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#2163 - "Trump tem o vocabulário de uma criança de 6 anos"

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.02.17

Peter Kuznick, professor de História na Universidade Americana em Washington

 

Para Peter Kuznick, professor de História na Universidade Americana em Washington, "as coisas parecem bem encaminhadas" para um impeachment a Trump. Kuznick é especialista em temas nucleares e autor do livro "A História não Contada dos Estados Unidos", escrito com o realizador Oliver Stone e editado em Portugal pela Vogais.

Está assustado com a presidência de Donald Trump?

Aterrorizado. A ameaça mais imediata vem das políticas nucleares. Basta pensar que uma guerra muito limitada, por hipótese entre a Índia e o Paquistão, em que explodissem cem bombas equivalentes à de Hiroxima, seria suficiente para causar dois mil milhões de mortos, uma queda abrupta das temperaturas e doenças pelo menos durante uma década. Imagine-se o que poderia acontecer se fosse usada apenas uma fração das cerca de 15 mil armas muito mais potentes. Trump disse durante a campanha que responderia a um ataque terrorista com armas nucleares, já ameaçou rasgar o acordo com o Irão e os seus conselheiros em matéria de política externa são assustadores. Rodeou-se de um bando de islamofóbicos.

Já se fizeram muitas comparações entre Hitler e Trump. É exagero?

Apesar de muitas semelhanças, Trump ainda não é um Hitler, nem nós deixaremos que ele se torne num. Ele apela às piores tendências que existem na sociedade, tem posições muitos hostis em relação aos muçulmanos e não lhe corre no sangue um pingo de bondade ou de generosidade humana. Mas ainda não vimos aquele ódio cego que poderia levar a uma loucura genocida como no caso de Hitler. Um sinal preocupante, porém, é o desprezo que mostra pela verdade. Não é um nazi, mas não tenho dúvidas de que um homem como Trump seria um nazi na Alemanha dos anos 30.

Tem esperança de que o Partido Republicano funcione como travão à loucura de Trump durante os próximos quatro anos?

Não, porque quem o criou foi o Partido Republicano. Trump é um produto de anos e anos de posições republicanas que apelam ao pior da sociedade americana: ao ódio, preconceito, medo, racismo, à misoginia. Trump vai apenas um bocadinho mais longe do que é o republicano médio dos dias de hoje. Os extremistas do Tea Party acabaram com os republicanos moderados. A única esperança, ainda que ténue, é que os menos extremistas dos extremistas percebam que Trump não é bom para o partido e que ficariam melhor com Mike Pence.

O ano de 2017 marca o 25.º aniversário do fim da Guerra Fria. Como vê a relação EUA-Rússia? Podemos falar de um antes e um depois de Vladimir Putin?

Nos tempos de Boris Ieltsin a relação Washington-Moscovo foi uma maravilha para a classe dirigente norte-americana, mas revelou-se um desastre para a Rússia. Ieltsin aceitou tudo o que os EUA queriam. O resultado foi a economia russa a encolher. Até a esperança média de vida caiu dos 66 para os 57 anos. O escritor Alexander Soljenítsin, depois de ter estado exilado durante duas décadas, voltou à Rússia e descreveu a situação em 2000: "Os setores fundamentais do Estado foram destruídos ou saqueados. Vivemos entre ruínas. As falsas reformas deixaram ainda mais pessoas na pobreza." Este foi o momento em que a NATO começou a expandir-se para leste - apesar de Bush ter prometido a Gorbachev de que isso não aconteceria se a Rússia viabilizasse a reunificação alemã.

E com Vladimir Putin?

No início, Putin teve um comportamento amistoso para com os EUA. Mas aos poucos, à medida que a NATO continuou a expandir-se até às portas da Rússia, a relação com Bush filho azedou. Barack Obama prometeu recomeçar do zero, mas continuou a seguir as políticas que eram vistas por Putin como uma ameaça para a segurança nacional russa, incluindo o envio de armamento para o espaço, a expansão da NATO, o envio de tropas para o Báltico, a Ucrânia, as sanções... Apesar de ter havido uma colaboração positiva em casos como o acordo nuclear com o Irão, as relações deterioraram-se a um ponto em que começou a falar-se numa "nova Guerra Fria". Em 2016 a situação era de facto perigosa. EUA e Rússia estiveram mais perto da guerra do que em qualquer momento desde 1962.

Com Trump passámos da nova guerra fria ao amor quente?

No último ano fui várias vezes à Rússia. Foi preocupante perceber que os meus colegas russos preferiam Trump a Hillary Clinton. Não sou um fã de Clinton, mas tentei explicar-lhes que ela seria sempre preferível a um louco imprudente, intolerante, ignorante, narcisista e impulsivo. A única coisa que Trump fez até agora como presidente que me deixa um bocadinho de esperança foi o telefonema com Putin. É bom que tenha conseguido reduzir as tensões. Mas o facto de neste momento estar a ser amigável para com a Rússia não significa que seja assim amanhã. Um homem que perde as estribeiras se for provocado no Twitter não devia jamais ter acesso aos códigos nucleares.

É uma questão de tempo até que as coisas amarguem?

Trump é um homem cheio de ódio e preconceituoso. E rodeou-se de pessoas da mesma laia. Creio que as relações vão azedar muito depressa.

Trump estará a começar uma nova guerra fria com a China?

Infelizmente, parece que sim. Mas também nesta questão a sua política pode mudar amanhã.

Quão plausível é um impeachment a Trump?

As coisas parecem bem encaminhadas. Até no próprio partido há muita gente a perder a cabeça. Trump tem a maturidade emocional de uma criança de 4 anos, o vocabulário de uma de 6 e é incapaz de pensar um problema complexo. Tem tanta propensão para os escândalos que dá aos opositores corda mais do que suficiente para que o enforquem.

Os conflitos de interesses...

Estão por todo o lado. Recusa publicar as declarações de impostos e passou os negócios para as mãos dos idiotas dos filhos. Há vários processos a correr contra ele e convém não esquecer que uma dúzia de mulheres apareceu durante a campanha a acusá-lo de assédio. O país está mobilizado contra ele. Desde os movimentos contra a Guerra do Vietname nos anos 1960 que não assistíamos a este nível de mobilização política. Muitos republicanos preferiam ver Mike Pence [atual vice-presidente] no lugar de Trump. Não terá a mesma pompa e circunstância, mas é um herói dos fanáticos cristãos da ala mais à direita do partido.

 

Entrevista publicada no DIÁRIO DE NOTÍCIAS ON-LINE  por José Fialho Gouveia

 

 

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publicado às 14:20


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