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#823 -Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09



EPOPEIAS DE LUZ

I


Queria um poema de epopeia

e luz,

escrito às duas da tarde

e num café

o espelho à minha esquerda,

o café amarelo  (que é  cor de que não gosto,

mas que brilha

na tarde adolescente)


Se eu não tivesse olhar

mas só ouvido atento a pequenos ruídos,

como uma voz e coisas indistintas:

o café a sair para lá do balcão,

uma cadeira de ferro

pintado

a arrastar-se de súbito...


Incongruências de quem tem olhar:

que no poema de epopeia

e luz

eu fale do que é táctil, mas se vê

(Ah! linha que seduz,

mas que contenho!)


Atirar a palavra pelo chão

com o abandono todo

da adolescência em tarde,

tantas horas de sol à minha frente

Deixá-la navegar como se fosse gente

quinhentista:

ao longo do desejo

e para lá


À minha esquerda,  o espelho

que a reflicta

a multiplique em sons e em sentidos,

lhe evite idade adulta

e a guarde finalmente:

adolescente e nua

como a tarde


Até que dela nasça,

navegando,

poema de epopeia sem o ser,

mas corpo todo em luz e boa-esperança:

como um Adamastor,

uma criança

uma sereia abandonada

e livre


II


Mas o Adamastor era uma rocha

e as sereias não há (que as provas: mais)

Minha pobre palavra que traí:


Antes tê-la deixado

contida nessa linha a seduzir,

antes tê-la guardada no centro

do olhar,

não lhe permitir ver espelhos de sol,

não lhe falar de adolescência

e luz, navegações e sonhos

quinhentistas


Que depois a conquista,

o coração pesado de ambições,

tortura de poderes


Minha pobre palavra

que se julgou, por minha culpa,

grande,

e que às duas da tarde e num café

se confundiu no espelho,

tomou por ouro o amarelo em cor,

e se perdeu de amores

por réplicas de olhar


III


E porque não agora,

às quatro da manhã?

Assim eu do naufrágio a salvaria:

não tarde adolescente

mas madrugada rebentando águas,

o fim do sortilégio


Queria então hoje

(as vinte e quatro horas

quase lé

e o remorso ausente do pensar):

um poema que fosse de epopeia

e luz

mas desta vez na cama

e devagar


Deixá-la resvalar

pelos lençóis e,

como o tempo é indeciso e nu,

ela sem perigo de se comover


Ela sem perigo

de se seduzir

no que seduz em réplica

de tudo


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publicado às 16:03


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