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#2855 - GRANDE HOTEL DE PARIS, QUARTO 312

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.09.18

Manuel de Freitas

 

 

GRANDE HOTEL DE PARIS, QUARTO 312

 

Um amigo meu disse-me para nunca

meter gaivotas num poema.

O que seria fácil noutra cidade qualquer,

onde o ruído do seu voo não acompanhasse

tão de perto a minha insónia, a vaga

inquietação do teu corpo adormecido.

 

Alastra da Sé aos Clérigos, um alarme branco

que a janela deste quarto aceita há mais de

duzentos anos. Serão outras as gaivotas

e as cabeças que, depois de muito ou nenhum

sexo, se rendem ao limbo brasonado dos lençóis.

Mas eu vim para a casa de banho escrever

este poema simples, cheio de versos inúteis,

que me exige as horas que não tenho.

 

Sem ele, teria sido um dia grácil e ligeiro

como a morte, duro e inaceitável

como a vida. Pois consegui, antes destes

adjectivos todos, comprar o belo e o sublime

por menos de oito euros. E o livro que Jorge

de Sena dedica sem gaivotas, «à cidade do Porto».

 

Deveria ser fácil como um beijo, este poema.

Mas não. Chegamos à janela e só vemos

lixo, prédios devolutos, uma coroa

de terra a esboroar-se.

                                           E invejamos,

das gaivotas, a pungente desrazão do voo,

essa alegria de não ter palavras

sob o céu limpo que nos mata.

 

Poema de Manuel de Freitas dedicado à memória de Jorge de Sena - in Terra Sem Coroa

 

 

 

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publicado às 18:48


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