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#3010 - PARAÍSO ||| Poema de David Mourão-Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

PARAÍSO

 
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

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publicado às 17:53


#3007 - LEONARDO PADURA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.19

 

A TRANSPARÊNCIA DO TEMPO

 
 

BIOGRAFIA

Leonardo Padura nasceu em Havana, em 1955. Licenciado em Filologia, trabalhou como guionista, jornalista e crítico, tornando-se sobretudo conhecido pela série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde, traduzidos para inúmeras línguas e vencedores de prestigiosos prémios literários, como o Prémio Café Gijón 1995, o Prémio Hammett em 1997, 1998 e 2005, o Prémio do Livro Insular 2000, em França, ou o Brigada 21 para o melhor romance do ano, além de vários prémios da crítica em Cuba e do Prémio Nacional de Romance em 1993. Em 2012 recebeu, também em Cuba, o Prémio Nacional de Literatura pelo conjunto da sua obra.
 
FONTE: PORTO EDITORA
 
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"A velhice nunca é boa. É feia, dolorosa, limitante. E impõe uma reflexão: será que tudo o que se fez teve algum sentido?" - Leonardo Padura

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publicado às 11:19


#2990 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.19

MÁRIO DE CARVALHO

O QUE EU OUVI NA BARRICA DAS MAÇÃS
ISBN:978-972-0-03169-3
Edição/reimpressão:03-2019
Editor:Porto Editora
Código:03169
Coleção:Obras de Mário de Carvalho
Idioma:Português
Dimensões:142 x 210 x 20 mm
Encadernação:Capa mole
Páginas:256
Tipo de Produto:Livro
 
 

SINOPSE

Reconhecido como um dos mais importantes escritores portugueses da actualidade, a sua faceta de cronista passou despercebida à maior parte dos leitores; daí esta selecção das suas melhores crónicas publicadas nas décadas de oitenta e noventa do século passado no Público e no Jornal de Letras. Delas emergem o ficcionista, o cidadão, o comunicador e o memorialista, em textos que alguns diriam proféticos e, nas palavras de Francisco Belard: «testemunhos de um largo campo de assuntos, abordagens, dimensões e estilos, através de eras e lugares, sinais de um escritor que declaradamente prefere viajar no discurso e decurso do tempo e do espaço doméstico a fazê-lo em itinerários geográficos, programados e turísticos. Por tudo isto […], os leitores dos romances o vão reencontrar em mudáveis cenários e perspectivas, de outros pontos de vista, na familiaridade e na estranheza diante do seu mundo, que faz nosso.»
 
 

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publicado às 23:52


#2987- PRÉMIO LITERÁRIO "MAN BOOKER INTERNATIONAL PRIZE 2019"

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.19

 

 

Celestial Bodies, de Jokha Alharthi (Omã). Traduzido por Marilyn Booth (Sandstone Press);

The Years, de Annie Ernau (França). Traduzido por Alison L. Strayer (Fitzcarraldo Editions);

The Pine Islands, de Marion Poschmann (Alemanha). Traduzido por Jen Calleja (Serpent’s Tail);

Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead, de Olga Tokarczuk (Polónia). Traduzido por Antonia Lloyd-Jones (Fitzcarraldo Editions);

The Shape Of The Ruins, de Juan Gabriel Vásquez (Colômbia). Traduzido por Anne McLean (MacLehose Press);

The Remainder, de Alia Trabucco Zeran (Chile). Traduzido por Sophie Hughes (And Other Stories).

O vencedor será conhecido no próximo dia 21 de Maio

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publicado às 06:41


#2974 - PRÉMIO MAN BOOKER INTERNACIONAL 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.03.19

Já é conhecida a longa lista de finalistas ao Prémio Literário Man Booker International 2019.

A curta lista é revelada a 9 de Abril, e no dia 21 de Maio é anunciado o nome dos vencedores - Autor e Tradutor.

 

Esta primeira lista é composta por 13 romances escolhidos pelo júri do Prémio que é presidido por Bettany Hughes.

Importa referir que é a última vez que este prémio literário terá a denominação de Man Booker, pois o grupo Man deixa de patrocinar este Prémio Literário.

A Fundação Crankstart tomará o seu lugar.

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2019 longlist announced- Man Booker International Prize

The Man Booker International Prize has today, Wednesday 13 March, revealed the ‘Man Booker Dozen’ of 13 novels in contention for the 2019 prize, which celebrates the finest works of translated fiction from around the world.

 

The prize is awarded every year for a single book, which is translated into English and published in the UK and Ireland. Both novels and short-story collections are eligible. Authors and translators are considered to be equally important, with the £50,000 prize being split between them. In addition, each shortlisted author and translator will receive £1,000. The judges considered 108 books.

 

2019 longlist is:

Author (Original Language –Country/territory), translator, title (publisher/imprint)

  • Jokha Alharthi (Arabic / Omani),  Marilyn Booth, Celestial Bodies (Sandstone Press Ltd)
  • Can Xue (Chinese / Chinese), Annelise Finegan Wasmoen, Love In The New Millennium (Yale University Press)
  • Annie Ernaux (French / French), Alison L. Strayer, The Years (Fitzcarraldo Editions)
  • Hwang Sok-yong (Korean / Korean), Sora Kim-Russell, At Dusk (Scribe, UK)
  • Mazen Maarouf (Arabic / Icelandic and Palestinian), Jonathan Wright, Jokes For The Gunmen (Granta, Portobello Books)
  • Hubert Mingarelli (French / French), Sam Taylor, Four Soldiers (Granta, Portobello Books)
  • Marion Poschmann (German / German), Jen Calleja, The Pine Islands (Profile Books, Serpent's Tail)
  • Samanta Schweblin (Spanish / Argentine and Italian), Megan McDowell, Mouthful Of Birds (Oneworld)
  • Sara Stridsberg (Swedish / Swedish), Deborah Bragan-Turner, The Faculty Of Dreams (Quercus, MacLehose Press)
  • Olga Tokarczuk (Polish / Polish), Antonia Lloyd-Jones, Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead (Fitzcarraldo Editions)
  • Juan Gabriel Vásquez (Spanish / Colombian), Anne McLean, The Shape Of The Ruins (Quercus, MacLehose Press)
  • Tommy Wieringa (Dutch / Dutch), Sam Garrett, The Death Of Murat Idrissi (Scribe, UK)
  • Alia Trabucco Zeran (Spanish / Chilean), Sophie Hughes, The Remainder (And Other Stories)

 

The longlist was selected by a panel of five judges, chaired by Bettany Hughes, award-winning historian, author and broadcaster, and is made up of writer, translator and chair of English PEN Maureen Freely; philosopher Professor Angie Hobbs; novelist and satirist Elnathan John and essayist and novelist Pankaj Mishra.

 

Bettany Hughes, chair of the 2019 Man Booker International Prize judging panel, said:

 

‘This was a year when writers plundered the archive, personal and political. That drive is represented in our longlist, but so too are surreal Chinese train journeys, absurdist approaches to war and suicide, and the traumas of spirit and flesh. We’re thrilled to share 13 books which enrich our idea of what fiction can do.’

 

 

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publicado às 22:32


#2967 - PRÉMIO LITERÁRIO VERGÍLIO FERREIRA 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.03.19

Resultado de imagem para nélida piñon

NÉLIDA PIÑON ||| RIO DE JANEIRO, 1937

 

Nélida Piñon, escritora brasileira, nascida em 1937 no Rio  de Janeiro, venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2019, instituído pela Universidade de Évora. O Júri argumentou a escolha como reconhecimento pela "latitude e profundidade da sua obra".

Nélida Piñon foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras.

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publicado às 21:42


#2966 - A CONTRA-SENHA ||| POEMA DE LUIS CARTAÑÁ

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.19

A CONTRA-SENHA

 

Cheguei do fundo da pedra:

precocemente do centro da rosa:

toquei as mãos e a artéria.

Ando ainda com a pele dos mármores

sombrios do deserto inocente. Oponho-me,

oponho-me ao relâmpago da água

e do mandato: ordeno, troco,

louvo a penugem como espada de enxofre

ou perfeição. Ordeno

ainda os horizontes.

Minha voz não é débil

nem o nascimento se cheguei e pus uma pedra

o coração como destino

e como canto a palavra amor e sem resposta, espero.

E como uma chuva de martelos,

de homem demasiado homem, de pancadas demasiado pancadas,

ou de paixão sem limites lancei minha funda ao  vento:

quero mais terra, mais terra e repartir unhas e chicotes

e repartir palavra e boca: Como um último respirar do homem

que viveu sem história na pegada e criou.

Criou a magnitude do homem lá do fundo da matéria única,

uma nova matéria, forças a rasgar o último recanto do vento

e a ordenar o eco

da última terra ou gratidão

que reste em minhas sandálias.

 

Caminhei até aqui,

cheguei precocemente do fundo da pedra

com a boca doce ou a palavra dividida. Ordeno

ainda os horizontes.

 

POEMA DE LUIS CARTAÑÁ (1942-1988)

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LUIS CARTAÑÁ OTERO nació en La Habana, Cuba en 1942.  Viaja de muy joven a los Estados Unidos donde estudia inglés en la Universidad de Georgetown en Washington, D.C.  Se traslada a España, allí realiza estudios en derecho y hace amistad con los escritores Pere Gimferer, José Caballero Bonald, Gloria Fuertes, José Batlló, Ignacio Gómez de Liaño y Francisco de Asís Fernández, entre otros.  Durante su estancia en España publica su primer poemario Estos humanos dioses (1967).  Precisamente, en 1967, viene a residir a Puerto Rico, donde se dedica a la cátedra de literatura en el Recinto Universitario de Mayagüez de la UPR.  Desde allí inicia una dinámica actividad cultural participando en numerosos encuentros culturales y congresos literarios en Puerto Rico, Perú, República Dominicana, México, Colombia y Estados Unidos.  Junto a otros escritores funda la Confederación de Escritores Latinoamericanos.  En Puerto Rico Cartañá se identifica con los poetas de la Generación de 1960; particularmente con el grupo del Oeste de la isla, representado por Carmelo Rodríguez Torres, Jorge María Ruscalleda BercedonizSotero Rivera Avilés, Juan Torres Alonso, Billy Cajigas, Wilfredo Ruiz Oliveras, Jaime Martínez Tolentino e Inés Crespo, entre otros.  Funda y dirige la colección “Jardín de espejos,” responsable por la edición de Antología minuto de Francisco Matos Paoli y Antología de la poesía sueca contemporánea, entre sus títulos más destacados.  Publicó los poemarios Joven resina (1971), Tocata, fuga y presencia(1972), Canciones olvidadas (Chanson Oubliés) (1977, 1985 y 1988, ésta última con prólogo de Pere Gimferer), Sobre la música (1981), La mandarina y el fuego (1983, con prólogo de Francisco Matos Paoli), Los cuadernos del señor Aliloil (1985) y Permanencia del fuego (1989), publicado a pocos meses de su fallecimiento.  Cartañá propulsó la candidatura de Francisco Matos Paoli al Premio Nobel de literatura, quien se convertiría en el primer escritor puertorriqueño en ser considerado para tan prestigioso galardón.  La poesía de Cartañá ha sido incluida en las antologías Poesía en éxodo (Miami, 1970), 9 poetas cubanos (Madrid, 1984), Antología de poesía puertorriqueña 1984-1985 (Río Piedras, Puerto Rico, 1985), Poesía cubana contemporánea (Madrid, 1986), Poetas cubanos en España (Madrid, 1988), Pulso de poesía (Mayagüez, Puerto Rico, 1992) y Al pie de la memoria. Antología de poetas cubanos muertos en el exilio (1959-2002) (Miami, 2002).  En 1988 se traslada a España para realizar estudios doctorales de Filología Hispánica en la Universidad Complutense de Madrid, enviado por el Recinto Universitario de Mayagüez.  Luego se traslada a la ciudad de Miami donde muere de un tumor en el cerebro el 11 de febrero de 1989.

 

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publicado às 18:24


#2962 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.19

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para peceber a falta dela

 

Afonso Cruz in «Paralaxe», crónica publicada no Jornal JL, edição n.º 1261, de 30 de Janeiro a 12 de Fevereiro e 2019

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publicado às 18:45

JONATHAN LITTELL

Respostas de Jonathan Littell retiradas de uma entrevista conduzida por Luciana Leiderfarb e publicada na revista "E" - A Revista do Expresso, Edição 2410, de 5 de Janeiro de 2019.

 

"... Ele (Trump) faz-me lembrar Nixon - embora Nixon fosse muito mais inteligente. Trump é um homem estúpido, parece um daqueles mestres de cerimónia de circo ou de feira [carnival barkers], que berram aos megafones para atrair pessoas."

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Observação da jornalista quando pergunta  ("A História não ensina nada?") Foram sentimentos desse tipo que, em muitos casos, mataram os nossos avós.

Resposta: Sim, e pera isso existem milhares de razões. Uma delas é que a globalização tornou algumas pessoas muito, muito ricas, enquanto outras ficaram muito, muito pobres, à beira da miséria. As pessoas estão assustadas, e por estarem assustadas são permeáveis a todo o tipo de discurso populista e xenófobo, à extrema-direita nacionalista. Veja o que se passa com o «Brexit»: é um dado objectivo que a saída do Reino Unido da União Europeia vai arruinar uma economia já de si bastante frágil, mas vence o argumento de que «as pessoas» escolheram este caminho. Isso é mentira, que «pessoas» são essas? O sistema educativo do país é disfuncional há duas gerações, há desemprego de longa duração, há gente que jamais teve um emprego na vida e cujos pais e avós nunca tiveram. Que tipo de decisão informada pode esta gente tomar sobre a UE? O que lhes interessa a UE?

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"... Vamos estar demasiado ocupados em sobreviver. Se nada mudar, podemos até ter uma guerra na Europa. É matemático: se não fizermos nada acerca das alterações climáticas, as previsões são catastróficas. Agora temos um milhão de migrantes. Imagine 20 ou 30 milhões, a virem de toda a parte, porque as suas regiões foram destruídas. Nessa altura, toda a gente se vai passar, e muito sangue vai ser derramado. E as democracias ocidentais vão sucumbir nos seus valores elementares - o que é típico da forma como os seres humanos gerem as coisas. Criamos todos estes brinquedos, estes computadores, estes smartphones, e nem sabemos como os usar. Uma das mais complexas conquistas da humanidade é utilizada para tirar selfies e fotografias de comida, que partilhamos nas redes sociais.

"(...) Amplificado (egocentrismo)  por estas máquinas, que foram desenhadas para aumentar os traços mais negartivos das pessoas. Gostemos ou não do  comunismo, o movimento que o originou foi o das pessoas a unirem-se e a tentarem mudar a sociedade. O mesmo acontece com as democracias: é sempre a acção colectiva que faz o mundo avançar. Todos estes brinquedos estão a conduzir à desintegração da sociedade, cada um está a olhar para si próprio, a entreter-se a tirar fotografias. Nesse contexto, as pessoas mais estúpidas ficam muito vulneráveis a tipos como Trump ou Bolsonaro. E as pessoas  inteligentes estão demasiado ocupadas com as selfies para empreender algum tipo de acção. Então, quando Lisboa se tiver afundado no Oceano Atlântico, vão poder fotografar-se enquanto se afogam e vai ser genial! Vão com certeza captar momentos muito bonitos."

