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#2664 - ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.17

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

 

Foi junto dos pântanos que nasci. Neles vi o rosto de meus pais

e de todos os antepassados. Olham-me sempre através do lodo

tranquilamente. Quando me falam, talvez a água entre

pelas suas gargantas e as palavras tornam-se mais lentas e serenas.

Escuto-os e sei como hei-de continuar a viver ao seu lado. Eles ensinam-me

o sentido que procuro em cada frase. Reparo que um verso fica

mais perto, e descubro como as sílabas longas e breves encontram

a pouco e pouco o que é o seu justo lugar; trata-se da harmonia apenas

que lhes pertence. Há-de ser assim naturalmente e tudo se repete

sem qualquer esforço, como se os deuses estivessem ali. Mas eu sinto-me

tão frágil diante deles... Sei que os seus lábios são demasiado pesados

e, por isso, nada lhes pergunto. Espero, tranquilamente. Então eles olham-me

com contida alegria, acenam-me, fazem sinais que não compreendo

sequer: Há uma explicação que procuro ainda e fito de repente

as suas pupilas. Aí, nesse ponto negro, surpreendo aquilo que principia

a oscilar entre o nada e todas as coisas, a ignorância e o meu conhecimento:

esta será a claridade de que precisam para me ver. Não me ofusca

e é essa a luz que mais desejo agora. Mas sei que preciso

também da noite. E é acerca dela que tantas vezes escrevo. Há-de alguém

continuar a ler o que chega dessa sombra, mesmo que seja eu que a venha

dissipar para que se torne só meu o que digo. Pergunto algumas vezes

pela paz que existe em tudo o que perdemos. Imaginarei

depois a minha última viagrm. Só isto. Não é mais fácil falar sobre

a última viagen de cada um de nós? Ela arrasta-nos para o interior

da areia. Encontramos, depois, as mesmas ondas esquecidas, os sinais do mar

ou alguns versos, aqueles que há muito ficaram presos às nossas mãos.

Encontramos também aquilo que poderia ser apenas a proximidade

de qualquer sonho. Sim, porque é adormecidos que nós seguimos

por esse caminho difícil, entre sombras, com o peso das nossas pálpebras

pousadas sobre o corpo. Ah, conheço esse peso. Queria recordá-lo

como se viessem falar acerca do meu rosto com simplicidade

para que finalmente o consigam reconhecer. Mas quem há-de

escrever o que por mim não pode ser escrito, senão com o silêncio

de ambos? Este era o meu destino, o caminho que sigo

ao encontro de outras vozes, cercado pelas nuvens que existem

apenas no interior dos olhos, nessa escuridão súbita que se torna

uma secreta forma de saber. Aí descubro estas palavras e para elas quero

a mesma simplicidade, porque é assim que se fala da morte.

 

POEMA DE FERNANDO GUIMARÃES

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Escritores > Fernando Guimarães

Data Nasc: 03/02/1928 Naturalidade: Cedofeita, Porto

Na web:


 Biografia

Fernando de Oliveira Guimarães, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu na freguesia de Cedofeita, a 3 de fevereiro de 1928.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, viu editado, em 1956, o seu primeiro livro de poesia, ‘Face junto ao vento’, mas poucos anos antes já tinha debutado na revista Eros, com a publicação de alguns poemas.

Lecionou Filosofia em várias escolas do ensino secundário e colaborou em diversos jornais e revistas, como O Comércio do Porto, Jornal de Letras, Árvore.

O seu trabalho enquanto tradutor reflete afinidades literárias muito concretas – traduziu obras de Shelley, Keats, Byron, Dylan Thomas, Hugo von Hofmannsthal e Elaine Feinstein.

Trabalhou como investigador no Centro de Literatura da Universidade do Porto. Integrou o Conselho Científico e foi membro investigador do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa.

Recebeu, entre outros, o Prémio D. Dinis (1985), o Pen Clube Português (1988) e o Prémio Luís Miguel Nava (2003).

Em 1995 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Fernando Guimarães é um reincidente na lista de autores galardoados com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Em 1992, a distinção reconheceu a obra ‘O Anel Débil’ (Edições Afrontamento); volvidos 15 anos, foi o livro ‘Na voz de um nome’ (Roma Editora). Este último livro valeu-lhe também o Prémio Literário Ruy Belo 2008.

Em 2006 foi-lhe atribuído pela Universidade de Évora o Prémio de Ensaio Vergílio Ferreira, tendo em vista o conjunto da sua obra ensaística.

A sua obra poética “Os caminhos Habitados”, venceu o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes 2014.

