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NATÉRCIA FREIRE   |||   1919-2004

PARA O INSTANTE DE NOS PERDERMOS

 

Para o instante de nos perdermos,

estão soando já todos os sinos do Mundo!

E as sereias, no mar, se impacientamm

de nevoeiros sem fim.

Como será?...

Morrerei longe de ti?

Dir-me-ás adeus numa gare escura e fria 

ou partirás, de neve, entre a luz da manhã,

enlutada e viúva do clarão dos teus olhos?

 

Como será...?

Todas as aves que soltamos no sonho

estão suspensas no bronze, dessa música triste.

Todas as veredas que sulcamos, sem corpo,

vestem cinza e poeira de incêndios e de sóis...

Como será?

Pergunto aos ventos todos,

às aves e às alturas

e nada me responde!

 

Porque o instante de nos perdermos

será mais negro que o apagar do sol;

mais triste que o desabar dos mundos;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as crianças

nos berços feitos de astros;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as flores

em todos os jardins e campos da Terra.

 

Todos os amorosos mortos

estão chorando nos túmulos o instante de nos perdermos

e tecem, à nossa volta,

esta sede, esta dor, esta infinita procura

de todas as vidas que em nós brotam e se ocultam

em cada minuto de paixão.

 

São as suas vozes que vibram nos nossos ouvidos

e nos roçam, na pele, um vento de perdição.

É a recordação das suas  penas

que nos ensina a fundir melhor

as nossas almas de Deus.

É o tormento dos seus amores sem braços

que alucina o instante de todas as ausências.

É a dor, é a dor de saber que somos mortais,

com o infinito no peito

e séculos de pedra sobre a poeira que somos!

 

São as suas vozes de séculos que nos ensinam a luz.

São as suas lágrimas de séculos que nos humedecem os olhos  enternecidos.

 

São as  suas bocas desenhadas no espaço,

inatigíveis, fugazes, que nos sugerem o desejo

do beijo mais profundo, mais profundo.

São as suas mãos desfeitas e voláteis

que estão fazendo soar já, na tarde silenciosa,

para o instante de nos perdermos,

todos, todos os sinos do Mundo!

 

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Natércia Freire

Escritora portuguesa nascida em 1920, em Benavente, e falecida a 19 de dezembro de 2004. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Dirigiu o suplemento literário "Artes e Letras" do Diário de Notícias e colaborou em publicações diversas e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Iniciou-se como decente na escola primária em 1944. Foi convidada para a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que se tornou membro, de 1971 a 1974.
Revelou-se na poesia em 1939 com a coletânea Meu Caminho de Luz. Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por Rio Infindável em 1947 e Anel de Sete Pedras em 1952), Ricardo Malheiros (1955) e Nacional de Poesia (1972), este último pela obra Os Intrusos. Da sua vasta obra destacam-se ainda Horizonte Fechado (1942) e os contos de A Alma da Velha Casa (1945).
 
FONTE INFOPÉDIA

 

POEMA DE NATÉRCIA FREIRE IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO QUASI EDIÇOES, JUNHO DE 2006, COM EDIÇÃO E NOTAS DE PEDRO SENA-LINO E PREFÁCIO DE MARIA GABRIELA LLANSOL                                                

 

 

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publicado às 18:24


#1579 - Vila Perdida

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.01.12

Natércia Freire

 

VILA PERDIDA

 

 

A vila não é aqui.

Vamos cegos mas sabemos

que a vila não é aqui.

Entre chaparrais e moitas,

se me afoito, se te afoitas

onde os tectos e os jardins

da vila que só eu vi?

 

Correm verões para a beira-rio

na velha vila deitada.

Correm verões anos a fio.

E a casa que está fechada,

a casa que nos ouviu

passos de voz compassada,

jaz na música do tempo,

humana, morta, inundada.

 

(Há romãzeiras no vale,

há pegos de água brilhante,

sons lentos, no salgueiral

de um murmúrio rastejante.)

 

Não estou aqui, nem ali.

Mas foi de lá que eu parti

com rumo à minha Cidade.

Sentei-me à beira da estrada.

Moços, pássaros, ciganos,

vi que passavam em bando.

E eu não perguntei o  quando.

Parti nos sonhos de todos

e até de mim me esqueci.

 

Porque era longe a Cidade

de um correio me servi.

Escrevi cartas para Deus.

Respostas de eternidade

recebi e recebi.

 

O regresso não o encontro

nos passos que um dia demos.

Mora num dia incompleto;

baila os rostos esfumados,

veste-se de oiro e de preto.

 

Está no fundo da lagoa,

é de vidro e soa e voa.

 

 

Poema de Natércia Freire, Poesia Completa, QUASI EDIÇÕES, 2006


 

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publicado às 20:47


#1513 - Regresso

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.11.11

 

REGRESSO

 

 

- Quem é? Quem vem?

A porta não estacou

e todos pela mesa olham pasmados.

Só eu animo a voz:

- Olhem quem vem! Reparem quem voltou!

Rolam silêncios fundos e pesados.

 

Imóvel, no meu barco de luar,

os meus olhos venceram as ramadas.

Música longa... Um sino a palpitar.

Calçadas e calçadas...

Presépios com pastores de palmo e meio.

Velas que são faróis... Cresceu a bruma.

Deitem-se assim, num jeito de criança,

e envolvam-me de espuma.

 

- Olhem quem vem! Reparem quem voltou,

que tem os braços que eu gritei além!

 

- Vou com ele, não volto, minha Mãe!

 

Vou com  ele nos uivos da tormenta,

com ele vou pregada na paixão.

Medo de quê? Oceanos azulados...

Medo de quê? Neblinas e canções...

- Dentro do Espaço adoçam-se pecados

e morrem solidões.

 

Sem braços me tomou na posse enorme.

Roçou-me os lábios, frio, sem ter boca.

Ele é quem diz: - Sossega, dorme, dorme...

E nunca mais me toca!

 

Às tardes, mesmo ao longo dos casais,

cegos: falas de gestos a ninguém...

 

- Quem é? Quem vem?

Para sempre me tomou...

 

- Vou com ele, não volto, minha Mãe!

 

 

Poema de Natércia Freire [Horizonte Fechado - 1942]

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publicado às 17:53


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