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#1408 - Festival do Silêncio começa hoje

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.11

 

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publicado às 18:56

 


O músico e poeta canadiano Leonard Cohen venceu o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras de 2011, foi hoje anunciado em Oviedo, Espanha.

Leonard Cohen era um dos finalistas ao galardão, ao lado da escritora canadiana Alice Munro e do romancista inglês Ian McEwan.

 

O júri, que iniciou as deliberações na terça-feira em Oviedo, é composto por escritores como Andrés Amorós, Juan José Armas Marcelo, Fernando Sánchez Dragó e Berta Pitán e pela diretora do Instituto Cervantes, Cármen Cafarell.

 

O galardão é o reconhecimento da personalidades cujo trabalho criativo ou de investigação representa uma contribuição relevante para a cultura universal nos campos da literatura ou da linguística.

 

No ano passado, o vencedor foi o escritor libanês Amin Maalouf. Vargas Llosa, Camilo José Cela, Günter Grass, Doris Lessing, Paul Auster, Cláudio Magris, Amos Oz foram alguns dos outros galardoados em edições anteriores na área das Letras.

 

In

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publicado às 19:09

Murillo Meirelles

Chico Buarque e Caetano Veloso no Rio de Janeiro. Um encontrou a voz na literatura e o outro nos blogs, shows, CDs...
Chico Buarque e Caetano Veloso no Rio de Janeiro. Um encontrou a voz na literatura e o outro nos blogs, shows, CDs...

 

Revista BRAVO! | Abril/2009

A Palavra e o Som

Por Heitor Ferraz, José Flávio Júnior e João Gabriel de Lima

 Veja a galeria de imagens do making-of da seção de fotos exclusivas com os dois grandes artistas e as capas alternativas da edição

 

Numa cena do filme Invasões Bárbaras, um dos clássicos da primeira década do século 21, um grupo de professores de história elabora a teoria da "quantidade de inteligência". Segundo eles, por razões aleatórias, existem determinados momentos e lugares com alta concentração de gente talentosa, e essas pessoas fazem a diferença em suas épocas. São citadas no filme a Florença de Dante e Boccaccio e a Filadélfia dos "pais fundadores" da revolução americana. Aplicando a teoria à vida cultural brasileira, pode-se dizer que o país viveu uma espécie de auge nos anos 60 e 70, explosão criativa da música popular (e, por mais que se cunhem teorias pretensamente sociológicas — a mais famosa e absurda diz que a arte floresce em períodos de ditadura —, nada explica isso além da sorte). Primeiro veio a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto. Depois, a MPB surgida nos festivais, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Zé e Gilberto Gil. Esses músicos têm em comum, além do talento, a carreira extremamente longa, que dura até os dias de hoje. Numa coincidência digna da teoria da inteligência aleatória de Invasões Bárbaras, dois desses artistas darão à luz novas criações neste mês de abril. Saem o novo CD de Caetano Veloso, Zii e Zie, e o novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado. Disco e livro são pontos de chegada de trajetórias paralelas — e o lançamento simultâneo provoca reflexões sobre a cultura brasileira e sobre o caminho que ambos percorreram para chegar até aqui.

 

Não existem mais artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso — os ícones de geração, os compositores que são chamados a opinar sobre todos os assuntos. Nos anos 90, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) observou, numa entrevista famosa, que no Brasil eram os cantores populares, e não os escritores ou intelectuais da academia, que pautavam o debate cultural. Tolentino emitiu sua observação em tom de crítica — ele via isso como um sintoma de decadência. O que faltou em seu raciocínio foi observar que acontecia o mesmo no resto do mundo. Se os anos 40 e 50 foram dos escritores e filósofos, em que nomes como Norman Mailer e Jean-Paul Sartre pontificavam sobre todos os assuntos, os 60 e 70 foram dos astros da música pop. Artistas como John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan e David Bowie, entre outros, eram considerados as "antenas" de um período de intensa mudança cultural e de costumes. É um pouco espírito de época, mas também mérito de uma geração excepcionalmente talentosa — é só pensar que apenas no ano de 1966 foram lançados pelo menos três álbuns clássicos da música de todos os tempos, Blonde on Blonde (Bob Dylan), Pet Sounds (Beach Boys) e Revolver (Beatles). Cantores como Chico Buarque e Caetano Veloso eram as versões brasileiras desse fenômeno. É uma simplificação, no entanto, entender tudo isso apenas como marca de um tempo, ignorando as peculiaridades e contribuições particulares de cada artista.