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publicado às 17:50


#2943 - ECLESIASTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.12.18

1.

 

Palavras de Eclesiastes, filho de David, rei de Israel em, Jerusalém.

 

Vacuidade de vacuidades - disse o  Eclesiastes -,

Vacuidade de vacuidades: todas as coisas <são> vacuidade.

Que vantagem existe  para o ser humano

Em todo o seu esforço com que se esforça debaixo do Sol?

Uma geração passa; e uma geração chega;

E a terra fica de pé para sempre.

O sol nasce e o sol põe-se;

E transita para o seu lugar.

Nascendo lá, vai para sul

E vai em círculo para norte.

Circula circulando; o vento sopra.

E, nos ciclos dele, o vento regressa.

Todas as torrentes fluem para o mar;

E o mar não ficará repleto.

Para o lugar, para onde vão as torrentes,

Aí elas voltarão a ir.

Todas as palavras <estão> gastas.

Um homem não conseguirá falar;

E um olho não ficará satisfeito por ver;

E um ouvido não ficará satisfeito por causa da audição.

Aquilo que aconteceu, isso mesmo irá acontecer.

E aquilo que foi feito, isso mesmo será feito.

Nada existe de novo debaixo do Sol.

Quem dirá e afirmará: «Eis que isto é novo»?

<Isso> já aconteceu nas idades

Que existiram antes de nós.

Não existe memória de <pessoas> anteriores,

Nem dos que nasceram depois.

Não haverá memória deles

Junto dos que forem os últimos a nascer.

Eu, Eclesiastes, fui

Rei sobre Israel em Jerusalém

E ofereci o meu coração à procura

E à indagação, na sabedoria, acerca de todas as coisas

Que existem debaixo do céu.

Pois uma preocupação negativa

Deus ofereceu aos filhos do ser humano:

Preocuparem-se com essa <preocupação>.

Observei todos os feitos

Que foram feitos debaixo do Sol:

E eis que todas as coisas são vacuidade e demanda de vento.

Coisa torta não conseguirá ser endireitada;

E o que está em falta não conseguirá ser contado.

Eu falei no meu coração, dizendo:

«Eis que fiquei engrandecido

E proporcionei sabedoria a todos

Os que estavam diante de mim em Jerusalém;

E meu coração viu muitas coisas  - sabedoria e conhecimento.»

E ofereci meu coração a conhecer sabedoria e conhecimento:

Conheci dizeres e <conheci o > saber;

Pois também isto é demanda de vento.

Pois em abundância de sabedoria <está> abundância de conhecimento;

E quem aumenta conhecimento aumenta sofrimento.

 

Sinais utilizados no texto

< >  = entre parênteses angulares o tradutor coloca palavras subentendidas, mas não explícitas, no texto original

 

EXCERTO DO LIVRO DE ECLESIASTES, TRADUÇÃO DE FREDERICO LOURENÇO

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publicado às 18:29


#2940 - PRÉMIO LITERÁRIO VERGÍLIO FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.18

© Leonardo Negrão/Global Imagens

 

Universidade de Évora distingue Nélida Piñon com Prémio Vergílio Ferreira.
 

O Prémio Vergílio Ferreira 2019 atravessou este ano o Atlântico, tendo sido atribuído à escritora Nélida Piñon. Este galardão, instituído em 1996, incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio.

 

 

Numa edição que contou com candidaturas oriundas de 4 países, o júri decidiu atribuir este ano o prémio a Nélida Piñon, tendo ficado escrito em ata que “o Prémio Vergílio Ferreira 2019 foi atribuído à escritora Nélida Piñon pela latitude e profundidade da sua obra, que revela uma linguagem capaz de estabelecer e harmonizar um diálogo fértil entre a memória feminina e a História”.

O júri do Prémio que pretende homenagear o escritor de “Aparição” é composto este ano por Fernando Cabral Martins (Prof. Universidade Nova de Lisboa), Ângela Fernandes (Prof. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Anabela Mota Ribeiro (Jornalista), Cláudia Afonso Teixeira (Prof. Universidade de Évora), e Antonio Sáez Delgado (Prof. Universidade de Évora, presidente).

A cerimónia de entrega do Prémio acontece no dia de 1 março, data em que se assinala a morte do escritor, contando com as habituais intervenções da premiada, do júri e da reitora da Universidade de Évora.

Recorde-se que o prémio Vergílio Ferreira foi atribuído pela primeira vez a Maria Velho da Costa, a que se seguiram, entre outros, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa Luís, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio, Luísa Dacosta, José Gil, Hélia Correia, Lídia Jorge e João de Melo, tendo sido o galardoado da edição de 2018 o escritor Gonçalo M. Tavares.

 

PRÉMIO VERGÍLIO FERREIRA

O Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora em 1997, destina-se a galardoar anualmente o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa. relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio. Este prémio é entregue a 1 de março, no mesmo dia em que se assinala o aniversário da morte do seu patrono e autor de 'Aparição'.

Gonçalo M. Tavares
Gonçalo M. Tavares
Ano: 2018
 
Teolinda Gersão
Teolinda Gersão
Ano: 2017
 
João de Melo
João de Melo
Ano: 2016
 
Lídia Jorge - Prémio Vergílio Ferreira 2015
Lídia Jorge
Ano: 2015
 
Ofélia Paiva Monteiro
Ofélia Paiva Monteiro
Ano: 2014
 
Hélia Correia - Prémio Vergílio Ferreira 2013
Hélia Correia
Ano: 2013
 
José Gil - Prémio Vergílio Ferreira 2012
José Gil
Ano: 2012
 
 Maria Alzira Seixo - Prémio Vergílio Ferreira 2012
Maria Alzira Seixo
Ano: 2011
 
Luísa Dacosta - Prémio Vergílio Ferreira 2010
Luísa Dacosta
Ano: 2010
 
Mário de Carvalho - Prémio Vergílio Ferreira 2009
Mário de Carvalho
Ano: 2009
 
Prémio Vergílio Ferreira 2008 - Mário Cláudio
Mário Cláudio
Ano: 2008
 
Vasco Graça Moura - Prémio Vergílio Ferreira 2007
Vasco Graça Moura
Ano: 2007
 
Fernando Guimarães - Prémio Vergílio Ferreira 2006
Fernando Guimarães
Ano: 2006
 
Manuel Gusmão - Prémio Vergílio Ferreira 2005
Manuel Gusmão
Ano: 2005
 
Agustina Bessa-Luís - Prémio Vergílio Ferreira 2004
Agustina Bessa-Luís
Ano: 2004
 
Vítor Manuel de Aguiar e Silva - Prémio Vergílio Ferreira 2003
Vítor Manuel de Aguiar e Silva
Ano: 2003
 
Óscar Lopes - Prémio Vergílio Ferreira 2002
Óscar Lopes
Ano: 2002
 
Eduardo Lourenço - Prémio Vergílio Ferreira 2001
Eduardo Lourenço
Ano: 2001
 
Almeida Faria - Prémio Vergílio Ferreira 2000
Almeida Faria
Ano: 2000
 
Mia Couto - Prémio Vergílio Ferreira 1999
Mia Couto
Ano: 1999
 
Maria Judite de Carvalho - Prémio Vergílio Ferreira 1998
Maria Judite de Carvalho
Ano: 1998
 
Maria Velho da Costa - Prémio Vergílio Ferreira 1997
Maria Velho da Costa
Ano: 1997
 
 

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publicado às 22:11


#2931 - PRÉMIO LITERÁRIO FERNANDO NAMORA 2018

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.12.18

Carlos Vale Ferraz foi o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora 2018 com o romance "A Última Viúva de África"

 

Um dos mais importantes romances sobre a guerra colonial

2018-05-10 / Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, com nova edição a 17 de maio.

Carlos Vale Ferraz lança A Última Viúva de África

2017-09-12 / A partir da história real de uma mulher portuguesa que não quis abandonar a sua nova pátria, o autor procura compreender as linhas do processo de descolonização africano.

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publicado às 11:02


#2929 - A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.12.18

RUY BELO (27 DE EVEREIRO DE 1933 | 8 DE AGOSTO DE 1978)

 

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

 

O senhor deus é espectador desse homem

Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe

nos olhos o tempo suave das árvores

Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma

cada uma das quatro estações

A primavera veio e ele árvore singular

á beira do tempo plantada

vestiu-se de palavras

E foi a folha verde que deus passou

pela terra desolada e ressequida

Quando as palavras o deixaram de cobrir

ficaram-lhe dois dos olhos por onde

o senhor olha finitamente a sua obra

Até que as chuvas lhe molharam os olhos

e deles saíram rios que foram desaguar

ao grande mar do princípio

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 23:21


#2928 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

charles bukovski os  caes ladram facas023 (2).jpg

CONSELHO

 

tal como o vento corta, outra vez, desde o mar

e a terra é assolada por tumultos e desordem

tem cuidado com o sabre da escolha,

lembra-te

o que talvez fosse nobre

há 5 séculos

ou até mesmo 20 anos

é agora

a maior parte das vezes

um acto desperdiçado

a tua vida passa uma única vez

já a história tem oportunidade atrás de oportunidade

para provar a imbecilidade dos homens.

 

Tem cuidado, portanto, diria eu,

com qualquer 

acto

ideal

ou acção

aparentemente nobre,

seja por este país ou por amor ou pela Arte,

não te deixes possuir pela proximidade do minuto

nem pela beleza ou pela política

que murcharão como flores cortadas;

amor, sim, mas não enquanto ardil do casamento,

e cuidado com comida má e trabalho excessivo;

terás de viver num país,

mas amar não é uma ordem

seja mulher seja nação;

leva o teu tempo; e bebe tanto quanto seja necessário

por forma a manter a continuidade,

porque a bebida é um modo de vida

através do qual o participante reclama

uma nova oportunidade na vida;

mais ainda, direi,

vive sozinho o máximo possível;

cria filhos se por acaso acontecer

mas tenta não ter de aguentar

criá-los; não te envolvas em questiúnculas

de mão ou voz

a não ser que o teu adversário atente contra a tua vida

ou contra a vida da tua alma; então,

mata, se necessário; e quando chegar a hora da morte

não sejas egoísta:

pensa como é económica a morte

e no lugar paraonde vais:

sem qualquer marca de vergonha ou de fracasso

ou necessidade de compaixão

como o vento corta desde o mar

e o tempo passa

erodindo os teus ossos numa paz suave.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI EXTRAÍDO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:28


#2922 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.18

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

 

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o  transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

O português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é a patriótica organização

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e o povo em vão requer

curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL», EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 21:42


#2919 - EDIÇÃO COMPLETA DA OBRA DE VITORINO NEMÉSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.18

VITORINO NEMÉSIO (19 DEZEMBRO DE 1901 - 20 FEVEREIRO DE 1978)

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) vai editar a obra completa de Vitorino Nemésio, tendo já saído o primeiro volume desta nova edição "POESIA (1916 - 1940)".

Este primeiro volume integra uma colecção com cerca de 20 que serão publicados até 2021, distribuídos em 4 séries:

poesia, teatro e ficção, crónica e diário, ensaio e crítica. Esta nova edição da INCM da obra de Vitorino Nemésio é o resultado de uma proposta da Companhia das Ilhas, uma pequena editora da ilha do Pico.

 

 

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publicado às 22:46


#2913 - "JURO NÃO DIZER NUNCA A VERDADE"

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.11.18

Javier Marías

Este livro reúne noventa e cinco artigos publicados por Javier Marías no suplemento dominical do El País, no período que vai de 10 de fevereiro de 2013 a 1 de fevereiro de 2015, particularmente difícil em Espanha (e Portugal).Alguns dos temas abordados têm que ver com a sociedade espanhola. Mas até esses interessam aos leitores portugueses que acompanham os episódios governamentais e políticos do país vizinho, que tem afinidades ibéricas com os portugueses.A maioria deles tem no entanto um interesse geral, como é o caso dos abusos e da corrupção governamentais, os lamentáveis hábitos criados por redes sociais como o Facebook e o Twitter, os imaginativos atropelos da gramática, o incivismo que impera nos locais públicos, a xenofobia de alguns, a superstição nas estatísticas e percentagens, a praga das selfies nos museus e a invasão da televisão por programas de culinária.Mas o autor de Coração tão Branco, Os Enamoramentos e Berta Isla revela-nos também os seus gostos e afinidades, dos clássicos de cinema até algum filme recente, as suas referências literárias privilegiadas, e a origem do seu Reino de Redonda, onde os nobres são escolhidos não pela sua perícia no manejo das armas, mas pelos talentos revelados na escrita e outras formas de arte.

Fonte: Relógio D' Água, Editores

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1. É um dos mais destacados autores espanhóis da atualidade. É autor de Los dominios del lobo, Travesía del horizonte, El monarca del tiempo, El siglo, El hombre sentimental (Prémio Ennio Flaiano), Todas las almas (Prémio Ciudad de Barcelona), deste Amanhã na batalha pensa em mim (Prémio Fastenrath, Prémio Rómulo Gallegos, Prix Fémina Étranger), Negra espalda del tiempo, Tu rostro mañana (3 volumes), Os enamoramentos e Coração tão branco (vencedor do Prémio da Crítica em Espanha, do Prix l’Oeil et la Lettre e do IMPAC Dublin Literary Award), estes dois últimos já publicados na Alfaguara).
Tem ainda editados vários livros de contos, antologias e coletâneas de ensaios e crónicas. 
Em 1997, recebeu o Prémio Nelly Sachs, em Dortmund; em 1998, o Prémio Comunidad de Madrid; em 2000, os prémios Grinzane Cavour, em Turim, e Alberto Moravia, em Roma; em 2008, os prémios Alessio, em Turim, e José Donoso, no Chile; e, em 2011, o Prémio Nonino, em Udine, e o Prémio Literário Europeu, todos eles pelo conjunto da sua obra. Entre as traduções de sua autoria, destaca-se a de Tristram Shandy.
Foi professor na Universidade de Oxford e na Universidade Complutense de Madrid. A sua obra encontra-se publicada em quarenta e dois idiomas e cinquenta e quatro países, com seis milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
É membro da Real Academia Espanhola.

Fonte: WOOK

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publicado às 18:43

"O Século dos Prodígios",  ensaio de Onésimo Teotónio Almeida, trata o pioneirismo da ciência portuguesa no período dos Descobrimentos. Com este ensaio, Teotónio Almeida venceu o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História da presença de Portugal no mundo.

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publicado às 17:06


#2904 - COMO USAR O SALTO (Crónica de Gonçalo M. Tavares no JL)

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.11.18

 

COMO USAR O SALTO

 

No  " sagrado uso da verticalidade", expressão utilizada por Herberto Hélder, vemos pecisamente a antítese de algo que podemos designar como Humano uso da verticalidade. Neste uso humano da elevação temos um uso instrumental, um uso bípede e racionalista da verticalidade. Estamos em pé para usar instrumentos, máquinas,  para olhar de frente para certas máquinas; até mesmo isto: para olhar de frente para certas fórmulas matemáticas, para as entender. O uso humano da verticalidade construiu as cidades, sim, e também esse edifício de material insólito: a matemática.

