Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



#2471 - Cidade Velha - Cabo Verde I

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.06.17

CIDADE VELHA - CABO VERDE I

 

Manuel Maria de Moura e sua mulher Josefa Alvarenga

à mercê das sevícias que lhes excretam a campa

lado a lado progridem o húmus.

A igreja de lava amarelece

e conserva apenas dois portais,

as pombas não pousaram nos lambris

no fluxo da tarde a caminho da noite,

uma cabra sustida na janela,

entre a pedra e a pedra,

reflecte o mar numa pupila.

Sobe-se ao fortim

e a estrada como fita enrola-se à montanha.

Antigos  portugueses construíram-no

guiando pela mão os seus escravos,

Cabo-verdes ariscos debaixo do chicote

nivelaram o monte

e mantiveram

ritmo desigual.

Os guardas a cavalo

certificavam exacta proporção

e o forte ressurgia das matéria porosa,

coralínea

perfusa de bolhas minerais.

É baixo

e a nascente envolvem-no arestas.

Há nele precisão

rasgado no metal à força de buril

à custa de cinzel

liberta muralha onde fenece a lógica.

A meio fica a cisterna

memória da nascente ainda nos refresca.

No chão entre conchas

apanho um fragmento,

detecto um azulejo

azul magoando aquela superfície.

Onde perdeu a casa

na indecisa determinação

que Cabo Verde brande como lança de penas?

Nas alabardas os mapas de ferrugem

apontam à penúria as bocas sem mordaça,

o escudo português

inciso a fogo

um número sobre pele

começa a desfazer-se,

a esvair-se como o sangue sai do suicida

e o submete à própria crueldade.

Manuel Maria de Moura

deixou na pedra tumular

um voto de imprudência

«Até ao fim dos séculos não poderá abrir-se

o que ficou selado.»

Quando ao cair da noite via a lua roçar

contra o mar sua branda penugem

não suspeitou esgarçasse

a estável divisão

e o império, desfeito como um cirro,

liquefizesse abandonando os mortos.

Manuel Maria de Moura

ficaste solitário

acompanha-te o pelourinho branco,

intacto,

cornos de impala os ferros.

Aqui permaneceste

sujeito à  supressão, pouco te resta,

apenas uma pedra inchada de certezas.

 

Poema de Fátima Maldonado

________________________________________________________________________________________

 Fátima Maldonado (Santo Amaro, Sousel, 1941). Ex-jornalista. Antiga crítica literária do jornal Expresso. Fez a sua estreia como poeta em 1980 com Cidades Indefesas. Publicou ainda: Os Presságios (1983), Selo Selvagem (1985), A urna no Deserto (1989), Caça e Persuasões (com Paula Rego, 1991), Cadeias de Transmissão (1999) e Vida Extenuada (2007).

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:48


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas