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#2844 - The Golden Man Booker Prize

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.07.18

The Golden Man Booker Prize

 Michael Ondaatje, com o livro "O Doente Inglês", foi o vencedor como o melhor Prémio Man Booker dos últimos 50 anos.

O livro foi editado em Portugal pela editora Dom Quixote em 1996 coincidindo com o ano do lançamento do filme com o título "O Paciente Inglês".

 

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Escritor de nacionalidade canadiana, Michael Ondaatje nasceu a 12 de setembro de 1943, no Ceilão. De raízes étnicas holandesas e indianas, estudou em Colombo até à altura em que acompanhou a mãe quando esta se mudou para Inglaterra em 1954.

Tomou os seus estudos secundários em Londres e, assim que os concluiu, mudou-se para o Canadá, chegando à cidade de Toronto no ano de 1962. Matriculou-se então na Universidade de Toronto e, após ter conseguido o bacharelato em 1965, transitou para a Queen's University de Ontário, de onde obteve a licenciatura dois anos depois. Deu portanto início a uma carreira como professor universitário e tomou a cidadania canadiana.
Estreou-se como escritor em 1967, ao publicar uma coletânea de poemas intitulada The Dainty Monsters. Seguiram-se The Man With Seven Toes (1969) e Rat Jelly (1973) até que Ondaatje acabou por ser reconhecido ao aparecer com The Collected Works Of Billy The Kid(1970), obra que lhe valeu um prémio literário atribuído anualmente pelo governador canadiano. Repetiu esta façanha em 1979 com o trabalho There's A Trick With A Knife I'm Learning To Do (1963-78).
Em 1976 publicou o seu primeiro romance, Coming Through Slaughter, no qual contava a história de um músico de jazz da Nova Orleães dos Anos 30. A obra, vencedora de um prémio literário, foi seguida por Running In The Family (1982), obra de carácter autobiográfico, e por In The Skin Of A Lion (1987), em que Ondaatje procedia a uma reflexão sobre o fenómeno da imigração. No ano de 1992, Ondaatje publicou a obra que se veio a tornar a mais conhecida, The English Patient (O Paciente Inglês). Vencedor, entre outros galardões, do Prémio Booker, o romance descrevia uma história de amor durante o período da Segunda Guerra Mundial. Foi adaptada para o cinema e, revelando-se um enorme sucesso de bilheteira, recebeu um Óscar da Academia norte-americana na categoria de melhor filme.
Em 1999, Ondaatje tornou a despertar as atenções do público e da crítica, ao surgir com um volume de poemas intitulado Handwriting. No ano de 2000 publicou um quarto romance, Anil's Ghost, obra que revertia para as suas origens singalesas.

Michael Ondaatje. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011

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publicado às 18:55


#2842 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.07.18

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O músico e escritor Kalaf Epalanga, membro da banda Buraka Som Sistema, dirige-se de autocarro da cidade sueca de Gotemburgo para Oslo, a capital da Noruega, onde vai actuar nessa noite no festival OYA. 
Como não tem um passaporte válido para mostrar é detido por tentativa de imigração ilegal e conduzido à esquadra da polícia para interrogatório. Aflito perante a iminência de perder o concerto, interroga-se: como vou explicar a estes polícias noruegueses que, apesar do meu aspecto pouco comum por estas paragens não sou mais que um pacífico músico angolano em digressão? Conseguirei explicar-lhes quem são os Buraka Som Sistema? Falo-lhes da cena musical de Lisboa? De como nasceu o Kuduro num musseque de Luanda? Eles irão perceber? Esta é a história deste extraordinário e surpreendente livro de Kalaf Epalanga. 

Trata-se na realidade de uma obra de auto-ficção, cultivada por tantos escritores europeus mas relativamente rara entre nós. E o mundo que nos mostra - de Luanda a Kristiansund, de Beirute ao Rio de Janeiro, sem esquecer a sua amada Lisboa - é uma autêntica revelação

 

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Músico, cronista e editor discográfico. Nasceu em Benguela, em Fevereiro de 1978, cresceu numa família de funcionários públicos, com ligações a vila da Catumbela, lugar que visita com regularidade, na tentativa de traçar um mapa afetivo com as pessoas e lugares que habitam a sua memória. Na segunda metade dos anos 90 mudou-se para Lisboa, com o objetivo de obter a melhor formação académica possível e regressar a Angola. No entanto esses dois desejos sofreram um desvio quando se viu sem as rédeas familiares e um mundo novo a revelar-se diante de si. Mergulhou, aprendeu com quantos baldes de cimento se faz uma parede, e qual o ponto de cozedura do arroz para sushi. Aprendeu a ouvir Jazz e a apreciar arte e design tão intensamente, a apreciar que o regresso a Angola ficou adiado por tempo indeterminado. A aventura poética iniciou-se nos finais de1998, numa altura em que Lisboa ensaiava novas linguagens rítmicas, buscando novos caminhos para a música urbana feita em português - multiplicou-se em colaborações, criando cumplicidades artísticas com Sara Tavares, Sam The Kid, Type, Nuno Artur Silva, entre outros, e, em 2003, juntou-se ao produtor João Barbosa, formaram o duo 1 Uik Project e fundaram a Enchufada, núcleo de produção musical, editora independente responsável pela edição do projeto Buraka Som Sistema, e com estes partiu para o mundo.

 

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publicado às 19:56

Luís de Camões, Poesia
Foto
FERNANDO VELUDO/NFACTOS

 

 

O poeta Daniel Jonas é o vencedor da 23.ª edição do Grande Prémio da Literatura dst, no valor de 15 mil euros, com a obra Oblívio (Assírio & Alvim, 2017).

 

Em comunicado, a organização do prémio literário, que já distinguiu autores como Mário Cláudio, Luísa Costa Gomes, Armando Silva Carvalho, Jacinto Lucas Pires e Maria Velho Costa, destaca em Oblívio o "trabalho textual, muito depurado, assumindo uma linguagem de timbre clássico, para melhor encontrar uma clara modernidade de temas e formas". A obra, continua o júri, distingue-se também "pelas evidências cultas, sensíveis, de uma criação poética que não se alheia do quotidiano nem da emoção".

Daniel Jonas é poeta, dramaturgo e tradutor. Enquanto poeta, haviam já merecido atenção os anteriores Sonótono (Cotovia, 2006), que lhe valeu o prémio PEN de Poesia, Passageiro Frequente (Língua Morta, 2013), com que foi candidato ao prémio Poeta Europeu da LiberdadeNó (Assírio & Alvim, 2014), Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes da Associação Portuguesa de EscritoresBisonte (Assírio & Alvim, 2016).

 

Em 2012, Daniel Jonas foi distinguido com o Prémio Europa David Mourão-Ferreira, da Universidade de Bari/Aldo Moro, pelo conjunto da obra.

 

O Grande Prémio de Literatura dst foi instituído há mais de duas décadas pelo dstgroup e é entregue de forma rotativa, distinguindo num ano poesia e no ano seguinte prosa.

 

O prémio será entregue no dia 29 de Junho, numa cerimónia integrada na Feira do Livro de Braga.

 

JORNAL PÚBLICO

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publicado às 08:38

 

 Antonio Muñoz Molina, escritor espanhol, vai estar hoje na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance "Como a Sombra que Passa", edição portuguesa da Ponto de Fuga.

O livro, finalista da edição deste ano do Prémio Man Booker Internacional, trata o assassinato de Martin Luther King ocorrido em 4 de Abril de 1968, e do percurso do seu assassino James Earl Ray desde o crime até à sua captura, incidindo particularmente nos dias que passou em Lisboa durante a sua fuga.

 

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Antonio Muñoz Molina nasceu em Úbeda, na província andaluza de Jáen, em 1956. Mundialmente reconhecido como um dos maiores escritores atuais em língua espanhola, é autor de mais de uma quinzena de romances, duas recolhas de contos, além de numerosos ensaios e escritos jornalísticos. De entre a sua obra narrativa foram publicados em Portugal Beatus Ille (1986), O Inverno em Lisboa (1987), Beltenebros (1989), O Cavaleiro Polaco (1991), Os Mistérios de Madrid (1992), Nada do Outro Mundo (contos, 1993), O Dono do Segredo (1994), Ardor Guerreiro (1995), Plenilúnio (1997), Carlota Fainberg (2000), Na Ausência de Blanca (2001), Sefarad (2001) e O Vento da Lua (2006). Duas vezes vencedor do Premio Nacional de Narrativa (1988 e 1992) e galardoado com o Premio Príncipe de Asturias pelo conjunto da sua obra (2013), é membro da Real Academia Española desde 1995. Vive entre Madrid e Lisboa e é casado com a escritora Elvira Lindo. 

(Este texto foi retirado do «sítio» da WOOK)

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publicado às 07:42


#2829 - Poema de Hilda Hilst

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.04.18

HILDA HILST

 

Alcoólicas (trechos)

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

 

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

 

Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

 

POEMA DE HILDA HILST

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publicado às 18:26


#2823 - LIVROS [LANÇAMENTOS PREVISTOS PARA ESTE MÊS ]

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.04.18

Uma nova edição do "Fausto" de Fernando Pessoa, os contos completos de Marcel Proust e o novo romance de Salman Rushdie, "A Casa Golden": estes são alguns dos lançamentos que pode esperar em abril.

 

O mês de abril vai ficar sobretudo marcado por bons lançamentos de ficção

Getty Images/iStockphoto/MaskaRad

Livros de ficção

A Tinta-da-China vai publicar, neste mês de abril, uma nova edição de Fausto, de Fernando Pessoa. A obra, inacabada, foi editada pela primeira e única vez em 1988 por Teresa Sobral Cunha, com prefácio de Eduardo Lourenço. Esta será, portanto, a primeira edição nova em 30 anos. Da responsabilidade de Carlos Pittela (co-autor de Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida), esta nova edição de Fausto será também a primeira a ter aparato crítico.

 

A E-Primatur vai editar Contos Completos e Outros Textos, de Marcel Proust enquanto que pela Elsinore vai sair O Gato, o Ankou e o Maori, de Michel Rio, e A Devastidão do Silêncio, de João Reis. Já a Cavalo de Ferro vai publicar A Mente Aprisionada, de Czeslaw Milosz, e A Língua Resgatada, de Elias Canetti, na continuação da publicação das obras do escritor búlgaro. A Alfaguara vai publicar Tu não és como as outras mães, de Angelina Schrobsdorff.

A Língua Resgatada, do Prémio Nobel da Literatura Elias Canetti, vai sair no dia 16 de abril pela Cavalo de Ferro

 

A Livros do Brasil vai editar neste mês de abril Um Crime em Glenlitten, de E. Phillips Oppenheim, o novo volume da coleção “Vampiro”, e Um Diário Russo, o relato da viagem que John Steinbeck fez pela Rússia do pós-Segunda Grande Guerra, com fotografias de Robert Capa. A Porto Editora vai publicar Burgueses somos nós todos ou ainda menos, de Mário de Carvalho, e O Caderno, um volume com textos escritos por José Saramago entre setembro de 2008 e março de 2009.

 

Depois de Dois Irmãos, a Companhia das Letras vai editar Relato de um certo oriente, do brasileiro Miltom Hatoum. “Entre o Oriente e o Amazonas, este é o relato da procura de um mundo perdido, como perdidos estão sempre os lugares das nossas recordações. Nele, as memórias fluem como o rio, entre este e oeste, entre cidade e selva, entre vida e morte”, refere a editora. “Carregado do magnetismo e beleza da Amazónia, submerso no lirismo doce e envolvente da escrita de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente traz o sopro das obras que vieram para ficar.”

 

Companhia das Ilhas vai publicar Puta de Filosofia, de Carlos Alberto Machado, “um romance político-policial, polvilhado por cenas eróticas, literárias e gastronómicas”. Pela Caminho vai sair, a 24 de abril, Juncos à beira do Caminho, um livro de poesia de Francisco José Viegas. É também mais ou menos na mesma altura que vai chegar às livrarias Poemas Escolhidos, do poeta inglês William Wordsworth, com chancela da Assírio & Alvim.

A Companhia das Letras vai publicar outro romance do premiado escritor brasileiro Milton Hatoum. Relato de um certo oriente chega às livrarias a 17 de abril

 

A Dom Quixote vai publicar Memórias Secretas, de Mário Cláudio, Autobiografias Alheias, de Antonio Tabuchi (cujos seis anos da sua morte serão assinalados em abril pela Fundação Calouste Gulbenkian com uma série de iniciativas), A Casa Golden, o novo romance de Salman Rushdie, e A Mãe, de Pearl S. Buck. Pela Planeta vai sair Beren e Lúthien, de J.R.R. Tolkien.

 

A ASA vai lançar uma nova edição de A Trança de Inês, o romance de Rosa Lobato de Faria que deu origem ao filme “Pedro e Inês”, realizado por António Ferreira, e Tempo Suspenso, de Elizabeth Jane Howard. A Guerra & Paz vai publicar três clássicos: Drácula, de Bram Stoker, O Alienista, de Machado de Assis, e A Letra Escarlate, de Nataniel Hawthorne.

Livros de não-ficção

A Dom Quixote vai editar Maio de 68. Uma Contrarevolução conseguida, de Régis Debray, A Ordem do Dia, de Éric Vuillar, vencendor do Prémio Goncourt em 2017, e À conversa sobre negociações – um diálogo sobre a arte da negociação ao longo da História, de José Miguel Júdice e Pedro Fontes Falcão. A BookBuilders vai lançar em abril O Mar, Uma História Cultural, de John Mack (com prefácio de Álvaro Garrido).

 

A Guerra & Paz vai publicar Cabinda – Um Território em Disputa. Organizado pelo jornalista e ativista Sedrick de Carvalho, o livro reúne “ensaios de oito autores influentes e decisivos, mostrando diferentes perspectivas sobre a questão e o estatuto do território” angolano, refere a editora. Pela Ítaca — que agora pertence à Relógio d’Água — vai sair Mercadores de gente  Como os jiadistase o Estado Islâmico transformaram o rapto e tráfico de refugiados num negócio multimilionário, uma investigação meticulosa da jornalista e economista italiana Loretta Napoleoni sobre a indústria do rapto no Médio Oriente e Norte de África.

Cabinda — Um Território em Disputa, com organização de Sedrick Carvalho, vai ser publicado já no dia 3 de abril pela Guerra & Paz

 

A Saída de Emergência vai lançar Lava-Jato, a investigação do jornalista brasileiro Vladimir Netto sobre o complexo processo de corrupção e lavagem de dinheiro que já deu origem a mais de mil mandados de busca, apreensão e detenção no Brasil. Pela Planeta vai sair A Filha do Profeta, de Rachel Jeffs.