 

Mas há então o outro uso da verticalidade; o uso não humano, mas sagrado. Digamos que a dança, certa forma de dança, usa esse uso. Enquanto dança, o homem é vertical não para entender fórmulas ou mexer em máquinas, mas para outra coisa: para entender, tanto quanto possível, o céu e a ausência e esquecimento do corpo. Esquecer o corpo na dança é usar a verticalidade muscular para esquecer os músculos. Como se a certa altura o homem quisesse ser vertical não para ser mais alto do que os outros animais, mas para ser apenas ligeiramente mais baixo que o céu (e os seus eventuais deuses.)

 

CRÓNICA DE GONÇALO M. TAVARES NO JL-JORNAL DE LETRAS, ARTES E IDEIAS. N.º 1255, ANO XXXVIII, PÁGINA 32

 

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publicado às 17:48


#2903 - Nicolas Mathieu vence Prémio Goncourt

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.11.18

NICOLAS MATHIEU

 

O mais importante prémio literário da língua francesa - PRÉMIO GONCOURT - foi atribuído ao escritor francês Nicolas Mathieu com o romance "Leurs Enfants Aprés Eux".

 

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publicado às 15:42


#2897 - PRÉMIO LITERATURA SEM FRONTEIRAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.11.18

Cluj-Napoca: Gonçalo M. Tavares na 6.ª edição do Festival Internacional do Livro da Transilvânia

A 6.ª edição do FICT - Festival Internacional do Livro da Transilvânia decorre entre 2 e 7 de outubro de 2018 na cidade de Cluj-Napoca, na Roménia.

O escritor português Gonçalo M. Tavares é um dos convidados de honra desta edição. O autor terá a oportunidade de participar do lançamento das versões romenas dos seus títulos “Enciclopédia: Breves Notas Sobre Ciência”, ”Breves Notas Sobre o Medo”, “Breves Notas Sobre as Ligações” (Llansol, Molder e Zambrano), “Breves Notas Sobre a Música” e “Breves Notas Sobre a Literatura – Bloom” com tradução de Corina Nutu, e serão publicadas pela Editora, na coleção Longseller.

 

Gonçalo M. Tavares foi o vencedor do Prémio Literatura Sem Fronteiras atribuído no âmbito da 6.ª  edição deste Festival.

 

Fonte:    Camões - Instituto da Cooperação e da Língua

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publicado às 23:42


#2895 - "Desimaginar o Mundo - Manuel António Pina 2018"

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.11.18

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)

 

Para celebrar o 75º aniversário do nascimento de Manuel António Pina, tem início, este sábado, na cidade do Porto, as Jornadas Internacionais "Desimaginar o Mundo-Manuel António Pina 2018", com a reposição da peça «O Beco dos Gambozinos".

A peça é um musical para crianças concebido há cerca de 30 anos por Manuel António Pina e a música desta peça é de Susana Ralha.

Este musical regressará ao palco do teatro Helena Sá e Costa, na cidade do Porto, dia 3, pelas 17 horas. 

Estas jornadas acontecerão, também, em São Paulo, Brasil, para prosseguirem, depois, no Porto, a partir do dia 16.

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publicado às 19:59


#2893 - Prémio Oceanos de Literatura (Lista dos Finalistas)

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.10.18

Prêmio Oceanos 2018

                                                

 

Três escritores  portugueses integram a lista dos dez finalistas do Prémio Oceanos 2018.

Bruno Vieira Amaral com o livro "Hoje estarás no paraíso", o segundo romance do escritor, distinguido com os Prémios Pen Clube Narrativa e José Saramago com o romance de estreia "As primeiras coisas".

HG Cancela com o romance "As pessoas do drama", vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores atribuído no passado mês de Julho.

Luís Quintais com o livro "A noite imóvel" obra que sucede a "Arrancar penas a um canto  do cisne", Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, edição de 2017.

Integram também a lista cinco escritores brasileiros e dois moçambicanos.

 

LISTA DOS FINALISTAS

 

A noite da espera - Milton Hatoum - Companhia das Letras - Romance - Brasileira

A noite imóvel - Luís Quintais - Assírio & Alvim -  Poesia - Portuguesa

Anjo noturno  - Sérgio Sant'Anna  - Companhia das Letra - Conto - Brasileira

Antiboi - Ricardo Aleixo -  Crisálida - Poesia - Brasileira

As pessoas do drama  - H. G. Cancela - Relógio D'Água - Romance - Portuguesa

Câmera lenta - Marília Garcia - Companhia das Letras - Poesia - Brasileira

Hoje estarás comigo no paraíso - Bruno Vieira Amaral -- Quetzal - Romance - Portuguesa

O Deus restante - Luis Carlos Patraquim - Cavalo do Mar - Poesia - Moçambicana

Pai, pai - João Silvério Trevisan - Alfaguara - Romance - Brasileira

Vácuos - Mbate Pedro - Cavalo do Mar - Poesia - Moçambicana

 

 Bruno Vieira Amaral

H G Cancela 

 

Luís Quintais

 

 

               

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publicado às 00:34


#2878 - "A ÚLTIMA PORTA ANTES DA NOITE"

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.18

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

"A ÚLTIMA PORTA ANTES DA NOITE", o novo romance de António Lobo Antunes, edição D. Quixote, estará disponível nas livrarias no dia 18 deste mês.

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publicado às 17:44


#2856 - FOLIO-FESTIVAL LITERÁRIO INTERNACIONAL DE ÓBIDOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.09.18

 

FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos

De 27 de Setembro a 7 de Outubro, Óbidos é Ponto (d)e Encontro. Encontro de escritores, leitores, artistas, músicos, livros, letras… e muitos Pontos de vista diferentes.

 

VER PROGRAMA AQUI

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publicado às 07:41


#2854 - O Silêncio dos Pássaros

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.09.18

"... A razão pela qual as pessoas não querem saber da sorte do planeta, nem do aquecimento global, da poluição dos ares, da morte das árvores, da agonia dos animais, dos furacões e das tempestades, dos mares de plástico, dos degelos e das secas, dos incêndios selvagens e das inundações, é simples. Na civilização, vemos a natureza ao longe, mediada por ecrãs e máquinas, solicitada pelos confortos da supremacia humana. Protegidos pela tecnologia, a previsão e a distância. Se estivermos dentro do fogo e da água, sujeitos à violência dos elementos, aprendemos a respeitar a natureza em vez de acabar com ela. Condenámo-nos por preguiça e egoísmo, e já se ouve o silêncio dos pássaros no planeta Terra."

 

Excerto da crónica "O Silêncio dos Pássaros" escrita por Clara  Ferreira Alves - REVISTA "E" - JORNAL EXPRESSO - EDIÇÃO 2395 DE 22 DE SETEMBRO DE 2018

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publicado às 18:40

A gare do caminho-de-ferro do Cairo a Alexandria; A eterna confusão das festas de Suez ; O que é um maquinista nos caminhos-de-ferro egípcios ; O embarque em Alexandria ; Port Said ; A baía em festa ; Iluminações ; Um café cantante em Port Said ; Os pavilhões e os príncipes ; Abd el-Kader ; Mr. Bauer ; Os dois obeliscos de pau da entrada do canal ;Primeiros sustos

 

Sr. Redator

Acedo com a mais perfeita vontade ao seu desejo de ter a história real das festas de Suez. Conto-lhe, porém, simplesmente e descarnadamente, o que me ficou em memória daqueles dias confusos e cheios de factos: tanto mais que as festas de Suez estão para mim entre duas recordações - o Cairo e Jerusalém: estão abafadas, escurecidas por estas duas luminosas e poderosas impressões: estão como pode estar um desenho linear a lápis, entre uma tela resplandecente de Decamps, o pintor do Alcorão, e uma tela mortuária de Delaroche, o pintor do Evangelho.

Talvez em breve eu diga o que é o Cairo e o que é Jerusalém na sua crua e positiva realidade, se Deus consentir que eu escreva o que vi na terra dos seus profetas. Hoje, faço-lhe apenas a narração trivial, o relatório chato das festas de Port Said, Ismailia e Suez.

Tínhamos voltado, eu e o meu companheiro, o conde de Resende, de uma excursão às pirâmides de Gizé, aos templos de Sacara e às ruínas de Mênfis, quando no Cairo soubemos que estavam na baía de Alexandria os navios do quediva que deviam levar-nos a Port Said e Suez.

Vínhamos do sossego do deserto e das ruínas, e logo na gare do Cairo, ao partir para Alexandria, começámos a envolver-nos, bem a custo, naquela confusão irritante que foi o maior elemento de todas as festas de Suez. A previdente penetração da polícia egípcia tinha esquecido que trezentos convidados, ainda que não tenham a corpulência tradicional dos paxás e dos vizires, não podem caber em vinte lugares de vagões, estreitos como bancos de réus. Por isso, em volta das carruagens havia uma multidão tão ávida como no saque de uma cidade.

Jonas Ali, o nosso drogman, um núbio, intrigou, conspirou, clamou e alcançou-nos numa carruagem de segunda classe, miseravelmente desmoronada, dois lugares empoeirados.

Confesso que foi com o maior tédio que comecei a atravessar a magnífica natureza do Delta. Demais, os caminhos-de-ferro egípcios não têm uma velocidade fixa. Vão aos caprichos do maquinista, que, de vez em quando, para a máquina, desce, acende o cachimbo, ri com algum velho conhecimento de estrada, sorve minuciosamente o seu café, torna a subir bocejando, e faz partir distraidamente o trem. Nesse dia, porém, o ar estava nublado, chuvoso; o maquinista levou-nos rapidamente a Alexandria. Na baía esperavam o Marsh, o Fayoum, o Behera, navios do paxá. O embarque fez-se com a confusão habitual, complicada com os embaraços de um mar agitado: os barcos iam cheios de gente; uns de pé, outros sentados na borda, roçando pela água, outros gravemente equilibrados sobre a acumulação pitoresca das bagagens: ria-se, fulminava-se a organização e a polícia das festas, gritava-se um pouco quando os barcos pesados oscilavam mais inquietadoramente. Nós subimos para o Fayoum, que devia levantar ferro nessa tarde, apesar do tempo contrário e dos mares que nós víamos partir de longe na linha de rochedos que precede a baía de Alexandria. E ao outro dia, por uma bela luz da manhã, entrávamos em Port Said por entre os dois grandes molhes que se adiantam paralelamente pelo mar, feitos de poderosos blocos de pedra solta. Port Said é uma cidade improvisada no deserto. É uma cidade de indústria e de operários: isto dá-lhe uma especialidade de fisionomia: estaleiros, forjas, serralharias, armazéns de materiais, aparelhos destilatórios. Tal é Port Said. A sua construção foi determinada pela necessidade de haver um vasto porto, que fosse uma estação de navios, à entrada do canal, e primitivamente, para que engenheiros, maquinistas, diretores de obras, tivessem um centro. Isto dá-lhe um aspeto de cidade provisória. Como havia espaço, as ruas são largas como praças e compridas como avenidas: as casas são baixas, de materiais ligeiros: sente-se a construção rápida e a incerteza da duração. Ali em Port Said, apesar dos seus doze mil habitantes, não há ainda um viver definitivo e regular. Não há estabelecimentos feitos na esperança da duração, não há comércios fixamente estabelecidos: tem tudo o aspeto de uma feira, que hoje ganha e prospera e amanhã se levanta e se dispersa. E isto porque, apesar da confiança de toda a população na prosperidade do canal, nenhuma profissão, nenhum comércio se quer arriscar a estabelecer-se de um modo definitivo, correndo o perigo de ver aquele começo de cidade estiolar-se e morrer miseravelmente. Pois tal seria a sorte de Port Said, bem como de Ismailia, se o canal fosse uma inutilidade, abandonada do comércio e da navegação.

A sua construção ressente-se pois destas circunstâncias: nem edifícios, nem monumentos, nem construções sólidas e sérias: tudo é ligeiro, barato, provisório. A igreja católica é como uma grande barraca: vê-se o céu azul através do seu teto feito de grandes traves mal unidas. Tudo isto dá a Port Said um aspeto triste. No fim das festas, tempo depois, quando ali tornei a passar, em viagem para Jerusalém, pareceu-me pela apatia da vida, pelo silêncio, que o deserto começava de novo a aparecer por entre aquela fraca aparência de cidade.

Mas naquele dia 17, da inauguração, Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos hurras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto de vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os iates dos príncipes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a Aigle, com a imperatriz, o Mamondeh com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José até ao quediva árabe Abd el-Kader. As salvas faziam o ar sonoro. Em todos os navios, empavesados e cheios de pavilhões, a marinhagem, perfilada nas vergas, saudava com vastos hurras. De todos os tombadilhos vinha o vivo ruído das músicas militares. O azul da baía era riscado em todos os sentidos pelos escaleres, a remos, a vapor, à vela: almirantes com os seus pavilhões, oficialidades todas resplandecentes de uniformes, gordos funcionários turcos afadigados e apopléticos, viajantes com os chapéus cobertos de véus e couffiés, cruzavam-se ruidosamente por entre os grandes navios ancorados; as barcas decrépitas dos árabes, apinhadas de turbantes, abriam as suas largas velas riscadas de azul. Sobre tudo isto o céu do Egito, de uma cor, de uma profundidade infinita. À noite a cidade iluminava-se, enchia-se de músicas, de festas populares. As esquadras tinham as suas armações e cordagens cobertas de fios de luz. Durante toda a noite os fogos-de-artifício, numa grande linha de terra, faziam, sobre o céu escuro, grande bordado luminoso.

Na baía havia um viver completo, como numa cidade: bailes a bordo dos navios, jantares, visitas trocadas, receções, passeios a remo, serenatas nos escaleres. De tudo isto saía uma luz, um ruído, um fluido de vida poderosamente original. Havia em Port Said um café-cantante, memorável pela excentricidade da sua alegria: estava tão cheio de gente, que era necessário fumar, beber, ouvir, de pé, sufocado, hirto. Quando no palco aparecia a atriz para dizer a sua canção, as mil vozes daquela imensa multidão, acompanhadas do tinir cadenciado dos copos, do bater dos pés, dos assobios, dos uivos, dos gritos, começavam repetindo, com estrondo assombroso, a canção conhecida da atriz. Era bestial e extraordinário.

No dia seguinte ao da chegada, descemos todos a terra para a cerimónia da inauguração. Do lado oposto aos molhes, para além da cidade, tinham-se construído três pavilhões, estrados tapetados e blasonados, sobre a areia húmida da espuma do mar. Era nesse lugar a celebração religiosa: os ulemás e os padres cristãos deviam abençoar e consagrar nos seus ritos o canal de Suez. Um grande cortejo de convidados precedido dos príncipes, entre os quais sobressaía a pensativa e bela figura de Abd el-Kader, dirigiu-se para esse lugar, entre duas fileiras de soldados egípcios, de arcos, de bandeiras, e de árabes que abriam grandes olhos. No pavilhão principal, de cores triunfantes, colocavam-se os convidados reais e imperiais e os mais que podiam caber; no outro pavilhão estavam os ulemás maometanos; no terceiro os padres latinos, gregos, arménios e coptas.

