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#1790 - João Ricardo Pedro, numa perspectiva brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.12

Sentidos e azares da vida


 

Em sua estreia, o português João Ricardo Pedro faz um painel de memórias particulares e coletivas para (não) encontrar explicações

 

por Reginaldo Pujol Filho


 

“Uma coisa parecia certa”: assim começa Teu Rosto Será o Último, vencedor do Prêmio Leya 2011, que, além do valor monetário (100.000€, “quantia simpática”, segundo o autor) foi vitória pessoal do estreante português João Ricardo Pedro: há 2 anos, foi demitido e decidiu escrever a obra que em Portugal vendeu mais de 30 mil exemplares em 6 meses.

 

 

Pois o início, “Uma coisa parecia certa”, lembra que nada é mais incerto que uma coisa que parecia certa. E a pseudocerteza anuncia uma metáfora possível para as 207 páginas por ler: a busca do sentido de estar no mundo e para o que se passou. Achar algo que pareça certo, motivos sólidos para acordar de manhã ou para um pneu furado. Busca feita sobretudo na memória. Lembrar, filtrar, esquecer: dar ao passado o verniz da lógica. Pinçar da memória capítulos para narrar-se com algo que cheire a verossímil.

 

 

Todos fazem isso. João Ricardo o faz no livro que abre a coleção Novíssimos da Leya. Mas a memória onde pesca sentidos não é a sua. É da família do Dr. Augusto Machado e de Portugal dos anos 30 à beira do século 21.

 

 

Seguro e irônico (“pressentindo que isso de golpes era coisa para levar o seu tempo”, sobre a rural dona de casa pensando no almoço para os homens que debatem política no 25 de abril de 1974), em vez de narrar três gerações da família do Dr. Augusto, o autor pendura memórias quase aleatórias, retratos de personagens em diversas épocas que, ao se revelarem, revelam brechas entre si num texto sem medo de lacunas. Fendas para o leitor embutir sentidos ou intrigar-se com o pai obrigando os filhos a comer o próprio gato ou com uma misteriosa carta pela metade.

 

 

Entre incertezas e figuras errantes em busca do sentido que não há ‒ o jovem Dr. Augusto que parte, sem mais, para o interior; Celestino, forasteiro que ele acolhe; o filho do Doutor que vai e vem de guerras coloniais mesmo após o fim delas; e o neto Duarte perdido entre partituras ‒, duas coisas são certas: a meio do livro, metáfora sem-querer-querendo do sem sentido, ou como se o narrador fosse errante também, a narração do livro perde rumo. A prosa segura enche-se de maneirismos. Enciclopedismo e listagens se acumulam e tipos curiosos (oboísta sem uma orelha, argentino dado a calças justas e anéis, pintora misteriosa...) brotam e somem como se o autor quisesse exibir todas suas ideias.

 

Não que haja recurso certo e errado. É que as firulas não deram efeito estético, nem simbólico, nem estranhamento ao todo. Mas cabe lembrar: é o primeiro livro dele. Só que o belo início subiu o próprio sarrafo. Fez esquecer que é sim estreia e, como tal, sujeita à gana juvenil (mesmo aos 39 anos) de provar numa só vez tudo o que sabe fazer, garoto com 15 minutos para furar a peneira do time de futebol. Em paralelo, a trama de nós soltos se desfaz. O livro foca em cenas de Duarte, com Portugal de fundo. Mas mantém o tom memória-seletiva de quem elege fatos para se narrar e ver sentido nos próprios gestos.

 

 

No caso de Duarte, de outros personagens ou de Portugal, ao fim, parece que o único sentido possível é dado pelo simplório Celestino. O sujeito estropiado que chega à vila e, indagado sobre seu estado, diz: “azares da vida”.


Revista Bravo

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publicado às 23:38


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