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José Saramago e António Lobo Antunes - O Fla-Flu dos Romancistas

Rivais, os escritores portugueses José Saramago e António Lobo Antunes mobilizam partidários apaixonados e protagonizam uma disputa que envolve vida pessoal e literatura

Por Anna Carolina Mello


A rivalidade não é tão agressiva quanto a que se deu quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa descobriu que sua mulher se envolvera com o ex-amigo Gabriel García Márquez; nem tão ressentida quanto aquela que o britânico Martin Amis provocou ao passar para trás a mulher do colega Julian Barnes, contratando outro agente literário. A rixa entre os portugueses José Saramago e António Lobo Antunes não teve vexame ou dissolução de amizade. Mas há algo que a torna especialmente divertida: mesmo sem um motivo aparente para existir, ela mobiliza partidários apaixonados dos dois lados. Comparam-se as obras, medem-se os prêmios e até as vidas pessoais de ambos entram no escrutínio dessa disputa. Nesse embate, sobram palavras e apreciações pouco agradáveis.

 

 

Recentemente, ambos despertaram os ânimos de suas respectivas torcidas com lançamentos quase simultâneos: Saramago, com Caim; Lobo Antunes, com Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. Eles não se evitam na vida civil, como os citados acima, mas também não fazem questão de disfarçar a hostilidade. Em 1998, Lobo Antunes e seus partidários receberam o mais duro dos golpes: o Nobel de Literatura concedido a Saramago - o primeiro e provavelmente durante muito tempo único entre escritores de língua portuguesa. Na ocasião, um jornalista do The New York Times ligou para Lobo Antunes atrás, naturalmente, de declarações ácidas. Informado do ocorrido, Lobo Antunes silenciou por alguns segundos do outro lado da linha. Depois, fez-se de desentendido e, dizendo que a ligação estava ruim e que mal podia ouvir, desligou.

 

 

Nessa época, Saramago já era bastante festejado no Brasil, com romances como Memorial do Convento (1982) e Ensaio Sobre a Cegueira (1995). Lobo Antunes, ao contrário, era praticamente um desconhecido, com poucos e mal-vendidos livros, entre eles Os Cus de Judas (1979) e Manual dos Inquisidores (1996). Em 2000, durante a feira de livros de Frankfurt - em que são fechados os principais contratos de publicação do mundo - Lobo Antunes rejeitou um pedido de entrevista feita pelo jornal Folha de S.Paulo. "Deixem o Brasil para o Saramago. É o único lugar que ele tem", disparou. No ano passado, durante a Festa Literária Internacional de Paraty, voltou ao tema de forma mais bem-humorada. "Vocês gostam mais do outro", brincou com o público.

 

Saramago, por seu turno, já disse que não conhece "esse sujeito" e que "não se interessa por ele". Em 1998, presenteado com um livro do oponente por um jornalista do tabloide português Tal & Qual, o escritor fechou a cara e devolveu o livro, porque acreditava ser uma provocação. A versão fantasiosa do fato, contudo, atiçou os ânimos: dizia-se que o autor havia jogado o exemplar no chão, por conta do título da reportagem - Atirado ao Chão -, que brincava com o nome do romance de Saramago, Levantado do Chão (1980).

 

À parte as fofocas, existe a divisão literária. Nas páginas a seguir, os jornalistas e críticos José Castello e Paulo Polzonoff Jr., que no Brasil ocupam lados opostos nesse ringue, defendem cada um a obra de sua preferência. Apaixonada mas civilizadamente - sem vexame nem dissolução de amizade.

 

 

O ENSAÍSTA ENVERGONHADO
Ao romper com as regras clássicas da gramática e optar por uma linguagem flutuante, Saramago questiona o dogma contemporâneo da clareza por José Castello

 

José Saramago disse certa vez: "Talvez eu não seja um romancista, mas um ensaísta que escreve romances". Em vez de diminuir a potência de sua ficção, a ideia do ensaísta envergonhado a alarga. Para o escritor português, a literatura deixa de ser só uma experiência estética, ou um jogo de linguagem. Ela se alça ao posto de saber e ombreia com a verdade. Ao desestabilizar as certezas históricas com o sal da ficção, Saramago não só relativiza verdades consagradas, mas destaca seu aspecto imaginário. Ele amplia, ainda, o terreno da própria ficção, que deixa de ser apenas invenção e sonho, para se tornar algo bem mais potente: um elemento crucial na constituição do mundo.