Quando tudo estava colocado e o grande rumor da chegada e da confusão se acalmou, os ulemás prostraram-se, voltados para o lado de Meca, os padres cristãos começaram a missa, a artilharia salvou nas esquadras. Entretanto a multidão apinhava-se sobre a areia húmida em volta dos estrados; a grossa figura vermelha do quediva estava radiosa, a imperatriz tinha um ar de compunção discreta, Mr. De Lesseps tinha o seu belo e inteligente sorriso; em redor e até ao fundo horizonte, o mar sereno reluzia. Quando a artilharia findou, Mr. Bauer adiantou-se à beira do estrado e falou. Mr. Bauer é um homem baixo, pálido, de cara feminina e larga, cabelos pendentes em anéis sobre os ombros, asseado, bordado, perfumado, delicado, e com uma voz assombrosa. O que ele dizia eram palavras de fraternidade entre o Oriente e o Ocidente, esperanças de humanidade mais profunda, unida por aquela ligação marítima, palavras afáveis aos convidados reais, e recordações piedosas pelos corajosos trabalhadores, que durante aquela obra de luta morreram obscuramente. Quando ele disse o nome de Mr. De Lesseps, toda a imensa multidão bateu as palmas. Mr. Bauer findou, e o cortejo voltou à praia e dispersou-se pelos navios. Durante toda a noite os fogos-de-artifício, os clamores alegres da cidade, o ruído dos escaleres, as músicas, encheram a baía de vida.

Ao outro dia os navios começaram a mover-se lentamente, voltando a proa para um ponto da baía de Port Said, onde se erguiam, como os dois umbrais de uma porta, dois obeliscos de madeira vermelhos. Era a entrada do canal de Suez. Entretanto corriam por todos os navios estranhos boatos.

 

In "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"

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publicado às 10:21


#2847 - Prémio Oceanos 2018

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.08.18

Foi publicada a lista com os nomes dos semifinalistas do Prémio Literário Oceanos. São 16 os autores portugueses com obras selecionadas para a semifinal do Prémio Oceanos 2018, que será decidido em Outubro. Os restantes são brasileiros, moçambicanos, um cabo-verdiano e um timorense. Desta vez há também uma romena, um espanhol e uma suíça que escrevem em português.

 

Os escritores portugueses são: Rui Nunes, Bruno Vieira Amaral, Patrícia Reis, Sandro William Junqueira, H.G. Cancela, David Machado, Luís Osório, João Pinto Coelho, António Oliveira e Castro, José Tolentino Mendonça, Nuno Júdice, António Carlos Cortez, Luís Quintais, Frederico Pereira, Júlio Henriques, A.M. Pires Cabral.

 

LISTA COMPLETA DOS SEMIFINALISTAS

 

Criado no Brasil em 2003, com o nome de Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, Oceanos expandiu a sua abrangência e tornou-se uma das principais referências no cenário literário.

Em 2007 — ainda com o patrocínio da empresa portuguesa de telecomunicações, Portugal Telecom, e o título Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa —, passou a contemplar todos os livros escritos em língua portuguesa publicados no Brasil. De 2007 a 2014, o prêmio Portugal Telecom garantiu por regulamento a seleção de 20% de livros portugueses e/ou africanos entre os semifinalistas e finalistas.

Em 2015, com a saída da Portugal Telecom do Brasil, o Banco Itaú assumiu o patrocínio do prêmio. Com a parceria do Itaú Cultural, responsável por todo o operacional do prêmio, a curadora Selma Caetano e um conselho formado pelos estudiosos de literatura Antônio Carlos Secchin, Beatriz Resende, Benjamim Abdala Jr., Flora Sussekind, José Castello, Leyla Perrone-Moisés, Lourival Holanda e Manuel da Costa Pinto avaliaram e aperfeiçoaram o regulamento, lançando as primeiras sementes da ampliação para toda a língua portuguesa. Com a mesma estrutura democrática e a diversidade do corpo inicial de jurados, o prêmio passou a chamar-se Oceanos.

Em 2017, depois de 14 edições contemplando obras de literatura em língua portuguesa editadas no Brasil, Oceanos abriu as suas inscrições para livros escritos em língua portuguesa publicados em qualquer lugar do mundo. Tornou-se, assim, um prêmio transnacional em sua estrutura e em sua dinâmica de avaliação, com júris compostos por especialistas de África, Brasil e Portugal.

 

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publicado às 10:43


#2844 - The Golden Man Booker Prize

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.07.18

The Golden Man Booker Prize

 Michael Ondaatje, com o livro "O Doente Inglês", foi o vencedor como o melhor Prémio Man Booker dos últimos 50 anos.

O livro foi editado em Portugal pela editora Dom Quixote em 1996 coincidindo com o ano do lançamento do filme com o título "O Paciente Inglês".

 

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Escritor de nacionalidade canadiana, Michael Ondaatje nasceu a 12 de setembro de 1943, no Ceilão. De raízes étnicas holandesas e indianas, estudou em Colombo até à altura em que acompanhou a mãe quando esta se mudou para Inglaterra em 1954.

Tomou os seus estudos secundários em Londres e, assim que os concluiu, mudou-se para o Canadá, chegando à cidade de Toronto no ano de 1962. Matriculou-se então na Universidade de Toronto e, após ter conseguido o bacharelato em 1965, transitou para a Queen's University de Ontário, de onde obteve a licenciatura dois anos depois. Deu portanto início a uma carreira como professor universitário e tomou a cidadania canadiana.
Estreou-se como escritor em 1967, ao publicar uma coletânea de poemas intitulada The Dainty Monsters. Seguiram-se The Man With Seven Toes (1969) e Rat Jelly (1973) até que Ondaatje acabou por ser reconhecido ao aparecer com The Collected Works Of Billy The Kid(1970), obra que lhe valeu um prémio literário atribuído anualmente pelo governador canadiano. Repetiu esta façanha em 1979 com o trabalho There's A Trick With A Knife I'm Learning To Do (1963-78).
Em 1976 publicou o seu primeiro romance, Coming Through Slaughter, no qual contava a história de um músico de jazz da Nova Orleães dos Anos 30. A obra, vencedora de um prémio literário, foi seguida por Running In The Family (1982), obra de carácter autobiográfico, e por In The Skin Of A Lion (1987), em que Ondaatje procedia a uma reflexão sobre o fenómeno da imigração. No ano de 1992, Ondaatje publicou a obra que se veio a tornar a mais conhecida, The English Patient (O Paciente Inglês). Vencedor, entre outros galardões, do Prémio Booker, o romance descrevia uma história de amor durante o período da Segunda Guerra Mundial. Foi adaptada para o cinema e, revelando-se um enorme sucesso de bilheteira, recebeu um Óscar da Academia norte-americana na categoria de melhor filme.
Em 1999, Ondaatje tornou a despertar as atenções do público e da crítica, ao surgir com um volume de poemas intitulado Handwriting. No ano de 2000 publicou um quarto romance, Anil's Ghost, obra que revertia para as suas origens singalesas.

Michael Ondaatje. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011

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publicado às 18:55


#2842 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.07.18

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O músico e escritor Kalaf Epalanga, membro da banda Buraka Som Sistema, dirige-se de autocarro da cidade sueca de Gotemburgo para Oslo, a capital da Noruega, onde vai actuar nessa noite no festival OYA. 
Como não tem um passaporte válido para mostrar é detido por tentativa de imigração ilegal e conduzido à esquadra da polícia para interrogatório. Aflito perante a iminência de perder o concerto, interroga-se: como vou explicar a estes polícias noruegueses que, apesar do meu aspecto pouco comum por estas paragens não sou mais que um pacífico músico angolano em digressão? Conseguirei explicar-lhes quem são os Buraka Som Sistema? Falo-lhes da cena musical de Lisboa? De como nasceu o Kuduro num musseque de Luanda? Eles irão perceber? Esta é a história deste extraordinário e surpreendente livro de Kalaf Epalanga. 

Trata-se na realidade de uma obra de auto-ficção, cultivada por tantos escritores europeus mas relativamente rara entre nós. E o mundo que nos mostra - de Luanda a Kristiansund, de Beirute ao Rio de Janeiro, sem esquecer a sua amada Lisboa - é uma autêntica revelação

 

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Músico, cronista e editor discográfico. Nasceu em Benguela, em Fevereiro de 1978, cresceu numa família de funcionários públicos, com ligações a vila da Catumbela, lugar que visita com regularidade, na tentativa de traçar um mapa afetivo com as pessoas e lugares que habitam a sua memória. Na segunda metade dos anos 90 mudou-se para Lisboa, com o objetivo de obter a melhor formação académica possível e regressar a Angola. No entanto esses dois desejos sofreram um desvio quando se viu sem as rédeas familiares e um mundo novo a revelar-se diante de si. Mergulhou, aprendeu com quantos baldes de cimento se faz uma parede, e qual o ponto de cozedura do arroz para sushi. Aprendeu a ouvir Jazz e a apreciar arte e design tão intensamente, a apreciar que o regresso a Angola ficou adiado por tempo indeterminado. A aventura poética iniciou-se nos finais de1998, numa altura em que Lisboa ensaiava novas linguagens rítmicas, buscando novos caminhos para a música urbana feita em português - multiplicou-se em colaborações, criando cumplicidades artísticas com Sara Tavares, Sam The Kid, Type, Nuno Artur Silva, entre outros, e, em 2003, juntou-se ao produtor João Barbosa, formaram o duo 1 Uik Project e fundaram a Enchufada, núcleo de produção musical, editora independente responsável pela edição do projeto Buraka Som Sistema, e com estes partiu para o mundo.

 

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publicado às 19:56

Luís de Camões, Poesia
Foto
FERNANDO VELUDO/NFACTOS

 

 

O poeta Daniel Jonas é o vencedor da 23.ª edição do Grande Prémio da Literatura dst, no valor de 15 mil euros, com a obra Oblívio (Assírio & Alvim, 2017).

 

Em comunicado, a organização do prémio literário, que já distinguiu autores como Mário Cláudio, Luísa Costa Gomes, Armando Silva Carvalho, Jacinto Lucas Pires e Maria Velho Costa, destaca em Oblívio o "trabalho textual, muito depurado, assumindo uma linguagem de timbre clássico, para melhor encontrar uma clara modernidade de temas e formas". A obra, continua o júri, distingue-se também "pelas evidências cultas, sensíveis, de uma criação poética que não se alheia do quotidiano nem da emoção".

Daniel Jonas é poeta, dramaturgo e tradutor. Enquanto poeta, haviam já merecido atenção os anteriores Sonótono (Cotovia, 2006), que lhe valeu o prémio PEN de Poesia, Passageiro Frequente (Língua Morta, 2013), com que foi candidato ao prémio Poeta Europeu da LiberdadeNó (Assírio & Alvim, 2014), Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes da Associação Portuguesa de EscritoresBisonte (Assírio & Alvim, 2016).

 

Em 2012, Daniel Jonas foi distinguido com o Prémio Europa David Mourão-Ferreira, da Universidade de Bari/Aldo Moro, pelo conjunto da obra.

 

O Grande Prémio de Literatura dst foi instituído há mais de duas décadas pelo dstgroup e é entregue de forma rotativa, distinguindo num ano poesia e no ano seguinte prosa.

 

O prémio será entregue no dia 29 de Junho, numa cerimónia integrada na Feira do Livro de Braga.

 

JORNAL PÚBLICO

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publicado às 08:38

 

 Antonio Muñoz Molina, escritor espanhol, vai estar hoje na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance "Como a Sombra que Passa", edição portuguesa da Ponto de Fuga.

O livro, finalista da edição deste ano do Prémio Man Booker Internacional, trata o assassinato de Martin Luther King ocorrido em 4 de Abril de 1968, e do percurso do seu assassino James Earl Ray desde o crime até à sua captura, incidindo particularmente nos dias que passou em Lisboa durante a sua fuga.

 

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Antonio Muñoz Molina nasceu em Úbeda, na província andaluza de Jáen, em 1956. Mundialmente reconhecido como um dos maiores escritores atuais em língua espanhola, é autor de mais de uma quinzena de romances, duas recolhas de contos, além de numerosos ensaios e escritos jornalísticos. De entre a sua obra narrativa foram publicados em Portugal Beatus Ille (1986), O Inverno em Lisboa (1987), Beltenebros (1989), O Cavaleiro Polaco (1991), Os Mistérios de Madrid (1992), Nada do Outro Mundo (contos, 1993), O Dono do Segredo (1994), Ardor Guerreiro (1995), Plenilúnio (1997), Carlota Fainberg (2000), Na Ausência de Blanca (2001), Sefarad (2001) e O Vento da Lua (2006). Duas vezes vencedor do Premio Nacional de Narrativa (1988 e 1992) e galardoado com o Premio Príncipe de Asturias pelo conjunto da sua obra (2013), é membro da Real Academia Española desde 1995. Vive entre Madrid e Lisboa e é casado com a escritora Elvira Lindo. 

(Este texto foi retirado do «sítio» da WOOK)

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publicado às 07:42


#2829 - Poema de Hilda Hilst

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.04.18

HILDA HILST

 

Alcoólicas (trechos)

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

 

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

 

Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

 

POEMA DE HILDA HILST

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publicado às 18:26


#2823 - LIVROS [LANÇAMENTOS PREVISTOS PARA ESTE MÊS ]

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.04.18

Uma nova edição do "Fausto" de Fernando Pessoa, os contos completos de Marcel Proust e o novo romance de Salman Rushdie, "A Casa Golden": estes são alguns dos lançamentos que pode esperar em abril.

 

O mês de abril vai ficar sobretudo marcado por bons lançamentos de ficção

Getty Images/iStockphoto/MaskaRad

Livros de ficção

A Tinta-da-China vai publicar, neste mês de abril, uma nova edição de Fausto, de Fernando Pessoa. A obra, inacabada, foi editada pela primeira e única vez em 1988 por Teresa Sobral Cunha, com prefácio de Eduardo Lourenço. Esta será, portanto, a primeira edição nova em 30 anos. Da responsabilidade de Carlos Pittela (co-autor de Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida), esta nova edição de Fausto será também a primeira a ter aparato crítico.

 

A E-Primatur vai editar Contos Completos e Outros Textos, de Marcel Proust enquanto que pela Elsinore vai sair O Gato, o Ankou e o Maori, de Michel Rio, e A Devastidão do Silêncio, de João Reis. Já a Cavalo de Ferro vai publicar A Mente Aprisionada, de Czeslaw Milosz, e A Língua Resgatada, de Elias Canetti, na continuação da publicação das obras do escritor búlgaro. A Alfaguara vai publicar Tu não és como as outras mães, de Angelina Schrobsdorff.

A Língua Resgatada, do Prémio Nobel da Literatura Elias Canetti, vai sair no dia 16 de abril pela Cavalo de Ferro

 

A Livros do Brasil vai editar neste mês de abril Um Crime em Glenlitten, de E. Phillips Oppenheim, o novo volume da coleção “Vampiro”, e Um Diário Russo, o relato da viagem que John Steinbeck fez pela Rússia do pós-Segunda Grande Guerra, com fotografias de Robert Capa. A Porto Editora vai publicar Burgueses somos nós todos ou ainda menos, de Mário de Carvalho, e O Caderno, um volume com textos escritos por José Saramago entre setembro de 2008 e março de 2009.

 

Depois de Dois Irmãos, a Companhia das Letras vai editar Relato de um certo oriente, do brasileiro Miltom Hatoum. “Entre o Oriente e o Amazonas, este é o relato da procura de um mundo perdido, como perdidos estão sempre os lugares das nossas recordações. Nele, as memórias fluem como o rio, entre este e oeste, entre cidade e selva, entre vida e morte”, refere a editora. “Carregado do magnetismo e beleza da Amazónia, submerso no lirismo doce e envolvente da escrita de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente traz o sopro das obras que vieram para ficar.”