 

Numa comparação redutora porém ilustrativa, Chico e Caetano estão para a MPB assim como Bob Dylan e David Bowie para o pop internacional. Dylan e Chico se destacam mais pela qualidade de suas letras do que por suas performances, em geral discretas, em shows. Mais do que bons compositores, letristas e intérpretes fulgurantes, Bowie e Caetano são famosos pelas diversas reviravoltas que deram em suas carreiras, captando diferentes espíritos de época. Bowie usou sintetizadores para falar de viagens espaciais nos anos 60, foi andrógino nos 70 (era o principal nome do glitter, o velho e colorido rock-lantejoula) e voltou a ser roqueiro nos 80. Caetano surgiu no tropicalismo dos anos 60, escreveu o "hino do desbunde" nos anos 70 (a música Odara), foi pioneiro na utilização de sonoridades do pop na MPB da década de 1980 (o marco é o memorável álbum Velô) e ainda promoveu o relançamento de clássicos da música latina nos 90. Tudo isso enquanto Chico Buarque lapidava seu estilo de composição calcado nas raízes da MPB — e Bob Dylan se aprimorava cada vez mais em sua peculiar fusão de blues e música country engajada.

 

Neste mês em que Caetano e Chico lançam seus novos CD e romance, é interessante comparar os pontos de chegada das duas trajetórias. Chico, o compositor que fazia incursões no teatro e criava personagens em suas letras (Pedro Pedreiro, Ana de Amsterdam, Bárbara), se tornou escritor. Continuou fazendo música embora tenha declarado, em entrevistas, que considerava a canção uma "arte de juventude", em contraposição à literatura, que seria uma forma de criação mais madura (leia texto ao lado). Enquanto isso, Caetano dava nova reviravolta em sua carreira ao se aproximar de músicos jovens e lançar um álbum antológico,. Não parou por aí: criou um blog, lançou músicas na internet, testou-as no show e as reuniu no novo álbum, Zii e Zie, tornando-se talvez o artista brasileiro da área musical que melhor entendeu a interatividade dos novos tempos (leia texto a partir da página 32). Tempos estes em que a multiplicidade de criadores de todas as áreas explode na internet. Em que não existe mais o que se chamava antigamente de mainstream. Em que, no Brasil ou lá fora, se observa o fim dos ícones de geração — e não se espera mais que cantores sejam "antenas da raça" ou falem sobre todos os assuntos. Nestes tempos de cauda longa, Caetano Veloso e Chico Buarque encontraram, cada um a seu modo, suas vozes. Chico na literatura. Caetano nos sites de música, no blog, no show, no CD...


 

João Gabriel de Lima


O parto de Eulálio d'Assumpção, protagonista de Leite Derramado, foi mais tranquilo do que o de José Costa, o personagem principal de Budapeste. Na feitura de seu romance anterior, Chico Buarque chegou a descartar uma versão inteira, na qual o protagonista era um arquiteto. Foram três anos de elaboração. Já o novo livro nasceu em menos de um ano. Houve apenas uma hesitação, como lembra o editor Luiz Schwarcz, com quem Chico sempre se comunica quando começa a escrever um novo trabalho. "Ele ficou na dúvida, achou que podia ter se enganado", conta Luiz. Mas com a dúvida veio também o aviso: "Se estiver enganado, pode me dizer. Eu jogo tudo fora e começo outro, pois estou com a mão boa", disse Chico a Schwarcz. Não houve engano. Leite Derramado chegou ao mercado com uma tiragem inicial de 70 mil exemplares — o padrão do mercado é de 3 mil —, duas versões de capas, um site especial (www.leitederramado.com.br) e campanha publicitária da AlmapBBDO.

Chico faz 65 anos em junho. Quando se iniciou na literatura, em 1993, com o romance Estorvo, estava realizando um sonho de juventude. "Meu pai, historiador e crítico literário, não me pressionou a escrever, mas apreciava quando eu escrevia. Aos 21 anos, comecei a compor canções, e isso foi o que me sequestrou", disse em 2005 numa mesa-redonda em Nova York, da qual participou também o autor americano Paul Auster.