 

Informação retirada do jornal online "Observador" e cuja autora é Rita Cipriano

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publicado às 07:45


#2815 - sob a voz contraída da poesia [um poema de Rosa Oliveira]

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.18

podia bordar a minha cara 

sobre tantas caras

do mundo

(abro parêntese

nele entra o voo desta paisagem

tão inútil

como mudar uma vírgula a alguém)

 

rostos que só vimos um momento

rostos que encontramos pelo caminho

os últimos momentos de um rosto

as ideias que se têm sobre um rosto

os seus longos trajectos ínvios

desde o latim liceal

o dorso dos rostos coberto de mato

 

olhos débeis palpitam dentro dos olhos

mal nos deixam ver os rostos nublados

por excesso de vegetação

palpitam

sobrepõem-se páginas de rostos

vemos rostos nos rostos

há rostos que choram tanto

que acabam por se partir

 

um molho de folhas arrefece

entre os meus olhos líricos de cortiça

por vezes olhamos para o espelho

não há nada lá dentro

por vezes morremos na rua

reflectidos nos vidros partidos

da varanda materna

no clarão intempestivo do fósforo

ilusão fulgurante

 

morremos um pouco

na mudança de linha

em cada parágrafo

mal assinalado

 

alguém

espera o primeiro choro da criança

para entrar nela

ainda suja da lama genética

 

venceste a insidiosa

a cadela que exige sangue

(julgas tu...)

 

Poema de Rosa Oliveira in tardio

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publicado às 18:07


#2814 - JACQUELINE WOODSON VENCE PRÉMIO LITERÁRIO ASTRID LINDGREN

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.18

Link to: More about Astrid Lindgren

Good literature gives the child a place in the world and the world a place in the child.

 

 JACQUELINE WOODSON

 

Jacqueline Woodson, escritora norte-americana, venceu o Prémio Literário Sueco Astrid Lindgren (ALMA). Estavam nomeados, também, o projecto teatral Andante e os autores André Letria e Maria Teresa Maia Gonzalez.

 

Este prémio literário - Astrid Lindgren Memorial Award - foi criado pelo governo sueco em 2002 e tem como objectivo reconhecer anualmente o trabalho de um autor, ilustrador ou organização na promoção da leitura e do livro infanto-juvenil.

 

Jacqueline Woodson nasceu em Brooklyn no ano de 1963, e é autora de mais de trinta obras que se dividem pelo romance, poesia e livro ilustrado para a infância sendo o mais conhecido o seu livro autobiográfico "Brown girl dreaming" que lhe deu em 2014 o Prémio Nacional de Literatura.

 

A Biblioteca do Congresso nomeou-a embaixadora nacional para a literatura para jovens.

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publicado às 22:23


#2812 - Recordar a obra de Dick Haskins

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.03.18
 
 
 
 

Nascido em Lisboa, a 11 de Novembro de 1929 e falecido a 21 de Março de 2018, foi defensor do princípio de que um escritor nasce com a vocação para escrever, António de Andrade Albuquerque (que usou o pseudónimo de Dick Haskins nas obras do género policial) sentiu inclinação para a produção literária desde a adolescência. Escreveu contos que se perderam no fundo de uma gaveta e no tempo, teceu e orientou os argumentos das aventuras que todos «vivemos» com os amigos na juventude que, de uma forma ou outra, deixa sempre um rasto de saudade, ouviu e nunca esqueceu o que o seu Professor de Português no Liceu de Passos Manuel, em 1942, lhe vaticinou tornar-se um dia escritor, mas ainda viria a hesitar entre a Medicina e a Literatura.

Contudo, o vaticínio do Professor António José Saraiva prevaleceu; Andrade Albuquerque, já casado e trabalhador-estudante na altura, abandonaria o já iniciado curso de Medicina e optaria pela profissão de escritor, embora continuasse, por gosto, em contacto com a ciência médica através de diversos meios.

O Sono da Morte - Capa do Livro

Em 1955, surpreende-se com a aprovação do primeiro livro que escreveu, O Sono da Morte. Uma semana depois de o ter submetido à apreciação da Empresa Nacional de Publicidade, proprietária de um dos principais jornais portugueses, o «Diário de Notícias». Mas não seria este, afinal, o passo decisivo que iria consolidar a sua profissão de escritor. A colecção na qual o seu primeiro livro iria ser publicado saía ao ritmo de dois a três volumes por ano, o que deu origem a que aquela obra só fosse editada em 1958, ano em que criava a Colecção Policial Enigma e ingressava nas Edições Ática como director e autor da mesma.

Em 1961, foi editado pela primeira vez no estrangeiro – em Espanha e em diversos países da América do Sul – através da Editorial Molino. Em 1963, as editoras alemã Wilhelm Goldmann Verlag, de Munique, e Krimi Verlag AG, de Wollerau, Suíça, contratam oito dos seus livros já então escritos e publicados no idioma original, para publicação na Alemanha, Áustria e Suíça, e o editor Plaza & Janés, de Barcelona, publica dois títulos em Espanha e na América do Sul.

Seguir-se-iam outros países a partir de 1963, França, Itália, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Estados Unidos, México, Colômbia, Argentina, Uruguai e Brasil o que, realmente, consolidou a decisão anteriormente tomada de optar pela profissão de escritor.

Ainda na década de sessenta, a RTP – Radiotelevisão Portuguesa – produz e apresenta no programa «Noite de Teatro» a adaptação da sua novela «Fim-de-Semana com a Morte» com o título de O Caso BardotA mesma novela, mantendo o título original, é adaptada ao cinema numa co-produção internacional – Portugal, Espanha e Alemanha  – filme que foi protagonizado por António Vilar, Peter Van Eyck e a italiana Letícia Román, dobrado em diversos idiomas e apresentado em vários países, entre eles os Estados Unidos.

 

LER O RESTO AQUI

 

Todas as Obras (24)

 
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publicado às 10:04


#2810 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.18

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CANÇÃO

 

Queria que estivesses aqui comigo, querida,

Queria que estivesses aqui comigo.

Queria que te sentasses no sofá

e eu sentava-me ao teu lado contigo.

O lenço, o teu podia ser,

e minha era a lágrima, até ao queixo.

Mas, claro, podíamos inverter

os respectivos papéis.

 

Queria que estivesses aqui xomigo, querida,

Queria que estivesses aqui comigo.

Queria que estivéssemos no meu carro,

meter as mudanças era contigo.

Quando parássemos, daríamos

por nós algures, numa costa ignorada.

Ou então regressaríamos

à nossa antiga morada.

 

Queria que estivesses aqui comigo, querida,

Queria que estivesses aqui comigo.

Queria não saber nada de astronomia

quando as estrelas aparecem e as sigo,

quando a lua a água coa

que a dormir se mexe e suspira sem parar.

Queria ainda que a lua fosse uma moe

da para te telefonar.

 

Queria que estivesses aqui comigo, querida,

aqui neste hemisfério,

agora que estou na varanda sentado,

a beber uma cerveja.

Cai a tarde, o sol está a pôr-se;

ouvem-se rapazes aos berros e gaivotas a gritar.

Que interesse tem esquecer,

se se lhe segue morrer?

 

                      1989

 

Poema de Iosif Brodskii

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publicado às 16:53


#2805 - DÚVIDA SOBERANA (À memória de Wislawa Szymborska)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.03.18

Não seremos puros, anuncia o poema.
Grão de areia havemos de conter,
o zumbido das moscas, música propícia
do âmago das infinitas brumas declararemos.
Das estrelas apenas o pulsar negro
havemos de saudar.

 

Grande calamidade a dor de um único
homem. Por isso odes não cantaremos
às esferas, mas as perturbações geológicas
saudaremos com grave equilíbrio,
se bem que com considerável afoiteza
rodopie dentro de nós o tempo zombador.

 

Se forças nos faltarem para gizar os grandes
voos, um murmúrio seco será então o penhor
da nossa vontade, porquanto mais amamos
o instante em que o espírito sangra
que as fileiras de preciosos pensamentos
dispostos em camadas seculares.

 

Certamente os olhos brilharão quando o rude chão
os pés tocarem e um oh soltarmos diante
do mundo que se revela. Morte, definitivamente
sim, mas só aos bocados deglutiremos,
talvez à espera do olvido impossível.

 

O privilégio do silêncio proclamaremos
diante das pedras cujos milénios não contaremos.
O infinito tocaremos só ao de leve, que nossos
curtos braços são precisos para dar à manivela
à celeridade triunfante.

 

Ressonância terá acolhimento em nosso
seio, mas não debateremos se será matéria
reciclável, pelo menos enquanto nos interrogar
a face esfolada de um único vivo. Alta metafísica,
devolver à procedência. Contrato rescindir com
o desassossego que não seja o eco
da própria vida a debater-se.

 

Beleza, só a lacerada daremos guarida,
a que emerge dos escombros que dão nome
à derrota, atiça a fome do que não há,
improviso irrepetível, fagulha em extinção,
oração que não redime, mas persiste
impertinente como maleita gerada pela nossa
retumbante miséria.

 

No entanto, generosos seremos sempre
com as barrigas inchadas, os olhos esbugalhados,
as falanges sem ardor, e por vós testemunharemos,
silenciosas musas, tudo o que é indigno da vossa
majestade, e à vossa presença o levaremos em inefáveis
vestes envolto, sem nada que provoque riso ou cólera.

 

Contudo, eternidade alguma almejaremos,
sequer a simples verdade, tributos por demais
pesados para as nossas frágeis canelas,
mas bem vinda seja um pouco ou toda a vivaz
liberdade brotada da carne da pura imaginação,
ainda que amiúde rendida à vénia conveniente.

 

No entanto permiti que protestemos
contra a alegre despreocupada cor azul
à ilharga das pancadas que o escuro arreia
em nossas junturas, não sabendo nós
com que intenções, salvo que nos salta ao caminho
com um alforge de incontáveis repenicantes ruídos.

 

Uns soluços amealharemos, mas paisagem
de sentimentos não seremos. Um momento
de deslumbramento, e é tudo — voltamos à inicial
mudez da pedra que fala, se interrogada com
os instrumentos convenientes. Não recriminaremos
a pressa se for o vento golfando sobre os povoados.
Abraçar a chuva é excepção permitida, conquanto
nos deixe o hirto pescoço à flor do dilúvio assomado.

 

Não remiraremos nas águas lustrais o perfil
primitivo ou a felina destreza com que saltávamos
de constelação em constelação, quando com delicadas
luvas o cosmos acolhedor afagávamos e em nosso
cálido regaço o mundo nem ao de leve cedia
ao apalpar inclemente; porém a máscara mais
esfarrapada afilaremos não para o fingimento
nos entreactos em que com esbracejante vigor
alinhavávamos os grandes temas — tempo, solidão,
eternidade —, mas para o desconsolo nosso
ocultarmos e não ofendermos a glória farejada,
a alta omnisciência que escarnece do nosso
desabrochar impuro, ou do assomo farfalhante
de um oceano de dúvidas.

 

Um bom dia de carantonha ressequida embora
acolheremos quando inferno de pó abraça
a cintura do território, mas não usaremos coloridas
lentes de ler da pedra o movimento, porquanto
confiamos na imobilidade primordial,
e um estremecer fortuito é normal,
seja vivo ou inanimado o assediado pelo temporal.

 

O sol consentiremos bem repartido pelas
unhas, cabelos e pele, inda que momentaneamente
uma nuvem escale o topo das preocupações
sensíveis. Daí termos a alma de prevenção,
mas bem trancada, que se insinua em tudo, a danada.

 

A mudança e a metamorfose aplaudiremos,
mesmo se com elas trazem a defenestração fatal.
Motivo de profundo regozijo será para nós
o olhar desdenhoso dos circunstantes
quando arribados à soleira declararmos
«saudações, senhores, somos a peregrina poesia».

 

Infinitamente compreensivos seremos
com o desiludido que logo se retira grunhindo
«isto não é um poema», mas milagres não
prometeremos, pelo menos nesta estação ou safra:

 

nas costas corsárias na flibusta outrora embrenhados,
até o ar expelir agora nos custa. Mas asas e bico
de rapina na imaginação teremos e, eia avante
agigantados ante a treva, com lume nos ossos
e bocejo rangente às lacustres moradas então
retornaremos (as sublimes mansões derruídas
foram pela mão do tempo), ao imo do primeiro
ovo, e seremos pão do povo, se pólvora já não
podemos, sequer a simples pedra que se atira
ao cocuruto do destino, aos fundilhos do infinito.

 

De borco, com o suor do esforço,
ergueremos já não as cidades futuras
onde o passado é longo e refulgente
e batedores trazem novas dos feitos imorredoiros,
mas um sítio apenas onde poisar a cabeça
espreitando o milagre corriqueiro.

 

Por isso mensageiros já não somos do estertor
dos tiranos nas praças do mundo enforcados,
mas reflectimos logo de manhã a taxa de madrugada
lançada sobre o nascente raio de sol, sobre a viela
que pisamos, e o abraço retribuído com um
entusiasmo de caveiras nas fileiras dos crematórios.
Decerto baixará o rating da dívida, mas aumentará
a soberana dúvida sobre nosso poder de esconjuro e dolo.

 

Um último suspiro porém guardaremos para gritar
«poesia ou morte», de tal sorte que nosso retorcido
esqueleto em mil estilhas se espalhará. Nossa eterna
tristeza, nossa definitiva derrota porém seria
todo o leitor aqui chegado não declarar
«algo aqui há a acrescentar».

 

Poema de José Luiz Tavares

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publicado às 22:15


#2803 - Cidade Velha Revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.03.18

JOSÉ LUIZ TAVARES

 

CIDADE VELHA REVISITADA

 

Darling, agora que mareio

ao descompasso desta chuva,

num maxixe bem swingado,

é vida esse eco que escoa

ao rasgão do frio na pele?

 

No sossego delatado

pela voz de um búzio,

dói, darling, essa distância

em que tudo se faz cerração

 

e o pensamento declina

ao gosto da época,

mesmo se a safra é agora

o pólen que fica nos dedos

e evoca longínquas serranias.

 

Ó, darling, o mundo

é esta derme que escurece

enquanto a boca mastiga

a heteronímica dúvida

se o homem é apesar

da sua pele ou da faca

que lhe fincam ao invés.

 

Sangra-me essa dúvida, darling,

num derrame prolongado,

e é sem respostas que me enrolo

à poeira que desumidifica

o rufar de domingo,

 

enquanto, ao débito da calema,

subo, darling, humílimo transeunte,

até onde o deus se acocora

e  entre gritos selvagens

vinco-lhe na boca

a limpidez que supusera

as primícias do teu nome.

 

POEMA DE JOSÉ LUIZ TAVARES

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publicado às 17:19

LITERATURA-MUNDO COMPARADA: PERSPECTIVAS EM PORTUGUÊS I

Mundos em português (Vol. 1 e 2)

Helena Carvalhão Buescu (coord.) | Inocência Mata (coord.)

