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#1513 - Regresso

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.11.11

 

REGRESSO

 

 

- Quem é? Quem vem?

A porta não estacou

e todos pela mesa olham pasmados.

Só eu animo a voz:

- Olhem quem vem! Reparem quem voltou!

Rolam silêncios fundos e pesados.

 

Imóvel, no meu barco de luar,

os meus olhos venceram as ramadas.

Música longa... Um sino a palpitar.

Calçadas e calçadas...

Presépios com pastores de palmo e meio.

Velas que são faróis... Cresceu a bruma.

Deitem-se assim, num jeito de criança,

e envolvam-me de espuma.

 

- Olhem quem vem! Reparem quem voltou,

que tem os braços que eu gritei além!

 

- Vou com ele, não volto, minha Mãe!

 

Vou com  ele nos uivos da tormenta,

com ele vou pregada na paixão.

Medo de quê? Oceanos azulados...

Medo de quê? Neblinas e canções...

- Dentro do Espaço adoçam-se pecados

e morrem solidões.

 

Sem braços me tomou na posse enorme.

Roçou-me os lábios, frio, sem ter boca.

Ele é quem diz: - Sossega, dorme, dorme...

E nunca mais me toca!

 

Às tardes, mesmo ao longo dos casais,

cegos: falas de gestos a ninguém...

 

- Quem é? Quem vem?

Para sempre me tomou...

 

- Vou com ele, não volto, minha Mãe!

 

 

Poema de Natércia Freire [Horizonte Fechado - 1942]

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publicado às 17:53


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