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#2693 - LISBOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

bernard-noel.jpg

 BERNARD NOËL

 

LISBOA

 

sete colinas e nenhum papa um tremor

quando o grande sol mastiga o mar da palha

as casas alinhadas como espectadores

de pé diante de outras que vêem

envelhecer por cima delas as roupas estendidas do tempo

a cidade está tão cumeada de vermelhos

que vista de cima parece menchada de sangue

o olhar procura em todo o lado o branco de uma lenda

mas o presente pequenino tudo tapou

só o corpo do poeta ficou intacto

o álcool conserva muito melhor do que a memória

assim se esconde debaixo de uma pedra pesada

a prova de que o ser é menos que o não ser

quem saberá jogar com o desassossego

para que a duração empalhe enfim a pele

e mude a aparência em carne imortal

de um momento para o outro um novo morto morreu

tanto como o mais antigo de todos os mortos

estranha igualdade que desafia o tempo

 

POEMA DO POETA FRANCÊS BERNARD NOËL

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publicado às 16:04


#2689 - LISBOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.17

 WILLIAM CLIFF

 

LISBOA

 

o céu do Atlântico o grande céu errante

o céu e estas nuvens que passam lentamente

o céu que com o vento se nos faz inconstante

e nos despeja água que colhe prontamente

 

céu que faz renascer o gosto das viagens

no corpo do que quer por certo ainda sonhar

enquanto vê correr a sombra das imagens

pensamentos e fumos lá por fora a voar

 

oh! como é triste aqui desejar o amor

neste canto da terra tão longe da Europa

oh! como nos enfraquece todo este céu sem cor

e estas ondas que caem com a dureza da rocha

 

como está só aquele que passeia com o cão

e quer beber ao longe a sua solidão

com o seu negro olhar odeia e não mais quer

que olhar as mesmas ondas sem sequer as ver

 

oh! como este vento nos corta já a pele

como é mais forte aqui o sopro do mar alto

e como é tão difícil achar neste vergel

um lugar para o barco onde ancorar a salvo

 

e todo o mau humor na cara desta gente

e o silêncio diante da imensidão marinha

e este enorme rio com o seu maldoso vento

onde passam vapores para a Praça sozinha

 

Poema do poeta belga William Cliff

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publicado às 22:20


#2635 - Tu, Lisboa. Você, Lisboa. Senhora Dona Lisboa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 Antonio Tabucchi (1943-2012)

 

"No que se refere a formas de tratamento, meu caro Cardoso Pires, a tua bela língua possui um número considerável delas, para desconcerto do turista optimista que aterra no aeroporto de Lisboa munido do tranquilizador | Speak Portuguese, e para pânico do aprendiz cheio de boa vontade que tenha feito o curso linguafone  O Português em 4 Semanas.

 

Um número tão considerável que - assegurava o linguista Luis Lindley Cintra, teu companheiro de oposição àquele Salazar que parecia imortal (e que, em tempo de bocas e canetas amordaçadas, tu imortalizaste deveras, tornando-o o fóssil protagonista da tua "fábula" Dinossauro Excelentíssimo) - não deixa a tua língua ficar atrás de nenhuma outra na Europa, parecendo que, no mundo, só o fica do japonês. Bem pode dizê-lo uma  pessoa como eu que um dia, com a arrogância aprendida no manual de gramática e convencido que o Você (que na minha língua é o Lei) servia para todas as ocasiões, afrontou candidamente a infinita babel hierárquica das formas de tratamento que o português prevê. E aconteceu-lhe ouvir um miúdo da rua que, a jogar à bola no adro de uma igreja de Alfama, reagiu deste modo para com o seu companheiro de jogo demasiado individualista: "Você devia ter-me passado a bola, seu palerma!" * Ou aconteceu-lhe escutar, numa educadíssima discussão conjugal de um casal pequeno-burguês, a seguinte pérola linguística pronunciada pelo marido empertigado: "A menina tenha paciência, mas não estou de acordo consigo". * Ou ainda uma senhora de certo tom que, chamada apenas "Dona Josefa"  e não "Senhora Dona Josefa" como a sua classe exigia, considerou o pobre visitante estrangeiro um verdadeiro troglodita.

 

Isto para não falar de quando nas formas de tratamento, para complicar as coisas, se insinua o sub-reptício diminutivo, de uso muito frequente e com as nuances mais insuspeitáveis que podem significar ternura, familiaridade, confidência, mas também, em certos casos, inferioridade hierárquica e atenções servis para com o superior. Eis uma frase pronunciada durante a não remota guerra de África entre Portugal e as suas "Províncias Ultramarinas" Angola e Moçambique. Contou-ma o antropólogo e escritor José Cutileiro, alto funcionário da União Europeia em Bruxelas, onde certamente é confortado pelo uso de "Vous" da Revolução Francesa e pelo "You" dos pragmáticos albiões. A personagem era neste caso um cabo,e  o destinatário era neste caso um cabo, e o destinatário o oficial da companhia: "Meu capitão, a metralhadorazinha

está prontinha". * E o capitão, graças àqueles diminutivos, percebeu imediatamente que podia contar em absoluto com aquele cabo:  ele estava completamente ao seu serviço.

