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"Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos", escritos por cem poetas, acaba de ser publicado pela Companhia das Letras, celebrando a pluralidade da poesia com autores famosos, mais desconhecidos, esquecidos ou acidentais.

A recolha foi feita pelo jornalista e escritor José Mário Silva que introduz a antologia com breves notas, nas quais se defende ainda antes do ataque: "Os cem poemas aqui reunidos não serão os melhores de um século, 'stricto sensu', mas fixam a resposta do antologiador à pergunta 'Quais são, para si, os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos?'".

José Mário Silva reconhece que entre milhares de poemas portugueses escritos ao longo de um século é impossível escolher os melhores, não só por a escolha ser sempre incompleta, mas pela própria indefinição quanto ao que significa "melhor" em poesia, e sobretudo pela subjetividade do ato: "Uma antologia diz sempre mais sobre quem seleciona do que sobre a matéria selecionada".

"Nem o mais amplo e lúcido comité de sábios poderá chegar a um consenso que é, por definição, impossível", escreve José Mário Silva, que avançou, então, para a definição de critérios de escolha dos poemas.

O mais difícil prendeu-se com a representatividade e José Mário Silva optou por não fazer corresponder o número de textos escolhidos de cada autor com a sua importância relativa na história da literatura, para permitir uma maior variedade de vozes.

Se assim não fosse, "gigantes" como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Herberto Helder teriam de estar muito mais representados do que um jovem escritor com escassa bibliografia.

Ainda se levantaria outro problema, que era o de o leitor ser induzido a pensar que um Vitorino Nemésio era mais significativo do que um Mário Cesariny, só por o livro conter mais poemas do primeiro do que do segundo.

Assim, chegou o antologiador ao "critério radical" de escolher apenas um poema por autor, ou seja, o livro reúne cem poemas de cem poetas, sendo que -- e esta é a exceção -- Fernando Pessoa, que foi vários num só, aparece quatro vezes, enquanto ortónimo e enquanto cada um dos seus principais heterónimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis).

A baliza temporal do século implicou a exclusão de poemas publicados pela primeira vez em livro antes de 1917, mas ainda assim foi suficiente para abranger autores ainda nascidos antes de 1900, como Camilo Pessanha, Angelo de Lima, Teixeira de Pascoaes, Judith Teixeira, Almada Negreiros ou Florbela Espanca.

São evocados também alguns poetas mais esquecidos, entre os quais José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, António Maria Lisboa, Ana Hatherly ou Luís Pignatelli, e outros que nem têm a poesia como género literário principal, como é o caso de Jorge de Sena, Carlos de Oliveira ou Eduardo Guerra Carneiro.

Na lista contam-se, entre muitos outros, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, Herberto Helder, Ruy Belo, Al Berto, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Hélia Correia ou Nuno Júdice.

Também as vozes mais jovens e menos conhecidas da poesia portuguesa, como é o caso de Rui Lage, Golgona Anghel, Raquel Nobre Guerra ou Matilde Campilho, constam deste livro de 192 páginas, dividido em quatro partes, intituladas "Retratos", "Relatos", Desacatos", "Hiatos".

 

AUTOR: AGÊNCIA LUSA

 

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publicado às 22:54


#1153 - Novo Livro de Valter Hugo Mãe

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10



a máquina de fazer espanhóis
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-672-016-2
Ano de publicação: 2010

 

Em o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 2008), o anterior romance de valter hugo mãe, um ucraniano com nome de craque do Dínamo de Kiev (Andriy Shevshenko) explica a dada altura que «para abrir caminho na ferocidade de um país alheio» é preciso alcançar a «felicidade das máquinas». No novo livro do escritor de Vila do Conde, há uma extrapolação desta metáfora, se entendermos a ideia de máquina como uma entidade abstracta, composta por peças muitas vezes à mercê de uma lógica e de uma energia cinética que as ultrapassa.
A primeira máquina com que nos deparamos no livro é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).
É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista do romance: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Um fascismo que deixou a raiz podre dentro das cabeças, dentro dos «bons homens» que não mexeram um dedo contra Salazar, que aceitaram uma «cidadania de abstenção», por medo ou apego à família, e ainda hoje são habitados pelo fantasma do que não tiveram coragem de fazer; ou que cobardemente permitiram que se fizesse.
A segunda máquina, a que dá título ao livro, é então Portugal, esse eterno problema que temos connosco mesmos e que valter hugo mãe aborda com raro desassombro. Há ainda uma terceira máquina: a «máquina que tira a metafísica». Sem metafísica, os velhos deixam de ter algo a que se agarrar e resvalam de vez para a morte. Um tal engenho, entrevisto em delírios por alguns dos residentes, pode ser uma mera fantasia senil ou um inesperado objecto real, posto ao serviço de uma rentabilidade económica de contornos criminosos.
No seu projecto de huis clos, valter hugo mãe deparou-se com um problema. A tremenda intensidade dramática com que descreve o sofrimento das personagens (o colapso dos corpos, a solidão, a loucura, as arestas cruéis da memória) depressa se torna insustentável, demasiado violenta, irrespirável. Para escapar a isto, valter criou então pontos de fuga, mudanças de ritmo narrativo, jogos metaliterários (como o de incorporar à história Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, agentes da PJ saídos dos livros de Francisco José Viegas, em dois capítulos que quebram a regra de só escrever com minúsculas). Acontece que estas soluções criam por sua vez novos problemas de equilíbrio e consistência narrativa, nalguns casos resolvidos de forma pouco satisfatória. O forte deste autor, diga-se, não é a estrutura. É o estilo. Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8/10

 

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

 

Este texto foi escrito por José Mário Silva e  retirado do seu Blog "O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL".

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publicado às 12:49


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