 

Personagens como o revisor Raimundo Silva, de História do Cerco de Lisboa - que, ao introduzir uma palavra inexistente em um ensaio histórico, revira a verdade - ou o escriturário sr. José, de Todos os Nomes - que completa com a imaginação as informações do Registro Civil -, ampliam a potência da verdade, em vez de danificá-la. Alargam, assim, as fronteiras da literatura, que deixa de ser uma ilusão a nos distrair da vida, para se tornar uma pergunta com que a perfuramos.

 

Ao romper com as regras clássicas da gramática e optar por uma linguagem flutuante, Saramago questiona um dos mais sagrados dogmas contemporâneos: a clareza. Nem sempre a objetividade e a transparência são garantias de acesso à realidade. Ao contrário: retendo as coisas em sua moldura de luz, a clareza é, com frequência, falsificação. Para ele, só uma linguagem dançante, que acompanhe os deslizes e imperfeições do pensamento, nos aproxima, de fato, do mundo.

 

Em uma era pragmática, Saramago se preocupa mais em seduzir e hipnotizar o leitor do que em convencê-lo. As dificuldades propostas por seus livros - como o sósia que perturba a vida do professor Tertuliano Máximo Afonso, em O Homem Duplicado - não são questões a desvendar, ou solucionar. São, ao contrário, desafios. Saramago sabe que a escrita nada mais pode que sondar o enigma humano. É a partir desse limite de desamparo (e sabedoria) que ele escreve.

 

A tragédia relatada no Ensaio Sobre a Cegueira não atinge só os personagens do romance, mas o próprio leitor, que é obrigado, também, a "cegar-se" para lidar com o filtro opaco e limitado da língua. Os personagens de Saramago carregam em seus ombros o duplo sentido da palavra sujeito: se eles fazem e acontecem (afinal, a imaginação manda), estão também submetidos (sujeitos) às apertadas amarras que delimitam a realidade.

 

Muitas vezes reduzida, injustamente, a um exercício de estilo, a literatura de Saramago é não só vital, mas convulsiona os fundamentos de nossas vidas. "Vivemos para dizer o que somos", o escritor insiste em afirmar. A literatura, para José Saramago, é a busca interminável (e fracassada) do outro. Por isso, não conseguimos abandonar seus livros.

 

 

José Castello é jornalista e escritor, autor de Fantasma e A Literatura na Poltrona, entre outros.

 

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O CARPINTEIRO DA FRASE
Uma das maiores virtudes de Lobo Antunes é o desprezo por esta entidade cada vez mais homogênea chamada leitor Por Paulo Polzonoff Jr.

 

António Lobo Antunes chamou minha atenção em 1998, em uma entrevista encontrada na internet. Lembro-me de ficar entusiasmado com frases como "Os leitores são umas putas. Amam-nos e depois nos deixam". Mas o que mais me atraiu naquele autor desconhecido foi a visão da literatura como uma obra de carpintaria - para tomar emprestada uma ideia do escritor mineiro Autran Dourado. O primeiro contato com um livro do escritor foi, entretanto, frustrante. Deliciosamente frustrante. Ao contrário de autores de vanguarda, como o irlandês James Joyce, havia mais do que um simples desejo de revolucionar a escrita na falta de linearidade daquela prosa. Havia um propósito.

 

Mas mergulhar nos desvãos da mente humana é complicado. E Lobo Antunes sabe transpor para o papel esta complicação toda. É possível que o leitor se sinta atordoado. Aí é que encontramos mais uma (se não a maior) virtude do escritor: o desprezo para esta entidade cada vez mais homogênea chamada leitor. Não se deixe enganar: este desprezo é uma expressão de respeito pela individualidade do leitor. Na obra do escritor, nenhum grupo merece destaque. É como se não houvesse multidões. Os personagens são seres muito particulares, idiossincráticos, indefiníveis. O coletivo inexiste. As pessoas não andam nem agem em bando. Mais importante: não sentem em bando. Até mesmo a guerra não é vista como uma ação organizada de um grupo militar. Lobo Antunes olha para cada personagem com atenção individualizada.

