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#1114 - Estrela Distante - Roberto Bolaño

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.12.09

Em "Estrela Distante", Roberto Bolaño aplica o antigo tema do duplo ao período da ditadura militar chilena e expõe as origens da ruína moral de uma geração.

A concepção dualista da natureza humana é tão ancestral quanto as histórias de duplos. Surgida quase ao mesmo tempo em diferentes culturas (na Grécia, no Egito e na Pérsia), a oposição entre o bem e o mal teve sua primeira ocorrência literária no Gilgamesh sumério (2.600 a.C.) e foi explorada por românticos alemães e craques da narrativa de múltiplas línguas: Nathaniel Hawthorne, Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Guy de Maupassant, Marcel Schwob etc. - a lista é imensa.

Ideal para refletir a crise de identidade do indivíduo na modernidade, a narrativa de sósias arrasta atrás de si a velha maldição romântica ligada à dissociação e ao mal: aquele que encontrar com seu Doppelgänger, o seu duplo, estará fadado à ruína. Aplicada ao período das ditaduras do século 20 no continente, a hipótese rendeu ao chileno Roberto Bolaño (1953-2003) o seu livro mais cristalino, Estrela Distante, novela tão curta quanto precisa que difere da fragmentação típica de seus romances mais extensos.

 

Publicado originalmente em 1996, o livro sucedeu a empreitada de viés enciclopédico e borgiano de La Literatura Nazi en América (que ainda não foi publicado no Brasil), a qual trazia epílogo que descrevia o fictício Ramírez Hoffmann. "Essa história me foi contada pelo meu companheiro Arturo B., veterano das guerras floridas e candidato a suicida na África", explica o prefácio de Bolaño para Estrela Distante, dando início ao jogo de reflexos que se estenderia por toda a sua obra posterior. "Arturo B" é Arturo Belano, alter ego de Bolaño e o anti-herói de muitos de seus textos, entre eles de Os Detetives Selvagens.

 

O protagonista de Estrela Distante, o poeta Alberto Ruiz-Tagle, é inspirado no tenente Hoffmann de La Literatura Nazi en América. Infiltrado em oficinas literárias no Chile de Salvador Allende (a história começa em 1971 ou 1972), Ruiz-Tagle seduz e assassina duas poetas gêmeas. Mais tarde, já durante a ditadura de Augusto Pinochet, o mesmo personagem ressurge com outro nome, Carlos Wieder, que, além de poeta, é torturador. Ele não é guiado por ideias morais, apenas ideias estéticas. Suas peripécias nos céus de Santiago - onde escreve versículos bíblicos com fumaça  dão-lhe status de herói no novo regime. Ele almeja a obra de arte total, um feito que não exclui a morte como ingrediente.

 

Mais pura encarnação do mal, Wieder representa a busca da outra face da geração de Roberto Bolaño (aqueles nascidos na fatídica América Latina dos anos 50). O jogo de duplos expõe as origens ocultas da ruína política e moral de toda uma geração.

 

Joca Reiners Terron é escritor, autor de Sonho Interrompido por Guilhotina, entre outros

(In "Bravo"

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publicado às 18:49


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