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Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.12.08

As Vozes do Rio Pamano
Jaume Cabré
PRÉMIO DA CRÍTICA LITERÁRIA CATALÃ 2005
   
«As Vozes do Rio Pamano» é um romance de fôlego acerca das complexas histórias individuais que se ocultam por detrás da história da Guerra Civil de Espanha, cujas reminiscências perduraram ao longo de toda a transição do país para a democracia e que ainda hoje se fazem sentir, marcando a memória colectiva espanhola.
Certo dia, no ano de 2001, uma professora e fotógrafa desloca-se à povoação de Torena para recolher material didáctico da velha escola que está prestes a ser demolida. Esta trivial circunstância irá desencadear a revelação de um enredo complexo, pois Tina toma posse de um caderno manuscrito que ali permanecera escondido ao longo de décadas e que contém as memórias do mestre-escola, numa carta que nunca chegou ao seu destinatário. Pouco a pouco, interpelada pelas experiências e pelos factos contados por Oriol Fontelles, Tina deixa-se envolver na memória histórica da aldeia, situada no epicentro da repressão franquista. E assim o leitor fica a saber como as coisas se passaram em Torena: assassínios e vinganças; jogos de poder e influência; medo e intimidação; combatentes da resistência, fascistas e heróis anónimos, cujas vidas permaneceram envoltas na bruma dos tempos e do esquecimento, obliteradas pela reescrita da própria história.
 

 

Tinta da China Edições

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publicado às 18:33


Jaume Cabré: "O meu sonho é a independência da Catalunha"

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.08
 

"A língua é que nos escolhe", diz-nos. Ele foi escolhido pela catalã para escrever um grande romance, "As Vozes do Rio Pamano".

 

Muito resumidamente, "As Vozes do Rio Pamano", livro do catalão Jaume Cabré publicado pela Tinta-da-China, conta a história de uma mulher que tenta resgatar a verdade sobre um herói franquista, que foi afinal um herói da resistência ao franquismo. É um retrato de conjunto que percorre os últimos 60 anos da história de Espanha e da Catalunha.

Cabré nasceu em Barcelona em 1947, estudou filologia catalã, foi professor do ensino secundário e hoje é escritor profissional, substancialmente graças aos guiões que escreve para produções audiovisuais. Tem também ensinado guionismo na Universidade de Lleida. Cabré esteve em Lisboa para apresentar o romance, que foi publicado na Catalunha em 2004 e já está traduzido, com merecido sucesso, em diversas línguas. Falámos com ele. O catalão foi a língua oficial de trabalho da entrevista.

 

O pós-Guerra Civil e o franquismo são os temas de fundo deste livro. A questão continua sendo uma "ferida" não totalmente fechada na sociedade espanhola?

 

Sim e, demonstrando isso, ultimamente saíram uns quantos romances sobre o tema, como "Pa Negre", de Emili Teixidor, "La Meitat de l'Ànima", de Carme Riera, e "La Noia del Ball", de Jordi Coca. São obras que falam da guerra, ou do imediato pós-guerra, escritas por quem já não a viveu. São filhos dos que viveram a guerra. Por outro lado, há hoje um debate na sociedade espanhola, na imprensa, no Parlamento, sobre a reivindicação da memória histórica. É um debate que não está encerrado. Houve um juiz que disse: agora poderemos julgar Franco.

 

Refere-se ao juiz Baltasar Garzón?

 

Sim. Temos pendente, do ponto de vista da Catalunha, a reivindicação da figura de Lluís Companys, que foi assassinado pelo franquismo porque era presidente da Generalitat da Catalunha. Foi fuzilado. Todas estas questões denotam que ainda não se fechou essa ferida. Neste romance falo da tergiversação da memória e da reinvindicação do passado colectivo.

 

Quanto a julgar os crimes do franquismo, Garzón teve de fazer marcha atrás. O que pensa disso?

 

Penso que há muita gente que quer que se encubram as coisas. Com a morte de Franco houve um processo de transição, não houve uma ruptura. Foi um processo tutelado pelo exército franquista. Mudaram algumas peças. À Catalunha e ao País Basco disseram: falemos de autonomia de maneira séria... E houve comunidades autónomas para toda a gente, o que é um disparate, porque havia regiões, como a Extremadura ou La Rioja, que tanto se lhes dava. Sentem-se espanhóis e dão-se bem com isso. Foi para que se não notasse nenhuma diferença entre o País Basco, a Catalunha e o resto. Para os perdedores da guerra, os anos da ditadura franquista foram difíceis, aliás até ao fim. Franco morreu em Novembro de 75 mas em Setembro ainda assinava condenações à morte. Nada de brincadeiras! É terrível. Os vencidos pagaram, os franquistas não. E ainda os há que estão no poder ou próximo dele, com influência política e tudo isso. O franquismo como tal não pagou e para muita gente isso é uma situação injusta. Há até um processo de abertura das valas comuns do franquismo. E há pessoas de oitenta e tal anos, que sabem dessas valas comuns, mas não querem falar sobre isso, ainda têm medo. Medo! Franco já morreu há 30 anos, mas não querem falar porque têm o medo entranhado. Porque toda a vida foram obrigadas a calar.