 

A MAIS AMBICIOSA DAS ANTOLOGIAS EM PORTUGUÊS REÚNE TEXTOS LITERÁRIOS DE TODO O MUNDO EM SETE VOLUMES


Luís de Camões, Fernando Pessoa, Mia Couto, Maria Teresa Horta, José Eduardo Agualusa, Machado de Assis, Herberto Helder, Paulina Chiziane, Nelson Rodrigues, Eça de Queirós, Clarice Lispector, José Luandino Vieira, Germano Almeida e Sophia de Mello Breyner Andresen são apenas alguns dos mais de cem escritores representados na primeira parte da antologia Literatura-Mundo Comparada: Perspectivas em Português.

Estes dois primeiros volumes, que constituem a parte «Mundos em Português», fazem uma leitura ampla de grande parte da literatura escrita originalmente em português. Os volumes seguintes incluem uma parte dedicada à literatura europeia e outra com a literatura do resto do mundo.
 
Informação retirada do sítio da Editora Tinta-da-China
 
____________________________________________________

Há antologias que marcam uma época, inauguram novas leituras, sugerem muitos estudos. Literatura-Mundo Comparada, Perspetivas em Português reclama esse estatuto, ao propor um olhar panorâmico e planetário da criação literária desde os textos fundadores aos escritores revelados até ao ano 2000. Serão sete volumes (os dois primeiros acabam de chegar às livrarias) com poemas, contos ou excertos de romances de alguns dos mais representativos (e por vezes esquecidos) autores da tradição cultural de língua portuguesa, da Europa e dos outros mundos do mundo. A coordenação é de Helena Carvalhão Buescu. Leia aqui o artigo de António Carlos Cortez

 

 

 

O texto foi escrito por António Carlos Cortez para o JL-Jornal de Letras

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publicado às 09:08

 

Inundação

 

Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança.

 

A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite que do dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e verso? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre.

 

Certa vez, porém, de nossa mãe escutamos o pranto. Era um choro delgadinho, um fio de água, um chilrear de morcego. Mão em mão, ficamos à porta do quarto dela.
Nossos olhos boquiabertos. Ela só suspirou:

– Vosso pai já não é meu.

Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para além do espanto, se revelaram os vestidos envelhecidos que meu pai há muito lhe ofertara. Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os vestidos se desfizessem em pó e, como cinzas, se enevoassem pelo chão. Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo.

– E agora – disse a mãe -, olhem para estas cartas.

Eram apaixonados bilhetes, antigos, que minha màe conservava numa caixa. Mas agora os papéis estavam brancos, toda a tinta se desbotara.

– Ele foi. Tudo foi.

Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito. Dormia no chão. A ver se o rio do tempo a levava, numa dessas invisíveis enxurradas. Assim dizia, queixosa. Em poucos dias, se aparentou às sombras, desleixando todo seu volume.

– Quero perder todas as forças. Assim não tenho mais esperas.

– Durma na cama, mãe.

– Não quero. Que a cama é engolidora de saudade.

E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o único troféu de sua vida.

Não tinham passado nem semanas desde que meu pai se volatilizara quando, numa certa noite, não me desceu o sono. Eu estava pressentimental, incapaz de me guardar no leito. Fui ao quarto dos meus pais. Minha mãe lá estava, envolta no lençol até à cabeça. Acordei-a. O seu rosto assomou à penumbra doce que pairava. Estava sorridente.

– Não faça barulho, meu filho. Não acorde seu pai.

– Meu pai?

– Seu pai esta aqui, muito comigo.

Levantou-se com cuidado de não desalinhar o lençol. Como se ocultasse algo debaixo do pano. Foi à cozinha e serviu-se de água. Sentei-me com ela, na mesa onde se acumulavam as panelas do jantar.

– Como eu o chamei, quer saber?

Tinha sido o seu cantar. Que eu não tinha notado, porque o fizera em surdina. Mas ela cantara, sem parar, desde que ele saíra. E agora, olhando o chão da cozinha, ela dizia:

– Talvez uma minha voz seja um pano; sim, um pano que limpa o tempo.

 

No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra. Sabendo que ela iria demorar eu voltei ao seu quarto e ali me deixei por um instante. A porta do armário escancarada deixava entrever as entranhas da sombra. Me aproximei. A surpresa me abalou: de novo se enfunavam os vestidos, cheios de formas e cores. De imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de namoro de meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo. Porque eu, secretamente, sabia a resposta.

 

Saí no bico do pé, quando senti minha mãe entrando. E me esgueirei pelo quintal, deitando passo na estrada de areia. Ali me retive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi que por muita que fosse a estrada eu nunca ficaria longe daquele lugar. Nesse instante, escutei o canto doce de minha mãe. Foi quando eu vi a casa esmorecer, engolida por um rio que tudo inundava.

 

Revista Prosa Verso e Arte

 

– Mia Couto, conto ‘Inundação’, do livro “O fio das missangas”. Lisboa: Editora Caminho, 2003.

 

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publicado às 00:41


#2797 - Prémio Literário Inês de Castro

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.18

Rosa Oliveira vence Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017      

 

 

Na sua 11.ª edição, o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017 foi atribuído a Rosa Oliveira pela obra Tardio, editada pela Tinta da China. Sobre a autora, que em 2013 publicou pela mesma editora, Cinza, o seu primeiro livro de poesia, escreveu António Guerreiro no Público, "Nunca a poesia de Rosa Oliveira se desliga da prosa do mundo, por mais que ouse alguns flirts com algo que a supera. Ela pratica, de certo modo, uma arte do recuo, traça com grande racionalidade os seus territórios, acaba por ser uma elegia da própria poesia, quase um túmulo do poeta que se vê obrigado a declinar os seus tempos sombrios como «uma longa marcha para a mediania»."

 

O júri do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017, composto por José Carlos Seabra Pereira (Presidente), Mário Cláudio, Isabel Pires de Lima, Pedro Mexia e António Carlos Cortez, não foi unânime na escolha da obra premiada, sendo o Prémio atribuído por maioria. Mário Cláudio votou em A queda de um homem, de Luís Osório, e Pedro Mexia em Hoje estarás comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral.

 

Nesta edição, o Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro 2017, um prémio de carreira, foi atribuído a Eugénio Lisboa.

 

Prémio Literário Fundação Inês de Castro tem distinguido ao longo dos anos autores e obras de reconhecido valor, tais como Pedro Tamen (2007), José Tolentino Mendonça (2009), Gonçalo M. Tavares (2011), Mário de Carvalho (2013) ou Rui Lage (2016), entre muitos outros.

 

A cerimónia de entrega do Prémio Literário Fundação Inês de Castro - um troféu de prata e pedra, da autoria do escultor João Cutileiro, que simboliza todo o drama e mistério que rodeiam o episódio de Pedro e Inês - terá lugar no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, no dia 17 de Março. O livro premiado, Tardio, de Rosa Oliveira, será apresentado por António Carlos Cortez, e Pedro Mexia falará sobre a obra de Eugénio Lisboa.

 

Biografias dos autores

 

Rosa Oliveira (Viseu, 1958) é autora dos ensaios Paris 1937 e Tragédias Sobrepostas: Sobre "O Indesejado" de Jorge de Sena. Foi leitora na Universidade de Barcelona e é professora no Ensino Superior Politécnico. Cinza, o seu primeiro livro de poesia (Tinta da China, 2013), foi galardoado com o Prémio PEN Clube Primeira Obra. Tardio, igualmente publicado pela Tinta da China recebe agora o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017. Tem poemas editados nas publicações literárias RelâmpagoColóquio-Letras (no prelo), Suroeste (Badajoz, 2016), Cidade Nua e nas antologias Voo Rasante (Mariposa Azual, 2015) e Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos(Companhia das Letras, 2017). Publicou na Granta 8 (Tinta-da-China, 2016) o primeiro conto de uma série em que presentemente trabalha.

 

Eugénio Lisboa (Loureço Marques, 1930) é um ensaísta e crítico literário português especialista em José Régio. Licenciado em engenharia electrotécnica pelo I.S.T. (1955), residiu em Moçambique até 1976, trabalhando sobretudo no ramo petrolífero, actividade que acumulou a partir de 1974 com a docência de Literatura Portuguesa nas universidades de Maputo e Estocolmo. Entre 1978 e 1995 foi Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal, em Londres, e entre 1995 e 1998, Presidente da Comissão Nacional da UNESCO. É Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham e pela Universidade de Aveiro. Recebeu os seguintes prémios literários: Prémio Cidade de Lisboa, pelo livro A Matéria Intensa; Prémio Jacinto Prado Coelho, pelo livro Portugaliae Monumenta Frivola; Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE, por Acta Est Fabula – Memórias I. Consulte aqui (link) as suas principais obras literárias.

 

Informação retirada do site da Fundação Inês de Castro

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publicado às 17:38


#2796 - Helder Macedo vence Prémio D. Diniz

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.18

Prémio D. Diniz

 

A Fundação da Casa de Mateus informa que o júri do Prémio D. Diniz, constituído por Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral e Pedro Mexia, atribuiu, por unanimidade, o prémio de 2018 a Hélder Macedo, pelo seu livro «Camões e outros contemporâneos», publicado pela Editorial Presença.

 

Poeta e romancista reconhecido, Hélder Macedo oferece-nos neste livro da sua vertente ensaística um percurso pela literatura portuguesa, da Idade Média à actualidade, em que a familiaridade com os grandes autores do passado e os do presente nos aproxima do seu universo, cruzando criação e vida. O prémio D. Diniz, dado a uma obra que começa precisamente pela análise inovadora de uma cantiga de amigo do rei poeta que o nome do prémio celebra, distingue uma obra que assume a ousadia das suas descobertas e o faz com uma erudição que, longe de afastar o leitor, o fascina pelos novos horizontes que vem abrir.

 

A sessão solene de entrega do Prémio será presidida por S. Exa. o Sr. Presidente da República e decorrerá no dia 6 de Outubro de 2018, pelas 18h00.

 

Informação retirada do "sítio" da Fundação Casa de Mateus

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publicado às 17:25


#2786 - A Boneca de Kokoschka, de Afonso Cruz

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.18

a boneca de kokoschka011.jpg

 "Existem doenças infames, capazes de fazer do nosso corpo uma gaiola para a alma. Parkinson plus é uma das formas mais perversas de o Universo mostrar a sua crueldade medieval. Ou, como disse Lao Tsé, o Universo trata-nos como cães de palha."

 

Do livro de Afonso Cruz, "A Boneca de Kokoschka", edição da Companhia das Letras

 

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publicado às 18:30


#2784 - 19ª Edição de "Correntes d'Escritas"

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.02.18

 

 19ª EDIÇÃO DA "CORRENTE d'ESCRITAS"

 

O livro "A Forma das Ruínas", do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez, foi o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa, o prémio principal da Corrente d'Escritas, 19ª Edição, que começou ontem na Póvoa de Varzim.

 

___________________________________________________

 

A informação a seguir foi retirada do "site" da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.

 

A  FORMA DAS RUÍNAS VENCE PRÉMIO LITERÁRIO CASINO DA PÓVOA

Póvoa de Varzim, 21.02.2018

Juan Gabriel Vásquez, com a obra A forma das ruínas, é o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa 2018, no valor de 20 mil euros.

Consulte a Ata e Declarações de Voto do Júri aqui.

Bogotá, Colômbia, 2014: Carlos Carballo é detido por tentar roubar de um museu o traje de Jorge Eleiécer Gaitán, líder político assassinado em Bogotá em 1948, em plena guerra do Estado colombiano com os narcotraficantes. Carballo é um homem atormentado, em busca de sinais que lhe permitam destrinçar os mistérios de um passado pelo qual está obcecado. No entanto, ninguém, nem as pessoas que lhe são mais próximas, suspeita das verdadeiras razões da sua obsessão.

O que liga o assassinato de Gaitán, cuja morte partiu em dois a história da Colômbia, e o homicídio do presidente americano John F. Kennedy? Como pode um crime ocorrido em 1914 marcar a vida de um homem no século XXI? Para Carballo, não existem coincidências e todos estes eventos estão intimamente relacionados.

Depois de um encontro fortuito com este homem misterioso, Vásquez (sim, o próprio Juan Gabriel Vásquez, que aqui deixa cair a máscara) sente-se compelido a esmiuçar os segredos de uma vida alheia, ao mesmo tempo que se debate com os momentos mais obscuros do passado colombiano.

Uma leitura compulsiva e uma indagação magistral às verdades incertas de um país que ainda mal se conhece a si mesmo.

 

Nascido em Bogotá, Colômbia, em 1973, Juan Gabriel Vásquez vive desde 1999 em Barcelona. É autor da coleção de contos Los Amantes de Todos los Santos, da compilação de ensaios El arte de la distorción e dos romances Los InformantesHistoria secreta de Costaguana O barulho das coisas ao cair, publicado pela Alfaguara em 2012. Como tradutor, foi responsável pela tradução de obras de John Hersey, John dos Passos, Victor Hugo e E. M. Forster, entre outros, e é colunista do jornal colombiano El Espectador. Os seus livros estão publicados em 14 idiomas e mais de 30 países, com extraordinário êxito da crítica e do público. O autor recebeu já várias distinções internacionais, entre as quais o Prémio Alfaguara em 2011 e o Prémio Impac Dublin em 2014, cujos vencedores de edições anteriores contam com os nomes de vários Prémios Nobel. As reputações é o seu quarto romance e por ele recebeu o Prémio da Real Academia Espanhola em 2014.

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publicado às 15:51


#2782 - The Golden Man Booker Prize

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.02.18

 

The Golden Man Booker Prize

The Booker Prize Foundation has launched the Golden Man Booker Prize to mark the 50th anniversary. This special one-off award will crown the best work of fiction from the last five decades of the prize, as chosen by five judges and then voted for by the public.

Since it was first awarded in 1969, the Man Booker Prize has become the leading prize for quality fiction in English, with the winning books setting a benchmark against which other novels are judged. The Golden Man Booker will put all 51 winners – which are all still in print – back under the spotlight, to discover which of them has stood the test of time, remaining relevant to readers today.

Five judges have been appointed to read the winning novels from each decade of the prize: writer and editor Robert McCrum (1970s); poet Lemn Sissay MBE (1980s); novelist Kamila Shamsie (1990s); broadcaster and novelist Simon Mayo (2000s); and poet Hollie McNish (2010s).

Each judge will choose what, in his or her opinion, is the best winner from that particular decade, and will champion that book against the other judges’ selections. The judges’ ‘Golden Five’ shortlist will be announced at the Hay Festival on 26 May 2018. The five books will then be put to a month-long public vote from 26 May to 25 June on the Man Booker Prize website to decide the overall winner, announced at the Man Booker 50 Festival on 8 July 2018.

