

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.07.11

 

Existem na Terra, e sempre existiram, trinta e seis homens rectos, cuja missão é justificar o mundo perante Deus. São os Lamed Wufniks. Não se conhecem entre si e são muito pobres. Se um homem chega a saber que é um Lamed Wufnik morre imediatamente e existe outro, numa outra região do planeta, que ocupa o seu lugar. Constituem, sem o suspeitar, os secretos pilares do universo. Se não fosse por eles, Deus aniquilaria o género humano. São os nosso salvadores e não o sabem.

 

Esta mística crença dos judeus foi exposta por Max Brod.

 

A antiga origem pode encontrar-se no capítulo dezoito do Génesis, onde o Senhor declara que não destruirá a cidade de Sodoma, se nela houver dez homens justos.

 

Os Árabes têm um personagem semelhante, os Kutb.

 

Jorge Luís Borges, in "O Livro dos Seres Imaginários"

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publicado às 19:19


#1219 - BAHAMUT

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.02.10



A fama de Bahamut chegou aos desertos da Arábia, onde os homens alteraram e valorizaram a sua imagem. De hipopótamo ou elefante fizeram-no peixe que se mantém sobre a água sem fundo e sobre o peixe imaginaram um touro e sobre o touro uma montanha feita de rubis e sobre a montanha um anjo e sobre o anjo seis infernos e sobre os infernos a terra e sobre a terra sete céus. Podemos ler numa lenda recolhida por Lane:


"Deus criou a terra, mas a terra não tinha apoio e assim sob a terra criou um anjo. Mas o anjo não tinha apoio e assim sob os pés do anjo criou um penhasco feito de rubis. Mas o penhasco não tinha apoio e assim sobre o penhasco criou um touro com quatro mil olhos, orelhas, narizes, bocas, línguas e pés. Mas o touro não tinha apoio e assim sob o touro criou um peixe chamado "Bahamut", e sob o peixe pôs água, e sob a água pôs escuridão, e a ciência humana não vê para lá desse ponto."


Outros declaram que a terra tem a sua origem na água; a água no penhasco; o penhasco na cerviz do touro; o touro num leito de areia; a areia em Bahamut; Bahamut num vento sufocante; o vento sufocante numa neblina. A base da neblina é desconhecida.


Tão imenso e tão resplandecente é Bahamut que os olhos humanos na~suportam a sua visão. Todos os mares da terra, postos numa das suas fossas nasais, seriam como um grão de mostarda em metade do deserto. Na 496ª noite do livro d' As Mil e Uma Noites  refere-se que a Isa Gesus) foi concedido ver Bahamut e que, dada essa mercê, rolou pelo chão e levou três dias a recuperar o conhecimento. Acrescente-se que sob o desaforado peixe há um mar e sob o mar um abismo de ar, e sob o ar o fogo, e sob o fogo uma serpente que se chama "Falak", em cuja boca estão os infernos.


A ficção do penhasco sobre o touro e do touro sobre Bahamut e de Bahamut sobre qualquer outra coisa parece ilustrar a prova cronológica de que Deus existe, com que se argumenta que toda a cause requer uma causa anterior e assim se proclama a necessidade de afirmar uma causa primeira, para não proceder até ao infinito.

 

Retirado do livro de Jorge Luis Borges - O livro dos seres imaginários.

Jorge Luis Borges contou com a colaboração de Margarita Guerrero.

O livro foi publicado em 1989 e editado em Portugal em Abril de 2005 pela Editorial Teorema

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publicado às 21:25


Os Anjos de Swedenborg

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.10.08

Durante os últimos vinte e cinco anos da sua vida de estudo, o eminente homem de ciência e filósofo Emanuel Swedenborg (1688-1722) fixou residência em Londres. Como os ingleses são taciturnos, ganho o hábito quotidiano de falar com demónios e anjos. O Senhor permitiu-lhe vivistar as regiões ultraterrenas e partir com os seus habitantes. Cristo tinha dito que as almas, para entrarem no Céu, devem ser justas; Swedenborg acrescentou que devem ser inteligentes e depois Blake estipularia que fossem artísticas. Os Anjos de Swedenborg são as almas que escolheram o Céu. Podem prescindir das palavras; basta que um Anjo pense noutro para o ter junto dele. Duas pessoas que se amaram na Terra formam um único Anjo. O seu mundo está regido pelo amor; cada Anjo é um Céu. A sua forma é a de um ser humano perfeito; a do Céu é assim mesmo. Os Anjos podem olhar para o Norte, o Sul, o Leste e o Oeste; sempre hão-de olhar Deus cara a cara. São acima de tudo teólogos; o seu maior prazer é a prece e a discussão de problemas espirituais. As coisas da Terra são símbolos das coisas do Céu. O Sol corresponde à divindade. No Céu não existe o tempo; as aparências das coisas mudam segundo os estados de ânimo. Os trajes dos Anjos resplandecem segundo a sua inteligência. No Céu os ricos continuam a ser mais ricos do que os pobres, por estarem já habituados à riqueza. No Céu, os objectos, os móveis e as cidades são mais concretas e mais complexas que os da Terra; as cores mais variadas e  claras. Os Anjos de origem inglesa tendem para a política; os judeus para o comércio de jóias; os Alemães trazem livros que consultam antes de qualquer resposta. Como os Muçulmanos estão acostumados à veneração de Maomé, Deus concedeu-lhes um Anjo que simula ser o Profeta. Os pobres de espírito e os ascetas estão excluídos dos prazeres do Paraíso porque os não compreenderiam.


In "O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges, Editorial Teorema, Abril de 2005

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publicado às 19:14


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