 

Há na Catalunha uma sensibilidade especial quanto a essa matéria? E a literatura catalã soube abordá-la?

 

Essa sensibilidade é acompanhada por um certo cansaço, também. Nos anos 50 e 60 houve literatura que falou da guerra, escrita por protagonistas, por gente que a viveu, na retaguarda ou na frente. Muitos escreviam no exílio, como Avel.lí Artís-Gener, Pere Calders, Riera Llorca. Depois falou-se de outras coisas, e o que é curioso agora é este regresso. Que talvez tenha algo a ver com o segundo mandato de Aznar, que foi com maioria absoluta e que foi horroroso. Portanto, as pessoas fecham-se a escrever para não ouvirem falar dessa gente... Dizia o bispo de Madrid que há que voltar a página, perdoar. Bom, depende... É o que digo no romance com aquela frase de Jankelevitch ["Pai, não lhes perdoes, porque eles sabem o que fazem"]. De uma perspectiva cívica pode-se dizer: tenho direito a não perdoar. Não digo eu, pessoalmente, que sou afectado de maneira colectiva, mas sim uma pessoa directamente afectada, que pode dizer como Jankelevitch: e eu agora é que hei-de perdoar aos verdugos nazis? A minha prima e toda a sua família é que podiam perdoar a quem os levou e os fez sair pela chaminé de Auschwitz. Não podem? Então o verdugo que vá para a tumba sem o perdão das vítimas! Porque, de certa maneira, os verdugos exigem o perdão! Não, nem perdoo nem esqueço. Outra coisa é que me queira vingar ou não. Entendo que se possa dizer: perdoo para que possa dormir tranquilo. Perdoem tudo o que quiserem, mas não esqueçam. Senão as coisas voltam...

 

Voltam?

 

Estamos sempre à beira da possibilidade de... Há uma imprensa espanhola, sobretudo certa imprensa madrilena, muito estúpida, com uma linha xenófoba até, sobretudo no que diz respeito à Catalunha. Todos os dias dizem mentiras, meias verdades, e vão criando um ambiente anticatalão que é impressionante e que está a alastrar por toda a Espanha.

 

É um escritor catalão ou um escritor espanhol?

 

Sou um escritor catalão sem qualquer espécie de dúvida, porque escrevo em catalão. Sou escritor espanhol mas por causa do passaporte ou por aquilo que poderíamos chamar imperativo legal.

 

No ano passado, por causa da representação catalã na Feira de Frankfurt, houve polémica à volta da questão de saber quem é e quem não é autor catalão...

 

Uma polémica artificial. Um escritor português que escreva em finlandês pertence à literatura finlandesa, não à portuguesa. Porquê? Porque escreve em finlandês. Em contrapartida, com a literatura catalã, em Espanha... Não sei, não nos deixam ser felizes! É verdade! Deixem-nos em paz! Uma literatura é a que se faz numa língua. A literatura espanhola é a que é escrita em espanhol e portanto García Márquez é literatura espanhola, embora seja colombiano. É lógico! De qualquer maneira, essa polémica fez-se a partir de jornais de Madrid e de alguns de Barcelona que têm a mesma linha. Mas tal como começou, acabou.

 

A promoção da literatura catalã em Frankfurt resultou?

 

Creio que sim. Conseguiu-se usar Frankfurt como uma montra para que se soubesse na Europa e no mundo que a literatura catalã existe e que tem vida própria, que tem alguns clássicos notáveis e que tem uma literatura contemporânea viva, eficaz e de qualidade. Não digo que seja a melhor literatura do mundo, mas tem a qualidade normal de muitas outras literaturas e de vez em quando alguma obra muito boa. Como dizia um amigo meu ironicamente, a literatura catalã foi um segredo de Estado muito bem guardado pela Espanha durante muito tempo.

 

Cresceu e formou-se sob o franquismo. Qual era então a situação da língua catalã?

 

Nasci no ano de 1947 e portanto os anos 40, que foram os mais duros, não os vivi. Recordo os anos 50, quando tinha oito, nove anos, uma Barcelona cinzenta, triste, as pessoas falando em voz baixa porque se falássemos catalão na rua e nos ouvissem... É que tinham proibido a língua! É uma coisa tão estúpida! Sabe o que é proibirem a sua língua e imporem-lhe outra? Quando o exército de Franco entrou por Lleida, o que fez primeiro foi abolir o Estatuto da Catalunha e proibir o uso público da língua: toda a imprensa tinha de ser em castelhano, não se podia fazer nenhum acto público em catalão, todos os nomes das ruas tinham de ser mudados para castelhano... Mas a proibição da língua já a tinham vivido os nossos avós com Primo de Rivera, nos anos 20, e já a tinham vivido outras gerações, porque logo que os Bourbon entraram em Espanha [no início do século XVIII] uma das primeiras coisas que fizeram foi dizer que isto tinha de acabar, tinha de haver uma língua e um império.