Baroness Helena Kennedy, Chair of the Booker Prize Foundation, comments:

‘The very best fiction endures and resonates with readers long after it is written. I’m fascinated to see what our panel of excellent judges – including writers and poets, broadcasters and editors – and the readers of today make of the winners of the past, as they revisit the rich Man Booker library.’

Luke Ellis, CEO of Man Group, comments:

‘We are delighted to be sponsoring the Man Booker Prize in its 50th year and celebrating outstanding fiction from the past half century, which remains as relevant and resonant as ever. The prize plays a meaningful role in recognising and supporting literary excellence that we are honoured to support.’

Key Dates

  • Saturday 26 May - The judges’ ‘Golden Five’ shortlist will be announced at an event at the Hay Festival.
  • Saturday 26 May to Monday 25 June - Voting for the Golden Man Booker is open to the public at www.themanbookerprize.com.
  • Sunday 8 July - The winner of the Golden Man Booker will announced at the Man Booker 50 Festival at Southbank Centre. 

The Golden Man Booker Prize will be supported by retailers, libraries and publishers across the UK, and internationally through online promotion. Readers are already joining in revisiting the previous winners for the #ManBookerPrize50 challenge on Instagram, which encourages them to read as many of the novels as they can by the end of May for the chance to win tickets to the Man Booker 50 Festival.

The Man Booker 50 Festival will run from 6 to 8 July 2018 across Southbank Centre’s 17-acre site in London. Events will be held in a variety of spaces, including Royal Festival Hall, Queen Elizabeth Hall and Purcell Rooms. They will range from interviews and conversations between Man Booker winning and shortlisted authors, to debates and masterclasses. The full programme and tickets will be available soon.

The 50th anniversary will also be amplified globally with Man Booker author events at international literary festivals across the world throughout the year and supported through video, livestream and podcasts, alongside an online exhibition on the Man Booker website.

The Man Booker Prize is sponsored by Man Group, an active investment management firm.

 

Decade  Judge Year, Book title, Author, Publisher
1970s Robert McCrum

1969, Something to Answer For, P.H Newby (Faber & Faber)

1970, The Elected Member, Bernice Rubens (Abacus) 

1971, In a Free State, V.S Naipaul (Picador)

1972, G., John Berger (Bloomsbury) 

1973, The Seige of Krishnapur, J.G Farrell (Orion) 

1974, The Conservationist, Nadine Gordimer (Bloomsbury) 

1974, Holiday, Stanley Middleton (Windmill Books) 

1975, Heat and Dust, Ruth Prawer Jhabvala (Abacus)  

1976, Saville, David Storey (Vintage) 

1977, Staying On, Paul Scott (Arrow) 

1978, The Sea, the Sea, Iris Murdoch (Vintage) 

1979, Offshore, Penelope Fitzgerald (Fourth Estate) 

1980s Lemn Sissay

1980, Rites of Passage, William Golding (Faber & Faber) 

1981, Midnight's Children, Salman Rushdie (Vintage) 

1982, Schindler's Ark, Thomas Keneally (Sceptre)  

1983, Life & Times of Michael K, J.M Coetzee (Vintage) 

1984, Hotel du Lac, Anita Brookner (Penguin) 

1985, The Bone People, Keri Hulme (Picador)

1986, The Old Devils, Kingsley Amis (Vintage) 

1987, Moon Tiger, Penelope Lively (Penguin) 

1988, Oscar and Lucinda, Peter Carey (Faber & Faber) 

1989, The Remains of the Day, Kazuo Ishiguro (Faber & Faber) 

1990s Kamila Shamsie

1990, Possession, A.S Byatt (Vintage) 

1991, The Famished Road, Ben Okri (Vintage) 

1992, The English Patient, Michael Ondaatje (Bloomsbury) 

1992, Sacred Hunger, Barry Unsworth (Penguin) 

1993, Paddy Clarke Ha Ha Ha, Roddy Doyle (Vintage) 

1994, How Late It Was, How Late, James Kelman (Vintage) 

1995, The Ghost Road, Pat Barker (Penguin) 

1996, Last Orders, Graham Swift (Picador) 

1997, The God of Small Things, Arundhati Roy (Fourth Estate) 

1998, Amsterdam, Ian McEwan (Vintage) 

1999, Disgrace, J.M. Coetzee (Vintage) 

2000s Simon Mayo

2000, The Blind Assassin, Margaret Atwood (Bloomsbury) 

2001, True History of the Kelly Gang, Peter Carey (Faber & Faber) 

2002, Life of Pi, Yann Martel (Canongate) 

2003, Vernon God Little, D.B.C. Pierre (Faber & Faber) 

2004, The Line of Beauty, Alan Hollinghurst (Picador) 

2005, The Sea, John Banville (Picador)

2006, The Inheritance of Loss, Kiran  Desai (Penguin) 

2007, The Gathering, Anne Enright (Vintage) 

2008, The White Tiger, Aravind Adiga (Atlantic) 

2009, Wolf Hall, Hilary Mantel (Fourth Estate) 

2010s Hollie McNish

2010, The Finkler Question, Howard Jacobson (Bloomsbury)

2011, The Sense of an Ending, Julian Barnes (Vintage) 

2012, Bring Up the Bodies, Hilary Mantel (Fourth Estate) 

2013, The Luminaries, Eleanor Catton (Granta) 

2014, The Narrow Road to the Deep North, Richard Flanagan (Vintage) 

2015, A Brief History of Seven Killings, Marlon James (Oneworld) 

2016, The Sellout, Paul Beatty (Oneworld) 

2017, Lincoln in the Bardo, George Saunders (Bloomsbury) 

 

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publicado às 09:29


#2778 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.02.18

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Um cavalo entra num bar

David Grossman

Romance

Dom Quixote | Janeiro de 2018

 

David Grossman nasceu em Jerusalém e é um dos maiores escritores do nosso tempo. É autor de uma extensa obra que está publicada em mais de trinta línguas em todo o mundo. Recebeu numerosos prémios, incluindo o francês Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, o Buxtehuder Bulle na Alemanha, o Prémio de Roma pela Paz e pela Acção Humanitária, o Prémio Ischia Internacional de Jornalismo, o Prémio Emet de Israel, o Prémio da Paz dos Editores e Livreiros Alemães e o Prémio Albatross da Fundação Günther Grass.

O seu romance Até ao Fim da Terra foi distinguido com o Prémio Médicis Estrangeiro, o National Jewish Book Award, o Prémio JQ Wingate e, tendo sido destacado em inúmeras listas de favoritos, foi ainda considerado o melhor livro da ano pela revista Lire, em 2011.

Um cavalo entra num Bar, o seu mais recente romance, recebeu o Prémio Man Booker Internacional 2017

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publicado às 13:03


#2744 - Estado Segundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.01.18

 

 ESTADO SEGUNDO

 

No meio duma vedação circular, esperava a ocasião favorável

a ignominiosos projectos de entrada. E todas as noites, depois

do jantar, a comissão de dança abarrotava de gente.

Examinaram o anel pondo-o de parte, ainda dentro do quarto.

Qualquer coisa ardia ao contrário, com frieza de ânimo e contrariamente à expectativa.

Fixaram, também, com virginal indignação, o grande quadro a óleo que pendia do tecto,

certamente um ex-militar pois no seu casaco farraposo havia fitas de medalhas.

A cancela rangia docemente quando, na mão de alguém, uma ponta de preocupação se tornou de um

cinzento pouco recomendável.

- Não, muito obrigado...

O dia surgiu a partir da fachada. Não havia neles cabelos bancos nem uma só linha que estivesse seca.

 

POEMA DE MÁRIO CESARINY RETIRADO DO LIVRO "POESIA", PÁGINA 265, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM (PORTO EDITORA), NOVEMBRO DE 2017

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publicado às 19:44


#2737 - Actual Editora edita "Fire and Fury" em Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.01.18

A Actual Editora, chancela do Grupo Almedina, adquiriu os direitos para a edição portuguesa do livro Fire and Fury, do autor Michael Wolff, sobre o presidente norte-americano, Donald Trump. O livro deverá chegar às livrarias portuguesas em Fevereiro. E no Brasil, o livro será editado pela Editora Objetiva.

A obra tem sido um dos títulos mais comentados nas últimas semanas, tendo gerado longas filas de espera no dia do lançamento nos EUA. Outras pessoas optaram pela compra online, o que em alguns casos levou a um engano. Um outro livro com um título similar foi comprado por muitos leitores. Trata-se do livro Fire and Fury: The Allied Bombing of Germany, 1942-1945 da autoria de Randall Hansen, professor da Universidade de Toronto.

No livro Fire and Fury: Inside the Trump White House, Michael Wolff analisa os esquemas internos da presidência de Trump, através de informação privilegiada a que teve acesso. Na obra, o autor explora o fenómeno Trump e a polémica, as controvérsias, os escândalos e o drama a ele associados.

 

Notícia retirada do Jornal "Público"

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publicado às 19:44

 HERBERTO HELDER

 

A Porto Editora vai editar, em Março, "Em Minúsculas", obra de Herberto Helder que reúne as crónicas e reportagens feitas pelo poeta em Angola entre Abril de 1971 e Junho de 1972.

 

Este livro resulta da investigação, transcrição, revisão e selecção de textos feita por Daniel Oliveira, filho de Herberto Helder, Diana Pimentel e Raquel Gonçalves.

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publicado às 19:26


#2721 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) - Excerto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.12.17

uma viagem à india-gm tavares005.jpg

Gonçalo M. Tavares

 

(...)

1

Embora a humanidade demore tempo a chegar

a um sítio, devido a imprevistos espantosos

e a obras no caminho, a natureza, essa,

nunca se atrasa.

Sempre com a luz certa, a natureza prossegue.

Era já, então, fim de tarde, quando Maria E abriu a porta

e disse: Oh, caro Thom C, que bom ver-te,

trouxeste um amigo?

 

2

No jornal as notícias podem, em dias de chuva,

ser dobradas para caberem no bolso, permanecendo secas.

Qualquer notícia grandiosa, um terramoto mortífero

ou um palácio recém-inaugurado, quando bem dobrada,

cabe num espaço de 8 por 6 centímetros,

o que não deixa de surpreender. Esta imagem é ainda relevante

para quem não quer perceber a importância e o espaço

ocupados pelo universo ou pelos países adjacentes

na vida de um pequeno cidadão.

 

3

E mesmo um indivíduo de estatura mediana

poderá esquecer, durante meses,

o mapa da mundo no bolso de trás das calças.

Tal facto, parecendo paralelo à nossa história,

não deixa de se cruzar com ela, mostrando que nas ideias

o infinito é coisa para o início da manhã

do dia seguinte.

 

4

Maria E convidou, então, delicadamente, Thom C

e o seu amigo Bloom a entrarem, oferecendo-lhes de imediato

poltronas cómodas, whisky perfeito, aperitivos,

uma vista deslumbrante  sobre as chaminés de uma fábrica

de grande importância na região,

e, pormenor não irrelevante, mostrando ainda, nos movimentos que fazia,

aquilo que de longe eram os melhores indícios do apartamento: seios felizes,

pernas de fazer parar o pensamento e

nádegas espantosas, imprescindíveis, duplas e fortes.

Esta é a melhor região de Londres, disse Bloom,

enquanto da janela admirava o belo e espesso fumo negro

que da fábrica saía.

 

5

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas

que lhe pareciam ter um conforto excessivo.

Com prudência e curiosidade perguntou

se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento

que, apesar de pequeno, era prometedor,

sendo que todos sabem

que um homem pode demorar mais tempo

a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja

do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,

com mochila às costas.

(...)

 

Canto II (Excerto) - Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 73 e 74 - Edição Editorial Caminho, Agosto de 2011

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publicado às 13:34


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

mario cesariny poesia003.jpg

Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

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publicado às 16:38


#2699 - OS LIVROS QUE O CENTRO NACIONAL DE CULTURA RECOMENDA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 

DEZ LIVROS PARA LER ABSOLUTAMENTE…

 

Aproveitando a aproximação das Festas, publicaremos, ao longo do mês de dezembro, diversas sugestões de boa leitura.

Hoje apenas literatura portuguesa…

Eis o começo!

 

1) Até que as Pedras se Tornem mais leves que a Água, António Lobo Antunes (D. Quixote);

2) O Bebedor de Horizontes, Mia Couto, Terceiro volume de As Areias do Imperador (Caminho);

3) Domingo à Tarde, Fernando Namora (Caminho) - reedição;

4) Esta noite sonhei com Brueghel, Fernanda Botelho (Abysmo) - reedição;

5) Cinzento e Dourado – Raul Brandão em Foco nos 150 anos do seu Nascimento, Vasco Rosa (Imprensa Nacional);

6) Tempo de Escolha, António Barreto (Relógio d’Água);

7) Bíblia, volume III, tradução do grego de Frederico Lourenço (Quetzal);

8) Poesia, Eugénio de Andrade (Assírio e Alvim);

9) Transporte no Tempo, Ruy Belo (Assírio e Alvim);
10) Gastão Cruz, Existência (Assírio e Alvim).

 

POST RETIRADO DO BLOGUE DO CENTRO NACIONAL DE CULTURA

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publicado às 23:38


#2697 - Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 

Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa anunciou no dia 29 de novembro os vencedores da edição de 2017, que avaliou 1.215 obras publicadas em 2016.

 

Karen, romance da portuguesa Ana Teresa Pereira, ficou em primeiro lugar, recebendo prêmio de R$ 100 mil. Ela é a primeira mulher a obter o prêmio máximo nas 15 edições do prêmio, que foi criado em 2003 como Prêmio Portugal Telecom e, desde 2015, passou a se chamar Oceanos. Nas edições anteriores, as escritoras Beatriz Bracher, Marina Colasanti, Cíntia Moscovich, Elvira Vigna e Ana Martins Marques haviam sido premiadas, porém não obtiveram o primeiro posto.

 

O brasileiro Silviano Santiago ficou em segundo lugar com o romance Machado, sendo premiado com o valor de R$ 60 mil, e Golpe de Teatro, do poeta português Helder Moura Pereira, é o terceiro colocado, premiado com R$ 40 mil.

 

A premiação para o quarto lugar, no valor de R$ 30 mil, será dividida entre a poeta portuguesa Maria Teresa Horta, que concorreu com Anunciações, e o romancista brasileiro Bernardo Carvalho, com Simpatia pelo Demônio. A decisão de atribuir o quarto posto aos dois autores aconteceu após sucessivas rodadas de votação nas quais prevaleceu o empate – levando a curadoria e o Júri Final, com base no regulamento do prêmio, a reconhecerem ambos como vencedores.