 

Esta atenção ao ser humano como unidade é a responsável tanto pela fama quanto pela rejeição à sua obra. Nos romances do português, não há grandes ilhas, e sim um gigantesco arquipélago formado por ilhotas individuais, cada qual com seus rios, vales, montanhas, praias e até vulcões. Mas seria um erro dizer que Lobo Antunes é um escritor para poucos. Sim, o estilo de seus romances pode afastar o leitor mais desprevenido. Os Cus de Judas, por exemplo, é um livro atordoante. Mas só até que o momento em que se estabelece um diálogo muito natural entre aqueles parágrafos interrompidos por digressões diversas.

 

Lobo Antunes tem ainda um lado bastante acessível: o de cronista. Infelizmente, seus livros de crônicas não foram publicados no país. Nos textos curtos, ele exibe seu talento para o mundo pequeno de personagens menores ainda. Dramazinhos cotidianos alçados à condição de arte: o pompom da cortina emoldurado e pendurado no Louvre, ou o diálogo na padaria expresso com tanta beleza que pode levar (sem exagero) às lágrimas.

O escritor é dono ainda de algumas das frases mais belas da língua portuguesa. Às vezes - ainda que isso possa parecer, na melhor das hipóteses, uma excentricidade -, gosto de abrir um calhamaço como Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo e ler apenas uma página, a esmo, em voz alta, saboreando o fraseado.

 

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e tradutor. É autor de A Face Oculta De Nova York.

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publicado às 23:39


Mário de Andrade e o modernismo brasileiro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.09

Os artistas que fizeram a Semana de Arte Moderna de 1992, numa foto histórica. À frente está Oswald de Andrade  que acabou ganhando a preferência dos críticos. Mário é o primeiro à esquerda na primeira fileira em pé, com Manuel Bandeira, no alto, às suas costas. Também nessa fileira, está Graça Aranha (o terceiro da direita para a esquerda); no centro, com a mão levantada, Paulo Prado
Os artistas que fizeram a Semana de Arte Moderna de 1992, numa foto histórica. À frente está Oswald de Andrade — que acabou ganhando a preferência dos críticos. Mário é o primeiro à esquerda na primeira fileira em pé, com Manuel Bandeira, no alto, às suas costas. Também nessa fileira, está Graça Aranha (o terceiro da direita para a esquerda); no centro, com a mão levantada, Paulo Prado

 

Revista BRAVO! | Maio/2009

O Enigma do Modernismo

Mário de Andrade fez do paradoxo e do desencontro o coração de sua obra. Com isso, ele nos obriga a pensar com ousadia e a duvidar de nós mesmos

Por José Castello

 

A crítica sempre teve muita dificuldade para fixar a imagem de Mário de Andrade. Vulto arredio às classificações e às reduções, ele até hoje ocupa, no cenário do modernismo, o lugar de um enigma. Os críticos, quase sempre, se encantaram mais com Oswald de Andrade, que, panfletário, enfático, dogmático, nunca deixou dúvidas a respeito de quem era. Em 1916, um Oswald cheio de si já se declarava, sem meias palavras, um "futurista". Fixava, assim, sua filiação nobre ao Manifesto Futurista, que o italiano Filippo Tommaso Marinetti havia publicado no jornal Le Figaro, em 1909. Ao contrário dele, um renitente Mário ainda protestava, em 1921 (um ano antes da Semana de Arte Moderna!), quando o chamavam de "futurista". A dissensão e a discórdia estão no coração do modernismo; Mário fez desses desencontros e paradoxos o coração de sua obra.

Para complicar, o próprio Mário se definia por uma profusão de etiquetas. "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta", disse. Gostava de provocar os inimigos com uma tirada célebre: "Um dia afinal eu toparei comigo". O escritor, que se sentia cada vez mais distante de si, fez da insatisfação o seu caminho, definindo-se mais pelo que procurava do que pelo que era. A esse respeito, vale lembrar a avaliação do crítico Álvaro Lins, que, em Os Mortos de Sobrecasaca, assim o definiu: "Em nenhum poeta moderno mais do que no sr. Mário de Andrade se poderá sentir essa contradição própria da poesia moderna: a de um pensamento que procura a sua forma". Em seu célebre Prefácio Interessantíssimo, que escreveu para Pauliceia Desvairada (1922), é o próprio Mário quem se descreve como um intelectual em contínuo movimento. O dogma não o interessava. Como definir, então, um escritor que repudiava as definições?