Desde esse sequestro, Chico procura sempre manter separado o escritor do compositor, num esquema que ele mesmo chamou de "esquizofrênico". Quando se dedica à literatura, deixa o violão no estojo e evita ouvir música. Quando termina o livro e passa a temporada de lançamento e de traduções, volta a procurar os acordes e as linhas melódicas de suas canções, com um frescor de quem estivesse começando do zero. Quando lançou Carioca, há dois anos, ele deu uma série de entrevistas, comentando o disco — que é um dos mais brilhantes de sua carreira e tem como destaque a faixa Subúrbio, com uma linha melódica que sobe e desce como se galgasse os morros que dividem a zona sul e a zona norte do Rio de Janeiro. Mas, quando o assunto é livro novo, Chico se retrai. Pelo menos durante um tempo. Depois, acaba fatalmente comentando sua literatura e suas leituras.

Para o escritor e jornalista Humberto Werneck, autor de Tantas Palavras, o artista tem uma espécie de "monogamia criativa", alternando os momentos de autor com os de compositor. A única coisa que se mantém tanto no músico como no escritor é a caminhada — além do futebol, o principal esporte de Chico é andar pelo calçadão do Rio de Janeiro. Seguindo o ritmo de um passo paulista, mais apressado, Chico aproveita para ir resolvendo o enredo ou a letra da canção. Não são apenas passeios e exercício físico, mas horas de trabalho mental. Como diz Werneck, no livro, "compor e escrever são solicitações diversas de sua criatividade, cada uma a seu tempo". Numa conversa com o cineasta Roberto de Oliveira (que resultou posteriormente em uma caixa com 12 DVDs), Chico Buarque comentou: "Não há um parentesco próximo entre romance e música. Mas existe uma música na estrutura dos meus livros. E também há sempre uma música no fundo da minha cabeça quando escrevo, quase uma trilha sonora, um assovio, um cantarolar que dita o ritmo".

A carreira literária de Chico, assim como a de músico, atravessou o oceano. Seu primeiro romance, Estorvo, logo ganhou tradução no estrangeiro. Saiu na França, na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos e em outros países. O mesmo destino tiveram seus dois romances posteriores, Benjamim e Budapeste. Lá como cá, o nome do escritor sempre vem acompanhado do do compositor. "Um dos mais importantes músicos do Brasil", dizia o francês L'Express, na abertura de uma entrevista, em 1998. Vale lembrar que na França o músico é muito conhecido, principalmente por causa da música Essa Moça Tá Diferente, que virou jingle de um comercial (bem ridículo, diga-se de passagem) de uma marca de refrigerantes.

A crítica fora do Brasil sabe separar, no entanto, o músico do escritor. "Ninguém espere encontrar na literatura de Chico Buarque elementos parecidos com as suas canções, pois estamos diante de uma narração pouco colorida, de ritmo escasso e com nenhuma mudança de tempo", dizia o autor espanhol Mariano Antolín Rato, sobre o lançamento, na Espanha, de Estorvo. Apesar de dizer que o livro era um tanto decepcionante, o crítico também dava a mão à palmatória dizendo que pouco sabia sobre o Brasil e talvez isso lhe impedisse de entender melhor a obra. Já sua conterrânea, a crítica e poeta Beatriz Hernanz, lembrando a atividade de compositor e cantor de Chico, fazia uma leitura mais atenta do romance — principalmente para o impasse moderno do mundo sem saída apontado pela narrativa — e lembrava que a obra certamente surpreenderia o leitor espanhol.

Nos Estados Unidos, onde ele é conhecido, mas não é um nome popular, o New York Times publicou uma reportagem, em 1999, dando conta de toda a sua carreira, destacando as letras de suas canções e apresentando o autor de Turbulence, como foi batizado lá o livro Estorvo, lançado pela Pantheon, em 1993. O livro também saiu na Inglaterra, onde teve críticas positivas. Os artigos sempre lembram a faceta do músico, mas logo se voltam para o enredo criado pelo escritor e destacam sua condição de brasileiro e o seu tema, o Brasil. Por aqui, a obra de Chico Buarque em geral rende resenhas positivas — claro que alguns comentários dissonantes não faltaram, nem faltarão, por conta do livre exercício da crítica. Ele começa também a ser tema de teses acadêmicas. Numa primeira fase, relacionando sua obra com o momento político do país. Mais recentemente, e sobretudo a partir de Budapeste, elas começam a se voltar para o trabalho de linguagem do escritor.