 

O Júri Final do Oceanos 2017 foi formado por dois portugueses – a poeta Ana Mafalda Leite e o crítico literário António Guerreiro – e seis brasileiros – as ensaístas Beatriz Resende e Mirna Queiroz, a tradutora e editora Heloisa Jahn e os escritores Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz). A curadoria do Oceanos esteve a cargo da jornalista portuguesa Ana Sousa Dias, da gestora Selma Caetano e do jornalista Manuel da Costa Pinto, ambos brasileiros.

 

A edição de 2017 é um marco na história dos prêmios literários em língua portuguesa: este ano, Oceanos passou a contemplar obras publicadas em todos os países lusófonos e, com isso, tornou-se um radar da produção contemporânea dos países unidos pelo idioma – proporcionando conhecimento recíproco e promovendo o intercâmbio literário e editorial. Os números são expressivos: entre os 51 livros semifinalistas — 31 de autores brasileiros, 19 de autores portugueses e 1 de autor angolano —, 49 nunca foram publicados em outro país de língua portuguesa.

 

Os 19 livros de autores portugueses publicados em Portugal não haviam sido publicados no Brasil e 11 de seus autores nunca tiveram obras lançadas no Brasil; e, dentre os 31 livros semifinalistas publicados no Brasil, 30 ainda não têm edição em Portugal, sendo que 21 dos autores brasileiros semifinalistas são inéditos em Portugal – o que mostra como as sucessivas fases do Oceanos contribuem para difundir a obras dos escritores para além das fronteiras nacionais.

 

A primeira colocação obtida pelo romance Karen possibilita o reconhecimento, no Brasil, da importância que o conjunto da obra de Ana Teresa Pereira tem em Portugal, com mais de 30 livros publicados. Em contrapartida, a premiação de Silviano Santiago, que em 2015 havia vencido o Oceanos em primeiro lugar com Mil Rosas Roubadas, reitera – para o público lusitano e dos demais países lusófonos – o lugar ocupado pelo autor na cena literária brasileira.

 

Veja aqui os 04 vencedores
Clique aqui para baixar a lista de livros vencedores

 

FONTE: ITAÚ CULTURAL

 

 

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publicado às 19:48


#2691 - Escravatura

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.11.17

 

 

O historiador e romancista João Pedro Marques assina o primeiro volume da nova coleção da editora Guerra & Paz Livros Vermelhos. O tema é polémico e o título tem uma só palavra: Escravatura.

Não acredita que os portugueses se interessem muito pelo tema, pois "no passado isso não aconteceu". Também não está preocupado em desmistificar a participação portuguesa na construção desta forma de explorar o outro: "Foi a que foi e está estudada pelos historiadores, entre os quais eu. A minha intenção ao voltar a escrever sobre o assunto, dirigindo-me desta vez aos leitores em geral, foi a de tentar esclarecer mal-entendidos que aparecem nas ideias e discursos de muitas pessoas."

 

 

AUTOR DA NOTÍCIA:  João Céu e Silva - DIÁRIO DE NOTÍCIAS

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publicado às 10:24

"Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos", escritos por cem poetas, acaba de ser publicado pela Companhia das Letras, celebrando a pluralidade da poesia com autores famosos, mais desconhecidos, esquecidos ou acidentais.

A recolha foi feita pelo jornalista e escritor José Mário Silva que introduz a antologia com breves notas, nas quais se defende ainda antes do ataque: "Os cem poemas aqui reunidos não serão os melhores de um século, 'stricto sensu', mas fixam a resposta do antologiador à pergunta 'Quais são, para si, os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos?'".

José Mário Silva reconhece que entre milhares de poemas portugueses escritos ao longo de um século é impossível escolher os melhores, não só por a escolha ser sempre incompleta, mas pela própria indefinição quanto ao que significa "melhor" em poesia, e sobretudo pela subjetividade do ato: "Uma antologia diz sempre mais sobre quem seleciona do que sobre a matéria selecionada".

"Nem o mais amplo e lúcido comité de sábios poderá chegar a um consenso que é, por definição, impossível", escreve José Mário Silva, que avançou, então, para a definição de critérios de escolha dos poemas.

O mais difícil prendeu-se com a representatividade e José Mário Silva optou por não fazer corresponder o número de textos escolhidos de cada autor com a sua importância relativa na história da literatura, para permitir uma maior variedade de vozes.

Se assim não fosse, "gigantes" como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Herberto Helder teriam de estar muito mais representados do que um jovem escritor com escassa bibliografia.

Ainda se levantaria outro problema, que era o de o leitor ser induzido a pensar que um Vitorino Nemésio era mais significativo do que um Mário Cesariny, só por o livro conter mais poemas do primeiro do que do segundo.

Assim, chegou o antologiador ao "critério radical" de escolher apenas um poema por autor, ou seja, o livro reúne cem poemas de cem poetas, sendo que -- e esta é a exceção -- Fernando Pessoa, que foi vários num só, aparece quatro vezes, enquanto ortónimo e enquanto cada um dos seus principais heterónimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis).

A baliza temporal do século implicou a exclusão de poemas publicados pela primeira vez em livro antes de 1917, mas ainda assim foi suficiente para abranger autores ainda nascidos antes de 1900, como Camilo Pessanha, Angelo de Lima, Teixeira de Pascoaes, Judith Teixeira, Almada Negreiros ou Florbela Espanca.

São evocados também alguns poetas mais esquecidos, entre os quais José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, António Maria Lisboa, Ana Hatherly ou Luís Pignatelli, e outros que nem têm a poesia como género literário principal, como é o caso de Jorge de Sena, Carlos de Oliveira ou Eduardo Guerra Carneiro.

Na lista contam-se, entre muitos outros, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, Herberto Helder, Ruy Belo, Al Berto, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Hélia Correia ou Nuno Júdice.

Também as vozes mais jovens e menos conhecidas da poesia portuguesa, como é o caso de Rui Lage, Golgona Anghel, Raquel Nobre Guerra ou Matilde Campilho, constam deste livro de 192 páginas, dividido em quatro partes, intituladas "Retratos", "Relatos", Desacatos", "Hiatos".

 

AUTOR: AGÊNCIA LUSA

 

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publicado às 22:54


#2679 - Os Loucos da Rua Mazur

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

 

O mais recente Prémio Leya chega hoje às livrarias. Leia aqui o primeiro capítulo do novo romance de João Pinto Coelho.

Chega hoje às livrarias o mais recente Prémio Leya de Literatura, o romance Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho. O autor, que já tinha sido finalista deste prémio em 2014 com o livro Perguntem a Sarah Gross, regressa ao mesmo tema, o do holocausto e de uma das épocas do século XX mais dramáticas da história da humanidade. O cenário do romance é duplo, passando-se uma parte na atualidade e outra na Polónia, durante a II Guerra Mundial. Recorde-se que o júri presidido por Manuel Alegre escolheu este original entre 400 por ser "bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos".

Para João Pinto Coelho, a edição que hoje chega aos leitores, menos de um mês depois de ter sido anunciado vencedor, só tem a ganhar por ser fruto do "reconhecimento que resulta da atribuição de um prémio literário com este prestígio, que acaba sempre por contribuir para a visibilidade do romance distinguido". Quanto ao futuro profissional passar pela atividade literária, Pinto Coelho não é por enquanto assim tão entusiasta: "No futuro imediato, não creio. É uma hipótese que poderei colocar, mas apenas quando tiver três ou quatro livros publicados."

Segundo o autor, este livro começou a ser pensado enquanto escrevia o anterior. Daí que admita que o cenário semelhante de ambos se deva à sua perceção sobre a necessidade de voltar a esta época: "Tive sempre a convicção de que havia coisas cruciais sobre a perseguição aos judeus naquele período que não constavam no meu primeiro romance. Além dos alemães, houve outros perpetradores; tem que ver com a universalidade do mal, e tinha de escrever sobre isso ou sobraria a sensação de uma história incompleta."

No que respeita à investigação, João Pinto Coelho voltou aos muitos livros que leu sobre o tema nos últimos trinta anos, não esquecendo os muitos contactos que estabeleceu com historiadores polacos ao longo de diversas visitas à Polónia. Questionado sobre se leu os livros dos seus antecessores premiados, aponta o de João Ricardo Pedro e o de Afonso Reis Cabral: "Dois romances magníficos."

 

Pré-publicação do primeiro capítulo de Os Loucos da Rua Mazur

Por João Pinto Coelho

 

PARIS, 2001

A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha. O tampo estava vago, apenas papéis dispersos, uma telefonia a pilhas e um rosto num passe-partout, o rosto de Fidelia.

 

 

 

Artigo escrito por João Céu e Silva para o  DN - Diário de Notícias

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publicado às 22:31

 

Rosa Montero venceu o Prémio Nacional das Letras Espanholas 2017, um galardão que o júri justificou com a longa trajetória novelística, jornalística e ensaística da escritora espanhola.

A escritora Rosa Montero venceu esta terça-feira o Prémio Nacional das Letras Espanholas 2017, no valor monetário de 40 mil euros, um galardão que o júri justificou com a longa trajetória novelística, jornalística e ensaística da escritora espanhola.

O júri do prémio destacou ainda que a trajetória da escritora madrilena demonstrou “brilhantes atitudes literárias” e enalteceu a “criação de um universo pessoal, cujo tema reflete seus compromissos vitais e existenciais, classificados como éticos e de esperança”, de acordo com o Ministério da Educação, Cultura e Desporto de Espanha, responsável pelo prémio.

Rosa Montero nasceu em Madrid em 1951, estudou jornalismo e psicologia e colaborou com grupos de teatro independentes, enquanto começava a publicar em vários meios de comunicação 1976, altura em que começou a trabalhar em exclusivo para o “El País”, tornando-se editora-chefe do suplemente de domingo em 1980 e 1981.

Em 1978, venceu o Prémio Manuel del Arco para entrevistas, em 1980, o Prémio Nacional de Jornalismo para reportagens e artigos literários e, em 2005, o Prémio da Associação da Imprensa de Madrid pela sua vida profissional.

Entre os seus romances contam-se “A filha do canibal” (Prémio Primavera de Novela em 1997), “A louca da casa” (2003), que lhe valeu os prémios “Qué Leer” 2004 para o melhor livro do ano, Grinzane Cavour para o melhor livro estrangeiro publicado na Itália em 2005, e Roman Primeur 2006, em França.

É ainda autora de “História do rei transparente” (2005), vencedor do prémio ‘Qué Leer’ 2005 para o melhor livro do ano e o ‘Mandarache Prize’ 2007.

O seu trabalho está traduzido para mais de 20 línguas.

 

Autor
  • Agência Lusa

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publicado às 23:15


#2667 - Sergio Ramírez vence Prémio Cervantes 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

O escritor nicaraguense Sergio Ramírez é o vencedor do Prémio Cervantes 2017, o mais importante Prémio Literário da literatura em língua espanhola.

Sergio Ramírez venceu em 1998 com o livro "Margarita, está lindo o mar" o Prémio Alfaguara do romance, livro publicado em Portugal pela Difel.

Tem, também, outro livro ("Tiveste medo do Sangue?") publicado em 1989 pela Editorial Caminho.
O Prémio Cervantes foi criado pelo Ministério da Cultura de Espanha em 1975 com o objectivo de reconhecer a carreira de um escritor que, através do seu trabalho, contribuiu para enriquecer o legado literário hispânico.

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publicado às 22:38


#2666 - Eu sou outro

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 YOLANDA PANTIN

 

EU SOU OUTRO

 

Aceitei o convite para viajar.

No carro,

a paisagem passa demasiado depressa.

Roça o ouvido

a música surda que o interior repele.

Atravessamos o país sem parar,

a não ser para urinar ou beber um gole de água

nas estações de serviço.

O verão castiga cinzento e estático

como o céu.

Conversas banais distraem o assédio

das horas mortas.

Montamos as tendas

na margem de um rio largo e lamacento.

As aves chilreiam ao levantar voo.

Abeiro-me do rio

como Narciso do lago.

As águas turvas não me reflectem o rosto.

Sonhei com isto

 

              (A ferida sarou sobre a carne morta)
 
_________________________________________________________________________________________________________________
Yolanda Pantin nasceu em Caracas em 1954. Estudou Letras na Universidade de Caracas. Publicou vários livros de poesia, entre os quais se destacam Casa o Lobo, Correo del Corazón, La Canción Fria, Poemas del Escritor, El Cielo de Paris. Com o livro Poemas del Escritor (1989) obteve o Prémio de Poesia Fundarte.

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publicado às 19:15


#2658 - Prémio Goncourt 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.11.17

O Prémio Goncourt 2017 foi atribuído ao escritor francês Eric Vuillard com o livro "L'Ordre du Jour".

O Prémio Goncourt é o mais importante prémio literário francófono.

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publicado às 21:26


#2657 - PRÉMIOS P.E.N. PARA OBRAS PUBLICADAS EM 2016

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.11.17

O poeta Fernando Pinto do Amaral com o livro "Manual de Cardiologia", o romancista Ernesto Rodrigues com o livro "Uma Bondade Perfeita" e o ensaísta Rui Miguel Mesquita foram os vencedores do Prémio Literário P.E.N. Clube Português.

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publicado às 16:08


#2650 - Prémio Literário José Saramago

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.10.17

 

Julián Fuks, escritor brasileiro, vence Prémio Literário José Saramago atribuído pela Fundação Círculo de Leitores com o livro "A Resistência" editado pela Companhia das Letras

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publicado às 14:52


#2649 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.10.17

 Maya Angelou (1928-2014)

 

Figura fundamental da cultura afro-americana e da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 60, ao lado de Martin Luther King e Malcolm X, Maya Angelou (1928-2014) celebrizou-se com a publicação deste primeiro volume autobiográfico, incentivada pelo seu grande amigo e escritor James Baldwin. A sua extensa obra poética – que lhe valeria a nomeação para o Prémio Pulitzer em 1972 – e o activismo social granjearam-lhe um lugar maior na cultura americana. No seu empolgante percurso de vida, da pobreza à consagração, trabalhou em clubes nocturnos como cantora de calipso e, aos 16 anos, foi a primeira revisora negra nos eléctricos de São Francisco. Na sua escrita, nunca deixou de acreditar no direito à sobrevivência num mundo ameaçado pelo ódio. Além da sua extensa autobiografia, é autora de livros de poesia como And Still I Rise (1978) e On the Pulse of Morning (1993).

 

Maya Angelou enfrenta a sua vida com uma admiração tocante e com uma dignidade luminosa. James Baldwin

Grandioso livro de memórias, Sei porque Canta o Pássaro na Gaiola (1969) é uma poética viagem de libertação e um glorioso bater de asas num mundo opressivo. Este relato inspirador da infância e da juventude da autora, nos anos 30 e 40, devolve-nos o olhar de uma extraordinária criança sobre a violência inexplicável do mundo dos adultos e a crueldade do racismo, na procura da dignidade em tempos adversos. Do Arkansas rural às cidades da Califórnia, Maya Angelou traça neste livro um tocante retrato da comunidade negra dos Estados Unidos, durante a segregação, e de uma consciência que, incapaz de se resignar, desperta rumo à emancipação. Um clássico americano que marcou gerações e que conserva toda a sua actualidade.