 

Companhia das Ilhas vai publicar Puta de Filosofia, de Carlos Alberto Machado, “um romance político-policial, polvilhado por cenas eróticas, literárias e gastronómicas”. Pela Caminho vai sair, a 24 de abril, Juncos à beira do Caminho, um livro de poesia de Francisco José Viegas. É também mais ou menos na mesma altura que vai chegar às livrarias Poemas Escolhidos, do poeta inglês William Wordsworth, com chancela da Assírio & Alvim.

A Companhia das Letras vai publicar outro romance do premiado escritor brasileiro Milton Hatoum. Relato de um certo oriente chega às livrarias a 17 de abril

 

A Dom Quixote vai publicar Memórias Secretas, de Mário Cláudio, Autobiografias Alheias, de Antonio Tabuchi (cujos seis anos da sua morte serão assinalados em abril pela Fundação Calouste Gulbenkian com uma série de iniciativas), A Casa Golden, o novo romance de Salman Rushdie, e A Mãe, de Pearl S. Buck. Pela Planeta vai sair Beren e Lúthien, de J.R.R. Tolkien.

 

A ASA vai lançar uma nova edição de A Trança de Inês, o romance de Rosa Lobato de Faria que deu origem ao filme “Pedro e Inês”, realizado por António Ferreira, e Tempo Suspenso, de Elizabeth Jane Howard. A Guerra & Paz vai publicar três clássicos: Drácula, de Bram Stoker, O Alienista, de Machado de Assis, e A Letra Escarlate, de Nataniel Hawthorne.

Livros de não-ficção

A Dom Quixote vai editar Maio de 68. Uma Contrarevolução conseguida, de Régis Debray, A Ordem do Dia, de Éric Vuillar, vencendor do Prémio Goncourt em 2017, e À conversa sobre negociações – um diálogo sobre a arte da negociação ao longo da História, de José Miguel Júdice e Pedro Fontes Falcão. A BookBuilders vai lançar em abril O Mar, Uma História Cultural, de John Mack (com prefácio de Álvaro Garrido).

 

A Guerra & Paz vai publicar Cabinda – Um Território em Disputa. Organizado pelo jornalista e ativista Sedrick de Carvalho, o livro reúne “ensaios de oito autores influentes e decisivos, mostrando diferentes perspectivas sobre a questão e o estatuto do território” angolano, refere a editora. Pela Ítaca — que agora pertence à Relógio d’Água — vai sair Mercadores de gente  Como os jiadistase o Estado Islâmico transformaram o rapto e tráfico de refugiados num negócio multimilionário, uma investigação meticulosa da jornalista e economista italiana Loretta Napoleoni sobre a indústria do rapto no Médio Oriente e Norte de África.

Cabinda — Um Território em Disputa, com organização de Sedrick Carvalho, vai ser publicado já no dia 3 de abril pela Guerra & Paz

 

A Saída de Emergência vai lançar Lava-Jato, a investigação do jornalista brasileiro Vladimir Netto sobre o complexo processo de corrupção e lavagem de dinheiro que já deu origem a mais de mil mandados de busca, apreensão e detenção no Brasil. Pela Planeta vai sair A Filha do Profeta, de Rachel Jeffs.

 

Informação retirada do jornal online "Observador" e cuja autora é Rita Cipriano

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publicado às 07:45


#2815 - sob a voz contraída da poesia [um poema de Rosa Oliveira]

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.18

podia bordar a minha cara 

sobre tantas caras

do mundo

(abro parêntese

nele entra o voo desta paisagem

tão inútil

como mudar uma vírgula a alguém)

 

rostos que só vimos um momento

rostos que encontramos pelo caminho

os últimos momentos de um rosto

as ideias que se têm sobre um rosto

os seus longos trajectos ínvios

desde o latim liceal

o dorso dos rostos coberto de mato

 

olhos débeis palpitam dentro dos olhos

mal nos deixam ver os rostos nublados

por excesso de vegetação

palpitam

sobrepõem-se páginas de rostos

vemos rostos nos rostos

há rostos que choram tanto

que acabam por se partir

 

um molho de folhas arrefece

entre os meus olhos líricos de cortiça

por vezes olhamos para o espelho

não há nada lá dentro

por vezes morremos na rua

reflectidos nos vidros partidos

da varanda materna

no clarão intempestivo do fósforo

ilusão fulgurante

 

morremos um pouco

na mudança de linha

em cada parágrafo

mal assinalado

 

alguém

espera o primeiro choro da criança

para entrar nela

ainda suja da lama genética

 

venceste a insidiosa

a cadela que exige sangue

(julgas tu...)

 

Poema de Rosa Oliveira in tardio

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publicado às 18:07


#2814 - JACQUELINE WOODSON VENCE PRÉMIO LITERÁRIO ASTRID LINDGREN

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.18

Link to: More about Astrid Lindgren

Good literature gives the child a place in the world and the world a place in the child.

 

 JACQUELINE WOODSON

 

Jacqueline Woodson, escritora norte-americana, venceu o Prémio Literário Sueco Astrid Lindgren (ALMA). Estavam nomeados, também, o projecto teatral Andante e os autores André Letria e Maria Teresa Maia Gonzalez.

 

Este prémio literário - Astrid Lindgren Memorial Award - foi criado pelo governo sueco em 2002 e tem como objectivo reconhecer anualmente o trabalho de um autor, ilustrador ou organização na promoção da leitura e do livro infanto-juvenil.

 

Jacqueline Woodson nasceu em Brooklyn no ano de 1963, e é autora de mais de trinta obras que se dividem pelo romance, poesia e livro ilustrado para a infância sendo o mais conhecido o seu livro autobiográfico "Brown girl dreaming" que lhe deu em 2014 o Prémio Nacional de Literatura.

 

A Biblioteca do Congresso nomeou-a embaixadora nacional para a literatura para jovens.

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publicado às 22:23


#2812 - Recordar a obra de Dick Haskins

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.03.18
 
 
 
 

Nascido em Lisboa, a 11 de Novembro de 1929 e falecido a 21 de Março de 2018, foi defensor do princípio de que um escritor nasce com a vocação para escrever, António de Andrade Albuquerque (que usou o pseudónimo de Dick Haskins nas obras do género policial) sentiu inclinação para a produção literária desde a adolescência. Escreveu contos que se perderam no fundo de uma gaveta e no tempo, teceu e orientou os argumentos das aventuras que todos «vivemos» com os amigos na juventude que, de uma forma ou outra, deixa sempre um rasto de saudade, ouviu e nunca esqueceu o que o seu Professor de Português no Liceu de Passos Manuel, em 1942, lhe vaticinou tornar-se um dia escritor, mas ainda viria a hesitar entre a Medicina e a Literatura.

Contudo, o vaticínio do Professor António José Saraiva prevaleceu; Andrade Albuquerque, já casado e trabalhador-estudante na altura, abandonaria o já iniciado curso de Medicina e optaria pela profissão de escritor, embora continuasse, por gosto, em contacto com a ciência médica através de diversos meios.

O Sono da Morte - Capa do Livro

Em 1955, surpreende-se com a aprovação do primeiro livro que escreveu, O Sono da Morte. Uma semana depois de o ter submetido à apreciação da Empresa Nacional de Publicidade, proprietária de um dos principais jornais portugueses, o «Diário de Notícias». Mas não seria este, afinal, o passo decisivo que iria consolidar a sua profissão de escritor. A colecção na qual o seu primeiro livro iria ser publicado saía ao ritmo de dois a três volumes por ano, o que deu origem a que aquela obra só fosse editada em 1958, ano em que criava a Colecção Policial Enigma e ingressava nas Edições Ática como director e autor da mesma.

Em 1961, foi editado pela primeira vez no estrangeiro – em Espanha e em diversos países da América do Sul – através da Editorial Molino. Em 1963, as editoras alemã Wilhelm Goldmann Verlag, de Munique, e Krimi Verlag AG, de Wollerau, Suíça, contratam oito dos seus livros já então escritos e publicados no idioma original, para publicação na Alemanha, Áustria e Suíça, e o editor Plaza & Janés, de Barcelona, publica dois títulos em Espanha e na América do Sul.

Seguir-se-iam outros países a partir de 1963, França, Itália, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Estados Unidos, México, Colômbia, Argentina, Uruguai e Brasil o que, realmente, consolidou a decisão anteriormente tomada de optar pela profissão de escritor.

Ainda na década de sessenta, a RTP – Radiotelevisão Portuguesa – produz e apresenta no programa «Noite de Teatro» a adaptação da sua novela «Fim-de-Semana com a Morte» com o título de O Caso BardotA mesma novela, mantendo o título original, é adaptada ao cinema numa co-produção internacional – Portugal, Espanha e Alemanha  – filme que foi protagonizado por António Vilar, Peter Van Eyck e a italiana Letícia Román, dobrado em diversos idiomas e apresentado em vários países, entre eles os Estados Unidos.

 

LER O RESTO AQUI

 

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publicado às 10:04

 

Inundação

 

Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança.

 

A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite que do dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e verso? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre.

 

Certa vez, porém, de nossa mãe escutamos o pranto. Era um choro delgadinho, um fio de água, um chilrear de morcego. Mão em mão, ficamos à porta do quarto dela.
Nossos olhos boquiabertos. Ela só suspirou:

– Vosso pai já não é meu.

Apontou o armário e pediu que o abríssemos. A nossos olhos, bem para além do espanto, se revelaram os vestidos envelhecidos que meu pai há muito lhe ofertara. Bastou, porém, a brisa da porta se abrindo para que os vestidos se desfizessem em pó e, como cinzas, se enevoassem pelo chão. Apenas os cabides balançavam, esqueletos sem corpo.

– E agora – disse a mãe -, olhem para estas cartas.

Eram apaixonados bilhetes, antigos, que minha màe conservava numa caixa. Mas agora os papéis estavam brancos, toda a tinta se desbotara.

– Ele foi. Tudo foi.

Desde então, a mãe se recusou a deitar no leito. Dormia no chão. A ver se o rio do tempo a levava, numa dessas invisíveis enxurradas. Assim dizia, queixosa. Em poucos dias, se aparentou às sombras, desleixando todo seu volume.

– Quero perder todas as forças. Assim não tenho mais esperas.

– Durma na cama, mãe.

– Não quero. Que a cama é engolidora de saudade.

E ela queria guardar aquela saudade. Como se aquela ausência fosse o único troféu de sua vida.

Não tinham passado nem semanas desde que meu pai se volatilizara quando, numa certa noite, não me desceu o sono. Eu estava pressentimental, incapaz de me guardar no leito. Fui ao quarto dos meus pais. Minha mãe lá estava, envolta no lençol até à cabeça. Acordei-a. O seu rosto assomou à penumbra doce que pairava. Estava sorridente.

– Não faça barulho, meu filho. Não acorde seu pai.

– Meu pai?

– Seu pai esta aqui, muito comigo.

Levantou-se com cuidado de não desalinhar o lençol. Como se ocultasse algo debaixo do pano. Foi à cozinha e serviu-se de água. Sentei-me com ela, na mesa onde se acumulavam as panelas do jantar.

– Como eu o chamei, quer saber?

Tinha sido o seu cantar. Que eu não tinha notado, porque o fizera em surdina. Mas ela cantara, sem parar, desde que ele saíra. E agora, olhando o chão da cozinha, ela dizia:

– Talvez uma minha voz seja um pano; sim, um pano que limpa o tempo.

 

No dia seguinte, a mãe cumpria a vontade de domingo, comparecida na igreja, seu magro joelho cumprimentando a terra. Sabendo que ela iria demorar eu voltei ao seu quarto e ali me deixei por um instante. A porta do armário escancarada deixava entrever as entranhas da sombra. Me aproximei. A surpresa me abalou: de novo se enfunavam os vestidos, cheios de formas e cores. De imediato, me virei a espreitar a caixa onde se guardavam as lembranças de namoro de meus pais. A tinta regressara ao papel, as cartas de meu velho pai se haviam recomposto? Mas não abri. Tive medo. Porque eu, secretamente, sabia a resposta.

 

Saí no bico do pé, quando senti minha mãe entrando. E me esgueirei pelo quintal, deitando passo na estrada de areia. Ali me retive a contemplar a casa como que irrealizada em pintura. Entendi que por muita que fosse a estrada eu nunca ficaria longe daquele lugar. Nesse instante, escutei o canto doce de minha mãe. Foi quando eu vi a casa esmorecer, engolida por um rio que tudo inundava.

 

Revista Prosa Verso e Arte

 

– Mia Couto, conto ‘Inundação’, do livro “O fio das missangas”. Lisboa: Editora Caminho, 2003.

 

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publicado às 00:41


#2797 - Prémio Literário Inês de Castro

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.18

Rosa Oliveira vence Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017      

 

 

Na sua 11.ª edição, o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017 foi atribuído a Rosa Oliveira pela obra Tardio, editada pela Tinta da China. Sobre a autora, que em 2013 publicou pela mesma editora, Cinza, o seu primeiro livro de poesia, escreveu António Guerreiro no Público, "Nunca a poesia de Rosa Oliveira se desliga da prosa do mundo, por mais que ouse alguns flirts com algo que a supera. Ela pratica, de certo modo, uma arte do recuo, traça com grande racionalidade os seus territórios, acaba por ser uma elegia da própria poesia, quase um túmulo do poeta que se vê obrigado a declinar os seus tempos sombrios como «uma longa marcha para a mediania»."

 

O júri do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017, composto por José Carlos Seabra Pereira (Presidente), Mário Cláudio, Isabel Pires de Lima, Pedro Mexia e António Carlos Cortez, não foi unânime na escolha da obra premiada, sendo o Prémio atribuído por maioria. Mário Cláudio votou em A queda de um homem, de Luís Osório, e Pedro Mexia em Hoje estarás comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral.

 

Nesta edição, o Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro 2017, um prémio de carreira, foi atribuído a Eugénio Lisboa.

 

Prémio Literário Fundação Inês de Castro tem distinguido ao longo dos anos autores e obras de reconhecido valor, tais como Pedro Tamen (2007), José Tolentino Mendonça (2009), Gonçalo M. Tavares (2011), Mário de Carvalho (2013) ou Rui Lage (2016), entre muitos outros.

 

A cerimónia de entrega do Prémio Literário Fundação Inês de Castro - um troféu de prata e pedra, da autoria do escultor João Cutileiro, que simboliza todo o drama e mistério que rodeiam o episódio de Pedro e Inês - terá lugar no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, no dia 17 de Março. O livro premiado, Tardio, de Rosa Oliveira, será apresentado por António Carlos Cortez, e Pedro Mexia falará sobre a obra de Eugénio Lisboa.

 

Biografias dos autores

 

Rosa Oliveira (Viseu, 1958) é autora dos ensaios Paris 1937 e Tragédias Sobrepostas: Sobre "O Indesejado" de Jorge de Sena. Foi leitora na Universidade de Barcelona e é professora no Ensino Superior Politécnico. Cinza, o seu primeiro livro de poesia (Tinta da China, 2013), foi galardoado com o Prémio PEN Clube Primeira Obra. Tardio, igualmente publicado pela Tinta da China recebe agora o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2017. Tem poemas editados nas publicações literárias RelâmpagoColóquio-Letras (no prelo), Suroeste (Badajoz, 2016), Cidade Nua e nas antologias Voo Rasante (Mariposa Azual, 2015) e Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos(Companhia das Letras, 2017). Publicou na Granta 8 (Tinta-da-China, 2016) o primeiro conto de uma série em que presentemente trabalha.

