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#1505 - A imagem

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.11

A IMAGEM

 

 

Esperar a imagem. Queimar o incenso,

Deixar a luz entrar na casa,

Escolher as melhores cores, fixar a seda branca,

Esperar que a imagem cresça no silêncio.

Era assim que fazia Kuo Hsi.

Além dos tons de branco,

O azul da azurite ou "Azzurra della Magna",

O vermelho da poeira de coral, o amarelo do pavão,

O verde da malaquite, o vermelho fulgurante do cinábrio,

Todas as cores, primeiro expectantes,

Eram gritos no acto da criação.

Mas, querido Mestre Kuo Hsi,

No nosso mundo, as imagens não nascem enquanto o incenso arde.

Quando não se escondem, deixando apenas cactos e poeira,

Irrompem com furor na noite escura,

E, sílaba a sílaba, lágrima a lágrima,

derramam-se sobre o papel, não sobre a seda branca.

Por vezes, acompanha-as o vento das estrelas,

Que sucede ao vento solar,

Com memórias do gelo dos anéis de Saturno

E da Grande Mancha Vermelha de Júpiter.

Porém, quase sempre nascem mais perto,

Dubrovnik sob as bombas, o Arboretum em chamas,

Sarajevo, a Somália, o sangue, e o sono de Deus,

As águas da Normandia e os muitos deuses da guerra.

Um lugar mágico por vezes, o café de Rick,

E mágicos também os écrans azuis dos computadores,

L.A. ao romper do dia, o Harlekin de Stockhausen,

Um cavaleiro através da névoa,

O Tejo outrora tão verde em Toledo.

Mas sempre a ameaça do vento nos gélidos caminhos,

Não obstante Proust, o feiticeiro do tempo,

A cadeia da criação, Picasso, Rilke e a Quinta Elegia,

A tinta castanha de Da Vinci.

 

Oeste, terra dos mortos, dizem os egípcios.

O grito é de Munch.

 

Poema de Maria Amélia Neto do livro "Quinteto para o Império do Meio"

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publicado às 17:48


#1168 - O CALÍGRAFO

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10

 

Vê-se bem que este vento de Outubro é diferente dos outros.

Vem do sudoeste, pelo caminho da chuva,

Mas traz consigo um novo canto ou lamento

Que acorda memórias e medos e certezas.

Sei que estes olhos se fecharão em breve

E que das minhas mãos jamais se apagará a tinta.

Vi demasiadas vezes o Dragão subir ao céu no primeiro equinócio

E lançar-se no abismo quando o Verão acaba.

A terceira linha do hexagrama Lî mostra-me como o sol a declinar,

Esquecido da minha cítara de argila

E lamentando-me como um velho, que sou.

E, no entanto, há muitos anos, no palácio,

Senti atrás de mim o deslizar de uns sapatos de seda.

Quando me voltei, vi um rosto branco como a magnólia,

E para sempre os meus olhos guardaram o seu doce veludo.

Ninguém sabe, ninguém vê,

Só a minha mãe,  ao morrer,

Descobriu as pétalas que caíam com as minhas lágrimas,

E suspirou.

Não voltei a ver a princesa tão perto,

E confunde-me que ela seja ainda em mim ausência e presença,

Sobretudo neste dia de Outubro,

Em que do sudoeste sopra um vento diferente,

Escutado também pelos olhos do esquilo no ramo do salgueiro.


A princesa, a mais bela das filhas do imperador,

Partiu de manhã, no meio da névoa,

E a sua liteira era escoltada por muitos cavaleiros.

Julgava o pai que, dando-a em casamento a um governante inimigo,

Salvaria o Norte do país das incursões armadas,

O que não sucedeu.

Tudo isto registei, há muito, no Livro da História,

Poe ser essa a função de um calígrafo da corte.


Diz Li Shang-Yin

Que nunca se deve deixar abrir o coração com as flores da Primavera,

Pois uma polegada de amor é uma polegada de cinza.


Poema de Maria Amélia Neto


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publicado às 22:47


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