 

 

Informação retirada do site da Editora Antígona

 

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publicado às 13:56


#2644 - Vírgula

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.17

 ANTÓNIO MARIA LISBOA

Nascimento1 de agosto de 1928, Lisboa
Falecimento11 de novembro de 1953, Lisboa

 

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos 
a procurar o dia em que não te fale 
feito de resistências e ameaças — Este mundo 
compreende tanto no meio em que vive 
tanto no que devemos pensar. 

A experiência o contrário da raiz originária aliás 
demasiado formal para que se possa acreditar 
no mais rigoroso sentido da palavra. 

Tanta metafísica eu e tu 
que já não acreditamos como antes 
diferentes daquilo que entendem os filósofos 
— constitui uma realidade 
que não consegue dominar (nem ele próprio) 
as forças primitivas 
quando já se tem pretendido ordens à vida humana 
em conflito com outras surge agora 
a necessidade dos Oásis Perdidos. 

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo 
e a custo na imensidão da desordem 
a que terão de ser constantemente arrancadas 
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois 
a cada momento corremos grandes riscos 
desconcertantes e de sinistra estranheza. 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. 
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano 
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem 
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos. 
 
 
POEMA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA IN POESIA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA, ASSÍRIO & ALVIM

 

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publicado às 14:52


#2643 - Paixão de Hermes

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.17

tabacaria 1026.jpg

 TABACARIA - N.º UM | VERÃO - 1996

 

 ÀNGEL CRESPO

Falecimento12 de dezembro de 1995, Barcelona, Espanha
 
 
PAIXÃO DE HERMES
 
Unicamente o fogo pode unir
sabedoria e ignorância
e fundi-las num novo metal
que resista à lembrança e ao esquecimento:
um íman que igualmente atrai
plenitude e carência,
feito das quatro estações.
 
Morte é o fogo para quem o ignora,
esquecimento para quem o teme,
cadeia para quem lhe foge
- e, em troca, é liberdade para quem oferece
à sua brasa e suas línguas
quanto dúvida se é
pura sabedoria ou sua ignorância.
 
POEMA DE ÀNGEL CRESPO TRADUZIDO POR JOSÉ BENTO

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publicado às 11:15


#2639 - João Pinto Coelho venceu Prémio Leya 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.10.17

 João Pinto Coelho com o livro "Os loucos da rua Mazur" foi o vencedor do Prémio Leya 2017.

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance.

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publicado às 20:10

 Ana Margarida de Carvalho com o livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" foi o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. A escritora é, também, finalista do Prémio Oceanos, do Brasil, com este livro.

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publicado às 17:48


#2636 - FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.10.17

VER PROGRAMAÇÃO AQUI»»»»

 

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publicado às 17:39


#2635 - Tu, Lisboa. Você, Lisboa. Senhora Dona Lisboa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 Antonio Tabucchi (1943-2012)

 

"No que se refere a formas de tratamento, meu caro Cardoso Pires, a tua bela língua possui um número considerável delas, para desconcerto do turista optimista que aterra no aeroporto de Lisboa munido do tranquilizador | Speak Portuguese, e para pânico do aprendiz cheio de boa vontade que tenha feito o curso linguafone  O Português em 4 Semanas.

 

Um número tão considerável que - assegurava o linguista Luis Lindley Cintra, teu companheiro de oposição àquele Salazar que parecia imortal (e que, em tempo de bocas e canetas amordaçadas, tu imortalizaste deveras, tornando-o o fóssil protagonista da tua "fábula" Dinossauro Excelentíssimo) - não deixa a tua língua ficar atrás de nenhuma outra na Europa, parecendo que, no mundo, só o fica do japonês. Bem pode dizê-lo uma  pessoa como eu que um dia, com a arrogância aprendida no manual de gramática e convencido que o Você (que na minha língua é o Lei) servia para todas as ocasiões, afrontou candidamente a infinita babel hierárquica das formas de tratamento que o português prevê. E aconteceu-lhe ouvir um miúdo da rua que, a jogar à bola no adro de uma igreja de Alfama, reagiu deste modo para com o seu companheiro de jogo demasiado individualista: "Você devia ter-me passado a bola, seu palerma!" * Ou aconteceu-lhe escutar, numa educadíssima discussão conjugal de um casal pequeno-burguês, a seguinte pérola linguística pronunciada pelo marido empertigado: "A menina tenha paciência, mas não estou de acordo consigo". * Ou ainda uma senhora de certo tom que, chamada apenas "Dona Josefa"  e não "Senhora Dona Josefa" como a sua classe exigia, considerou o pobre visitante estrangeiro um verdadeiro troglodita.

 

Isto para não falar de quando nas formas de tratamento, para complicar as coisas, se insinua o sub-reptício diminutivo, de uso muito frequente e com as nuances mais insuspeitáveis que podem significar ternura, familiaridade, confidência, mas também, em certos casos, inferioridade hierárquica e atenções servis para com o superior. Eis uma frase pronunciada durante a não remota guerra de África entre Portugal e as suas "Províncias Ultramarinas" Angola e Moçambique. Contou-ma o antropólogo e escritor José Cutileiro, alto funcionário da União Europeia em Bruxelas, onde certamente é confortado pelo uso de "Vous" da Revolução Francesa e pelo "You" dos pragmáticos albiões. A personagem era neste caso um cabo,e  o destinatário era neste caso um cabo, e o destinatário o oficial da companhia: "Meu capitão, a metralhadorazinha

está prontinha". * E o capitão, graças àqueles diminutivos, percebeu imediatamente que podia contar em absoluto com aquele cabo:  ele estava completamente ao seu serviço.

 

Vá-se lá saber como se safou o snobíssimo Beckford, refugiado na Lusitânia a chular a aristocracia portuguesa da época (à qual, aliás, reservou um desprezo arrogante, como revela o seu diário), que de certeza com o seu insuficiente "You" deve ter cometido gaffes vergonhosas. Dá-me mais prazer em Fielding, a quem aconteceu passar por Lisboa e lá morrer (repousando agora no Cemitério Monumental), e cuja ironia atenta às matizes linguísticas das classes sociais o guiou provavelmente no labirinto das formas de tratamento.

 

Formas de tratamento, Lisboa. Como bem sabes, meu caro José (aliás recorda-lo afectuosamente neste Livro de Bordo), também eu deambulei pela ponte da nau "Lisboa": não só com os pés, mas sobretudo com os passos da fantasia, das impressões, das sensações e das recordações. Aquele meu percurso bastante ilógico, que preferi chamar "uma alucinação", tornou-se um livro intitulado Requiem, que escrevi na tua língua. Não tanto por capricho, mas porque, para falar de Lisboa (e para a viver), o português impôs-se. Talvez isso tenha sido a minha maneira de lhe prestar homenagem. E no entanto não tive a coragem de a interpelar, de encontrar uma das muitas formas de tratamento para dizer: Lisboa. Eu, toscano da minha Toscana marítima, que me apaixonei por ela quando era jovem e ela uma senhora de certa idade, aprendendo com  esforço os sons por vezes roucos e por vezes de sereia que tão bem descreves neste teu livro, não sabia de que maneira devia  dirigir-me a ela. Excelentíssima Senhora Dona Lisboa? Querida Dona Lisboa? Minha Amiga Lisboa? E que pronome  pessoal usar? No embaraço da escolha, desisti.

 

Mas tu tratas Lisboa por tu, e podes bem fazê-lo. É a tua companheira. E como uma abelha visitas o seu cálice. E é por isso que a sua flor continua a florir através dos séculos na literatura portuguesa: porque há escritores e artistas como tu, que não se lembram dela apenas quando está na mó de cima, mas também nos momentos mais obscuros da sua existência, que tu atravessaste com ela.

 

Seco, sonoro como o estalido de uma vela, assim é o estilo deste teu livro de bordo, bem longe daquela escrita colorida que, revestindo de roupa reciclada um certo "realismo mágico" de boa memória, procura o sucesso fácil descrevendo Portugal como um país sul-americano da operetta, graças ao "pitoresco" que tanto agrada no estrangeiro (Portugal is different).

 

E agora fazes levantar âncora à "tua" Lisboa como um veleiro do qual és ao mesmo tempo piloto e escrivão de bordo. Porque é verdade que a tua cidade, "pousada no Tejo como uma cidade que navega", em outros tempos fez-se ao mar e penetrou nos oceanos, à aventura. E contornou Áfricas, visitou Índias e Malacas, descobriu Brasis. Em suma, "por mares nunca dantes navegados", como diz Camões, levou a Europa ao mundo e o mundo à Europa.

 

Mas nesta Lisboa também eu quero embarcar, mesmo que seja com uma tarefa humilde que no entanto me agrada: a de grumete a polir os latões.

 

Se não te importas, vou pois subir contigo para este veleiro que aparentemente está ancorado, mas que todavia viaja, viaja.

 

Texto de Antonio Tabucchi traduzido por M.C.Loureiro. Este texto foi escrito como prefácio às edições italiana e alemã do livro de José Cardoso Pires intitulado Lisboa, Livro de Bordo.

Este texto foi publicado na Revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, número cinco-Inverno 1997, páginas 3, 4 e 5.

 

 

 

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publicado às 21:54


#2632 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

Hoje, 18 de Outubro, é o dia de S. Lucas.

 

________________________________

 

A 18 de Outubro de 1909 nasceu na cidade de Turim Norberto Bobbio (1909-2004).

 Formado em Filosofia e Direito, foi professor universitário e jornalista, filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício. Morreu na cidade de Turim no dia 9 de Janeiro de 2004.

 

 

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publicado às 17:42

 

 

Lincoln in the Bardo wins 2017 Man Booker Prize

Lincoln in the Bardo by George Saunders is named winner of the 2017 Man Booker Prize for Fiction. Lincoln in the Bardo is the first full-length novel from George Saunders, internationally renowned short story writer.

The 58-year-old New York resident, born in Texas, is the second American author to win the prize in its 49-year history. He was in contention for the prize with two British, one British-Pakistani and two American writers.

 Lincoln no Bardo é o primeiro romance de George Saunders. Nestas páginas, o autor revela-nos o seu trabalho mais original, transcendente e comovedor. A acção desenrola-se num cemitério e, durante apenas uma noite, a história é-nos narrada por um coro de vozes, que fazem deste livro uma experiência impar que apenas George Saunders nos conseguiria dar.


Ousado na estrutura, generoso e profundamente interessado nos sentimentos, Lincoln no Bardo é uma prova de que a ficção pode falar sobre as coisas que realmente nos interessam. Saunders inventou uma nova forma narrativa, caledoscópica e teatral, entoada ao som de diferentes vozes, de modo a fazer-nos uma pergunta profunda e intemporal: como podemos viver e amar sabendo que tudo o que amamos tem um fim?

 Informação  relacionada com o livro vencedor retirada da página do editor em Portugal (RELÓGIO D'ÁGUA)

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publicado às 22:42

 

 

Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira é agora a vez de destacar a vida e a obra de Miguel Sousa Tavares.

 
Miguel Sousa Tavares, jornalista português, escritor e autor do romance português mais vendido no século XXI, será o homenageado da próxima edição do Escritaria.
 
A 10.ª edição do Festival Literário vai decorrer de 20 a 22 de outubro, sendo que a partir de dia 16 de outubro decorre uma grande feira do livro com diversas apresentações de livros e uma forte aposta na memória de edições passadas, onde marcaram presença grandes nomes da Literatura Portuguesa contemporânea. Do programa constam, ainda, exposições, teatro de rua, música, momentos de leitura, lançamento de livros e objetos que contaminam uma cidade inteira e que prometem interagir com leitores e transeuntes que vão nesta edição ser confrontados com novas experiências.
 
Miguel Sousa Tavares, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares, exerceu advocacia antes de se dedicar exclusivamente ao jornalismo.
 
Estreou-se na ficção com “Não te deixarei morrer David Crockett" (2001), constituído por um conjunto de contos e textos dispersos. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, “Equador”, que vendeu mais de 400.000 exemplares em Portugal, traduzido em 12 línguas e editado em cerca de 30 países e adaptado para televisão, em Portugal e no Brasil.
 
Ao longo de 20 anos, Miguel Sousa Tavares tem 16 livros editados com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.
 
Dez anos. Dez edições do Escritaria. Dez grandes nomes da literatura, num festival que mantém a tónica em homenagear um escritor de língua portuguesa, vivo, e de transformar, durante vários dias, Penafiel na cidade do Escritor(a) a homenagear.


     Consulte o Programa Completo do Escritaria 2017

 

Post retirado do "site" da Câmara Municipal de Penafiel
 

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publicado às 17:05


#2614 - Autobiografia Jorge Listopad: Na escada rolante

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.10.17

JORNAL DE LETRAS. Colaborador do JL desde os primeiros números, escritor, professor e encenador, Jorge Listopad, checo que vivia desde a década de 50 em Portugal, morreu no domingo aos 95 anos, em Lisboa. Listopad encenou cerca de 60 peças de teatro e escreveu diversas obras de prosa, poesia e ensaio, em checo, português e francês. Republicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL, em 2002

 

1. Se me encontrasse numa escada rolante.


2. Quando nasci (em Praga), não suspeitava que era uma das mais belas cidades do mundo mas sê-lo-ia para mim, bastantes anos mais tarde. Talvez só tivesse tido consciência do triunfo dessa beleza durante a guerra, na profunda ilegalidade em movimento pendular entre o campo e a metrópole, durante a resistência anti-nazi, quando cada poética esquina praguense podia ser trágica para sempre; ou já instalado em Paris, mais tarde, numa aprendizagem da distância. Ou a. nal, o facto de encontrar-me provisoriamente ("provisoire qui dure") em Portugal, provocou em mim o mudo desejo de rever a cidade natal.
Nasci no mês de Novembro; Novembro em língua checa: listopad. Os checos, como raros europeus, embora recebendo os instrumentos de civilização formal e institucional de Roma, romana e depois católica, ficaram residualmente quanto ao nome dos meses, num mundo anterior, de nomenclatura pagã, anímica, rente à sua origem dos elementos naturais. Culto celta? Cada mês em checo, formula a imagem do ano agrícola ou venatória, o seu sintoma, o seu aroma e cor.
Em listopad, encontras "as folhas caídas". Será que daí se anuncia o meu afecto especial para com Almeida Garrett, autor do livro de poesia do mesmo nome? Nasci, pois, em casa na época em que as parturientes davam à luz nas próprias casas, prédio que ainda existe tal e qual, cinzento, angular, onde morámos num rés-do-chão inteiro, um tanto alevantado e onde o meu pai tinha, em espaços separados, o seu consultório de dentista, um laboratório técnico adjacente e a sala de espera.
Trémula vizinhança dos meus primeiros anos. Os sons da broca à antiga. Depois da morte de minha mãe, e mediante o segundo casamento do pai com uma estomatologista-cirurgiã, toda a casa foi restaurada e adaptada para clínica dentária.
A nova família, nós mudámos, a alguns passos dali, em frente, para uma casa mais elegante, da burguesia instalada. Deus levou, Deus deu, Deus ama, dizia o pai. Não por muito tempo.
Durante e depois da guerra, na qual o meu pai morreu na prisão alemã, exemplo patriota checo, o lugar onde nasci tornou-se, por sua vez e sucessivamente, uma Associação de Amigos de Animais, uma organização local do PC, uma sucursal da Caixa Geral de Depósitos checa, uma agência da Caixa de Previdência. Numa das recentes viagens a Praga quis ir até ao fundo, é maneira de dizer, e descobri o caminho, através da janela entreaberta do velho pátio abandonado, para o quarto onde provavelmente estaria instalada a cama da mãe naquele dia 26 de Novembro, onde também nasceu, dois anos mais tarde, Pavel, que morreu bebé de poucos meses, e a irmã, irmãzinha Alena, cinco anos mais nova; talvez neste momento, enquanto escrevo, ela jogue ténis nos courts cobertos, onde se chega com os eléctricos 3 ou 17. Não paga bilhete: tem mais de 70 anos, radiosos; sempre assim, con. ante até no sofrimento. Pois, não a vi durante a guerra (cinco anos) para nos encontrarmos numa rua de Praga, não sabendo se ainda estávamos vivos. É verdade, depois também não trarmos a vi desde o ano 49 até 89 do século passado. O nosso mundo era pouco razoável.