 

Eugénio Lisboa (Loureço Marques, 1930) é um ensaísta e crítico literário português especialista em José Régio. Licenciado em engenharia electrotécnica pelo I.S.T. (1955), residiu em Moçambique até 1976, trabalhando sobretudo no ramo petrolífero, actividade que acumulou a partir de 1974 com a docência de Literatura Portuguesa nas universidades de Maputo e Estocolmo. Entre 1978 e 1995 foi Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal, em Londres, e entre 1995 e 1998, Presidente da Comissão Nacional da UNESCO. É Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham e pela Universidade de Aveiro. Recebeu os seguintes prémios literários: Prémio Cidade de Lisboa, pelo livro A Matéria Intensa; Prémio Jacinto Prado Coelho, pelo livro Portugaliae Monumenta Frivola; Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE, por Acta Est Fabula – Memórias I. Consulte aqui (link) as suas principais obras literárias.

 

Informação retirada do site da Fundação Inês de Castro

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publicado às 17:38


#2796 - Helder Macedo vence Prémio D. Diniz

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.18

Prémio D. Diniz

 

A Fundação da Casa de Mateus informa que o júri do Prémio D. Diniz, constituído por Nuno Júdice, Fernando Pinto do Amaral e Pedro Mexia, atribuiu, por unanimidade, o prémio de 2018 a Hélder Macedo, pelo seu livro «Camões e outros contemporâneos», publicado pela Editorial Presença.

 

Poeta e romancista reconhecido, Hélder Macedo oferece-nos neste livro da sua vertente ensaística um percurso pela literatura portuguesa, da Idade Média à actualidade, em que a familiaridade com os grandes autores do passado e os do presente nos aproxima do seu universo, cruzando criação e vida. O prémio D. Diniz, dado a uma obra que começa precisamente pela análise inovadora de uma cantiga de amigo do rei poeta que o nome do prémio celebra, distingue uma obra que assume a ousadia das suas descobertas e o faz com uma erudição que, longe de afastar o leitor, o fascina pelos novos horizontes que vem abrir.

 

A sessão solene de entrega do Prémio será presidida por S. Exa. o Sr. Presidente da República e decorrerá no dia 6 de Outubro de 2018, pelas 18h00.

 

Informação retirada do "sítio" da Fundação Casa de Mateus

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publicado às 17:25


#2793 - Festival Literário da Madeira

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.18

Subordinado ao tema "Jornalismo e Literatura - Palavra que prende, Palavra que Liberta", o Festival Literário da Madeira - 8.ª Edição, vai ter início no dia 13 de Março no Teatro Municipal Baltazar Dias.

 

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publicado às 10:00


#2786 - A Boneca de Kokoschka, de Afonso Cruz

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.18

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 "Existem doenças infames, capazes de fazer do nosso corpo uma gaiola para a alma. Parkinson plus é uma das formas mais perversas de o Universo mostrar a sua crueldade medieval. Ou, como disse Lao Tsé, o Universo trata-nos como cães de palha."

 

Do livro de Afonso Cruz, "A Boneca de Kokoschka", edição da Companhia das Letras

 

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publicado às 18:30


#2784 - 19ª Edição de "Correntes d'Escritas"

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.02.18

 

 19ª EDIÇÃO DA "CORRENTE d'ESCRITAS"

 

O livro "A Forma das Ruínas", do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez, foi o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa, o prémio principal da Corrente d'Escritas, 19ª Edição, que começou ontem na Póvoa de Varzim.

 

___________________________________________________

 

A informação a seguir foi retirada do "site" da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.

 

A  FORMA DAS RUÍNAS VENCE PRÉMIO LITERÁRIO CASINO DA PÓVOA

Póvoa de Varzim, 21.02.2018

Juan Gabriel Vásquez, com a obra A forma das ruínas, é o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa 2018, no valor de 20 mil euros.

Consulte a Ata e Declarações de Voto do Júri aqui.

Bogotá, Colômbia, 2014: Carlos Carballo é detido por tentar roubar de um museu o traje de Jorge Eleiécer Gaitán, líder político assassinado em Bogotá em 1948, em plena guerra do Estado colombiano com os narcotraficantes. Carballo é um homem atormentado, em busca de sinais que lhe permitam destrinçar os mistérios de um passado pelo qual está obcecado. No entanto, ninguém, nem as pessoas que lhe são mais próximas, suspeita das verdadeiras razões da sua obsessão.

O que liga o assassinato de Gaitán, cuja morte partiu em dois a história da Colômbia, e o homicídio do presidente americano John F. Kennedy? Como pode um crime ocorrido em 1914 marcar a vida de um homem no século XXI? Para Carballo, não existem coincidências e todos estes eventos estão intimamente relacionados.

Depois de um encontro fortuito com este homem misterioso, Vásquez (sim, o próprio Juan Gabriel Vásquez, que aqui deixa cair a máscara) sente-se compelido a esmiuçar os segredos de uma vida alheia, ao mesmo tempo que se debate com os momentos mais obscuros do passado colombiano.

Uma leitura compulsiva e uma indagação magistral às verdades incertas de um país que ainda mal se conhece a si mesmo.

 

Nascido em Bogotá, Colômbia, em 1973, Juan Gabriel Vásquez vive desde 1999 em Barcelona. É autor da coleção de contos Los Amantes de Todos los Santos, da compilação de ensaios El arte de la distorción e dos romances Los InformantesHistoria secreta de Costaguana O barulho das coisas ao cair, publicado pela Alfaguara em 2012. Como tradutor, foi responsável pela tradução de obras de John Hersey, John dos Passos, Victor Hugo e E. M. Forster, entre outros, e é colunista do jornal colombiano El Espectador. Os seus livros estão publicados em 14 idiomas e mais de 30 países, com extraordinário êxito da crítica e do público. O autor recebeu já várias distinções internacionais, entre as quais o Prémio Alfaguara em 2011 e o Prémio Impac Dublin em 2014, cujos vencedores de edições anteriores contam com os nomes de vários Prémios Nobel. As reputações é o seu quarto romance e por ele recebeu o Prémio da Real Academia Espanhola em 2014.

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publicado às 15:51


#2782 - The Golden Man Booker Prize

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.02.18

 

The Golden Man Booker Prize

The Booker Prize Foundation has launched the Golden Man Booker Prize to mark the 50th anniversary. This special one-off award will crown the best work of fiction from the last five decades of the prize, as chosen by five judges and then voted for by the public.

Since it was first awarded in 1969, the Man Booker Prize has become the leading prize for quality fiction in English, with the winning books setting a benchmark against which other novels are judged. The Golden Man Booker will put all 51 winners – which are all still in print – back under the spotlight, to discover which of them has stood the test of time, remaining relevant to readers today.

Five judges have been appointed to read the winning novels from each decade of the prize: writer and editor Robert McCrum (1970s); poet Lemn Sissay MBE (1980s); novelist Kamila Shamsie (1990s); broadcaster and novelist Simon Mayo (2000s); and poet Hollie McNish (2010s).

Each judge will choose what, in his or her opinion, is the best winner from that particular decade, and will champion that book against the other judges’ selections. The judges’ ‘Golden Five’ shortlist will be announced at the Hay Festival on 26 May 2018. The five books will then be put to a month-long public vote from 26 May to 25 June on the Man Booker Prize website to decide the overall winner, announced at the Man Booker 50 Festival on 8 July 2018.

Baroness Helena Kennedy, Chair of the Booker Prize Foundation, comments:

‘The very best fiction endures and resonates with readers long after it is written. I’m fascinated to see what our panel of excellent judges – including writers and poets, broadcasters and editors – and the readers of today make of the winners of the past, as they revisit the rich Man Booker library.’

Luke Ellis, CEO of Man Group, comments:

‘We are delighted to be sponsoring the Man Booker Prize in its 50th year and celebrating outstanding fiction from the past half century, which remains as relevant and resonant as ever. The prize plays a meaningful role in recognising and supporting literary excellence that we are honoured to support.’

Key Dates

  • Saturday 26 May - The judges’ ‘Golden Five’ shortlist will be announced at an event at the Hay Festival.
  • Saturday 26 May to Monday 25 June - Voting for the Golden Man Booker is open to the public at www.themanbookerprize.com.
  • Sunday 8 July - The winner of the Golden Man Booker will announced at the Man Booker 50 Festival at Southbank Centre. 

The Golden Man Booker Prize will be supported by retailers, libraries and publishers across the UK, and internationally through online promotion. Readers are already joining in revisiting the previous winners for the #ManBookerPrize50 challenge on Instagram, which encourages them to read as many of the novels as they can by the end of May for the chance to win tickets to the Man Booker 50 Festival.

The Man Booker 50 Festival will run from 6 to 8 July 2018 across Southbank Centre’s 17-acre site in London. Events will be held in a variety of spaces, including Royal Festival Hall, Queen Elizabeth Hall and Purcell Rooms. They will range from interviews and conversations between Man Booker winning and shortlisted authors, to debates and masterclasses. The full programme and tickets will be available soon.

The 50th anniversary will also be amplified globally with Man Booker author events at international literary festivals across the world throughout the year and supported through video, livestream and podcasts, alongside an online exhibition on the Man Booker website.

The Man Booker Prize is sponsored by Man Group, an active investment management firm.

 

Decade  Judge Year, Book title, Author, Publisher
1970s Robert McCrum

1969, Something to Answer For, P.H Newby (Faber & Faber)

1970, The Elected Member, Bernice Rubens (Abacus) 

1971, In a Free State, V.S Naipaul (Picador)

1972, G., John Berger (Bloomsbury) 

1973, The Seige of Krishnapur, J.G Farrell (Orion) 

1974, The Conservationist, Nadine Gordimer (Bloomsbury) 

1974, Holiday, Stanley Middleton (Windmill Books) 

1975, Heat and Dust, Ruth Prawer Jhabvala (Abacus)  

1976, Saville, David Storey (Vintage) 

1977, Staying On, Paul Scott (Arrow) 

1978, The Sea, the Sea, Iris Murdoch (Vintage) 

1979, Offshore, Penelope Fitzgerald (Fourth Estate) 

1980s Lemn Sissay

1980, Rites of Passage, William Golding (Faber & Faber) 

1981, Midnight's Children, Salman Rushdie (Vintage) 

1982, Schindler's Ark, Thomas Keneally (Sceptre)  

1983, Life & Times of Michael K, J.M Coetzee (Vintage) 

1984, Hotel du Lac, Anita Brookner (Penguin) 

1985, The Bone People, Keri Hulme (Picador)

1986, The Old Devils, Kingsley Amis (Vintage) 

1987, Moon Tiger, Penelope Lively (Penguin) 

1988, Oscar and Lucinda, Peter Carey (Faber & Faber) 

1989, The Remains of the Day, Kazuo Ishiguro (Faber & Faber) 

1990s Kamila Shamsie

1990, Possession, A.S Byatt (Vintage) 

1991, The Famished Road, Ben Okri (Vintage) 

1992, The English Patient, Michael Ondaatje (Bloomsbury) 

1992, Sacred Hunger, Barry Unsworth (Penguin) 

1993, Paddy Clarke Ha Ha Ha, Roddy Doyle (Vintage) 

1994, How Late It Was, How Late, James Kelman (Vintage) 

1995, The Ghost Road, Pat Barker (Penguin) 

1996, Last Orders, Graham Swift (Picador) 

1997, The God of Small Things, Arundhati Roy (Fourth Estate) 

1998, Amsterdam, Ian McEwan (Vintage) 

1999, Disgrace, J.M. Coetzee (Vintage) 

2000s Simon Mayo

2000, The Blind Assassin, Margaret Atwood (Bloomsbury) 

2001, True History of the Kelly Gang, Peter Carey (Faber & Faber) 

2002, Life of Pi, Yann Martel (Canongate) 

2003, Vernon God Little, D.B.C. Pierre (Faber & Faber) 

2004, The Line of Beauty, Alan Hollinghurst (Picador) 

2005, The Sea, John Banville (Picador)

2006, The Inheritance of Loss, Kiran  Desai (Penguin) 

2007, The Gathering, Anne Enright (Vintage) 

2008, The White Tiger, Aravind Adiga (Atlantic) 

2009, Wolf Hall, Hilary Mantel (Fourth Estate) 

2010s Hollie McNish

2010, The Finkler Question, Howard Jacobson (Bloomsbury)

2011, The Sense of an Ending, Julian Barnes (Vintage) 

2012, Bring Up the Bodies, Hilary Mantel (Fourth Estate) 

2013, The Luminaries, Eleanor Catton (Granta) 

2014, The Narrow Road to the Deep North, Richard Flanagan (Vintage) 

2015, A Brief History of Seven Killings, Marlon James (Oneworld) 

2016, The Sellout, Paul Beatty (Oneworld) 

2017, Lincoln in the Bardo, George Saunders (Bloomsbury) 

 

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publicado às 09:29


#2778 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.02.18

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Um cavalo entra num bar

David Grossman

Romance

Dom Quixote | Janeiro de 2018

 

David Grossman nasceu em Jerusalém e é um dos maiores escritores do nosso tempo. É autor de uma extensa obra que está publicada em mais de trinta línguas em todo o mundo. Recebeu numerosos prémios, incluindo o francês Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, o Buxtehuder Bulle na Alemanha, o Prémio de Roma pela Paz e pela Acção Humanitária, o Prémio Ischia Internacional de Jornalismo, o Prémio Emet de Israel, o Prémio da Paz dos Editores e Livreiros Alemães e o Prémio Albatross da Fundação Günther Grass.

O seu romance Até ao Fim da Terra foi distinguido com o Prémio Médicis Estrangeiro, o National Jewish Book Award, o Prémio JQ Wingate e, tendo sido destacado em inúmeras listas de favoritos, foi ainda considerado o melhor livro da ano pela revista Lire, em 2011.

Um cavalo entra num Bar, o seu mais recente romance, recebeu o Prémio Man Booker Internacional 2017

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publicado às 13:03


#2762 - Trump é uma fraude maciça...

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.18

 PHILIP ROTH

 

"... Trump é uma fraude maciça, a soma maligna das suas deficiências, destituído de tudo excepto a ideologia oca de megalomaníaco."

 

Afirmação feita por Philip Roth, um dos grandes escritores so século XX e da história da literatura, em entrevista dada a Charles Mcgrath para o "The New York Times" e publicada pela revista  "E-A revista do Expresso", edição 2361, de 27 de Janeiro de 2018.