Bibliografia:

A Face Junto ao Vento, 1956 (poesia)

Os Habitantes do Amor, 1959 (poesia)

As mãos Inteiras, 1971 (poesia)

Três Poemas, 1975 (poesia)

Poesia 1952-1980, 1981

A Poesia da Presença, 1981 (ensaio)

Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, 1982 (ensaio)

Casa: o Seu Desenho, INCM, 1985 (poesia)

Tratado de Harmonia, 1988 (poesia)

Poética do Saudosismo, 1988 (ensaio)

A Analogia das Folhas, Edições Lumiar, 1990 (poesia)

Poética do Simbolismo em Portugal, 1990 (ensaio)

O Anel Débil, Edições Afrontamento, 1992 (poesia)

Conhecimento e Poesia, 1992 (ensaio)

Poesias Completas, Vol.I, Edições Afrontamento, 1994

Os Problemas da Modernidade, 1994 (ensaio)

As quatro Idades, Presença, 1996 (prosa)

Diotima e as outras Vozes, Campo das Letras, 1999 (teatro)

O Modernismo Português e a sua Poética, 1999 (ensaio)

Limites para uma Árvore, 2000 (poesia)

Lições das Trevas, 2002 (poesia)

Artes Plásticas e Literatura: do Romantismo ao Surrealismo, 2003 (ensaio)

Mulher, Asa, 2006 (poesia)

Na Voz de um nome, Roma Editora, 2006 (poesia)

Sentido e Sensibilidade, Caixotim, 2007 (ensaio)

A Obra de Arte e o Seu Mundo, 2007 (ensaio)

A Poesia Contemporânea Portuguesa (3ª edição), 2008 (ensaio)

Agumas das Palavras – Poesia Reunida 1956-2008, Quasi Edições, 2008

História do Pensamento Estético em Portugal, 2009 (ensaio)

As Raízes Diferentes, Relógio d’Água, 2011 (poesia)

Os Caminhos Habitados, Edições Afrontamento, 2013 (poesia)

 


Principais Obras Publicadas

Poesia 1952-1980
2015, Modo de Ler

As suas imagens mais significativas correspondem a um empenho de captar o ritmo de tudo quanto, de algum modo, se pode dizer palpita, ou se desenvolve a partir de um núcleo geminativo. Eis uma poesia cuja ontologia poderia mesmo exprimir, em abstrato, dizendo nós não existimos, e nada existe, salvo … Ler mais

Os Caminhos Habitados
2013, Edições Afrontamento

“Há-de ser o silêncio. Ele vem de novo ao teu encontro como se o esperasses. Talvez seja maior a tranquilidade que existe no único caminho que vinhas percorrer. Sabes que se esta sombra te acompanha é porque nela habitas.” Poema da pág. 59

A Poesia Contêmporanea Portuguesa
2009, Quasi Edições

Apresenta-se aqui uma visão geral da poesia na segunda metade do século XX. Esta poesia é atravessada por alguns movimentos que vêm de um tempo anterior ou que com ela coincidem: Neo-Realismo, Surrealismo, Poesia Experimental ou, recentemente, o Pós-Modernismo. À margem destes movimentos, vários poetas mais ou menos isolados se … Ler mais

Uma obra essencialmente filosófica que dá conta do aparecimento do pensamento estético em Portugal.

Sentido e Sensibilidade
2007, Edições Caixotim

Volume de ensaios da autoria do professor e ensaísta Fernando Guimarães, em torno da obra de diversos autores portugueses, evidenciando os traços que lhes são comuns. Obra de marcante interesse para uma compreensão alargada das intersecções dos autores românticos na literatura moderna.

Mulher
2006, Edições ASA

Em Mulher recolhe-se a poesia de Fernando Guimarães onde esta palavra, que pode estar presente ou ausente, exprime a comunicação e o encontro que se entreabrem no ser, na existência humana. Tais poemas aproximam-se de uma reflexão – digamos uma ontologia – que vai procurar o sentido que há nessa existência.

Na Voz de um Nome
2006, Roma Editora
 
Lições de Trevas
2002, Quasi Edições

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Na primeira parte do seu novo livro, «Lições de Trevas», Fernando Guimarães procede a um convite à leitura. São poemas sobre como ler um livro, dirigindo-se ao leitor e explicando que a poesia não é tanto … Ler mais

 

INFORMAÇÃO RETIRADA DO «SÍTIO» ESCRITORES.ONLINE

 

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publicado às 19:09


#1983 - Anna Akhmatova

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.05.16

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ANNA AKHMATOVA

 

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.

Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros

a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: "Os teus

ombros de clepsidra..." E eu sentia esse rumor límpido, que levava

as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita

inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar

pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram

os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta

apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas

esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos

perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem

com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul

que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski

nos vinha explicar: "a rima é a forma canonizada, métrica

da eufonia." E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido

entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher

aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou

iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo

que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta

esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria

os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia

que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei

um jardim e olhei as pegadas deixadas há muito nos caminhos. Pensei

nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia ver-se

alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam

da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessava estes corredores

vegetais. Tornava-se maior a minha sombra

em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde

            ficou um pano

estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei

a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio

uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito

agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue

nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas

de um livro. - Ficou caída sobre os joelhos esta manta cujas pregas

componho devagar; atravessada  pelo frio húmido, desce até ao soalho  que

           cuidadosamente

enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: "Espero a noite

e os cavalos que a seduzem." A noite... É nela que irei procurar os limites

silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se

sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo

nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece

quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que

             ficaram esquecidas.

Era assim que começava um poema ?  Tornaram-se mais cansados os

             gestos. Apenas sei

que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora

os meus passos são de água.

 

Poema de Fernando Guimarães in [Casa: O seu desenho, 1986]

 

 

 

 

 

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publicado às 21:15


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