3. Estava onde não deveria estar? O bairro no qual vivi chama-se Letná. Nome airoso e é efectivamente uma colina com dois grandes parques, um no alto de Praga com vista ímpar dos terraços naturais e outros já saídos das mãos dos arquitectos e jardineiros; não longe, os estádios do Sparta e dos clubes concorrentes, nós, rapazes, imitávamos a peladinha. O meu pai foi dentista-mecenato dos profissionais do Sparta, eu admirava-os silenciosamente. O outro parque era um verdadeiro bosque, cheirava a rosas, a rápidos riachos, a cavalos e ao não distante Jardim Zoológico, quando o vento se levantava. Orgulhosamente aqui crescia a única magnólia de Praga, a noiva vestida de branco tépido. Em volta, os braços do Vltava como que feitos para os nossos saltos-mergulho na água.
A partir da nossa Igreja de Santo António, as ruas de Letná subiam. A Academia de Belas Artes, meia dúzia de cinemas, um piolho a projectar de modo inseguro os filmes de terror, westerns a sério e curiosamente, visto de hoje, as preciosas fitas soviéticas da primeira época; o cinema mais elegante do bairro cultivava a programação musical americana. Aí ouvi jazz.
Alexandre Ragtime Band contra a solidão da puberdade. Bairro de bonitas jovens. Uma era minha paixão e meu amor. Chamava-se Helena, morta com 17 anos, em trânsito para o campo de concentração, ano 1940. Reabro o silêncio que conservo tantos anos, séculos. Estremecimento longínquo, diria Clarice Lispector que era da sua família, da família de Helena.


4. Quando compreendi que todas as viagens eram possíveis, chorei, não dormi e cheguei a Paris, aliás via Londres, intermitente, oficiosamente. Não foi tão simples: mas um texto destes não tem, espero, a responsabilidade de causalidade, da disciplina dos factos ou o cuidado com o rumo dos caminhos. Em Paris fiz tudo. Porém, no princípio tive a oportunidade de conhecer a high-society da esquerda da Maison de la Pensée, visto que trabalhei como Chefe de Redacção do Semanário Parallèle 50 onde, entre outros, colaboravam Roger lèle Vailland, Claude Roy, Charles Morgan, Julien Benda, Edgar Morin companheiro de minha geração -, e cujo director era Gérard, isto é, Artur London, que me assustava ma non troppo.
Da guerra civil de Espanha, ao grande agente no Ocidente e numa depuração condenado à morte, em Praga, pelos seus antigos camaradas moscovitas, como é conhecido, salvo in extremis (lembre-se ou veja o filme de Costa-Gravas, ou leia o livro autobiográfico com o mesmo nome, "Confissão"). Era, pois, meu superior. Mais uma aprendizagem. Prefiro lembrar um almoço de domingo, preparado pela La Passionaria, ao gosto espanhol, novo para mim, na moradia suburbana de London e de sua mulher Lisa (que mais tarde o salvou, filha de um deputado do PCF), mais ainda preferi conhecer Camus, a paginar o seu jornal, e depois na rua Ciseau, ou pagar um café filtre, no Café Bonaparte a Tristan Tzara, pai do dadaísmo, ele sempre de casaco comprido de inverno mas sem camisa por dentro. Maçame falar assim de Paris onde vivi dez anos de estadia plena, não é justo, nem hoje adivinho as minhas sucessivas perturbações, assimilações, aculturações, no início do Paris oficial, mais tarde sem cidadania e sem dinheiro. Aqui escrevi o meu Tristão, em condições ásperas e extáticas em francês e em checo, sem saber exactamente como. E era bom. Foi bom? Aprendi televisão.
Tornei-me secretário do Rose Rouge, o cabaré da moda na Rue de Rennes, de Anouk Aimée.
Liguei-me a Marcel Marceau jovem, frequentei Roger Caillois na UNESCO, Renée dançava na Companhia de Jean Veidt, coreógrafo dito Vermelho, Mouloudjí corrigia o meu francês escrito, etcetera, etcetera e onde estais? Onde estais? tal como pergunta António Nobre exactamente em "Lusitânia no Bairro Latino" onde estava eu ainda sem saber da Lusitânia.


5. Só os pormenores podem estar certos e metafisicamente assumidos. Sou amigo de detalhes, de microcosmos, gosto dos pequenos países, há muito mais para ver. Portugal, por exemplo.
Porto, quero dizer. Não recusei a primeira chávena de lúcia-lima, na rua da Vilarinha.


6. Volto atrás. Um avô era da aldeia (Sudomìøice) que felizmente continua a ser aldeia. Com 14 anos . zeram-lhe a trouxa e despacharam-no para Viena, teve de marchar a pé até à capital do Império de então, a algumas centenas de quilómetros de distância, para casa de um tio que nunca vira antes. Tornou-se aprendiz de tipógrafo, enamorou-se de uma cozinheirinha húngara: suponho que jantaram em segredo na cozinha do patrão. Meu pai então nasceu em Viena. Com um ano, voltaram a Praga. Meu avô tornou-se conhecido editor que descobriu e criou "O Valente soldado Chveik" de Hasek, primeiro em forma de cadernos semanais.
O outro avô, de Kolin, retroseiro, com lojeca fixa que eu adorava, transportava-se, sempre cansado e sempre alegre, pelas feiras da região.
Não sei como morreu era o tempo confuso dos primeiros anos de ocupação alemã, mas encontrei-o, tantos anos depois da sua morte, na rua de São José. Parou. Parei. Revi-o depois numa rua do Fundão.
Tive ainda mais uma família de avós, evangélicos rigorosos. Todos os domingos, com um par de cavalos e . acre alugados, a hora certa, foram à missa, à cidade mais próxima. Antes de se reformar, esse avô tolstoiano, meu jardineiro-mor, era o prosaico Chefe-Caixa da Estação Central de Praga, porém, uma alta função financeira e moral.


7. Não foi boa ideia aceitar a proposta para redigir a biografia. As minhas coisas não estão nem nunca foram no seu sítio. Não tenho verdadeira autobiogra. a para além daquela parsemeada pelo que escrevo, enceno e até ensino. Seja como for, a autobiografia em forma desta prosa dedico-a com afecto aos leitores, alguns sei regulares, outros ocasionais. E aos filhos: Clara, Manuela, Joana, Bruno, Cláudia e Francisca, todos portugueses de olhos azuis, E aos afilhados não? Gil e Inês.
Subitamente cismo: não terei aceitado a encomenda para poder momentaneamente voltar à última página que durante tantos anos foi minha (se alguma coisa fosse minha) no J.L? Voltar a casa. Mas tudo o que está de um ou outro modo vivo, muda, murcha, ressuscita, transforma-se, desloca o objectivo, escreve na penúltima página e se fosse preciso para a paz da sua alma, tentaria compor a epopeia da sua vida na folha de um guardanapo. Agora passo a palavra.

 

Post retirado do JL-Jornal de Letras online

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publicado às 06:59


#2612 - Kazuo Ishiguro é o novo Prémio Nobel da Literatura 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.10.17

 2017 Nobel Prize in Literature

The Nobel Prize in Literature for 2017 is awarded to Kazuo Ishiguro"who, in novels of great emotional force, has uncovered the abyss beneath our illusory sense of connection with the world".

 

               Kazuo Ishiguro, escritor britânico de origem japonesa, 63 anos - nasceu na cidade de Nagasaki, Japão, fixando-se com a família no Reino Unido no início da década de 1960 - é novo Prémio Nobel da Literatura 2017.

               Destacou-se com os primeiros contos publicados na revista Granta, escreveu para cinema e televisão e é autor de canções. Com o livro "Despojos do Dia" venceu em 1989 o Booker Prize.

               A Gradiva tem seis livros do autor editados: Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize; adaptado ao cinema), Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize), Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize), Nunca me Deixes (2005, nomeado para o Booker Prize; adaptado ao cinema), Nocturnos (2009) e O Gigante Enterrado.

              As Colinas de Nagasaki foi editado pela editora de Francisco Vale - Relógio D'Água - em Abril de 1989.

 

 

 

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publicado às 15:26

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS (1845-1900)

 

"Nos finais do século XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena  e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.

 

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869, acompanhou o  seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egito para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações leem e releem. Três anos depois ingressou  na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muitos diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Émile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: «Fala-lhes um discípulo de Flaubert.»

 

Cada oração que Eça de Queirós  publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o  sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o  Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra, a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

 

No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."

 

TEXTO DE JORGE LUIS BORGES, DO LIVRO "BIBLIOTECA PESSOAL", PÁGINAS 23 E 24, EDIÇÃO QUETZAL, 2014

 

 

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publicado às 18:12


#2610 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.10.17

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 " Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e que gostaríamos de partilhar. Os textos dessa biblioteca íntima não são forçosamente famosos. A razão é clara. Os professores, que são quem dispensa a fama, interessam-se menos pela beleza do que pelos vaivéns e pelas datas da literatura e pela prolixa análise de livros que se escreveram para essa análise, não para o prazer do leitor.

 

A série que prologo e que já entrevejo quer dar esse prazer. Não escolherei os títulos em função dos meus hábitos literários, de uma determinada tradição, de uma determinada escola, de tal país ou de tal época.

 

«Que outros se gabem dos livros  que lher foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler», disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor.

Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. Sei que o romance não é menos artificial do que a alegoria ou a ópera, mas incluirei romances porque também eles entraram na minha vida. Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências.

 

María Kodama e eu errámos pelo globo da terra e da água. Chegámos ao Texas e ao Japão, a Genebra, a Tebas e, agora para juntar os textos que foram essenciais para nós, percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho.

Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. «A rosa é sem porquê», disse Angelus Silésius; séculos depois Whistler declararia «A arte acontece».

 

Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava."

 

PRÓLOGO ESCRITO POR JORGE LUIS BORGES IN BIBLIOTECA PESSOAL, PÁGINAS 7 E 8 - EDIÇÃO QUETZAL, 2014

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publicado às 20:20


#2605 - O Quixote na voz dos escritores portugueses

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.09.17

 Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade  está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda so sonhos.

 

Eduardo Lourenço, «Portugal - identidade e imagem».

                                Nós e a Europa ou as duas razões (1988)

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publicado às 19:52


#2594 - Inês Pedrosa criou a sua própria Editora

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

 

Inês Pedrosa, escritora, é também editora. Acaba de montar a "Sibila Publicações", uma editora que vai priveligiar a escrita feita por mulheres.

Joumana Haddad e Maria Antónia Palla são as primeiras escritoras publicadas pela novíssima Editora.

 

 

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publicado às 07:46


#2589 - PRÉMIO PARA A PAZ GUSTAV HEINEMANN 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.09.17

ISABEL MINHÓS MARTINS - ESCRITORA

 BERNARDO P. CARVALHO - ILUSTRADOR

 

O livro «Daqui ninguém passa» escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo P. Carvalho venceu o Prémio Para a Paz Gustav Heinemann 2017, um dos mais importantes prémios alemães para livros infantis.

 

Criado em 1983, em homenagem às políticas de paz do presidente alemão Gustav Heinemann, o prémio, que tem o seu nome, é dado a livros que estimulem  a coragem moral, a tolerância e os direitos humanos.

 

"Daqui ninguém passa" foi publicado em língua alemã sob o título "Hier Kommt Keiner Durch" pela editora Klett, de Leipzig.

 

 

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publicado às 17:19


#2587 - Prémio Literário Oceanos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

A edição 2017 do prêmio Oceanos – realizado em parceria com o Itaú Cultural e com patrocínios do Itaú Unibanco, CPFL Energia e do governo de Portugal, por meio do Fundo de Fomento Cultural Português – é um marco na história das premiações literárias do mundo lusófono: a partir de 2017, o Oceanos ampliou sua abrangência para todos os livros publicados em língua portuguesa, em versão impressa e digital. 


O prêmio contempla cinco categorias – Poesia, Romance, Conto, Crônica e Dramaturgia. Podem ser inscritos quaisquer livros dessas categorias que tenham sido publicados em 2016. Isso significa que o Oceanos passa a ser o prêmio de maior alcance dentro da lusofonia, constituindo um instantâneo da produção editorial nos diferentes gêneros e traduzindo a cena literária de Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Brasil, onde o prêmio foi criado. Além disso, obras eventualmente editadas em língua portuguesa em países não lusófonos no ano de 2016 podem ser inscritas e concorrer à edição do Oceanos 2017, conforme o novo regulamento disponível neste site. 