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publicado às 15:39

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 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Nós, homens, nunca saberemos o que é uma vida a nascer dentro do nosso corpo, numa intimidade absoluta. De certo modo tento compensar isso com o que escrevo. Vou parindo livros, mas os livros não me abraçam da mesma maneira

Ilustração: Susa Monteiro

Numa entrevista a propósito deste último livro o jornalista perguntou-me

– Matou alguém em África?

respondi

– Passe à questão seguinte

e não percebeu que estava a dizer-lhe, com delicadeza, que isso não era uma questão que se pusesse, que mais não fosse por pudor, que mais não fosse por respeito humano. Eu nunca me atreveria a colocar essa questão a ninguém. Mas uma coisa posso contar, porque aliás foi publicada na Fotobiografia de Tereza Coelho a meu respeito e contada a ela por camaradas meus: Devo ter sido o único militar que, em Angola, torturou um bocado um Pide. Quando li o livro nem me recordava já do episódio, foram outros que o disseram, depois do dito Pide contar algumas histórias horríveis de África, e ao ler o que se passou vieram-me à cabeça os gritos do homem. Está lá escrito

(a Fotobiografia teve mais que uma edição)

na boca de, pelo menos, dois militares, mas claro que não vou falar dessa história. Também não me orgulho mas é verdade, e não foi feito às escondidas. Nunca fiz coisas às escondidas. Ainda hoje não percebo a intenção do jornalista nem quero pensar. Ganhou uma caixa? Ganhou um título? Mostraram--me, no facebook dele, essa pergunta e, por baixo da pergunta uma fotografia minha a tapar a cara, num gesto que faço muitas vezes quando estou cansado, nada tinha a ver com esse assunto, mas é lógico que quem tenha visto o retrato de imediato pensaria numa admissão de culpa da minha parte, o que é feio, muito feio. E aproveita para atacar o livro. Tem todo o direito de o atacar, sobretudo porque ficou furioso por eu ter dado antes da sua, uma entrevista a outra pessoa. Qual o mal? Uma entrevista não é uma notícia. Já dei tantas antes dessa sobre tantos romances e por conseguinte no lugar dele tanto me fazia, o que me ralava isso? Comigo, no lugar em que escrevo, estava o Prof. Gordon Love que assistiu a tudo, ele que vive em Portugal agora, não nos Estados Unidos, a traduzir o romance em apreço e a investigar a minha obra, e que por isso comigo, como assistiu às visitas de vários jornais estrangeiros e continuará a assistir nos próximos meses, trabalha aqui à minha frente e sinto-
-me bem na sua companhia. Isto de que me ocupo é tão solitário, tão difícil, que o facto de haver uma pessoa por perto me faz bem. Um livro sempre foi para mim um penar profundo. Termino os dias exausto. E ver outra criatura a penar palavra de honra que ajuda. Quando estava a fazer quimioterapia a sala, bastante grande, encontrava-se cheia de companheiros de infortúnio, o que ajudava a sentir-me acompanhado. Auxiliaram--me tanto como a sua dignidade, a sua coragem, a solidariedade que me manifestaram sempre. Claro que aquilo não era muito agradável: era um horror. Mas fiquei a conhecer melhor os portugueses, sempre cheio de orgulho por ser um deles, sempre cheio de orgulho de estar rodeado de príncipes. Lembro-me de um homem numa situação terminal me dizer:

– Abrace-me que é o último abraço que me dá

e nunca esquecerei o seu sorriso, nunca esquecerei a sua cara quase encostada à minha. Morreu muito pouco tempo depois. Quer dizer: continua vivo em mim. Continuará para sempre vivo em mim, o sorriso não se vai apagar nunca. Trago-o comigo para me iluminar quando estiver muito escuro. Sempre que vou ao Serviço de Oncologia fazer revisões passo sempre pela sala da quimioterapia e cumprimento as pessoas uma a uma. Sinto-me entre irmãos junto deles. Sou um deles. Serei sempre um deles. Engraçado como o Prof. Gordon Love está cada vez mais português, o sotaque vai desaparecendo aos poucos, tem um calão e uma coleção de palavrões notável que melhora todos os dias, no caminho para aqui e daqui se vai enriquecendo porque faz o trajecto a pé. E vê ministros e deputados a dar com um pau dado que mora perto da Assembleia da República. Alto, ruivo, chegou magrinho e engorda que é uma beleza, já de barriga respeitável. De vez em quando fazemos uma pausa, tiramos ambos os óculos e conversamos um bocadinho antes de recomeçar, eu que ando a corrigir um livro que me está a dar um trabalhão sem fim. Olha, comecei este livro perto dele, o anterior também, chegou estava eu a acabar Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, portanto agora conheço-o melhor, somos amigos oferece-me exemplares da Library of America, foi a Espanha com a família e trouxe-me de lá uma edição óptima da obra completa de Quevedo, autor que muito admiro, nascido no ano em que Camões morreu. Parafraseando o meu amigo George Steiner, em Tolstoi e Dostoievski, ou se é filho de Quevedo ou se é filho de Gôngora, e eu sou filho de Quevedo. Ou de Bashô, o grande poeta japonês do século XVII.

Uma tradução minha de um dos seus hai-ku:

Os quimonos secam ao sol.
Ai as mangas pequenas 
da criança morta.

Que extraordinário, não é? Mas voltando ao princípio e a

– Matou alguém em África?

O que me vem à cabeça é que me matei a mim: nunca mais tornei a ser o mesmo e julgo que isto se passa com toda a gente que lá esteve, é inevitável. Qualquer experiência radical nos muda, e toda a gente sabe isto, toda a gente passou por isto de uma maneira ou outra. Uma mulher, por exemplo, depois de ter um filho torna-se inevitavelmente uma nova pessoa. Freud falava muito da inveja do pénis, mas nunca falou da inveja, a maior parte das vezes inconsciente, que os homens têm de não poderem engravidar e parir, e quando fui médico senti isso tantas vezes nas psicoterapias, era tão óbvio. Nós, homens, nunca saberemos o que é uma vida a nascer dentro do nosso corpo, numa intimidade absoluta. De certo modo tento compensar isso com o que escrevo. Vou parindo livros, mas os livros não me abraçam da mesma maneira. Se fosse capaz de ter filhos em mim não escrevia, disso tenho a certeza. Só não sei como fazia para engravidar porque a ideia de um homem dentro de mim me repugna infinitamente, era lá capaz. Eu vi a minha mãe com todos os filhos lá dentro e ainda hoje a invejo. Vi-a dar de mamar a cinco galfarros e ela, que era muito bonita, ficava linda na sua comunhão absoluta. A única vez que a vi chorar foi quando um deles se perdeu dentro da sua barriga. E já contei que, quando o Pedro morreu, ela disse

– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto
e morreu também.

Quando foi do pai não disse

– Uma mulher não tem o direito de estar viva com o seu marido morto

ela que gostava muito dele e não voltou a ser a mesma pessoa nunca mais. Mas aguentou-se, que mais não fosse por nós. Quando eu estava com um dos cancros vi isso, tão claro, na cara dela. Teria morrido por mim também estava tão claramente escrito na sua cara, ela que não demonstrava os sentimentos e era corajosa e dura. Será que nós, homens, sabemos o que é o amor? Às vezes penso que sim, às vezes duvido. Auden: “diz-me a verdade acerca do amor”. Eu quero uma mulher que morra por mim. Como Modigliani teve. Há assim cabrões como ele, que têm essa sorte, Modigliani que morreu a dizer

– Querida, querida Itália

que não sei ao certo se é um País ou uma Mulher.

 

(Crónica de António Lobo Antunes publicada na revista VISÃO n.º 1296 de 4 de janeiro de 2018)

 

 

 

 

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publicado às 18:41


#2737 - Actual Editora edita "Fire and Fury" em Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.01.18

A Actual Editora, chancela do Grupo Almedina, adquiriu os direitos para a edição portuguesa do livro Fire and Fury, do autor Michael Wolff, sobre o presidente norte-americano, Donald Trump. O livro deverá chegar às livrarias portuguesas em Fevereiro. E no Brasil, o livro será editado pela Editora Objetiva.

A obra tem sido um dos títulos mais comentados nas últimas semanas, tendo gerado longas filas de espera no dia do lançamento nos EUA. Outras pessoas optaram pela compra online, o que em alguns casos levou a um engano. Um outro livro com um título similar foi comprado por muitos leitores. Trata-se do livro Fire and Fury: The Allied Bombing of Germany, 1942-1945 da autoria de Randall Hansen, professor da Universidade de Toronto.

No livro Fire and Fury: Inside the Trump White House, Michael Wolff analisa os esquemas internos da presidência de Trump, através de informação privilegiada a que teve acesso. Na obra, o autor explora o fenómeno Trump e a polémica, as controvérsias, os escândalos e o drama a ele associados.

 

Notícia retirada do Jornal "Público"

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publicado às 19:44

 HERBERTO HELDER

 

A Porto Editora vai editar, em Março, "Em Minúsculas", obra de Herberto Helder que reúne as crónicas e reportagens feitas pelo poeta em Angola entre Abril de 1971 e Junho de 1972.

 

Este livro resulta da investigação, transcrição, revisão e selecção de textos feita por Daniel Oliveira, filho de Herberto Helder, Diana Pimentel e Raquel Gonçalves.

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publicado às 19:26


#2721 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) - Excerto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.12.17

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Gonçalo M. Tavares

 

(...)

1

Embora a humanidade demore tempo a chegar

a um sítio, devido a imprevistos espantosos

e a obras no caminho, a natureza, essa,

nunca se atrasa.

Sempre com a luz certa, a natureza prossegue.

Era já, então, fim de tarde, quando Maria E abriu a porta

e disse: Oh, caro Thom C, que bom ver-te,

trouxeste um amigo?

 

2

No jornal as notícias podem, em dias de chuva,

ser dobradas para caberem no bolso, permanecendo secas.

Qualquer notícia grandiosa, um terramoto mortífero

ou um palácio recém-inaugurado, quando bem dobrada,

cabe num espaço de 8 por 6 centímetros,

o que não deixa de surpreender. Esta imagem é ainda relevante

para quem não quer perceber a importância e o espaço

ocupados pelo universo ou pelos países adjacentes

na vida de um pequeno cidadão.

 

3

E mesmo um indivíduo de estatura mediana

poderá esquecer, durante meses,

o mapa da mundo no bolso de trás das calças.

Tal facto, parecendo paralelo à nossa história,

não deixa de se cruzar com ela, mostrando que nas ideias

o infinito é coisa para o início da manhã

do dia seguinte.

 

4

Maria E convidou, então, delicadamente, Thom C

e o seu amigo Bloom a entrarem, oferecendo-lhes de imediato

poltronas cómodas, whisky perfeito, aperitivos,

uma vista deslumbrante  sobre as chaminés de uma fábrica

de grande importância na região,

e, pormenor não irrelevante, mostrando ainda, nos movimentos que fazia,

aquilo que de longe eram os melhores indícios do apartamento: seios felizes,

pernas de fazer parar o pensamento e

nádegas espantosas, imprescindíveis, duplas e fortes.

Esta é a melhor região de Londres, disse Bloom,

enquanto da janela admirava o belo e espesso fumo negro

que da fábrica saía.

 

5

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas

que lhe pareciam ter um conforto excessivo.

Com prudência e curiosidade perguntou

se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento

que, apesar de pequeno, era prometedor,

sendo que todos sabem

que um homem pode demorar mais tempo

a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja

do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,

com mochila às costas.

(...)

 

Canto II (Excerto) - Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 73 e 74 - Edição Editorial Caminho, Agosto de 2011

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publicado às 13:34


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

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Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

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publicado às 16:38


#2699 - OS LIVROS QUE O CENTRO NACIONAL DE CULTURA RECOMENDA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 

DEZ LIVROS PARA LER ABSOLUTAMENTE…

 

Aproveitando a aproximação das Festas, publicaremos, ao longo do mês de dezembro, diversas sugestões de boa leitura.

Hoje apenas literatura portuguesa…

Eis o começo!

 

1) Até que as Pedras se Tornem mais leves que a Água, António Lobo Antunes (D. Quixote);

2) O Bebedor de Horizontes, Mia Couto, Terceiro volume de As Areias do Imperador (Caminho);

3) Domingo à Tarde, Fernando Namora (Caminho) - reedição;

4) Esta noite sonhei com Brueghel, Fernanda Botelho (Abysmo) - reedição;

5) Cinzento e Dourado – Raul Brandão em Foco nos 150 anos do seu Nascimento, Vasco Rosa (Imprensa Nacional);

6) Tempo de Escolha, António Barreto (Relógio d’Água);

7) Bíblia, volume III, tradução do grego de Frederico Lourenço (Quetzal);

8) Poesia, Eugénio de Andrade (Assírio e Alvim);

9) Transporte no Tempo, Ruy Belo (Assírio e Alvim);
10) Gastão Cruz, Existência (Assírio e Alvim).

 

POST RETIRADO DO BLOGUE DO CENTRO NACIONAL DE CULTURA

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publicado às 23:38


#2697 - Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 

Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa anunciou no dia 29 de novembro os vencedores da edição de 2017, que avaliou 1.215 obras publicadas em 2016.

 

Karen, romance da portuguesa Ana Teresa Pereira, ficou em primeiro lugar, recebendo prêmio de R$ 100 mil. Ela é a primeira mulher a obter o prêmio máximo nas 15 edições do prêmio, que foi criado em 2003 como Prêmio Portugal Telecom e, desde 2015, passou a se chamar Oceanos. Nas edições anteriores, as escritoras Beatriz Bracher, Marina Colasanti, Cíntia Moscovich, Elvira Vigna e Ana Martins Marques haviam sido premiadas, porém não obtiveram o primeiro posto.

 

O brasileiro Silviano Santiago ficou em segundo lugar com o romance Machado, sendo premiado com o valor de R$ 60 mil, e Golpe de Teatro, do poeta português Helder Moura Pereira, é o terceiro colocado, premiado com R$ 40 mil.

 

A premiação para o quarto lugar, no valor de R$ 30 mil, será dividida entre a poeta portuguesa Maria Teresa Horta, que concorreu com Anunciações, e o romancista brasileiro Bernardo Carvalho, com Simpatia pelo Demônio. A decisão de atribuir o quarto posto aos dois autores aconteceu após sucessivas rodadas de votação nas quais prevaleceu o empate – levando a curadoria e o Júri Final, com base no regulamento do prêmio, a reconhecerem ambos como vencedores.

 

O Júri Final do Oceanos 2017 foi formado por dois portugueses – a poeta Ana Mafalda Leite e o crítico literário António Guerreiro – e seis brasileiros – as ensaístas Beatriz Resende e Mirna Queiroz, a tradutora e editora Heloisa Jahn e os escritores Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz). A curadoria do Oceanos esteve a cargo da jornalista portuguesa Ana Sousa Dias, da gestora Selma Caetano e do jornalista Manuel da Costa Pinto, ambos brasileiros.

 

A edição de 2017 é um marco na história dos prêmios literários em língua portuguesa: este ano, Oceanos passou a contemplar obras publicadas em todos os países lusófonos e, com isso, tornou-se um radar da produção contemporânea dos países unidos pelo idioma – proporcionando conhecimento recíproco e promovendo o intercâmbio literário e editorial. Os números são expressivos: entre os 51 livros semifinalistas — 31 de autores brasileiros, 19 de autores portugueses e 1 de autor angolano —, 49 nunca foram publicados em outro país de língua portuguesa.

 

Os 19 livros de autores portugueses publicados em Portugal não haviam sido publicados no Brasil e 11 de seus autores nunca tiveram obras lançadas no Brasil; e, dentre os 31 livros semifinalistas publicados no Brasil, 30 ainda não têm edição em Portugal, sendo que 21 dos autores brasileiros semifinalistas são inéditos em Portugal – o que mostra como as sucessivas fases do Oceanos contribuem para difundir a obras dos escritores para além das fronteiras nacionais.

 

A primeira colocação obtida pelo romance Karen possibilita o reconhecimento, no Brasil, da importância que o conjunto da obra de Ana Teresa Pereira tem em Portugal, com mais de 30 livros publicados. Em contrapartida, a premiação de Silviano Santiago, que em 2015 havia vencido o Oceanos em primeiro lugar com Mil Rosas Roubadas, reitera – para o público lusitano e dos demais países lusófonos – o lugar ocupado pelo autor na cena literária brasileira.