Antonio Candido devassou a alma de Mário quando escreveu: "Há, com efeito, muitos Mários de Andrade além dos conhecidos". Para Mário, a literatura deriva da insatisfação, e não da lucidez. O escritor, ele pensava, deve ser vulnerável, deve ser frágil — deve expor-se, continuamente, ao que não é. Para Mário, a força da literatura se define pelo sacrifício de si. Mais de uma vez, ele criticou o "cultivo imoderado do prazer", que se disseminou entre os modernistas de 22 —o prazer e a alegria acima da persistência e do risco. Essa diferença está na base de sua ruptura com Oswald de Andrade, em 1929 (leia perfil de Mário de Andrade a partir da página 70). Decepcionado com Oswald, a quem dizia "odiar friamente", ele se declarou mais próximo de Jorge de Lima, o poeta católico, a quem via como um intelectual "dominado pela prudência".

POLITICAMENTE INCORRETO
A obra de Mário de Andrade, de fato, parece, até hoje, assinada por muitos Mários diferentes. Com ferocidade, ele criticava aqueles que "caem no gosto da imitação de si mesmos". Em outras palavras: criticava os que "sabem o que fazem". Mário sempre preferiu a instabilidade, o ecletismo, o sincretismo que caracterizam a alma brasileira. Por isso criticou, com ênfase, os que sofriam da "Moléstia de Nabuco" — mal que foi o primeiro a diagnosticar. Assim o definiu: "É isso de vocês andarem sentindo saudade do cais do Sena em plena Quinta da Boa Vista". Com a piada, plantou muitos inimigos em seu caminho. A preferência pelo instável e pelo incompleto levou um crítico de índole conservadora como Wilson Martins a escrever: "Mário é um autor que está em segundo plano em todos os gêneros".

Mário nunca se esforçou para ser politicamente correto. "As revoluções brasileiras, especialmente a de 1932, atrasaram muito São Paulo", disse certa vez. Essa obsessão pelas revoluções, pensava ainda, dificultou a renovação da literatura paulista. Acreditava Mário que, se as revoluções despertaram a consciência cívica dos paulistas, "tiveram por outro lado a fatalidade de fixar demasiado essa consciência cívica dentro de problemas muito particulares e talvez desimportantes" — como declarou em uma célebre entrevista a Martins Castello, publicada em O Jornal, em 1935.

Avesso às certezas, preferia uma arte em movimento, em constante descompasso com as ideias consagradas e com as palavras de ordem corretas. Aos que revidavam dizendo que ele não passava de um nacionalista à antiga, respondia afirmando que era "muito mais marcado pelo tropicalismo do que pelo nacionalismo". Em 1939, confrontado com uma enquete que investigava os dez melhores romances brasileiros da década, não pensou duas vezes: em sua lista, incluiu Mundos Mortos, livro do católico e conservador Octávio de Faria. Não foi uma provocação, mas uma prova de seu coração aberto.

Seus grandes livros — como o maior de todos, Macunaíma — até hoje nos provocam como um enigma que desafia nossa noção de identidade. O que é ser um "herói sem caráter"? Tal ideia do heroísmo é, até hoje, motivo de muitas controvérsias. Seria mesmo um achado intelectual ou um jogo de palavras? João Cabral de Melo Neto, que sempre preferiu Oswald a Mário, duvidava de sua célebre erudição. Mário, aliás, lhe deu razão ao dizer: "Não sou crítico, não sou culto, tenho horror de me chamarem indivíduo culto só porque leio um bocado". Na mesma entrevista a O Jornal, ele diz ainda: "Na verdade sou artista, sou poeta, sou romancista, mas o resto não e não".

Ao se definir pela negação, Mário de Andrade nos deixou uma imagem forte, mas em estilhaços. Vulto que ainda hoje nos obriga a pensar com ousadia e a duvidar de nós mesmos. Não haveria herança mais digna.

 

José Castello é jornalista e escritor, autor A Literatura na Poltrona e Vinicius de Moraes — O Poeta da Paixão, entre outros.

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publicado às 15:57


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