 

Veja aqui os livros concorrentes

Clique aqui para baixar  a lista de livros concorrentes 

 

 

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publicado às 14:32


#2586 - Lista dos seis finalistas do "The Man Booker Prizes"

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

 

The 2017 shortlist: 

4 3 2 1 by Paul Auster (US) (Faber & Faber)
History of Wolves by Emily Fridlund (US) (Weidenfeld & Nicolson)
Exit West by Mohsin Hamid (Pakistan-UK) (Hamish Hamilton)
Elmet by Fiona Mozley (UK) (JM Originals)
Lincoln in the Bardo by George Saunders (US) (Bloomsbury Publishing)
Autumn by Ali Smith (UK) (Hamish Hamilton)

 

 

 

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publicado às 12:23


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28

TATANGA MANI (1871-1967)

 

"Éramos um povo sem leis, mas estávamos em muito boas relações com o Grande Espírito, criador e senhor de todas as coisas. Julgáveis vós, os brancos, que éramos selvagens. Não compreendestes as nossas orações. Não procurastes compreendê-las. Quando cantávamos os nossos louvores ao Sol, ou à Lua, ou ao Vento, dissestes que éramos idólatras. Sem compreenderdes, condenaste-nos como se fôssemos almas penadas, simplesmente porque o nosso culto era diferente do vosso.

 

Nós víamos a obra do Grande Espírito em quase todas as coisas: no Sol, na Lua, nas árvores, no vento, nas montanhas. Por vezes aproximávamo-nos dele por intermédio destas coisas. Que mal tinha isso? Penso que tínhamos uma crença sincera no ser supremo, e uma fé maior do que a de muitos dos brancos que nos chamavam pagãos... Os índios, ao viverem junto da natureza e do Senhor da natureza, não vivem na obscuridade.

 

Sabíeis vós que as árvores falam? Pois falam. Falam entre elas, e hão-de, se as escutardes, falar-vos a vós. O problema dos brancos é não ouvirem. Nunca aprenderam a ouvir os Índios; por isso estimo que não ouvem outras vozes da natureza. As árvores, porém, a mim ensinaram-me muito: umas vezes a respeito do tempo, outras vezes a respeito dos animais, outras ainda a respeito do Grande Espírito."

 

in "A Fala do Índio", de Teri C. McLuhan, página 25, edição da Fenda Edições, Outubro de 1996

 

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publicado às 17:54


#2574 - A Fala do Índio

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.09.17

 

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"A Terra foi criada com a ajuda do Sol, e deveria ser deixada como era... O país foi feito sem fronteiras, e não cabe ao homem dividi-la... Bem vejo os brancos enriquecerem pelo país fora, e vejo o desejo deles de nos darem terras sem valor... A terra e eu somos do mesmo espírito. A medida da terra e a medida dos nossos corpos são as mesmas. Dizei-nos, se a tal vos atreveis, que fostes enviados pelo Poder Criador para nos falardes. Julgais por certo que o Criador aqui vos enviou a fim de dispordes de nós como julgais legítimo. Se eu pensasse que fostes enviados pelo Criador, seria levado a julgar que teríeis o direito de dispor de mim. Não me entendias mal; procurai, pelo contrário, entender por completo a minha afeição pela terra. Eu nunca proclamei que a terra é minha, a fim de fazer dela o que me aprouvesse. Quem tem direito a dispor dela é quem a criou. Requeiro pois o direito de viver na minha terra, e a vós concedo-vos o privilégio de viver na vossa."

 

Hin-Mah-too-yah-lat-kekt (Chief Joseph), dirigente da tribo dos Nez Percé.  Do Livro «A FALA DO ÍNDIO», de Teri C. McLuhan, página 48, edição FENDA EDIÇÕES, Outubro de 1996.

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publicado às 19:11


#2568 - FEIRA DO LIVRO DO PORTO | 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.08.17

 

Feira do Livro do Porto

Feira do Livro do Porto, 1 a 17 Setembro 2017, Jardins do Palácio de Cristal,

programação de Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa

 

Dia 1

Uma máquina voadora movida por vontades (Saramago),  22h

spoken word por

André e. Teodósio, encenador, e Teatro Praga;

 

Dia 2

Clarice Lispector por Carlos Mendes de Sousa (lição, 12h);

Miguel Sousa Tavares, Frederico Lourenço e Ana Luísa Amaral conversam sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (19h);

 

Dia 3

José Luís Peixoto e Patrícia Reis conversam sobre o sagrado e o profano na literatura com moderação de João Paulo Sacadura (16h);

Han Kang, escritora coreana cujo romance, “A Vegetariana”, venceu o prestigiado Booker International de 2016, conversa sobre a sua obra com José Mário Silva (19h);

 

Dia 6

"Memorial do Convento" de Saramago por Carlos Reis (lição, 19h);

 

Dia 8

De Ana Hatherly a Tarkovsky (palavras, imagens e um fio de música) 21.30

por

Matilde Campilho (poeta)

Tomás Cunha Ferreira (artista plástico e músico)

Mariano Marovatto (poeta e músico)

Anastasia Lukovnikova (cineasta)

 

Dia 9

Sophia de Mello Breyner por Ana Luísa Amaral (lição, 12h); 

A escritora brasileira Tatiana Salem Levy conversa com a portuguesa Dulce Maria Cardoso (que estará lançando um novo livro) sobre a importância da literatura num mundo à beira do abismo — ou da salvação. Mediação de Raquel Marinho (15h);

Que mistérios tem Clarice? 

spoken word, 21.30, por

Carlos Mendes de Sousa (selecção de textos)

Ana Vidigal (imagem)

Marta Hugon (a dizer e a cantar)

Filipe Raposo (piano)

 

Dia 10

Teju Cole conversa com Isabel Lucas (16h);

Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida conversam sobre a  construção e a reinvenção da memória, com mediação de Carlos Vaz Marques (19h);

 

Dia 13

"A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, por Clara Rowland

(lição, 19h);

 

Dia 16

David Mourão Ferreira por Fernando Pinto do Amaral (lição, 12h);

Laurent Binet conversa com Ana Sousa Dias (19h);

 

Dia 17

"Húmus" de Raul Brandão por Maria João Reynaud (lição, 12h);

Alexandra Lucas Coelho e Gonçalo M. Tavares conversam sobre o  corpo e o mal, com moderação de Luís Caetano (19h);

 

 

"Num mundo em convulsão, atormentado por grandes e imprevistas mudanças, e em busca de novos caminhos e ideais, a literatura tem um papel cada vez mais importante: o de promover o debate e pensar o futuro. Para esta edição da Feira do Livro do Porto iremos trazer um conjunto de escritores de grande relevância a nível internacional e no espaço da lusofonia, os quais irão discutir entre si, e com os leitores presentes, temas como a construção e a reinvenção da memória, a instalação do mal, ou o lugar do sagrado e do profano na literatura e na sociedade.

Iremos ainda recordar e homenagear Sophia de Mello Breyner e Júlio Diniz.

A nossa intenção é criar um Porto de Ideias, um lugar de encontro de escritores e pensadores, dando assim continuidade a uma tradição de cosmopolitismo e de partilha, característica da natureza de todas as antigas urbes portuárias.

José Eduardo Agualusa"

 

"Para explicar o modo como pensei alguns eventos da Feira do Livro do Porto (1 a 17 Set), socorro-me do maravilhoso trabalho, feitas de palavras desenhadas, de Ana Hatherly. Há nele uma forma que não é definitiva, que está em mutação, como que levada pelo vento; e, nesse movimento, contagia, assume novas configurações, incorpora um saber e uma relação que vem com os outros. Aprender é isto. Aprender implica uma dinâmica, uma abertura, a contaminação. Uma nova realidade que é criada, distinta da precedente, algo que nos faz ser outros e em que intervimos. Há elementos especialmente activos nesta metamorfose. Poetas, palavras, imagens, uma evocação, a música. Princípios, partículas essenciais, que nos levam, implicam, transformam. E intérpretes (aventurosos) que prolongam o movimento, desafiam limites, convocam outros e ainda outros. Tudo parte de uma matéria orgânica.

Nas sessões de spoken word, a palavra é dita, literalmente, mas está longe de se esgotar no dizer; ao invés, ela é apropriada pela imagem, pelo som, pela diversidade linguística e de suportes. Trazemos Clarice, Saramago, vamos de Hatherly a Tarkovsky.

Nas lições, recordamos os 30 anos da partida de Carlos Drummond de Andrade (e analisamos o seu mais famoso poema, A Máquina do Mundo), os 40 anos da morte de Clarice Lispector, David Mourão Ferreira que faria 90 anos, se fosse vivo, os 35 anos da invenção de uma máquina que voa movida por vontades ("Memorial do Convento") e Sophia, a autora homenageada na Feira, fada-menina-musa-tudo.

Anabela Mota Ribeiro"

 

A Feira do Livro do Porto conta ainda com um ciclo de cinema, exposições, discussões, entre outras iniciativas. 

 

A INFORMAÇÃO SOBRE A FEIRA DO LIVRO DO PORTO FOI RETIRADA DO "SÍTIO" DA ANABELA MOTA RIBEIRO

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publicado às 09:10


#2566 - Com olho de peixe

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

 

 

"Acredito no rio Amazonas desde que eu era menino. Meu pai foi quem primeiro me falou dele. Disse que sua largura era tamanha que o lado de lá não se via. Eu, acostumado a pescar lambaris em ribeirões e riachinhos, ouvia ele dizer que o rio maior que tinha visto, o Grande, perto do Amazonas não passava de um mijinho de menino. No Grupo decorei e recitei feito poesia os nomes dos afluentes dele: Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu. Aprendi também sobre a pororoca, briga que o rio perde sempre, porque o mar é maior do que ele. Assim é a vida: o mar tem sempre a última palavra... Mas o que me fascinava mais, mesmo, era a notícia de uma planta de folha tão grande que nela se podia deitar uma criança. Tudo era assombroso.

 

Acreditei sem nunca ter visto, só de ouvir dizer. Acreditei tanto que cheguei mesmo a viajar para lá para ver o rio. Quem vai é porque acreditou. E vi com estes olhos, e quando o quero rever releio o poema de Heládio Brito:

 

Eu vim de ver o rio

o frouxo ir das águas,

pesadas delas mesmas,

grossas das lonjuras vindas

no irem sendo rio.

Líquido boi cansado

carregado de peixes,

trabalha o rio

para os homens da margem,

que ao suado lombo lhe fustigam

com seus anzóis e redes...

 

Cheguei mesmo a navegar nas suas águas, se atravessar de balsa é navegar. Não, não é não. Quem navega com a cabeça fora d'água nada sabe. É preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. Mas, para isso, serai preciso que fôssemos como os peixes. O Guimarães Rosa amava tanto os rios que desejava, numa outra encarnação, nascer crocodilo. Nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. Os crocodilos os conhecem nas funduras. Nas funduras os rios são escuros e tranquilos como os sofrimentos dos homens. Essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranquilos.

 

Aí ele diz uma coisa inusitada: que o rio é palavra mágica para conjugar eternidade. Eu havia aprendido o contrário, que o rio é palavra para conjugar tempo. Pelo menos foi assim  que ouvi de Heráclito, o filósofo: "tudo flui, nada permanece, tudo é rio..."

 

Mas lendo as Escrituras Sagradas percebi que certo estava o João: "a eternidade mora no fundo das águas, no fundo do tempo". Quando Deus quis fazer artes mágicas com Jonas, jogou-o no mar, onde um peixe o aguardava de boca aberta, e por três dias ficou na fundura das águas, como feto na barriga da mãe, até que se transformasse em profeta. O que não é muito diferente das metamorfoses que fazem um poeta - portanto confirmado pela Cecília Meireles e pelo T.S. Eliot que afirmam que, para fazer poesia, é preciso ter olhos de peixe. Não é por acaso, portanto, que o ritual mágico para transformação do velho em criança, a que se dá o nome de "batismo", siga a metáfora do afogamento e do nascimento: o adulto é mergulhado, de corpo inteiro, nas águas de um rio: o velho que mergulha morre; a criatura que sai das águas é menino.

 

Não é por acaso, portanto, que o peixe seja, a um tempo, símbolo poético e símbolo profético: é que ele nada nas funduras do tempo, onde a eternidade gera os seus milagres.

 

Na superfície do rio é o tempo que flui, sem parar. Assim estava escrito nos carrilhões antigos, aqueles relojões enormes de pêndulos sem pressa: tempus fugit - o tempo passa, a vida vai se perdendo nas águas do nunca mais. Resta então a saudade sem remédio, caso tenha havido amor e alegria. A festança ao fim do tempo só se justifica se amor não houve, nem alegria. A perda da coisa amada não pode ser festejada. Só pode ser lamentada.

 

Mas pensando no que dizem os poetas e profetas, eu me descubro transformando o choro em riso: os que semeiam com lágrimas com alegria ceifarão, pois Deus é o rio mostrando as suas entranhas. No fundo, na eternidade, as águas correm ao contrário, disso sabem os peixes, que nadam contra a correnteza - a alma também; na superfície a gente nasce nenezinho, tempus fugit e a gente fica adulto, tempus fugit e a gente fica velho, tempus fugit e a gente morre. Nas funduras, onde mora a eternidade, é ao contrário. Primeiro é a velhice. Aí tempus fugit , a gente vira menino.

 

Deus começa sempre pelo fim. Nas Escrituras Sagradas o dia começa com a tarde e termina com a manhã. Está escrito no poema da Criação: "E foi a tarde e a manhã do primeiro dia..." O sol se põe, mais um dia se inicia. O fim é o lugar do começo.

 

Ao recitar as estações do ano a gente, automaticamente, diz: primavera, verão, outono, inverno. Mas lendo D. Miguel Unamuno percebi que isso não está certo. O tempo é uma roda. Se nas Escrituras o dia começa com a tarde, no ano as estações podem muito bem se iniciar com o inverno. Inverno, primavera, verão, outono... O inverno é a infância do ano. No seu silêncio profundo a primavera está em gestação... No silêncio do fim moram os começos. No silêncio da velhice mora a infância...

 

Tem gente que acredita em Deus com firmeza, do jeito mesmo como eu acreditava no rio Amazonas, por ouvir dizer - chegando a discorrer com autoridade, invocando teologia e dogma, feito o meu pai, que ensinava sem nunca ter ido ou visto. Não mergulha, por medo de se afogar. Agora eu acredito em Deus como crocodilo ou peixe, para me des-afogar... Eu preciso dele para o tempo andar ao contrário. E é assim que eu o imagino, como um pescador que vai lançando nas águas do tempo as redes da eternidade, para pescar tudo aquilo que foi amado e que se perdeu. Para nos devolver. É o "eterno retorno". É a "ressurreição dos mortos". É a primavera nascendo do inverno. É a criança nascendo do velho.

 

Isso eu desejo do ano novo, criança nascida do velho; que eu seja mais criança do que fui."

 

 VER BIOGRAFIA DE RUBEM ALVES »»»»

 

CRÓNICA DE RUBEM ALVES PUBLICADA NO LIVRO "SOBRE O TEMPO E A ETERNIDADE", EDIÇÃO DA PAPIRUS, SPECULUM, 1995, BRASIL.

 

 

 

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publicado às 10:57


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