 

Vá-se lá saber como se safou o snobíssimo Beckford, refugiado na Lusitânia a chular a aristocracia portuguesa da época (à qual, aliás, reservou um desprezo arrogante, como revela o seu diário), que de certeza com o seu insuficiente "You" deve ter cometido gaffes vergonhosas. Dá-me mais prazer em Fielding, a quem aconteceu passar por Lisboa e lá morrer (repousando agora no Cemitério Monumental), e cuja ironia atenta às matizes linguísticas das classes sociais o guiou provavelmente no labirinto das formas de tratamento.

 

Formas de tratamento, Lisboa. Como bem sabes, meu caro José (aliás recorda-lo afectuosamente neste Livro de Bordo), também eu deambulei pela ponte da nau "Lisboa": não só com os pés, mas sobretudo com os passos da fantasia, das impressões, das sensações e das recordações. Aquele meu percurso bastante ilógico, que preferi chamar "uma alucinação", tornou-se um livro intitulado Requiem, que escrevi na tua língua. Não tanto por capricho, mas porque, para falar de Lisboa (e para a viver), o português impôs-se. Talvez isso tenha sido a minha maneira de lhe prestar homenagem. E no entanto não tive a coragem de a interpelar, de encontrar uma das muitas formas de tratamento para dizer: Lisboa. Eu, toscano da minha Toscana marítima, que me apaixonei por ela quando era jovem e ela uma senhora de certa idade, aprendendo com  esforço os sons por vezes roucos e por vezes de sereia que tão bem descreves neste teu livro, não sabia de que maneira devia  dirigir-me a ela. Excelentíssima Senhora Dona Lisboa? Querida Dona Lisboa? Minha Amiga Lisboa? E que pronome  pessoal usar? No embaraço da escolha, desisti.

 

Mas tu tratas Lisboa por tu, e podes bem fazê-lo. É a tua companheira. E como uma abelha visitas o seu cálice. E é por isso que a sua flor continua a florir através dos séculos na literatura portuguesa: porque há escritores e artistas como tu, que não se lembram dela apenas quando está na mó de cima, mas também nos momentos mais obscuros da sua existência, que tu atravessaste com ela.

 

Seco, sonoro como o estalido de uma vela, assim é o estilo deste teu livro de bordo, bem longe daquela escrita colorida que, revestindo de roupa reciclada um certo "realismo mágico" de boa memória, procura o sucesso fácil descrevendo Portugal como um país sul-americano da operetta, graças ao "pitoresco" que tanto agrada no estrangeiro (Portugal is different).

 

E agora fazes levantar âncora à "tua" Lisboa como um veleiro do qual és ao mesmo tempo piloto e escrivão de bordo. Porque é verdade que a tua cidade, "pousada no Tejo como uma cidade que navega", em outros tempos fez-se ao mar e penetrou nos oceanos, à aventura. E contornou Áfricas, visitou Índias e Malacas, descobriu Brasis. Em suma, "por mares nunca dantes navegados", como diz Camões, levou a Europa ao mundo e o mundo à Europa.

 

Mas nesta Lisboa também eu quero embarcar, mesmo que seja com uma tarefa humilde que no entanto me agrada: a de grumete a polir os latões.

 

Se não te importas, vou pois subir contigo para este veleiro que aparentemente está ancorado, mas que todavia viaja, viaja.

 

Texto de Antonio Tabucchi traduzido por M.C.Loureiro. Este texto foi escrito como prefácio às edições italiana e alemã do livro de José Cardoso Pires intitulado Lisboa, Livro de Bordo.

Este texto foi publicado na Revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, número cinco-Inverno 1997, páginas 3, 4 e 5.

 

 

 

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publicado às 21:54


#1408 - Festival do Silêncio começa hoje

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.11

 

VER PROGRAMA

 

 

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publicado às 18:56

O filme “Bartolomeu Cid dos Santos – Por Terras Devastadas”, de Jorge Silva Melo, conquistou o prémio de Melhor Filme Português na competição de Filmes sobre Arte do Festival Temps d´Images, que acabou ontem em Lisboa.

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publicado às 12:48


#941 - Joshua Benoliel

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.09


Fotografias de Joshua Benoliel


Em cima: O autor nas termas romanas, rua da prata, lisboa, 1909

Em baixo: Embarque do corpo expedicionário português para a Flandres. Cais de Santa Apolónia, 1917

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publicado às 22:48


#872 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.07.09

"Santana Lopes tem um difícil problema com a realidade"


António Costa em entrevista ao "i"

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publicado às 17:22


Duas grandes instituições

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.03.09

Fernando Pessoa e a Ginginha

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publicado às 17:14


Gebalis: Ministério Público acusa ex-administradores

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.08

Almoços de 5.971 euros no estrangeiro

 

Os ex-administradores da Gebalis gastaram, entre Fevereiro de 2006 e Outubro de 2007, quase seis mil euros em 48 refeições "em restaurantes e hotéis de luxo ou de especial requinte gastronómico", como frisa o despacho de acusação do Ministério Público, em diversas capitais europeias e outras cidades fora da Europa.

 

 Gestores gastaram 64 mil euros em almoços

O relatório da Polícia Judiciária sobre a gestão da Gebalis, entre Fevereiro de 2006 e Outubro de 2007, é devastador para a administração de Francisco Ribeiro, Clara Costa e Mário Peças, então presidente e vogais da empresa responsável pela gestão dos bairros sociais da Câmara de Lisboa.

 

 

22 viagens custaram 42 mil euros à Gebalis

 

 

 Empresa municipal - suspeita-se da utilidade das idas a seminários

 

In "Correio da Manhã"

 

 

 

 

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publicado às 17:04


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