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#2871 - Golias e David

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.09.18

Um mosquito atropela uma gota de água, perde o equilíbrio, dá meia dúzia de cambalhotas e aterra em cima da minha mesa. Recompõe-se, emite um zumbido irritado e olha-me com ar provocador iniciando um jogo de sedução e intimidação, exibindo sua trombinha afiada como se fosse um bandarilheiro e assumisse que eu faria o papel de touro. Quer vingar a humilhação sofrida. Quer sangue. Precisa atacar. Aparentemente eu sou o gigante Golias e ele o minúsculo David, mas espero que a história tenha um final diferente. Não tenho estratégia. Nem de defesa, nem de ataque. Sou demasiado grande para defender todo o corpo e ele demasiado minúsuculo  e demasiado rápido para o apanhar com a mão. Actuarei em função das circunstâncias e da evolução da refrega.

O jogo começa. O pequenote emite um zumbido sarcástico - pareceu-me ouvir uma gargalhada metálica, assassina - e volteia em redor da minha cabeça como se fosse um artista a  rolar no poço da morte. O ruído produzido por esta sanguessuga com minúsculas asas é irritante e destabilizador. Agito os braços freneticamente em tentativas desesperadas para o apanhar. Estou a ser humilhado. Uma enorme frustação toma conta da minha vontade, e quando julgo que o vou apanhar é em mim que esbofeteio. E, de repente, acontece o ataque final. Violento, descarrega em mim toda a sua ira e pequenas erupções ardentes surgem no lugar das picadelas. Satisfeito retira-se com um voar de vitorioso exibindo um sorriso cínico de grande vencedor.

Discretamente saio de cena. Cabisbaixo, derrotado, humilhado. 

 

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publicado às 10:47


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