O novo romance, Leite Derramado, dá margem aos dois tipos de análise. Há pouco tempo, Chico Buarque comentava o que ele chamou de nova mania: a publicação de livros com genealogias de famílias tradicionais brasileiras. Ele se divertia um pouco com esse tipo de empreitada, pois lá pelas tantas sumiam uns nomes da árvore. Como se um galho tivesse sido arrancado. "As pessoas no Brasil pensam que são brancas, que eu sou branco", dizia. "Impossível imaginar uma família que esteja aqui desde o século 16 e não tenha se misturado com índios e pretos. Não tem como." O comentário — feito num dos 12 programas que ele gravou com Roberto de Oliveira, em 2007 — parece ter frutificado na cabeça do escritor. Ele procurou, em seu romance, dar conta dessa mania nacional de nobiliarquia, de bater orgulhoso no peito dizendo "sou descendente de barão".

O narrador de seu novo livro é um velho gagá, para lá de 100 anos, com fumos de nobreza, relatando, de um leito de hospital — não se sabe bem para quem, ora para uma enfermeira, ora para a filha, ora para uns sequestradores —, a esgarçada história de sua vida. Eulálio d'Assumpção — a se fiar no que ele narra ("lembrança de velho não é confiável", diz) — é daqueles que carregam, por toda parte, sua árvore genealógica na cabeça, com galhos por todos os lados. O trisavô teria desembarcado no Brasil com a corte portuguesa, o bisavô seria um tal "barão de Arcos", o avô, "um figurão do Império", o pai foi senador da República (íntimo de vários presidentes) e armeiro. A brincadeira de Chico Buarque, inventando uma família de filhos únicos, lembra o ditado "pai rico, filho nobre, neto pobre". No entanto, a decadência familiar desemboca no "comércio de entorpecentes". O Brasil vai pautando essas gerações, indo da corrupção dos antepassados (o pai que se utilizava do título de "senador" para abrir aqui uma filial de uma empresa francesa de armas) até a mixórdia do presente.

Há um humor desabusado que perpassa o livro inteiro. Um humor calcado numa espécie de supremacia de classe — ou melhor, de casta, pois Eulálio já está no fim da linha, já teve de morar no subúrbio, em casinhas pequenas, na velhice, levando apenas a cama e uma escrivaninha barroca como bens de família; a ascensão dos Assumpção agora vem por meio do novo descendente, que namora uma menina com piercing no umbigo e tem atividades ilegais — se for crível o que diz o vai-e-vem da memória do velho Eulálio. Chico Buarque procurou refazer assim uma história do Brasil vista por um sujeito da elite e já decadente, ainda obcecado pela mulher, retratada por ele apenas como objeto de um desejo físico. Aos poucos, vai emergindo como vítima do ciúme e dos próprios preconceitos. Ao ler o livro, é inevitável pensar no Machado de Assis de Dom Casmurro e de Memórias Póstumas de Brás Cubas — este último por conta do enredo em que aparentemente não acontece nada e nenhuma narrativa se estabelece como determinante. O diálogo eficiente com o maior escritor brasileiro dá a medida do triunfo literário que é este novo romance de Chico Buarque.


Heitor Ferraz

Há exatamente um ano, Caetano Veloso disse para Hermano Vianna que estava com vontade de fazer uma série de shows em que pudesse mostrar para a plateia composições novas, à medida que fossem sendo compostas. O antropólogo achou a ideia genial e sugeriu que Caetano tivesse um blog para mostrar a evolução dessas canções ao longo dos shows. O blog poderia hospedar os vídeos das músicas sendo executadas, para que não apenas os que estivessem presentes nos espetáculos pudessem ouvi-las. Caetano também poderia pedir sugestões sobre o material novo e postar textos que ajudassem o público a entrar na onda. Seria algo inédito, que nem artistas de gerações mais novas teriam tentado. Para sorte da música brasileira, a loucura saiu do papel. Virou a temporada Obra em Progresso, vencedora do último Prêmio Bravo! como grande espetáculo de música popular de 2008, gerou o blog obraemprogresso.com.br e desemboca este mês no álbum Zii e Zie, resumo do que foi essa aventura que mesclou palco com internet, mundo real com mundo digital.

