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# 1932 - VAT 69

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.04.15

 

Era depois da morte herberto helder

Ia fazer três anos que morrêramos

três anos dia a dia descontados no relógio

da torre que de sombra nos cobriu a infância:

rodas no adro - gira a borboleta que se atira ao ar -

o jogo do berlinde o trinta e um pedradas

nas cebeças nos ninhos nas vidraças

Foi quando verdadeiramente começou

a conspiração dos líquenes cabelos e avencas

na mina onde molhámos nossos jovens pés

e tirámos retratos para morrer mais uma vez

Os nossos filhos - nós outra vez crianças -

comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas

que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal

no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado

Era a seguir à morte meu poeta

era na meninice havia festa e na sala da entrada

pensávamos na morte - nunca mais -  pela primeira vez

Trincávamos cheirávamos maçãs no muro sobre a praia

roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos

Era nas férias havia o mar e íamos à missa

ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós

- orate fratres - ou íamos ao cemitério apesar do catitinha

Era depois da morte sobre a plana infância

o primeiro natal o cheiro do jornal

lido na adega ou na casa do forno

sentados pensativos sobre a terra húmida

Era na infância o sol caía enquanto água corria

entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras

calcados prontamente pelas botas

soprava o vento e vinha a moinha da eira

o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira

e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores

Havia casamentos o meu pai falava

e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças

E os registos mistério tempo da prenhez

Era talvez no outono havia asma

havia a festa da azeitona havia os fritos

ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas

havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia

Era a primavera o rio rápido subia

os barcos navegavam entre a vinha

e alastrava a sombra e a tarde adensava-se

num espesso e branco nevoeiro de algodão

noite dos candeeiros sombras nas paredes

e minha mãe pegava na espingarda ia à janela

e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe

O leovigildo o marcolino o sítio do miguel

a sesta a monda das mulheres

a queda do bizarro exposto na igreja

isso e o almoço a saber mal

quando vinham da escola pra saber significados

Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens

Eram as festas era o roubo dos melões

era a menstruação oculta da criada

Era talvez em tempo de tormenta

havia ferros entre a palha por baixo da galinha

que chocava os ovos dentro de um velho cesto

eram as nossas casas em adobe

e era o carnaval os bailes os cortejos

Íamos para a praia e eu lia camilo

ouvia o mar bater sem conseguir compreender

como podia estar ali se tinha estado noutro sítio

Era o tempo dos primeiros amores

eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia

o trecho que me competia entre as amadas raparigas

A casa não ficava muito longe dos montes

não havia a cidade nem os outros

punham ainda em causa o meu reino de deus

senhor de tudo o que depois não tive

Era depois da morte ou era antes da morte?

Mas haveria morte verdadeiramente?

Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava

se tudo aquilo tinha acontecido

Era o meu pai era esse sonhador incorrigível

sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias

Eram as folhas novas eram os perdigotos

saídos não há muito ainda da casca

Era era tanta coisa

Seria realmente após a morte de herberto helder

 

Poema de Ruy Belo "Homem de Palavra[s]", 1970

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publicado às 19:51


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