 

Veja aqui os 04 vencedores
Clique aqui para baixar a lista de livros vencedores

 

FONTE: ITAÚ CULTURAL

 

 

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publicado às 19:48


#2681 - As coisas que mais prazer me deram na vida

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.11.17
António Lobo Antunes

Agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar-me ganhar-lhe uma corrida

Ilustração: Susa Monteiro

Agrafar, carimbar, cortar uma página pelo picotado, fazer buraquinhos numa folha com aquela maquineta de fazer buraquinhos, o palrar de um bebé, calar de súbito o som a meio de uma ária de ópera, esmagar as bolhinhas de uma folha de plástico transparente, ver da janela, lá em baixo, o primeiro pássaro da manhã, olhar o retrato do Papa Inocêncio de Velázquez, meter na boca um pé de criança de três meses, uma finta de Garrincha na televisão, o sorriso súbito de certas mulheres, um sino de aldeia ao fim da tarde, as luzes de Beja à noite na planície, a Serra da Estrela vista da varanda dos meus avós quando eu tinha cinco anos, a minha filha Joana, pequenina, a desenhar a sua primeira árvore, o meu avô a fazer-me uma festa comigo quase a adormecer, o tenente, quando eu era cadete, a ordenar a Marcha lento e à vontade, um pirilampo no quintal a meio da noite, a voz da minha mãe a recitar António Nobre, um gato caminhando devagarinho no muro da buganvília, montar uma zebra de pau no carrossel do oito, dizer gosto de ti para um rosto que aumenta, os olhos azuis da Avó Querida quando me chamava meu amor, agrafar mais, carimbar mais, uma mulher a murmurar Meu Deus na almofada, o pneu afinal não ter furo nenhum, o médico junto à minha cama Vou dar-lhe alta, um falcão a passar junto à janela, o guardanapo com uma rã a saltar ao eixo, começar a ver o fundo do prato quando me davam sopa, beber água da bilha na casa de Nelas, a campainha do recreio a meio de uma frase do professor de Matemática, a primeira vez que dancei de cara encostada com uma menina de treze anos também, o palhaço que me apertou a mão no circo, a tia Madalena para mim Estou aqui filho comigo com a tuberculose, o raio verde no Caramulo, agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar--me ganhar-lhe uma corrida, o meu irmão Pedro a contar Já vou no Pardal de regresso de uma aula de Catequese sobre o Espírito Santo, o primo Alfredo que me levantava acima da sua cabeça e eu maior do que toda a família, a minha mãe perfumada com Chanel número cinco, a Gija a coçar-me as costas antes de me vestir o pijama, a professora de Português, no primeiro ano do liceu, a apontar-me à turma Este menino vai ser um grande escritor e eu feliz, a primeira vez que li A Ruiva de Fialho de Almeida, o sabor da minha boca depois de um rebuçado de hortelã pimenta, a cor do mar da Praia das Maçãs às seis da tarde, receber uma carta de Céline quando lhe escrevi aos quinze anos, o dia em que o Cifra me veio dizer que tinha uma filha e fui chorar de felicidade e raiva para o arame farpado, os meus pais terem-me encontrado quando me perdi em Veneza aos sete anos junto a um dos leões de pedra na Praça de São Marcos, o meu avô a murmurar Meu netinho acariciando-me o pescoço, beber água da bilha, o primeiro dente de leite que descobri de manhã na almofada, a esperança de voltar a ler As Aventuras De Dona Redonda E Da Sua Gente, a minha pilinha de repente grande e eu cheio de orgulho e vergonha, com a minha mãe a fingir que não via, o tio Joaquim a levar-me até aos Correios, na Beira Alta, no quadro da bicicleta, o palhaço pobre que me deu um passou bem no circo, comer cocada de Belém do Pará feita pela tia Isabel, eu em Paris à procura da cegonha que me tinha trazido dali para Lisboa sete anos antes: ainda não perdi a esperança de a encontrar e de certeza que ela se lembra de mim, acho eu. Ter feito chichi em Nova Iorque ao lado de Mickey Rooney. Cortar, mal acabe isto, todas as páginas do bloco pelo picotado. Acho que devo ter por aí uma dessas coisas de fazer buraquinhos: que mais pode um homem desejar?

 

(Crónica publicada na VISÃO 1289 de 16 de novembro)

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publicado às 16:52


#2679 - Os Loucos da Rua Mazur

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

 

O mais recente Prémio Leya chega hoje às livrarias. Leia aqui o primeiro capítulo do novo romance de João Pinto Coelho.

Chega hoje às livrarias o mais recente Prémio Leya de Literatura, o romance Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho. O autor, que já tinha sido finalista deste prémio em 2014 com o livro Perguntem a Sarah Gross, regressa ao mesmo tema, o do holocausto e de uma das épocas do século XX mais dramáticas da história da humanidade. O cenário do romance é duplo, passando-se uma parte na atualidade e outra na Polónia, durante a II Guerra Mundial. Recorde-se que o júri presidido por Manuel Alegre escolheu este original entre 400 por ser "bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos".

Para João Pinto Coelho, a edição que hoje chega aos leitores, menos de um mês depois de ter sido anunciado vencedor, só tem a ganhar por ser fruto do "reconhecimento que resulta da atribuição de um prémio literário com este prestígio, que acaba sempre por contribuir para a visibilidade do romance distinguido". Quanto ao futuro profissional passar pela atividade literária, Pinto Coelho não é por enquanto assim tão entusiasta: "No futuro imediato, não creio. É uma hipótese que poderei colocar, mas apenas quando tiver três ou quatro livros publicados."

Segundo o autor, este livro começou a ser pensado enquanto escrevia o anterior. Daí que admita que o cenário semelhante de ambos se deva à sua perceção sobre a necessidade de voltar a esta época: "Tive sempre a convicção de que havia coisas cruciais sobre a perseguição aos judeus naquele período que não constavam no meu primeiro romance. Além dos alemães, houve outros perpetradores; tem que ver com a universalidade do mal, e tinha de escrever sobre isso ou sobraria a sensação de uma história incompleta."

No que respeita à investigação, João Pinto Coelho voltou aos muitos livros que leu sobre o tema nos últimos trinta anos, não esquecendo os muitos contactos que estabeleceu com historiadores polacos ao longo de diversas visitas à Polónia. Questionado sobre se leu os livros dos seus antecessores premiados, aponta o de João Ricardo Pedro e o de Afonso Reis Cabral: "Dois romances magníficos."

 

Pré-publicação do primeiro capítulo de Os Loucos da Rua Mazur

Por João Pinto Coelho

 

PARIS, 2001

A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha. O tampo estava vago, apenas papéis dispersos, uma telefonia a pilhas e um rosto num passe-partout, o rosto de Fidelia.

 

 

 

Artigo escrito por João Céu e Silva para o  DN - Diário de Notícias

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publicado às 22:31


#2672 - Agosto 1964

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.11.17

 

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.

Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira

 

Poema de Ferreira Gullar

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publicado às 19:40

 António Lobo Antunes

 

O SENHOR BARATA

 

As pessoas têm a ideia que a morte é a solidão total num nada completo. E provavelmente é. Julgo que é. Mais: tenho a certeza que é, mas não somos capazes de conceber isso. Não aceitamos conceber isso. De forma alguma nos resignamos a isso. E assim nasceram as religiões. Que todas elas nos prometem, nos garantem, nos juram a existência do dia seguinte e o tornam mais ou menos aceitável

George Steiner perguntou-me

– Sabe porque é que os judeus não se matam?

esperou um bocadinho e como não disse nada respondeu ele por mim:

– Não podem suportar a ideia de não ler o jornal no dia seguinte
e fiquei a olhar para a sua cara lá em baixo

(ele é mais pequeno)

com um sorriso nos olhinhos agudos. Isto não é só verdade para os judeus, claro. Quem

(mesmo aqueles que, como eu, não lêem jornais)

suporta a ideia de não ler o jornal do dia seguinte? Não saber o que vai passar-se? Ficar sozinho num vazio absoluto? As pessoas têm a ideia que a morte é a solidão total num nada completo. E provavelmente é. Julgo que é. Mais: tenho a certeza que é, mas não somos capazes de conceber isso. Não aceitamos conceber isso. De forma alguma nos resignamos a isso. E assim nasceram as religiões. Que todas elas nos prometem, nos garantem, nos juram a existência do dia seguinte e o tornam mais ou menos aceitável. Se até há quem suba ao céu de corpo inteiro. Se até há, como Jesus garantiu ao ladrão, quem hoje mesmo estará connosco no Paraíso. No meu caso quando lá chegar encontro logo o senhor Barata, que faleceu há dias, é que nem ginjas. O senhor Barata a quem daqui a uns tempos vou dar um abraço

– Dê cá mais cinco, senhor Barata

 

e que costumava comer no mesmo restaurantezinho que eu. Era gordo, pequeno, com um eterno boné na cabeça, colocado numa exactidão de cápsula, de calções, com um saco de cabedal a cair-lhe do ombro esquerdo. Passava o almoço sem companhia, ou antes na companhia do telemóvel e do jornal, que lia todo até os anúncios

(com fotografia)

das vendedoras de carícias a preços em conta e nádegas atlânticas, oferecendo beijos na boca e

(passo a citar)

bum-buns gulosos, cujas dimensões me provocavam um certo receio de ser completamente devorado e ficar na companhia dos colegas da véspera. O senhor Barata tinha sido tipógrafo, mostrou-me logo à primeira o seu cartão de membro do Partido Comunista que, sei lá a razão, imaginava mais castos e afinal malandrecos, e um retrato dele em Maputo, fardado de soldado e com um cão da Polícia Militar pela trela, garantindo-me que, como eu, também havia passado por África a defender o Império, e decidiu tratar-me logo por tu. Respondi-lhe

– Você se quer falar comigo diz Sua Alteza

mas a sua solidão comoveu-me. Morava sozinho não percebi bem onde, cheirava a infelicidade que tresandava, adoecera tempos antes e a quimioterapia enfraquecia-o muito:

– Um cancro do pulmão, sabe?

como por acaso não sabia comovi-me mais. Apontou o boné

– Já me atingiu a cabeça

mostrou-me a papelada médica e eu lá tentava animá-lo o melhor que podia sobre os nossos pratos de peixe espada. Que eu percebesse não tinha mulher nem filhos, nunca lhe vi nenhum compincha e lá íamos falando nisto e naquilo sobre as nádegas do jornal onde às vezes me parecia que um Lenine a espreitar, embora não se sentisse com ânimo para frequentar o Partido nem as meninas. Comia no restaurantezinho, fazia os tratamentos e depois seguia para casa, tão solitário como um cacto no Pólo Norte. Não se queixava, ia aguentando com dignidade a sua cruz, caminhava na direção de uma noite secreta, sem queixas, sem azedume, sem tragédia, falando-me dos seus tempos de tipógrafo e do seu respeito pelos livros, até já lera um dos meus

(percebia-se logo que mentia)

ou um bocado de um dos meus, mas era tudo tão difícil agora. Disse-lhe que era tudo difícil desde o princípio e ele, em resposta, encheu-me dos seus tempos de África, onde ainda convertera dois ou três cabos ao marxismo-
-leninismo que continuava a apoiar sem reservas, embora crítico e lúcido. Gostou que eu também houvesse andado por esses lados, mas a possibilidade da morte levara-o a abandonar o ateísmo, com os rabos do jornal na ideia, que sempre ajudam, Alteza, pensa-se que não mas ajudam. Depois de uns dias sem aparecer no restaurantezinho perguntei por ele ao dono que me segredou

– O senhor Barata morreu

ou seja encontraram-no no chão, em casa, ainda vivo, e foi acabar ao hospital. Custa-me dar com outro freguês na sua mesa agora. Eu gostava do senhor Barata. Não pensem que não: gostava mesmo e tenho pena que não possa ver, no periódico, os rabos dos amanhãs que cantam. Escrevi isto num tom propositadamente ligeiro a fim de me impedir de secar a ramela de uma lágrima. Se eu tivesse um boné como o dele enfiava-o na cabeça numa exactidão de cápsula.

 

Crónica publicada na VISÃO 1288 de 9 de novembro

 

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publicado às 08:03

 

Rosa Montero venceu o Prémio Nacional das Letras Espanholas 2017, um galardão que o júri justificou com a longa trajetória novelística, jornalística e ensaística da escritora espanhola.

A escritora Rosa Montero venceu esta terça-feira o Prémio Nacional das Letras Espanholas 2017, no valor monetário de 40 mil euros, um galardão que o júri justificou com a longa trajetória novelística, jornalística e ensaística da escritora espanhola.

O júri do prémio destacou ainda que a trajetória da escritora madrilena demonstrou “brilhantes atitudes literárias” e enalteceu a “criação de um universo pessoal, cujo tema reflete seus compromissos vitais e existenciais, classificados como éticos e de esperança”, de acordo com o Ministério da Educação, Cultura e Desporto de Espanha, responsável pelo prémio.

Rosa Montero nasceu em Madrid em 1951, estudou jornalismo e psicologia e colaborou com grupos de teatro independentes, enquanto começava a publicar em vários meios de comunicação 1976, altura em que começou a trabalhar em exclusivo para o “El País”, tornando-se editora-chefe do suplemente de domingo em 1980 e 1981.

Em 1978, venceu o Prémio Manuel del Arco para entrevistas, em 1980, o Prémio Nacional de Jornalismo para reportagens e artigos literários e, em 2005, o Prémio da Associação da Imprensa de Madrid pela sua vida profissional.

Entre os seus romances contam-se “A filha do canibal” (Prémio Primavera de Novela em 1997), “A louca da casa” (2003), que lhe valeu os prémios “Qué Leer” 2004 para o melhor livro do ano, Grinzane Cavour para o melhor livro estrangeiro publicado na Itália em 2005, e Roman Primeur 2006, em França.

É ainda autora de “História do rei transparente” (2005), vencedor do prémio ‘Qué Leer’ 2005 para o melhor livro do ano e o ‘Mandarache Prize’ 2007.

O seu trabalho está traduzido para mais de 20 línguas.

 

Autor
  • Agência Lusa

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publicado às 23:15


#2667 - Sergio Ramírez vence Prémio Cervantes 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

O escritor nicaraguense Sergio Ramírez é o vencedor do Prémio Cervantes 2017, o mais importante Prémio Literário da literatura em língua espanhola.

Sergio Ramírez venceu em 1998 com o livro "Margarita, está lindo o mar" o Prémio Alfaguara do romance, livro publicado em Portugal pela Difel.

Tem, também, outro livro ("Tiveste medo do Sangue?") publicado em 1989 pela Editorial Caminho.
O Prémio Cervantes foi criado pelo Ministério da Cultura de Espanha em 1975 com o objectivo de reconhecer a carreira de um escritor que, através do seu trabalho, contribuiu para enriquecer o legado literário hispânico.

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publicado às 22:38


#2658 - Prémio Goncourt 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.11.17

O Prémio Goncourt 2017 foi atribuído ao escritor francês Eric Vuillard com o livro "L'Ordre du Jour".

O Prémio Goncourt é o mais importante prémio literário francófono.

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publicado às 21:26


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