"Fico impressionado com o tempo que ele dedica ao espaço, lendo e respondendo diretamente a qualquer pessoa que se manifeste. Poucos artistas têm essa disposição e esse interesse", afirma Hermano Vianna, que, além de filmar entrevistas com Caetano, sugerir tópicos e moderar os comentários dos frequentadores do blog, atuava publicando as mensagens que recebia do músico baiano. Mas o cantor, que tem 66 anos, logo aprendeu a mexer nas ferramentas do site e dispensou o auxílio do amigo para isso. Rapidamente também começou a diversificar os assuntos. Em vez de focar as músicas novas, passou a discutir política (respondeu a uma análise equivocada que Fidel Castro fez da música Base de Guantánamo, destaque de Zii e Zie), jornalismo cultural (rebateu as críticas dos jornais de São Paulo ao show em homenagem a Tom Jobim que dividiu com Roberto Carlos), reforma ortográfica (criticou linguistas e atraiu um enxame deles para a discussão) e até futebol (elogiou a humildade dos jogadores do time pelo qual torce, o Bahia, por eles terem "se recusado" a golear o time do Poções numa partida válida pelo Campeonato Baiano). "Eu, tendo um blog dedicado a esse disco, não ia deixar de fazer o que sempre fiz", disse Caetano em entrevista a BRAVO!. "Antigamente, comentava as críticas que recebia no palco do show. Era superengraçado. Mas o blog foi criado para acabar quando o disco saísse. E assim será. Pode virar outra coisa ou simplesmente sumir. Continuar sendo o boteco virtual onde a gente conversa e discute é que não vai."

Por enquanto são raros os dias em que o cantor não surge no espaço reservado aos comentários para falar com a turma assídua do obraemprogresso.com.br. Em princípio, os músicos que formam a banda Cê — que começaram a trabalhar com Caetano no álbum de mesmo nome e seguem com ele em Zii e Zie — também deveriam usar o blog para escrever sobre o processo de confecção do álbum. Mas isso nunca ocorreu. O baixista e tecladista Ricardo Dias Gomes, de 28 anos (o mais jovem da Cê), confessa que a timidez o impediu de postar no blog, mas diz acompanhar as discussões e admirar o diálogo que se estabeleceu ali. "O Caetano é um brasileiro que vive a história do país intensamente. Viu muitas coisas se transformarem, e sua memória apurada faz com que suas análises tenham relevância acima da média e despertem outras mentes pensantes, o que faz o blog seguir em frente", opina.

Completam o time musical de Caetano o baterista Marcelo Callado, de 29 anos, e o guitarrista Pedro Sá, de 34. Por ser íntimo de Moreno Veloso, filho mais velho de Caetano, Pedro frequentava a casa do baiano desde a adolescência. Não tardou muito até ser convidado para entrar na banda de Caetano. Hoje, o guitarrista é visto como um dos principais responsáveis pela guinada artística dada pelo cantor a partir do disco Eu não Peço Desculpa, de 2002, gravado em parceira com Jorge Mautner. Pedro Sá é fã de bandas americanas como Pavement e Pixies, expoentes do que se convencionou chamar de rock alternativo ou indie rock, estilo em que as guitarras ruidosas são muito valorizadas. Ele soube adicionar essas influências tanto em quanto no novo álbum, sem que isso soasse forçado ou desconectado das intenções de Caetano. "O Pedro faz o papel que o Lanny Gordin fazia nos anos 60", compara Kassin, músico da Orquestra Imperial e produtor de Eu não Peço Desculpa, citando o guitarrista símbolo da tropicália, responsável por injetar rock nas obras de Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e tantos outros.

