Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#2752 - Barricada

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.01.18

Quando já não pudermos mais chorar e as palavras forem pequeninos suplícios e olhando para trás virmos apenas homens desmaiados, então alguém saltará para o passeio, com o rosto já belo, já espontâneo e livre, e uma canção nascida de nós ambos, do mais fundo de nós, a exaltar-nos!

 

Tu sabes se te quero e se fomos os dois abandonados, abandonados para uma bandeira, para um riso que sangre, para um salto no escuro, abandonados pelos lúgubres deuses, pelo filme que corre e desaparece, pela nota de vinte e um pedais, pela mobília de duas cadeiras e uma cama feita para morrer de nojo. Minha criança a quem já só falta cuspir e enviar o corpo e bens para a barricada, meu igual, tu segues-me; tu sabes que o caminho é insuportavelmente puro e nosso, é um duende gritando no telhado às ervas misteriosas, é um rapaz crescendo ao longo dos teus braços, é um lugar para sempre solene, para sempre temido! E o Rossio é uma praça para fazer chorar. Salvé, ò  arquitectos! Mas choraremos tanto que será um dilúvio. Automóveis-dilúvio. Sobretudos-dilúvio. Soldadinhos-dilúvio. E quando essa água morna inundar tudo, então, ò arquitectos, trabalhai de novo, mas com igual requinte e igual vontade: vinde trazer-nos rosas e arame, homens e arame, rosas e arame.

 

Poema de Mário Cesariny, página 193, do livro "POESIA", edição Assírio & Alvim, Novembro de 2017

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:55


#2744 - Estado Segundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.01.18

 

 ESTADO SEGUNDO

 

No meio duma vedação circular, esperava a ocasião favorável

a ignominiosos projectos de entrada. E todas as noites, depois

do jantar, a comissão de dança abarrotava de gente.

Examinaram o anel pondo-o de parte, ainda dentro do quarto.

Qualquer coisa ardia ao contrário, com frieza de ânimo e contrariamente à expectativa.

Fixaram, também, com virginal indignação, o grande quadro a óleo que pendia do tecto,

certamente um ex-militar pois no seu casaco farraposo havia fitas de medalhas.

A cancela rangia docemente quando, na mão de alguém, uma ponta de preocupação se tornou de um

cinzento pouco recomendável.

- Não, muito obrigado...

O dia surgiu a partir da fachada. Não havia neles cabelos bancos nem uma só linha que estivesse seca.

 

POEMA DE MÁRIO CESARINY RETIRADO DO LIVRO "POESIA", PÁGINA 265, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM (PORTO EDITORA), NOVEMBRO DE 2017

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:44


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

mario cesariny poesia003.jpg

Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:38


#1702 - Discurso sobre a reabilitação do real quotidiano

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.06.12

no país no país no país onde os homens

são só até ao joelho

e o joelho que bom é só até à ilharga

conto os meus dias tangerinas brancas

e vejo a noite Cadillac obsceno

a rondar os meus dias tangerinas brancas

para um passeio na estrada Cadillac obsceno

 

e no país no país e no país

onde as lindas raparigas são só até ao pescoço

e o pescoço que bom é só até ao artelho

ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,

chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,

recordo os meus amores liames indestrutíveis

e vejo uma panóplia cidadã do mundo

a dormir nos meus braços liames indestrutíveis

para que eu escreva com ela, só atá à ilharga,

a grande história do amor só até ao pescoço

 

e no país no país que engraçado no país

onde o poeta o poeta é só até à plume

e a plume que bom é só até ao fantasma

ao passo que o fantasma - ora aí está -

não é outro senão a divina criança (prometida)

uso os meus olhos grandes bons e abertos

e vejo a noite (on ne passe pas)

diz que grandeza de alma. Honestos porque.

Calafetagem por motivo de obras.

É relativamente queda de água

e já agora há muito não é doutra maneira

no país onde os homens são só até ao joelho

e o joelho que bom está tão barato

 

Poema de Mário Cesariny (1923-2006)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:09


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas