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#2989 - DE ANTEMÃO ||| POEMA DE HERBERTO HELDER

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.04.19

DE ANTEMÃO

 

Tocaram-me na cabeça om um dedo terrificamente

doce, Sopraram-me,

Eu era límpido pela boca dentro: límpido

engolfamento,

O sorvo do coração a cara

devorada,

O sangue nos lençóis tremia aida:

Metia medo,

Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:

ou uma braçada de perfume

tão agudo

que entrasse pela carne: se fizesse unânime

na carne

como um clarão,

Um anel vivo num dedo que vai morrer:

tocando ainda

a cabeça o rítmico pavor

do nome,

O leite circulava dentro delas,

É assim que as mães se alumiam

e trazem para si o espaço todo

como

se dançassem,

São em si mesmas uma lenta

matéria ordenada, Ou uma

crispação: uma ressaca,

E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:

eu já tinha uma ferida

um nome,

E o meu nome mantinha as coisas do mundo

todas

levantadas

Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas

o sangue, Como as estrelas duplas

duplamente

se dão força,

E fique assim - astro grande estanque

cosido em sangue: e a luz

obturada,

E então no seu pneuma luminoso:

um astro cheio, Coração: astéria: carne

de olaria pulsando, O espasmo

da mão às vezes

se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,

Ou se retira ao braço o movimento

pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira

o rasgão do ar

na dança,

Assim a estrela com dois membros

cravados recebendo

o tremor do mundo, E toda essa

massa peristáltica esmaga

a argila táctil: um pequeno músculo

convulso no fundo de água:

um troço de sangue nas costas, Que lhe passes

pelas roupas e nudez

as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro

um incêndio:

e te ilumines dele, E a tua cara se faça

miraculada

à combustão, E entres rutilante por uma porta

para outra porta, Essa porta que dê

para uma porta de ti própria,

A mão ateando a escrita que se desloca

brilha direita,

Toca-te toda: tocas no chão

através dela, A terra

treme

quando lhe tocas, Tudo

se transmite e trannsforma,

A gangrena é uma força,  Tu és a raiz dele,

Estás dentro

da luz de fora,  Como o choque

sísmico

da estrela

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "POESIA TODA" EDIÇÃO 406, MARÇO DE 1996, ASSÍRIO & ALVIM

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publicado às 22:39


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