 

Podemos dizer que os autores catalães são bilingues?

 

Não. Eu não sou bilingue.

 

Não fala castelhano?

 

Sei castelhano, como sei francês e outras línguas. O que acontece é que não o falo. Se for a Espanha falo-o. Há uma certa confusão. Eu sei línguas, não é que seja bilingue. É diferente. Bilingue é aquele que usa duas línguas de maneira indistinta, por razões familiares, por gosto ou pelo que seja. Eu uso uma, que é a minha língua familiar, social e que é também a minha língua literária. A maioria dos autores em catalão são unilingues. O que acontece é que são capazes de falar e de escrever em castelhano, e em francês ou inglês, depende. É curioso que em Espanha se diga que a Catalunha é bilingue depois de, com os processos migratórios, o castelhano, que é muito forte, estar a criar graves problemas à sobrevivência do catalão. O bilinguismo é bom, devemos poder falar as duas línguas, dizem. Mas os castelhanos só falam em castelhano. Ou seja: bilingues são vocês, eu sou monolingue em castelhano. Assim não vale, a coisa não funciona. Então, como a coisa não é justa, eu continuo a ser monolingue em catalão e pronto! No dia em que houver igualdade de tratamento, falemos.

 

Estava a pensar num autor como Pere Gimferrer, que começou por ser poeta em castelhano e depois passou a escrever em catalão...

 

Sim, o caso de Gimferrer é claríssimo, podemos dizer que é um escritor bilingue. Como Eduardo Mendoza, que escreve teatro em catalão e os romances, pelos quais é mais conhecido, escreve-os em castelhano. Mas também não escolhemos uma língua, é a língua que nos escolhe a nós e que nos diz: para te sentires bem hás-de escrever na língua que tens dentro de ti.

 

O catalão é hoje institucionalmente discriminado positivamente na Catalunha, mas parece estar a retroceder socialmente. Qual pode ser a evolução deste problema?

 

Retrocede por duas razões. O processo migratório dos anos 60 para a Catalunha era espanhol e, se muitas dessas pessoas se integraram na língua, muitas outras não, e portanto houve um aumento da população falante do castelhano. Agora há a emigração dos países de Leste, da América Latina e de África, que funciona em detrimento da língua catalã porque, como se encontram num ambiente castelhanizado, essas pessoas agarram-se à língua mais poderosa, que é o castelhano, e isso cria problemas à expansão da língua catalã. Portanto, temos um problema grave. E é um problema grave na medida em que a Espanha, socialmente, não o considera como tal, porque a eles tanto se lhes dá. Não vêem como um drama que o catalão possa morrer. Mas a morte de qualquer língua é um drama, porque é a morte de uma maneira de entender e interpretar o mundo.

 

O catalão é uma língua sem Estado e esse é que é o problema?

 

Sim, e por isso, e por outras coisas também, sou independentista. O meu anseio, o meu sonho é a independência da Catalunha em relação a Espanha. Devíamos ter feito como Portugal, mas perdemos a guerra e vocês ganharam-na. É uma pena. Não tivemos essa sorte. É claro que, no contexto europeu, a maioria das línguas que não têm Estado estão em brutais dificuldades e talvez a que tenha mais força seja a catalã. Mas há línguas socialmente mais restringidas, como o esloveno, que é falado por dois milhões de pessoas, e que não têm problemas porque têm um Estado.

 

Que evolução poderá ter esse problema, do ponto de vista político?

 

Não sei, não sei... Sei que a independência é uma questão muito difícil, mas é uma questão que se põe e que se põe abertamente. E há partidos independentistas na Catalunha, tal como no País Basco. Proclamamos que todos os povos têm direito à autodeterminação. Sendo assim, os catalães, que também são um povo, também têm direito à autodeterminação.

 

Em "As Vozes do Rio Pamano", a personagem Tina acredita que a verdade não prescreve, mas o final do romance parece não lhe dar razão. Os cadernos com a "verdade" sobre Oriol desaparecem. É um final pessimista...

 

Porque a realidade é assim, é muito dura, e normalmente ganha quem tem o poder. Quem tem o poder não faz concessões. Frequentemente, os que exercem o poder não são nada bons - lendo os jornais, vemos isso - e portanto as pessoas mais inocentes são as que acabam perdendo. É isso que acontece a Tina. Trata-se da tergiversação da memória. Os cadernos de Oriol desparecem porque os que têm influência agem segundo os seus interesses, não segundo a ideia da verdade.

 

A história é sempre escrita pelos vencedores?

 

É isso mesmo. É outra coisa que aprendi escrevendo esta história. São sempre os vencedores quem escreve a história, portanto ela acabará por ser aquilo que os vencedores disserem que é. Se Oriol é um herói do franquismo é um herói do franquismo e ponto final, acabou-se. Porque o digo eu, que estou no poder. E a sua memória que vá para o diabo... É uma maneira dura de pôr as coisas, mas parece-me que é realista.

 

Texto e entrevista de Mário Santos na Ípsilon

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publicado às 19:45


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