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#3140 - REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR ||| Poema de Daniel Filipe

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.20

REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR

 

Antoninho morreu. Seu corpo resignado

é como um rio incolor, regressando à nascente

num silêncio de espanto e mistério revelado.

Está ali - estando ausente.

 

Jaz de corpo inteiro e fato preto,

Ele, da cabeça aos pés,

trivial e completo,

estátua de proa e moço de convés.

 

Jaz como se dormisse (pelo menos

é o que dizem as velhas carpideiras).

Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.

Jaz morto de todas as maneiras.

 

Jaz morto de cansaço,  de pobreza,  de fome

(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.

É apenas, sobre um papel azul, um nome.

De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

 

Jaz alheio a tudo à sua volta,

à grita dos parentes, companheiros,

como um cavalo à rédea solta

ou no mar largo, os rápidos veleiros.

 

Jaz inútil, feio, pesado,

a colcha de crochet aconchega-o na cama.

Nunca esteve tão quente e animado.

Nunca foi tão menino de mama.

 

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:

padre, enterro, velório, certidão

de óbito... E discutem, com manhas de raposas,

os parcos bens e a possível divisão.

 

Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,

Antoninho jaz morto. Definitivamente.

Os parentes e amigos falam dele no passado.

A viúva serve copos de aguardente.

 

Poema de Daniel Filipe, in "Pátria, Lugar de Exílio, 1963"

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publicado às 18:51


#1916 - Poema na tabacaria

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.03.15

discurso sobre a cidade.jpg

 

Pois, senhores, falo-vos hoje da Maria de Lourdes, empregada de tabacaria e poeta. Tem vinte anos, olhos negros e tristes, vive num quarto sem janela e é orfã de pai e mãe. Não me perguntem como foi que adivinhei o segredo escondido: acreditem, apenas.

 

Há no mundo muita coisa inexplicada: guerras, fortuna, jogo, jeito para o negócio, navios da carreira de África. Matéria-prima para sonhos passados aos direitos. Aventura. Milagre.

A Maria de Lourdes tem vinte anos. (E isso que importa?). A Maria de Lourdes é poeta. (Melhor fora que tivesse voz e cantasse em programas radiofónicos). A Maria de Lourdes é triste. A Maria de Lourdes é feliz. (Será?).

 

Todos os dias, chega um navio ao porto. (É o teu, Maria?). Todos os dias se embarca para a América.(E tu, Maria, e tu, Maria?). Todos os dias se vendem maços de tabaco, bilhetes de cinema, consciências. (Cautela, Maria; cautela, Maria...):

 

Bom dia, Maria. Boa noite, Maria. Boa tarde, Maria, triste e feliz, que fazes versos a pedir desculpa. E se o milagre acontecesse? Olha o Menino, a descer pela corda frágil de um raiozinho de lua!

 

Beija-lhe os pés, Maria. O céu é para todos.

 

Esta madrugada olhei a estrela-d'alva e lembrei-me de ti, Maria. De ti, rapariguinha triste, poeta, empregada de tabacaria. Há quem diga que a Terra é redonda. Mentira, Maria - ou pelo menos não o é, se não houver sentido para o amor iconsequente.

 

E o cansaço nos ombros, Maria? E  a saudade sem nome? E Paris, cada vez mais distante? E o teu vestido azul, primaveril? E os fantasmas com passaporte para as Ilhas, acções desvalorizadas, compromissos de emprego e de família?

 

Não há nada a fazer, minha filha. (D. Quixote casou com Dulcineia que era, ao que me dizem, um óptimo partido). Das nove às sete, com intervalo para almoço, escrever poemas na Praça da República: para quê, Maria, para quê?

 

Adeus, Maria

 

Crónica de Daniel Filipe in "Discurso sobre a cidade" editado pela Editorial Presença em Setembro de 1977.

 

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publicado às 15:29


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