"Caetano sempre teve como característica essa sede, essa antena em riste, uma relação libidinosa com as coisas que acontecem a todo instante no mundo", interpreta Jonas Sá, irmão de Pedro e dono da voz cavernosa que encerra o álbum. Apesar de reafirmar a boa fase, Zii e Zie talvez não receba a aprovação quase unânime de — que, mais do que um disco de rock, é um disco simples, sem grandes pretensões e povoado por letras concisas. O novo CD nasce de uma vontade que Caetano tinha de "tratar levadas de samba com timbre elétrico forte". Seriam os "transambas", sambas com DNA modificado, executados por músicos de rock, com guitarra no lugar do cavaquinho. Ou seja, é um disco, a priori, de caráter experimental, ainda que Tarado ni Você, Sem Cais, A Cor Amarela e outras faixas tenham estrutura de canção pop. "A nova abordagem de aspectos do samba é sempre em torno do óbvio, mas é radical", classifica Caetano. De qualquer forma, não resta dúvida de que ele fez mais um trabalho que vai brigar por vaga no top 10 de grandes álbuns de sua carreira.


José Flávio Júnior

O Livro
Leite Derramado, de Chico Buarque. Companhia das Letras, 200 págs., R$ 36.

O CD
Zii e Zie (Universal), de Caetano Veloso. Produtores: Moreno Veloso e Pedro Sá. Preço médio: R$ 30.

Leia também:
• "
Chega de Verdade" - A íntegra da entrevista que Caetano Veloso concedeu a BRAVO!

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publicado às 18:22


Os Irmãos Mancuso

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.03.09


Os Irmãos Mancuso que tive o privilégio de conhecer

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publicado às 22:07


Bob Dylan - O Caminhante Solitário

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.09
Bob Dylan em Manhattan, em 1983. Ele gosta de passear a pé pelas ruas de Nova York desde a época em que namorava Suze Rotolo, nos anos 60

Bob Dylan em Manhattan, em 1983. Ele gosta de passear a pé pelas ruas de Nova York desde a época em que namorava Suze Rotolo, nos anos 60

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2009

O Caminhante Solitário

Gravações inéditas trazem Bob Dylan “do puro, do legítimo, do escocês”, sem interferência de parceiros ou produtores

Por Eurípedes Alcântara

 

Quando as coisas não dão muito certo em suas parcerias artísticas, Bob Dylan ativa um mecanismo de sobrevivência que parece ser seu estado natural. Ele some. Desaparece. Abandona tudo. Sai andando pela noite de New Orleans, Los Angeles, São Francisco, Montreal, Berlim, São Paulo... ou aonde quer que o leve a Never Ending Tour, o pé na estrada sem fim que serve de metáfora da sua vida. Nas caminhadas ele recupera um pouco daquela liberdade da juventude, quando subia a enregelada rua Thomas Paine, no Village nova-iorquino, de braços dados com a namorada Suze Rotolo apenas para "tomar um pouco de ar". Hoje ele anda só e busca sons novos, se detém a cada quebrada onde alguém toque algum instrumento. Na mais extraordinária dessas fugas, Dylan deixou o grande Grateful Dead, da lenda Jerry Garcia, no palco durante um dos ensaios do que viria a ser descrito por alguns críticos como uma bem-sucedida turnê. Não foi. Foi um porre. Um desencontro quase tão grande quanto Mick Jagger cantando Like a Rolling Stone como se a canção fosse uma homenagem a ele, ou Dylan e Paul Simon se apresentando juntos no Madison Square Garden. Os shows eram cabos-de-guerra com aquela química artificial de casais tentando se acertar com a ajuda de conselheiros externos. Dylan não via a hora de o tormento acabar — e acabou numa das caminhadas em São Francisco. Ele ouviu um velho e desconhecido tocar e cantar jazz de um jeito que descreveu mais tarde ao produtor musical Daniel Lanois como "o ruído feito por alguém dizendo uma verdade".

 

Ler resto da crónica aqui

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publicado às 13:39


Antony - The Crying Light

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.01.09
A propósito do novo álbum "The Crying Light", o Ípsilon falou com um dos regressos mais esperados do ano

No novo álbum "The Crying Light", Antony revela-se com aquela voz inigualável mas também diferente, com uma música mais elegante e intimista.

Em entrevista ao Ipsílon que publicamos na edição em papel de 6ª feira, 16, esclareceu que levou quase três anos a lançar o novo álbum - depois de "I Am A Bird Now" (2005) - porque é um insatisfeito, um perfeccionista, ao mesmo tempo que disse que nunca olha para as suas canções como sendo amarguradas. "Para mim, estão imersas em esperança".

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publicado às 13:34


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