Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#3013 - COM A DATA DE HOJE ||| POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

 

COM A DATA DE HOJE

 

Nas esquinas destas horas trnsitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA", COLEÇÃO PLURAL, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, JUNHO 2016

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:45


#3001 - POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

MÁRIO DIONÍSIO  |||  1916-1993

 

Nos despojos da cidade

atrás dos altos prédios ao avesso

veem-se telhados chaminés

negras de fumo vê-se o ferro

em movimento das gruas

 

Há gente que mora aqui

pessoas cães mortos vivos

em tugúrios fedorentos

 

Há lama e há excrementos

junto a montões gordurosos

sobre o lixo os solavancos

de amantes abjectos copulando

Rindo e saltando sobre dejetos

aqui e ali crianças brincando

que amanhã serão ladrões

 

Contra um muro em ruína

a fescura de uma flor

crescendo ingénua

 

Quem vem ela aqui fazer

entre destroços 

tão bela

 

A meus pés a vou pisar

por raiva ou por piedade

Esmago-a furiosamente

gesto viril e demente

 

para não chorar

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO POESIA COMPLETA, PÁGINA 296, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASADA MOEDA, JUNHO DE 2016, COLEÇÃO PLURAL

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:31


#2108 - Balada dos amigos separados

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.16

BALADA DOS AMIGOS SEPARADOS

 

Onde estais vós Alberto Henrique

João Maria Pedro Ana?

Onde anda agora a vossa voz?

Que ruas escutam vossos passos?

Ao norte? ao sul? aonde? aonde?

José António Branca Rui

E tu Joana de olhos claros

E tu Francisco E tu Carlota

E tu Joaquim?

Que estradas colhem vosso olhar?

Onde anda agora a vossa vida repartida?

A oeste? A leste? Aonde? aonde?

Olho prà frente prà cidade

e pràs outras cidades por tràs dela

onde se agitam outras gentes

que nunca ouviram vosso nome

e vejo em tudo a vossa cara

e oiço em tudo o som amigo

a voz de um a voz de outro

e aquele fio de sol que se agitava

sempre

em todos nós

Dançam as casas nesta noite

ébrias de sombra nesta noite

que se prolonga em plena angústia

aos solavancos do destino

e não consegue estrangular-nos

Sigo e pergunto ao vento à rua

e a esta ânsia inviolável

que embebe o ar de calafrios

Onde estais vós? onde estais vós?

E por detrás de cada esquina

e por detrás de cada vulto

o vento traz-me a vossa voz

a rua traz-me a vossa voz

a voz de um a voz de outro

toada amiga que me banha

tão confiante tão serena

Aqui aqui em toda a parte

Aqui aqui E tu? aonde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO RETIRADO DO LIVRO "POESIA COMPLETA" EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA 2016

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:17


#2107 - Um poema de Mário Dionísio

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.16

MÁRIO DIONÍSIO

 

eis-te de novo minha pátria inquietante

de esquinas fugidias nua aos perigos

de novo o fosso aberto o passo instável

as porteiras olhando os vizinhos olhando

e o riso frio das ilusões denunciadas

nas clareiras do espanto abertas pelo escuro

 

de novo tu minha pátria invisível

dos pontos cardeais em chama lenta

de novo tu minha pátria forçosa

do silêncio gritante e desolado

 

de novo as portas se nos fecham e os olhos

passam de largo e fingem não nos ver

de novo sós nas ruas alvejadas e de novo

os tijolos primeiros nos degraus hesitantes

cada um em seu posto a estrada vive entre folhas que voam

cada um em seu posto ergue-se a vida ao alto

 

vem coração aqui está a tua pátria

vem coração operário de outras horas

vem ledo e forte pelos bairros tristes

nas macieiras rompem as maçãs

desponta loiro o trigo no chão negro

é entre mortos que o futuro floresce

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA, 2016

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:49


#2101 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.09.16

img006.jpg

 MÁRIO DIONÍSIO

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:45


#1976 - 37

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.16

 MÁRIO DIONÍSIO

 

37

 

mil anos que viva não se apaga

a imagem sombria e vacilante

dum homem desconhecido numa esquina

com um lenço na mão manchado de sangue

 

uma imagem sombria e vacilante

cambaleante no regresso instável

das zonas baças onde o tempo pára

com um lenço na mão manchado de sangue

 

cambaleante no regresso instável

sem se lembrar da rua onde morou

só com uma ténue sombra do passado

no lenço na mão manchado de sangue

 

ninguém sabia a sua história

ninguém ouvira a sua voz

de seu só tinha bem pesado

um lenço na mão manchado de sangue

 

não tinha voz não tinha nome

não tinha pais não tinha amigos

não tinha lar só tinha um lenço

na mão manchado de sangue

 

Poema de Mário Dionísio [1916-1993] in "O Riso Dissonante", 1950

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:44


#1386 - Para ser lido mais tarde

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.11

Mário Dionísio

 

 

Um dia

quando já não vieres dizer-me Vem

jantar

 

quando já não tiveres dificuldade

em chegar ao puxador

da porta quando

 

já não vieres dizer-me Pai

vem ver os meus deveres

 

quando esta luz que trazes nos cabelos

já não escorrer nos papéis em que trabalho

 

para ti será o começo de tudo

 

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos

um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

 

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo

Ouvirás com encanto alguém que não conheço

nem talvez ainda exista neste instante

 

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

 

E nem mesmo uma lembrança amarga

ou doce ficará

desta hora redonda

em que ninguém repara

 

Poema escrito por Mário Dionísio em 1953

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:17


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas